quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Da raposa, das uvas e do humano

A propósito da precisão de ter uma impressão de si genuína...

É o ser humano que é assim como à raposa da estória...

Ao perceber que as uvas estão muito altas a raposa convence-se de que estão verdes, o que, por sua vez, alivia a tensão, pois a pressão para as alcançar desaparece. Ou seja, desistir das uvas tem um efeito parecido ao que teria chegar às uvas, visto que descomprime a vontade da raposa. É certo que o efeito não é exactamente o mesmo, pois, afinal, não conseguiu gozar do prazer de saborear as uvas. Mas, por outro lado, ao direccionar a sua atenção para fitos mais à-mão, a raposa abriu todo um novo horizonte de possibilidades: é certo que não chegará a saborear as uvas, mas, em compensação, poderá saborear muitos outros frutos rasteiros que imediatamente lhe surgirão pela frente aliciando-a a curvar-se, a curvar-se cada vez mais até que acabará, certamente, a comer batatas e outras iguarias subterrâneas.

Assim é o humano, nas palavras de Kierkegaard: "os homens têm uma maior impressão das vacas do que de si mesmos".

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Estado de Banalidade - em Kierkegaard

A propósito da noção de numérico, segundo Kierkegaard

O "numérico" refere-se ao indivíduo que se deixa reger, e deixa guiar-se na sua vida, por determinações universais. Por exemplo, pela "comunidade", pelo "Estado", pela "espécie".Quando o indivíduo assume para si o regime «numérico» da existência torna-se uma simples cópia do universal: a identidade da cópia define-se pela sua pertença ao universal. O indivíduo é compreendido e compreende-se a si mesmo a partir de determinações universais: pai, filho, médico, cristão, etc. O ponto é que, de cada vez, o sujeito interpreta-se a partir de um universal, quer seja sempre o mesmo, quer existam vários a configurar o seu ponto de vista. Assim, há um conjunto de regras, preceitos, objectivos, etc., previamente determinados, dentro de um certo horizonte de possibilidades, dentro das quais o sujeito escolhe e actua, como se a cada vez a decisão fosse sua, mas, na verdade, está entregue a projectos que não são dele, que lhe são oferecidos de fora.

O sujeito vê-se a si mesmo ora como pai, ora como filho, ora como marido, ora como aluno, ora como médico, ora como cidadão. De cada vez há um conjunto de competências, um perfil do qual deve ser a repetição segundo um conjunto de actividades, um plano, certas acções, comportamentos, etc. No limite, o sujeito "numérico" é um conjunto de camadas, desempenha sempre um ou outro papel - deve ser sensato, ou racional, ou feliz, etc., etc., etc. -, mas não há qualquer profundidade nelas. Se as camadas forem retiradas nada resta, não há indivíduo, não há subjectividade: apenas uma abstracção, um nada que pode ser tudo, que pode adaptar-se a qualquer coisa, assumir qualquer função, singrar no mundo e, sem espinha dorsal, tornar-se o mais bem-sucedido homem de negócios de uma nação, de um país, de um regime, qualquer que ele seja.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Desespero e infinito

A propósito do desespero finito.


A estrutura formal do desespero inconsciente em Kierkegaard é: que o eu, em desespero pelo infinito, desespera sobre algo finito. Entretanto, a inconsciência do desespero em que se encontra pode ser de tal modo que nem mesmo se dá conta de que desespera no finito. Mas o ponto é: quando o fenómeno atinge certa intensidade, o sujeito dará, com certeza, por ele, contudo, faltam-lhe as categorias adequadas para posicionar correctamente o fenómeno: aponta para o finito e diz-se desesperado, e, sendo certo que está em desespero, o desespero em que se encontra não é aquilo a que chama estar desesperado.
Quando o desespero surge na sua categoria, o sujeito dá-se conta de estar no desespero e dá-se conta de si no desespero, de tal modo que percebe que a sua condição é a do desespero - que já e sempre está no desespero, ainda que só agora tenha percebido isso mesmo. O que surge, então, é uma forma de consciência do eu infinito, mas na forma negativa: como não sendo aquilo que desde sempre está destinado a ser - ainda que não faça a mínima ideia do que isso seja. Pois o que assim se evidencia para o sujeito é o seu estado de não-cumprimento de si enquanto estado originário, como condição.

O desespero da nossa época

A propósito da nossa época

A nossa época existe apenas no desejo, no preenchimento do desejo e no regresso ao momento do desejo. Que época tão empreendedora a nossa, porque nunca se pode parar, porque o que conta é sempre o que vem a seguir. O que importa é que se tenha um ponto para o qual se queira ir. Que se tenha algo para desejar, porque parar é morrer. A nossa época vive disto, da incessante remissão como uma carta indefinidamente reenviada, sempre em trânsito, sempre endereçada a algo de outro. Como uma carta que nunca chega, que não pode chegar, porque se houvesse um momento em que esta época não tivesse mais nada para desejar, em que por um infeliz acaso tivesse adquirido tudo aquilo que deseja, em que estivesse perfeitamente satisfeita, simplesmente morreria. Esfumar-se-ia no vazio que ela mesma é, porque ela não é nada, pois é apenas no desejo, na fruição e no regresso ao momento do desejo.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O macaco que há em cada um de nós

A propósito de macaqueação

Teixeira de Pascoaes, Defeitos da Alma Pátria:
«Sempre que o homem hesita na sua humanidade, aparece o macaco»

Kierkegaard, Querer ser o primeiro:
«tu sentes a falta de algo que se te adiante, não é verdade que tu sentes falta do «rebanho»?, isto é: tu queres ser animal. […], pois tu não queres arriscar; quando, nomeadamente, apenas se percebe ter outros adiante de si, quanto mais melhor, tanto menos se arrisca, ou mais correctamente: no fim de contas não se arrisca de todo, ou mais correctamente ainda: faz-se precisamente o contrário de arriscar. […] cobardes-chico-espertices dos homens, que preferem a macaqueação e a bestialidade»


A ideia parece ser a mesma: que o espírito simiesco - o espírito de imitação em nós - nos persegue para onde vamos, e que sempre que hesitamos, sempre que não somos capazes de estar à altura do que faria de nós humanos, daquilo que seria exigido para sermos indivíduos, para termos um carácter, para formarmos uma personalidade, o macaco em nós toma a condução dos destinos da nossa vida nas suas mãos.

O macaco em nós parece designar, simultaneamente:
- o espírito "imitativo" ou "simiesco" - a tendência do indivíduo para imitar, para seguir a manada, para integrar a massa, para ser rebanho;
- o animalesco, a preponderância das determinações da espécie na vida do indivíduo - e, por isso, também a tendência para ser número, espécime, simples cópia da espécie.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

A cristandade, em Kierkegaard

A propósito da noção de "cristandade" (como "paganismo" mascarado de cristianismo) em Kierkegaard


É conhecida a tese de que "se Deus não existe, a vida não tem sentido". Por vezes, para rebater esta tese, diz-se que mesmo que houvesse uma vida depois da morte, de perfeita felicidade, não seria legítimo medir a vida no mundo por esse critério. É certo. Mas a tese de que o sentido da vida terrena depende da existência de Deus não depende da tese da vida depois da morte. Isto é evidente quando se sabe que havia seitas judaicas que não acreditavam na vida depois da morte. Aliás, no Novo Testamento, Jesus é questionado, precisamente, pelos Saduceus, os quais tentaram levar Jesus a cair em contradição ao admitir a imortalidade da alma.
É perfeitamente possível não acreditar na imortalidade da alma e, ainda assim, manter a tese de que o sentido da vida depende da existência de Deus, ou que Deus é a fonte do sentido da vida.
Muitas vezes, quando os (filósofos) ateus se referem ao mundo judaico-cristão tomam este apenas pelas suas versões mainstream (seja na versão mainstream popular, seja na versão mainstream teológico-filosófica).
O mundo judaico-cristão também tem correntes que não acreditam na imortalidade da alma. Na verdade, o que está em causa em Deus como fonte do sentido não é o facto de Deus fornecer um prémio, ou uma recompensa. Deus funciona como fonte de sentido por ser Deus, por haver um Deus a dar sentido a uma determinada forma de vida - independentemente de dela decorrer uma recompensa ou não. 

Claro que a mentalidade actual, completamente embrenhada na "utilidade", só consegue conceber o judaico-cristianismo sob o prisma da utilidade que esta vida teria para obter outra vida depois. Para Kierkegaard, esta era a forma da cristandade: um paganismo; fazer-se cristão para obter uma recompensa, como qualquer pagão. Para Kierkegaard, esta forma de paganismo - a cristandade - não chegava, sequer, ao estádio ético, pois neste vigoraria a injunção "faz o bem, ainda que não haja recompensa".

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A narrativa da felicidade

A propósito da felicidade


Que a concepção da felicidade como finalidade da existência é um paradigma historicamente datado, circunstanciado e, por isso, historicamente condicionado - é difícil de perceber. 

Para o comum dos mortais, a felicidade é «analiticamente» o fim de todas as suas acções e a finalidade da própria vida. Um sujeito não só toma como evidente que a felicidade é o fim de todas as suas acções – e, daqui, por passos de mágica, conclui que também "deve" sê-lo – como também não se apercebe que há uma tese aqui: tudo se passa como se a felicidade fosse «analiticamente» a medida do homem. Portanto, também não se apercebe de que há outras teses possíveis – outras teses de que, na maioria das vezes, não faz a mínima ideia. Pois, que outra coisa se poderia querer senão a felicidade? Na maioria das vezes, esta mesma pergunta permanece surda, mesmo que alguém a formule, porque o sujeito não consegue pensar em nada que se queira que não seja por mor da felicidade. 

É um caso de completa "sistemática elisão das possibilidades alternativas" (Mário Jorge de Carvalho)... o sujeito está embalado numa compreensão que está cega para as alternativas!

domingo, 3 de setembro de 2017

Narrativa da Felicidade, o mito de Aristóteles

A propósito da felicidade.


Para Nietzsche, a própria ideia de que a felicidade é algo que se deseja e que constitui a finalidade da nossa existência é uma marca da decadência de uma cultura.

Para Kierkegaard, a busca pela felicidade é, na verdade, uma forma de desespero.

Para Kant, a busca da felicidade faz-nos esquecer a dignidade - o fim autêntico da vida humana.

Três autores muito diferentes entre si, mas que concordam em discordar da narrativa da felicidade que se impôs no ocidente desde Aristóteles.


«A felicidade como fim último da vida individual. Aristóteles e todos os outros!» Nietzsche, Fragmento póstumo, 7 [210]

Afecto e exibição nas redes sociais

A propósito da intimidade nas redes sociais.


A intimidade é tanto exibição quanto afecto.
Para um casal, mostrar proximidade significa apresentar uma narrativa de felicidade ao mundo. O casal sente necessidade de constantemente validar a sua intimidade, afirmar a própria existência.
A melhor expressão desta intimidade é a selfie.
É certo que sempre foi assim, mas hoje vive-se com mais intensidade a dimensão da exposição, da exibição, porque os meios para isso estão mais presentes na nossa vida e têm mais poder de exposição do que nunca. Quanto mais poder de exposição se tem, maior é a necessidade interior de exibir a intimidade para assegurar a sua existência.
A coisa está tão exacerbada que, se por um passe de mágica o facebook acabasse amanhã, provavelmente teríamos o maior boom de rompimentos e divórcios da história... 



sábado, 2 de setembro de 2017

A experiência como acontecimento anónimo de si

A propósito de experiência de vida...

A experiência de vida é um dos bois de ouro do nosso século. As pessoas acreditam que a experiência lhes ensina coisas, e não só isso, acreditam que a própria experiência é conhecimento. Acreditam até que a experiência é um bom critério para decidir como hão-de levar a vida e deixam-se guiar, assim, pelas experiências da vida. As pessoas depositam a sua confiança na experiência e julgam que ela é inabalável - a não ser, claro está, por outras experiências que venham a refutar a primeira... As pessoas pensam que aprendem com os acontecimentos e que vão formando, progressivamente, uma sabedoria de vida assim acumulada.

Basicamente, a experiência corresponde ao rosto da vida tal como é anonimamente oferecido ao sujeito. A experiência de vida é algo que já está inscrito na vida natural - quer dizer, um sujeito não tem de fazer nada para a adquirir: basta que se deixe estar na vida que ela há-de providenciar experiências. Depois, claro, depende daquilo que a vida trouxer, pois será nisso que se adquire experiência.

Mas, no essencial, quando as pessoas invocam a "experiência de vida" como testemunha e como prova, isso só mostra uma coisa: que as pessoas deixam que a sua vida seja conduzida anonimamente... E este é só mais um exemplo.


Sugestões

A propósito de leituras

1. De Sara de Oliveira, a tese O sentido do espírito no humano: Estudo sobre a determinação antropológica na obra de Kierkegaard
Tese muito bem conseguida. Oficialmente sobre a noção de espírito, em Kierkegaard, a tese vai, na verdade, muito para além disso. Ou melhor, o esclarecimento cabal do que está implicado na noção de espírito implica o esclarecimento de muitas outras noções - como é evidente - e esta tese consegue um extraordinário entrelaçamento de temas e conceitos que faz dela, provavelmente, o melhor trabalho de investigação sobre Kierkegaard que eu alguma vez li.


2. De Marisa Moura, o livro O que é que os portugueses têm na cabeça?
Livro ligeiro muito bom. Uma crítica capaz, não superficial, abrangente e com rigor. Apesar das fontes usadas serem, em grande parte, do âmbito da imprensa, e não, propriamente, académicas, o resultado global é uma obra sólida e ampla sobre a mentalidade, o espírito e o perfil dos portugueses, não só na actualidade, mas também na sua formação ao longo dos séculos - e milénios.




quinta-feira, 24 de agosto de 2017

O ensopado de Lobo Mau

A propósito das estórias de antigamente

A versão dos três porquinhos anterior à da Disney é muito diferente. Nessa versão mais antiga os dois porquinhos mais preguiçosos, o da casa de palha e o da casa de madeira, não sobrevivem, pois, após lhes haver destruído as casas, o lobo faminto come-os. Depois de comer os dois primeiros porquinhos, o Lobo Mau, ainda com fome, tenta invadir a casa de cimento do terceiro porquinho entrando pela chaminé. Mas o porquinho já o esperava com uma grande panela de água a ferver na fogueira. O lobo, escorregando pela chaminé, não tem como escapar, cai dentro da panela e acaba cozido. Então, o último dos porquinhos come o lobo à refeição. Nesta versão mais antiga, o Lobo Mau vira comida e o porquinho mais esforçado e prático dos três irmãos não deixa desperdiçar uma boa carne.

A Capuchinho Vermelho

A propósito das estórias de antigamente


Regra geral, as versões dos Grimm são bem mais sangrentas e cruas do que as versões actuais insossas e sem espírito. Mas a história da Capuchinho Vermelho contada pelos Grimm já é uma versão muito "politicamente correcta" da mesma. Nas versões mais antigas não havia lenhador. Na verdade, a Capuchinho Vermelho nem sequer usava um capuchinho vermelho... O Lobo Mau matava a avó, não a engolia ainda viva. Mais: o Lobo, depois de matar a avó, tirava-lhe o sangue para uma jarra e cortava-a às fatias. Quando a Capuchinho chegava, o Lobo dava-lhe o sangue e a carne da avó a comer, como se de vinho e carne vulgar se tratasse. Depois desse episódio canibalesco, o Lobo pedia à Capuchinho que se deitasse nua com ele. As perguntas eram bem diferentes, nada de "porque tens olhos tão grandes?"... À medida que a Capuchinho se despia, ia perguntando o que fazer com a peça de roupa despida e o Lobo mandava que a jogasse na fogueira. Além disso, a Capuchinho apenas observava que a avó era bastante "peluda", com "ombros largos", em tiradas com suposto teor sexual, até que, finalmente, notava os "grandes dentes" da avó. Depois desta última observação, com a Capuchinho já nua, o Lobo comia-a e pronto. Não havia lenhador - tópico acrescentado pelos Grimm - para salvar ninguém. A história acabava mesmo assim com a avó comida e bebida pela neta, e a neta comida pelo Lobo, uma verdadeira lição de vida sem lenhadores míticos ou salvamentos mágicos.

Estado de Graça

A propósito de Estado de Graça

Nos tempos idos da Santa Inquisição, quando os monges do Santo Ofício chegavam a uma terra reuniam com a população na igreja da vila. Durante um mês os pecadores eram convidados a admitirem as suas faltas passíveis de configurar heresia. Quem se confessasse durante esse período livrava-se, pois encontrava-se em estado de graça, sendo habitualmente perdoado sem consequências de maior. Essa benevolência não se verificaria findo o estado de graça podendo os réus ser condenados, inclusivamente, à morte na fogueira depois de períodos de tortura.

O ónus da prova

A propósito de Presunção de Inocência


Durante séculos os tribunais presumiam a culpa dos réus. O problema desses tribunais "inquisitivos" é que abrem a porta a que os inocentes sejam condenados por não terem forma de provar a sua inocência. Num tribunal que presume a culpa não se aplica a noção de que "se fores inocente não tens nada que temer". Eram assim os tribunais do Santo Ofício, mas também os tribunais seculares até há bem pouco tempo. É fácil verificar os excessos a que esses tribunais eram levados quando podemos tomar em consideração casos como o das bruxas de Salem. Por isso, é certo que a presunção de inocência permite que alguns criminosos não sejam condenados quando a culpa não pode ser provada. Mas, de qualquer modo, a presunção da culpa é, claramente, mais perniciosa, porque, por princípio e definição, permite que os inocentes sejam condenados sempre que não forem capazes de provar a própria inocência.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Kant - antropologia moral

A propósito de Felicidade e Dever

O respeito pelo outro e tal são, precisamente, limites... é a definição de ética. Como Kant dizia, a felicidade é o fim último subjectivo e o dever é a condição formal de todos os fins... Ou seja, ao contrário do que diz Aristóteles, a felicidade não é o fim último em si mesmo, porque se fosse, então tudo aquilo que faríamos teria a obtenção de felicidade como critério. No entanto, nós somos capazes de identificar situações em que aquilo que me traria felicidade não deve ser feito.

Kant acreditava que o humano estava cindido ente dois desejos: o de felicidade, e o de dignidade. O problema, segundo ele, é que aquele que objectivamente é superior (porque lhe reconhecemos validade universal, pelo menos, se Kant está certo), é simultaneamente aquele que é subjectivamente mais fraco (porque o móbil da felicidade - as diversas paixões - é mais forte do que o móbil da dignidade - o sentimento de dever)... Daqui resulta que para que uma pessoa viva eticamente tenha de, primeiro, conseguir intervir na sua própria constituição subjectiva, formando um carácter (a capacidade de se fixar em máximas)... Isto, evidentemente, é aquilo que ninguém se lembra de fazer, porque como se sabe a vida externa ocupa-nos demasiado tempo, de modo que só quando estamos para morrer nos lembramos que poderíamos ter sido melhores pessoas.

Os revolucionários de sofá

A propósito daqueles que são revolucionários enquanto palitam os dentes

Há quem critique Maduro por ser demasiado democrata e pacífico, pedindo mais violência, mais acção da parte do Estado, achando que o melhor seria Maduro começar a "despachar" todos os que se lhe opõem! Acho perfeitamente normal que um sujeito pense assim, mas se o pensa e debita enquanto está sentado no sofá, a palitar os dentes, a gozar das férias, já me parece estranho.

É que um sujeito tem a tendência a ser tão mais revolucionário quanto o possa ser enquanto palita os dentes! Há uma deslocação reflexiva completa: o sujeito vive a sua vida real pacatamente no meio do consumismo, tem o seu ordenado, a sua carreira, uma família, um sofá - e, simultaneamente, pede no facebook que o Maduro estripe os que se opõem à revolução, exige sangue e tece extraordinárias reflexões como só com acção se faz revolução - sendo que o excelente sujeito que, provavelmente, não levantou o cu do sofá o dia inteiro, entende que acção é sinónimo de violência, que só aquele que, pelo menos, matou alguém realmente age.

Até percebo a coisa, mas só acrescentaria uma coisa: que o excelente revolucionário deixe o seu sofá e rume à revolução. Enquanto estiver a palitar os dentes no sofá que se remeta ao silêncio, porque falar e escrever no facebook é apenas uma forma de aliviar a tensão e não fazer nada.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O Admirável Mundo Novo que a Eugenia nos reserva

A propósito de eugenia e felicidade

Imagine-se a seguinte sociedade.
Esta sociedade faz uso da tecnologia que lhe permite editar o ADN com facilidade e acuidade.
Assim, todos os indivíduos são editados para nascerem com determinadas inclinações, tendências e propensões.
Esta sociedade gere perfeitamente as suas necessidades, quer a mão-de-obra, quer a de recursos. Assim, tem bem determinadas as suas necessidades.
Antes de nascer cada indivíduo é alocado a uma função, a uma posição, a um local social, conforme as necessidades previamente identificadas.
Antes de nascer cada indivíduo é editado para querer fazer exactamente aquilo a que foi alocado, de tal modo que a função que lhe foi atribuída corresponda à sua maior paixão e àquilo que lhe proporciona realização pessoal.
Isto é assim com qualquer função, mesmo se um indivíduo acumula diversas funções (por exemplo, funcionário de uma repartição e pai de família).
Nesta sociedade, nunca ninguém está insatisfeito com aquilo que lhe caiu no lote, pois foi programado para querer fazer exactamente isso.
Suspenda-se - para efeitos de problematização - a questão de saber se tudo isto seria efectivamente possível do ponto de vista técnico, ou se haveria sempre alguma falha, alguma necessidade a mais. Suponha-se que tudo quanto se disse era de facto cumprido.
Há algum problema com esta sociedade? Qual?

O humano e os três porquinhos

A propósito de casas


O ser humano é assim como os porquinhos da história! Porque aquilo que o humano quer é estar a salvo do lobo. É por isso - só por isso - que o humano quer uma casa solidamente construída sobre fundamentos seguros, com paredes robustas e telhados resistentes.

Mas o ser humano - que precisa sempre de ter uma casa - quer construir a própria casa gastando o mínimo possível, cansando-se ainda menos e, sobretudo, sem se preocupar muito com o assunto, porque se há coisa que o aborrece é preocupar-se. É por isso - e só por isso - que constrói uma barraca de feno.

Conclusão: o porquinho quer estar a salvo do lobo. Mas é uma questão dialéctica perceber até que ponto ele quer de facto uma casa sólida ou uma casa de feno. É certo que ele julga querer uma casa de feno, fácil e cómoda. Mas também é certo que aquilo que ele quer acima de tudo é estar acoitado quando o lobo vier!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Senso-comum e bom senso

A propósito da diferença entre senso-comum e bom senso


Há várias definições que se aplicam a estes dois termos, sobretudo, se recorrermos aos filósofos.
Em geral, eu diria que o "senso-comum" se caracteriza pelo recurso a conhecimentos em vigor numa dada comunidade. É uma forma de conhecimento que tem como critério a colectividade e que se caracteriza pela incorporação: é um saber viver que os indivíduos apropriam e que se torna natural neles. Por isso, torna-se espontâneo no homem formado (adulto).

Aparentemente, o "bom senso" não pertence ao âmbito do conhecimento - ao contrário do senso-comum, mas ao âmbito dos sentidos/sentimentos. Ou, mais correctamente, é uma forma de julgar - como o juízo de gosto, ou o juízo moral, parece haver também o bom senso, um modo de sentir a situação, de discernir e julgar particulares. Ter bom senso não é saber algo, mas julgar de determinada maneira. Parece, no entanto, que tem alguma coisa que ver com o senso comum, porque aquilo a que se chama bom senso é, habitualmente, reconhecível como tal quando o juízo de alguém é reconhecido como "razoável", "bom", "adequado" numa determinada situação pelos elementos de um grupo ou colectividade (por isso, aquilo que é bom senso aqui pode não o ser na China, ou na Arábia, como qualquer pessoa que já tenha passado por esses países poderá dizer)... Ou seja, o senso comum parece ser uma espécie de saber adquirido, nomeadamente, um conjunto de normas e de critérios vigentes numa comunidade, enquanto o bom senso parece ser a boa aplicação dessas regras, dessas normas, desses critérios. Por isso o bom senso não pode ser, propriamente, ensinado, pois não há regra para a aplicação de regras. Assim, a mera detenção de senso-comum não habilita, imediatamente, um sujeito a julgar com bom senso - daí que tendamos a distingui-los e, até mesmo, a considerá-los muito diferentes. Mas, no fim de contas, são duas faces da mesma moeda - embora possa acontecer que se tenha uma sem a outra.

Do conflito entre a discriminação positiva e meritocracia

A propósito de justiça e educação


Parece-me que o critério do historial do aluno, nomeadamente, das suas notas, deve ser progressivamente dominante na atribuição de vantagens ou determinação de preferências. Isto porque o sistema de ensino deve incentivar os bons alunos e que os alunos se tornem bons alunos. A igualdade no acesso não deve ser confundida com a desvalorização do esforço dos alunos. É só perfeitamente natural que os alunos que mais se esforçam sejam recompensados; tal como é natural que aqueles que têm menos capacidades sejam ajudados a suprir essas dificuldades. As duas dimensões têm de ser consideradas para evitar desequilíbrios que jamais poderão conduzir à justiça.
Mas acho extraordinário que se ache normal que um encarregado de educação displicente e um aluno absolutamente indiferente aos estudos fiquem chocados com o facto de o bom desempenho ser um factor a ter em conta... Já agora, convém relembrar que a escolaridade também serve para preparar os alunos para um dia se integrarem no sistema em que terão de apresentar resultados e mostrar competência, e onde eles mesmos vão querer ser avaliados pelas suas competências e pelos resultados do seu esforço - pois, como eles próprios irão verificar, sempre que o seu esforço não for reconhecido, sempre que trabalharem para apresentar resultados e, depois, alguém seja preferido por ter nascido assim ou assado, sentir-se-ão altamente injustiçados. Ora, se as pessoas sempre querem ver os seus esforços recompensados, por que razão têm tanta dificuldade em aceitar que sejam prejudicados por não terem resultados a apresentar? Se o sujeito que se esforça, trabalha, estuda e tem boas notas deve ser recompensado, isso tem de implicar sempre uma vantagem. E se a ausência de resultados não releva realmente de falta de esforço, mas de menores capacidades, então o Estado também tem de oferecer recursos para suprir essas dificuldades e, no limite, recorrer à discriminação positiva: mas note-se, só e apenas se a ausência de resultados se dever, de facto, a um deficit de capacidades ou a incapacidades reconhecíveis, e não ao mero "deixa andar que a escola também não serve para nada" que tantas vezes já ouvi - que estou farto de ouvir - e que não deve, de modo algum, ser incentivado.

domingo, 16 de julho de 2017

O sujeito e o espelho

A propósito da noção de síntese em Kierkegaard

Deus fez o homem à sua imagem. Quem é o espelho? É o homem, o homem é o espelho. Então, quando procura Deus, o homem encontra tudo aquilo que lhe possa passar pela frente. É por isso que é perfeitamente natural que o homem confunda o deus que procura com o dinheiro que encontra e, em conformidade, receba a forma disso que reflecte. O homem que ama o dinheiro tem uma identidade definida pelo dinheiro. Assim, a expressão "amar-se a si mesmo" só pode ser esclarecida mediante um acrescento que esclareça qual é a determinação que o define. Quer dizer, amar-se a si mesmo não diz nada, porque o significado disso depende da sua identidade, e a identidade do homem é definida a partir de uma instância. Assim, aquele que ama o dinheiro é ainda a si que ele ama. E aquele que se ama a si mesmo pode amar-se a si mesmo no dinheiro se é neste que deposita a sua identidade. É natural, portanto, que uma pessoa obcecada por si mesma só dê importância ao dinheiro. E é perfeitamente natural que quem só pensa em dinheiro seja alguém obcecado por si mesmo. O mais feroz egocentrismo reflecte-se sempre numa fixação a algo, e a mais feroz fixação a algo reflecte sempre a força do eu.

Sobre o direito à velhice

A propósito da 3ª idade como um direito

Não é só a criança que deve ver reconhecido o direito a ter uma infância. Também os velhos devem ver reconhecido o direito a ter uma velhice digna. E não, isto não tem sido garantido.




A idade de reforma, na Europa, vai ficando cada vez mais na dependência da esperança média de vida e da sustentabilidade da segurança social. De modo que, se continuarmos a morrer cada vez mais tarde, o sistema vai garantindo que a reforma nos chegará, também, cada vez mais tarde - até porque o aumento da esperança média de vida, além de ser um dos factores contabilizados, também influencia directamente o outro factor, visto que exerce pressão sobre a sustentabilidade do sistema.

O problema não é que as pessoas de 65 anos estejam doentes e velhas, mas sim a ideia de que a vida de uma pessoa é para ser gasta no trabalho e que, por isso, até estar transformada num velho adoentado e incapacitado, tem de continuar a trabalhar.

Penso que seria mais interessante perceber que as pessoas têm direito a ter uma "velhice" útil para elas mesmas, para viajarem, para lerem, para estudarem, para pensarem - para tudo aquilo que não puderam fazer enquanto tiveram de ser úteis ao mercado de consumíveis. Tal como os infantes foram ganhando o direito à infância, também os velhos precisam de ganhar o direito à velhice, a uma velhice saudável e em plena actividade. Não é só o doente inactivo que merece a reforma. E já nem vou falar do direito a gozar do sistema para o qual contribuiu ao longo da vida.

A ideia de que o idoso activo e saudável deve continuar o seu trabalho, de que é por se manter activo no trabalho que permanece "vivo", deve ser abjurada como uma mentira. Não quero ser mal entendido: se quer continuar a ser activo trabalhando, se é assim que se define, se é assim que imagina que a vida deve continuar, o idoso deve ser livre de o fazer. Mas dever-lhe-ia ser dito que isso não tem de ser assim, que ele pode permanecer "vivo", "activo", "saudável" vivendo activamente para si, mas as coisas que ele realmente quer fazer. Deve ser-lhe dito que, se é verdade que "parar é morrer", também é verdade que pode "não parar" sem que isso tenha de significar ter de continuar a trabalhar.

Deve ser dito aos idosos que têm o direito a ser activos fora do mercado de trabalho. A gozar a sua velhice antes que, por força da natureza ou da doença, se lhes torne impossível fazê-lo.

sábado, 15 de julho de 2017

Texto e interpretação

A propósito da ilusão de que se pode tornar um texto mais preciso falando mais.



Qualquer texto pode receber sentidos diferentes entre si.

Exemplos:

Executive Order 12333, EUA, de Ronald Reagan:
No person employed by or acting on behalf of the United States Government shall engage in, or conspire to engage in, assassination.
O texto parece o mais claro e límpido do mundo. No entanto, ainda hoje se discute o que significa exactamente esta "assassination".

O mandamento da Tora 
Não matarás.
parece a coisa mais evidente do mundo. Duas palavras. E, no entanto, ainda hoje se discute o que significam, exactamente, este "não" e este "matarás".


O sentido não é analítico face ao texto. Cada texto admite sempre várias hipóteses interpretativas. De modo que a maior ilusão é a de que se pode reduzir esta "abertura" do texto dizendo mais coisas, empregando mais palavras, "esclarecendo" isto e aquilo, tornando mais "preciso" o conteúdo, pois quando maior for o texto e mais palavras contiver, mais fontes de confusão são criadas. A segunda maior ilusão é a de que, por intermédio de uma análise mais cuidada se pode chegar mais perto de um sentido supostamente "presente" no texto.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Do Relativismo Moral e das estratégias para o vencer - apontamentos sumários

A propósito da dificuldade que há para vencer o relativismo moral...


A tese de que há limites, ou de que há uma moralidade mínima transversal parece bastante fácil de aceitar, mas as coisas complicam-se assim que queremos começar a concretizar onde se situam tais limites. Na verdade, não parece haver nenhuma determinação moral que todas as culturas, todos os povos, muito menos todas as pessoas estejam dispostas a aceitar. Nenhuma mesmo. Então, parece sempre que aquele que estipula certos limites o faz a partir da sua própria cultura e mesmo a partir da sua própria sensibilidade, a qual também depende, em larga medida, de aspectos culturais. Por isso, quando dizemos, por exemplo, que o multiculturalismo não pode permitir o "horror", ou o "terror" - bem, aquilo que vale como horror ou terror parece depender de quem julga. Por outro lado, a perspectiva dita "científica" sugere a identificação entre "norma cultural ou social" e "norma moral". Ou melhor, do ponto de vista científico, as normas morais parecem não ser mais do que normas culturais - que, portanto, só surgiram porque se desencadearam determinadas condições históricas que as produziram, tal como qualquer outra norma social. Ou seja, do ponto de vista científico, a norma moral "não matarás" não parece ter um estatuto diferente da norma social "as mulheres não devem andar com os seios descobertos em público". Um desenvolvimento histórico diferente teria produzido uma norma social diferente, como acontece com os povos para quem é perfeitamente natural que as mulheres não cubram os seios. Deste ponto de vista, não parece haver nenhuma razão objectiva para considerar que uma norma moral seja mais válida do que outra, tal como não há nenhuma razão objectiva para considerar que uma norma social seja mais válida do que outra: as razões parecem ser sempre relativas, nunca objectivas, de modo que eu poderia escolher as normas morais mais úteis, mais convenientes, etc., tal como posso escolher vestir-me como me for mais útil tendo em conta se vai chover ou não.
Houve várias tentativas de resolver o assunto. Kant é, de facto, o mais conhecido - mas não conseguiu demonstrar que a razão seja capaz de produzir uma ética concreta que escape à arbitrariedade (como Hegel, Schpenhauer e até Lacan mostraram, para nomear apenas alguns, pois a teoria da Kant exerce uma atracção enorme sobre toda a gente que, não tendo mais que fazer, ocupa-se a atacar um qualquer aspecto dela). 
Mas houve outras tentativas. Fitche, por exemplo, pegou numa outra parte da filosofia de Kant e aplicou-a à moralidade. O juízo moral tal como Kant o apresentava era "determinante", e o juízo estético era "reflectinte". Ou seja: para julgar se uma acção é boa ou má, eu preciso de uma regra e para ter tais regras preciso de um princípio, portanto, o juízo moral tem uma forma determinante: há sempre um universal que determina um particular, é a regra "não deves roubar" que determina a acção de roubar como errada. Com o juízo estético isto não acontece: eu olho para um quadro e sei logo se ele é belo ou feio (se me aparece como belo, ou se me aparece como feio). Não preciso de saber nenhuma regra. Pelo contrário, é o particular que me dá o universal: olho para uma rapariga e vejo imediatamente que ela é bela. Fichte foi o primeiro a aplicar o juízo reflectinte à ética, o que significa, basicamente, que o juízo moral se aplica a particulares sem precisar de normas (e, assim, sem precisar das normas externas fornecidas pela comunidade). Arendt tentou, mais tarde, esta mesma estratégia.
Mas há outras estratégias, como a de Hegel, a qual também foi imensamente influente na nossa história. Para Hegel, é o Estado - e as instituições - que podem fixar uma eticidade concreta. Para Hegel, a Lei tinha uma consciência e o tribunal era a consciência privilegiada, à qual todas as demais teriam de obedecer em caso de conflito. Claro que Hegel não chegou a ver o que o Nazismo fez da Lei.
Seja como for, a ideia é conseguir identificar um ponto fixo que permita produzir determinações de ordem moral sem cair na arbitrariedade. Houve muitos filósofos que simplesmente desistiram disto. Alguns destes entregaram a moral à sensibilidade, como fez Hume ainda antes de Kant começar a fixação da moral. Alguns fenomenólogos seguiram vias semelhantes fazendo da moralidade uma instância da afectividade. De qualquer modo, este tipo de soluções não oferece qualquer ponto fixo. Pelo contrário, desistem e até condenam a tentativa de fixar a moralidade. E estes filósofos são, muitas vezes, muito bem recebidos, porque nem sempre nestas discussões as pessoas têm presente a extrema arbitrariedade da sensibilidade ou da afectividade. Mas bastará ter presente que um fenomenólogo que defenda a afectividade como fundamento da moralidade não terá qualquer argumento para condenar um psicopata que tenha um apetite imenso por matar outros seres humanos, ou para condenar a acção da progenitora que, não encontrando em si qualquer vestígio de instinto ou sentimento maternal, apenas sente repulsa pelo seu filho recém nascido e, por isso, o joga na sanita mais próxima.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Suspender os direitos humanos é revogá-los

A propósito da posição de Theresa May relativamente aos Direitos Humanos


"Eu sou clara: se as leis dos direitos humanos se metem no caminho do combate ao extremismo e ao terrorismo, nós iremos mudar essas leis para manter o povo britânico seguro."
"I'm clear: if human rights laws get in the way of tackling extremism and terrorism, we will change those laws to keep British people safe."
Theresa May

A noção aqui implicada é perigosa, muito perigosa. A noção em causa é a de que se os Direitos Humanos atrapalham o combate ao terrorismo e ao extremismo, então vamos mudar os Direitos Humanos. Ou seja, na prática significa que se os Direitos Humanos atrapalham uma determinada agenda política, então tem-se legitimidade para suspender ou alterar tais direitos humanos.
A cumprir-se esta ameaça acontecem eo ipso duas coisas:

1. Abre-se um precedente muito perigoso, e este precedente é o de permitir alterar os Direitos Humanos - ou aquilo em que eles se corporizam na prática - para cumprir uma determinada agenda. Nunca se sabe quem resolverá seguir este exemplo e alterar os Direitos Humanos para, com isso, seguir a sua própria agenda. Quem sabe que agenda poderá levar Donald Trump, ou uma Le Pen na presidência francesa, a alterar os Direitos Humanos. Isto só para dar dois exemplos, mas a realidade pode ser muito mais eloquente e imaginativa, como já o provou no passado. A própria noção de que existem Direitos Humanos foi desenhada para evitar e impedir aventuras deste tipo.

2. Os Terroristas terão aqui a sua primeira vitória efectiva ao levarem o Ocidente a abdicar dos seus princípios definidores. Com isto os terroristas mostrarão na prática a hipocrisia do Ocidente que tantas vezes usou os Direitos Humanos como desculpa para atacar e declarar guerra contra os seus inimigos. O Ocidente, ao entrar por esta via, entra pela via dos próprios terroristas. A via do "tudo vale", do "não há limites". E isto é a instalação do terror na política, porque só ilusoriamente esta medida pode levar a uma sociedade livre de medo e de terror. Pelo contrário, introduzirá mais medo, mais terror, porque os cidadãos perdem a garantia de que alguns dos seus direitos são inalienáveis da sua condição humana.

Gostava de dizer que os britânicos penalizaram May por esta ousadia tão pouco democrática. Mas não estou certo de que esta "mentalidade" já não esteja a fazer escola no Ocidente. Contudo, é muito perigosa a ideia, que anda de mãos dadas com a que discuti acima, de que a certas pessoas podem retirar-se os seus Direitos Humanos, pois a própria noção de Direitos Humanos, mais uma vez, foi desenhada, justamente, contra a ideia de que certos indivíduos não têm direitos. Os Direitos Humanos só fazem sentido enquanto tal na medida em que sejam universais (isto é, precisamente, a razão pela qual lhe chamamos "Humanos") e inalienáveis.

Ora, significa isto que os Direitos Humanos não podem ser alterados, como se correspondessem a leis divinas escritas por Deus na pedra da História? De modo nenhum. Os Direitos Humanos podem e devem ser mudados, alterados, etc., pois, como se sabe, foram os Direitos Humanos que foram feitos para os homens, e não os homens para os Direitos Humanos. Mas estas alterações e mudanças, a ocorrerem, devem ser fruto de uma ponderação racional sobre o que significa ser humano e sobre os direitos que devem ser inalienáveis da condição de humano. Estas alterações nunca devem decorrer de um pensamento do tipo: "agora dava jeito que...", ou "isto atrapalha os nossos interesses". Porque, no momento em que se fizer tal, está-se a criar, de mão-beijada, as condições para um novo Holocausto.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Antes fosses ou frio ou quente

A propósito da indiferença...


Um dos momentos em que, na Bíblia, se condena a indiferença.

«Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Antes fosses ou frio ou quente. Assim, porque és morno, e nem quente nem frio, estou quase a vomitar-te da minha boca.»
João, Revelação 3:15-16
Οἶδά σου τὰ ἔργα, ὅτι οὔτε ψυχρὸς εἶ οὔτε ζεστός. ὄφελον ψυχρὸς ἦς ἢ ζεστός. οὕτως, ὅτι χλιαρὸς εἶ, καὶ οὔτε ζεστὸς οὔτε ψυχρός, μέλλω σε ἐμέσαι ἐκ τοῦ στόματός μου.
Note-se que o texto - posto na boca de Jesus pelo autor do chamado Apocalipse - parece dizer que é preferível errar do que permanecer a salvo não tomando posição. Outros textos dos evangelhos parecem confirmar esta posição de Jesus.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Vida ou morte

A propósito de perspectivas


1. O traço distintivo da verdade é: "a verdade mata".
2. A primeira das verdades da existência é: "tu és o ponto a partir do qual tudo existe ou não existe para ti".
3. A outra é: "tu nada és, sejas tu quem fores ou venhas alguma vez a ser".
4. Portanto: "tu és tudo quanto tens e tudo quanto tens é nada".
5. Tu és aquilo com o qual e sem o qual a verdade permanece tal e qual, a saber: que "quer existas, quer não existas, nada és e nada vens a ser".


Citações:
"Dormir é bom, a morte é melhor; mas, é claro, o melhor de tudo seria nunca ter chegado sequer a nascer". Heinrich Heine
"O melhor de tudo para ti é-te completamente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Porém, o segundo melhor para ti é morrer o mais brevemente possível". Nietzsche
"Um rumor percorre desde há muito a boca dos homens: que não ter nascido é o melhor de tudo e que estar morto é melhor do que viver". Aristóteles

Existência e verdade

A propósito de verdades




Uma das verdades da existência é: "tu és o ponto a partir do qual tudo existe ou não existe para ti".
A outra verdade é: "tu nada és, sejas tu quem fores ou venhas alguma vez a ser".
Depois há pessoas para quem uma destas verdades é mais evidente, e pessoas para quem a outra verdade é mais evidente. Há pessoas para quem só uma delas vem ao de cima. E, finalmente, há pessoas que têm de lidar com ambas.
Cada uma destas fórmulas só é catastrófica quando uma pessoa a descobre tendo permanecido até aí sob o império da outra.
Seja como for, tudo o que se possa dizer da existência pode ser resumido numa das duas fórmulas ou numa mistura de ambas. Se não puder ser resumido a nenhuma das duas, é uma mentira ou uma ilusão.

A verdade mata.
Aquilo que não mata, não é verdade.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Odiar o próprio pai e a própria mãe

A propósito de Lucas 14:26

Jesus não está a pedir-nos que odiemos tudo e todos e a nós mesmos. Mas o que também é errado é presumirmos que a palavra de Jesus deve ser, ou deve adequar-se, àquilo que à partida queremos que nos seja dito. Jesus - como, aliás, outros na história da humanidade - teve essa característica que é a de não encaixar as bitolas habituais. E é sempre uma absurdidade pretender-se fazê-lo caber nos nossos padrões habituais, nos nossos preconceitos, nos nossos juízos ao sabor do senso-comum. Se alguém pretende procurar os ensinamentos de Jesus não deve fazê-lo impondo-lhe a condição de que Jesus só possa dizer aquilo com que à partida concordará. Jesus não lhe dirá sempre o que espera ouvir, não lhe dirá sempre o que quer ouvir. Aliás - se for honesto e não deturpar as suas palavras - verificará que, na maior parte das vezes, Jesus lhe dirá o que não espera ouvir, lhe dirá o que não quer ouvir. Porque já a Abraão não foi pedido que amasse o seu filho acima de todas as coisas, e Jesus também não nos pede que sejamos amigos dos nossos amigos. A Abraão foi pedido que matasse o seu filho, e Jesus pediu-nos que amassemos os nossos inimigos.
Quando Sócrates disse que "vale mais sofrer uma injustiça do que cometê-la", todos o julgaram louco. Quando Jesus disse que "devemos amar aos nossos inimigos", julgaram-no louco. Porque os homens sempre se querem colocar na posição de medida de todas as coisas, mas na maioria das vezes nem sequer sabem qual é a sua própria medida.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A difícil relação entre felicidade e ética

A propósito de felicidade


Como todos os homens estão de acordo em quererem ser felizes, ainda que um o consiga por um caminho e outro por outro, parece que só há um objectivo que todos se esforçam por atingir, e esse é a felicidade. Assim, também estariam de acordo em querer ser felizes, seja qual for o caminho que leve à felicidade, e escolherão o caminho que mais rápida e seguramente os faça experimentar a alegria a que chamam vida feliz.


O problema que se põe é que, se nada mais houver a dizer, então não há espaço para a ética na vida humana, porque nenhuma razão há para escolher ou preterir senão a dita felicidade, e seja qual for o caminho que leve à dita, esse deve ser escolhido sem reservas. Assim, se um sujeito é feliz pelo caminho X, e outro pelo Y, nenhuma consideração ética desvaloriza um ou outro, e tão legítimo é enganar, roubar ou matar para ser feliz, como é legítima qualquer outra actividade conforme ao temperamento e à inclinação de cada um.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

O esteta face ao ético

A propósito da superioridade do estado ético face ao estético

Por vezes, tende-se a pensar que a relação entre o estádio ético e o estético em Kierkegaard é uma relação de superioridade cognitiva. Aliás, é comum que um comentador que começou por afastar esta hipótese, depois, quando tem de descrever a superioridade do ético face ao estético, recorra a categorias do âmbito cognitivo...

Mas Kierkegaard aponta claramente para o inverso: é possível que um ponto de vista estético seja, do ponto de vista cognitivo, racional, etc., claramente superior a um ponto de vista ético. No Ou/Ou, o esteta é, claramente, o ponto de vista mais compreensivo, com a perspectiva mais abrangente, mais acurada, mais lúcida e o ponto de vista ético, o de B, na segunda parte, não introduz nenhum ganho de conhecimento, não produz nenhum alargamento cognitivo... B reconhece que A lhe é intelectualmente superior e reconhece a acurácia da sua perspectiva. De facto, B afirma compreender a visão de A e concordar com ela, admitindo que está correcta.

Se é certo que Kierkegaard atribui ao estádio ético uma superioridade que o estético, seja qual for a sua forma, não pode receber - então essa superioridade não pode ter que ver com qualquer conhecimento que o esteta tenha de adquirir para isso.

Os comentadores de Kierkegaard - quando reconhecem este ponto - parecem debater-se com isto de forma algo curiosa, porque como não conseguem encontrar mais nada acabam por recorrer a atributos cognitivos que, supostamente, o ético "compreende melhor", ou afirmam que B "vê algo que A não percebe", etc.
E isto é, em si mesmo, extremamente risível!

Uma forma de vida

A propósito do "salto"




Kierkegaard insiste que a existência tem a forma de salto e, por isso mesmo, de aposta. Claro que o sujeito procura que a vida tenha a forma de troca. O homem gostaria de poder escolher como quem troca isto por aquilo, tal como se faz quando se vai ao hiper-mercado. 

Gostaríamos de saber que quando abdicamos de Y tendo em vista X, há alguma espécie de garantia celestial. Assim, o homem prudente apenas aceita ir em busca de X se puder suportar a sua escolha em alguma forma de garantia. Mas Kierkegaard insiste: a vida não tem a forma de "troca", mas sim a forma de "aposta". Por mais que se tente, a forma da vida será sempre a de aposta e nunca a de uma troca, precisamente pela razão de que se pode sempre acabar na bancarrota total. 

Este reconhecimento de Kierkegaard estraga as contas de quem vá procurar nele um pensador cristão pronto a oferecer uma visão da vida garantida por alguma espécie de consórcio de seguradoras ou por um bombeiro universal!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Kierkegaard, o "salto" e a angústia

A propósito da noção de "salto".


A noção de "salto", em Kierkegaard, refere-se, em primeiro lugar, à situação em que o sujeito, por sua conta e risco, tem de escolher a ideia pela qual há-de viver e morrer.


O salto é sempre um momento de absoluto desamparo, se se trata, efectivamente, de uma decisão, de uma escolha efectiva, se não é um mero seguimento de algo dado por pressuposto, porque se não é um seguimento de algo simplesmente dado por pressuposto, então requer do sujeito uma decisão radical, que seja capaz de fundar, de ser fundamento - caso contrário, fica-se apenas aí, no desamparo absoluto.

Por isso mesmo, a decisão é ocasião de angústia, e a decisão autêntica não pode deixar de ser, antes de mais nada, o momento da angústia mais profunda.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Não há forma de fundamentar a Moral

A propósito de fundamentação da Moral...


Nietzsche e Kierkegaard em relação à fundamentação ética.
A questão de fundo, ao nível da fundamentação ética, não é apenas a formulação de um princípio (seja o imperativo categórico, seja a utilidade, seja a felicidade, etc.), mas sim a questão de "porquê ser moral?".
Nietzsche e Kierkegaard concordam: a este nível, não há resposta. Ou melhor, a resposta a esta questão depende de uma "crença moral".

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O mundo laico e os seus rituais

A propósito de rituais


Os rituais servem para esconder a vacuidade.

Quanto mais o mundo perde sentido, mais precisa de rituais.
O ritual é como o paliativo existencial: na ausência de algo que cubra o vazio vai-se em procissão sobre o abismo.

Por isso mesmo, o mundo laico e laicizante não erradica os rituais, mas multiplica-os em etiquetas, protocolos e cerimónias!


A maior força do capitalismo não está nos seus ideais, nos seus objectivos, na finalidade que oferece ou nos sentidos que abre, mas sim nos seus rituais e no poder destes para ocultarem o vazio de tudo isso.

Sem lei não há transgressão

A propósito de um trecho altamente sobre-determinado, denso, complexo e perfeitamente filosófico da Epístola aos Romanos, de São Paulo, 7:7-8:


Que diremos, então? É a lei pecado [ἁμαρτία]? De modo nenhum. Mas eu não teria como saber o que é pecado, se não através da lei, nem sequer teria conhecido a cobiça [ἐπιθυμία], se a lei não tivesse dito: não cobiçarás!
Mas o pecado, tomando ocasião através do mandamento produziu em mim toda a cobiça. De facto, sem a lei, o pecado está morto.


*ἁμαρτία: falta, falhanço; erro, erro de julgamento; falta ou erro imputável ao agente; em textos religiosos, significa habitualmente "pecado", na medida em que esta noção tem um alcance especificamente religioso (não apenas jurídico, embora envolva a violação de uma lei, não apenas moral, embora envolva a noção de imoral).

*ἐπιθυμία: desejo forte; cobiça exacerbada de algo; pode significar um desejo poderoso em geral, mas frequentemente refere-se à lascívia (desejo sexual exacerbado) em particular; em Aristóteles, o termo não significa apenas "desejo", pois implica força ou poder que dificulta ou obstaculiza a capacidade do sujeito para lhe resistir; nos textos filosóficos e religiosos em geral, habitualmente, não significa apenas a existência de um desejo forte, mas também a noção de imputabilidade ou culpa.




Texto grego:
Τί οὖν ἐροῦμεν; ὁ νόμος ἁμαρτία; μὴ γένοιτο· ἀλλὰ τὴν ἁμαρτίαν οὐκ ἔγνων εἰ μὴ διὰ νόμου, τήν τε γὰρ ἐπιθυμίαν οὐκ ᾔδειν εἰ μὴ ὁ νόμος ἔλεγεν Οὐκ ἐπιθυμήσεις·
ἀφορμὴν δὲ λαβοῦσα ἡ ἁμαρτία διὰ τῆς ἐντολῆς κατειργάσατο ἐν ἐμοὶ πᾶσαν ἐπιθυμίαν, χωρὶς γὰρ νόμου ἁμαρτία νεκρά.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Querer de segunda ordem ou Vontade

A propósito de "querer".

Bem, o problema interessa-me bastante. Como se sabe, trata-se do problema da akrasia, o qual vem de longe, já recebeu diversas interpretações e sofreu diversas tentativas de o resolver. Eu chamaria a atenção para apenas três pontos.

1. Há, em primeiro lugar, o problema de saber o que se quer dizer por "querer". Por um lado, podemos dizer que o sujeito quer ir cedo para a cama, mas também quer, de facto, ficar a ver televisão. Aparentemente, no momento de agir, ficar a ver televisão no sofá é mais forte. Nesta acepção, querer designa uma tensão, algo que exerce uma pressão sobre o sujeito. Acontece, porém, que parece haver no sujeito várias tensões e uma delas acaba por dominar e ter eficácia. Ora, parece haver outro sentido no termo querer como nós habitualmente o usamos. Se alguém apontasse uma arma ao sujeito e lhe dissesse que ou ia para a cama ou levava um tiro, talvez ele se levantasse e fosse para a cama. Teria a tentação de dizer que fez o que queria sob coacção externa, o que seria uma situação curiosa. Normalmente, as coacções externas servem para nos obrigar a fazer coisas que não queremos. Por exemplo, alguém poderia apontar uma arma ao sujeito para que ele lhe desse todo o seu dinheiro - coisa que ele não queria fazer, mas de facto acabaria por fazer sob coacção externa. Vê-se aqui a confusão imensa que o termo "querer" suscita. De algum modo, poderíamos dizer que se o sujeito deu o dinheiro sob ameaça foi porque o "quis", ou seja, porque "preferiu" dar o dinheiro a levar um tiro. Em certo sentido, mesmo sob coacção, o sujeito faz o que quer, pois faz aquilo que prefere tendo em conta a alternativa (levar um tiro).
Ora, neste primeiro sentido, nós fazemos sempre o que queremos. Podemos imaginar que as coisas ficassem neste nível. De facto, podemos admitir que seja assim com a generalidade dos animais. O leão quer comer, então come, ou, pelo menos, esforça-se por isso. Depois de comer quer descansar e descansa. Aparentemente, o leão não é capaz de entrar em conflito consigo mesmo, a vida não tem enigmas para ele, sabe sempre o que "quer", etc. Aqui surge um segundo sentido de querer. Um sentido, inclusivamente, que admite que um sujeito diga que "não sabe o que quer". Evidentemente, isso não significa que o sujeito não saiba que tem fome, ou que tem este ou aquele desejo. Simplesmente, pode ser que um sujeito não saiba o valor, ou o sentido, que deve atribuir a cada tensão que encontra em si mesmo. Na verdade, o sujeito pode até não reconhecer qualquer valor, nem qualquer sentido nas tensões que imediatamente reconhece em si. E pode, por exemplo, recusar seguir essas tensões imediatas, pode entregar-se ao celibato - ou esforçar-se para isso - pode fazer greve de fome. O sujeito tem fome, mas pode querer não comer. Há aqui um querer que entra em conflito com o primeiro querer, por assim dizer. E, neste sentido, o sujeito pode ter, ou não ter, força suficiente para levar este segundo querer à execução prática: o sujeito pode ser suficientemente forte para fazer greve de fome, suportar a tortura, ou pode ser fraco e não ser capaz de resistir perante a comida, perante o doce, perante a beleza de uma mulher, etc. É neste sentido que Frankfurt se refere, justamente, ao "querer de segunda ordem," ou seja, à vontade.

2. Há, portanto, uma questão no querer que não se esgota na força de executar uma dada tensão. Se o querer se esgotasse nessa noção, o sujeito faria sempre o que quer. Por isso, mesmo, o "querer" parece querer dizer mais do que simplesmente ter um desejo. Ou seja, a noção de querer não se esgota na noção de "querer imediato", de "primeira ordem", como lhe chama Frankfurt, ou de "inclinação", como lhe chama a tradição. Este querer de segunda ordem envolve, também, a reflexão: a possibilidade de proferir juízos sobre o próprio querer de primeira ordem. De tal modo é assim, que um sujeito pode "querer" deixar de beber, de fumar, de trair, de ficar a vegetar no sofá, de ficar acordado até tarde - ainda que essas tensões sejam mais fortes, tão mais fortes que são elas que, efectivamente, têm eficácia causal. O segundo querer designa, portanto, em primeiro lugar, não a "força", mas sim a reflexão, a razão, a racionalidade, um processo de justificação, uma validação ou autenticação que o sujeito opera. Assim, o sujeito reconhece que "deve" ir para a cama (porque algo nisto inclui um justificação, uma razão para a exclusão da alternativa). O sujeito tem consciência que ir dormir tem do seu lado razões que justificam a rejeição da alternativa. Normalmente, é a este segundo querer que nós chamamos querer, ou seja, nós identificamo-nos com este querer, e tudo aquilo que se lhe opõe dizemos ser diferente de nós, seja por coacção externa, seja ao nível da força das tensões imediatas. Por isso, o sujeito diz que, apesar de ficar a ver televisão, "não o quero fazer", embora seja verdade que "não consigo deixar de o fazer". Nietzsche, por exemplo, chegou a pôr em questão esta identificação. Ou seja, levantou a questão de saber o que permite que eu me identifique com o querer de segunda ordem quando há um outro de primeira ordem que é eficiente - pois, se é eficiente, isso significa que corresponde, precisamente, àquilo que eu sou. E aqui surge outro aspecto: que este querer de segunda ordem parece designar, não aquilo que o sujeito é, mas aquele que ele quer vir a ser. O sujeito reconhece que é preguiçoso, mas quer não o ser. Perante este conflito, o sujeito pode adoptar diversas atitudes, nomeadamente, recusar o querer de segunda ordem como demasiado exigente, utópico, ou inútil. Pode, também, aproximá-lo do querer de primeira ordem até coincidirem. Um pouco como a raposa que ao perceber que as uvas estão muito altas diz que estão verdes.
3. O decisivo parece ser que atribuir ao querer de segunda ordem (consciente, reflexivo, intencional, racional) força suficiente para se sobrepor aos de primeira ordem - imediatos - que, eventualmente, se lhe oponham: à preguiça que me faz ficar no sofá, ao desejo de ver televisão, etc. Como fazer que o reconhecimento de que a saúde é mais importante se torne efectivamente eficiente sobre os meus desejos imediatos de comer doces, ficar a vegetar no sofá, de fumar, etc.? Esta é a questão, desde que, evidentemente, o sujeito mantenha o querer de segunda ordem. O ponto é que o querer de segunda ordem se torne um querer de primeira ordem - isto é, que seja "incorporado pelo sujeito". Ou seja, que o querer de segunda ordem não seja apenas um querer vazio, uma intenção meramente ideal, um propósito sem força, mas que tenha "força causal", por assim dizer. Isto, a acontecer, corresponde a um "acto de querer", na medida em que o sujeito agiu sobre si mesmo.
 
Portanto: é possível fazer algo que não quero fazer porque aquilo que eu quero, aquilo que reconheço como meu querer, não é apenas algo que desejo, mas também algo ao qual atribuo uma justificação, como melhor, como racionalmente preferível - numa palavra, como mais válido; e, por outro lado, é possível que aquilo a que, conscientemente, reconheço superioridade, prioridade, mais importância, não tenha, do ponto de vista daquilo que efectivamente me move, força suficiente.

Haveria que analisar outra questão: será que, no momento em que age, o sujeito diz para si mesmo que quer ir para a cama ao mesmo tempo que fica no sofá? Ou será que, nesse momento, o sujeito racionaliza, justifica (por exemplo, dizendo "é só mais um pouco", "afinal este programa até vale a pena", etc.) o "ficar no sofá" e que é só, mais tarde, quando acaba por ir para a cama, ou no dia seguinte, que se recrimina? Será que o sujeito que pede a sobremesa quando havia jurado fazer dieta, no momento em quer pede a sobremesa, formula a decisão e o juízo de que não deve pedir a sobremesa? Mais tarde, o sujeito diz que fez o que não queria. Será que no momento em que o fez também tinha presente esse juízo? Mas esta é uma questão diferente.

O humano como medida, ou da medida do humano

A propósito de medida


O problema não é que o homem seja a medida de todas as coisas, porque poderia sê-lo e isso corresponder a um padrão estável, não arbitrário e claramente determinado. Se usarmos todos o "metro" para medir distâncias, não há instabilidade, nem incerteza na medição. O homem poderia ser um padrão de medida deste tipo. O problema, portanto, não que que o homem seja a medida de todas as coisas - mas sim que todas as coisas possam ser adoptadas pelo homem como medida. É aqui que reside o caos, a cacofonia, a desorientação e a arbitrariedade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Deve o luxo ser proibido?

A propósito da questão «o luxo deve ser proibido?»


Não. Porque a Ética não deve ser confundida com o Direito. 
O facto de algo ser eticamente reprovável ou condenável não implica que deva ser proibido. A prazo, a ethocracia é tão perversa como a anarquia.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O mundo dos negócios é naturalmente nazi

A propósito da ética dos negócios...


As empresas e empresários agem à margem de qualquer preocupação moral. Para um empresário, "Angola é um país normal" desde que pague, mais ou menos a horas e cumpra os contratos, quer seja gerida por uma família corrupta, quer seja uma ditadura, quer viole os mais básicos direitos humanos das suas populações, etc.
Vemos empresários que se queixam de que este ou aquele paraíso para corruptos e tiranos não cumpra as regras de mercado ou os contratos como deveria. Não vemos empresários queixarem-se de que um determinado país mata as suas populações à fome, escraviza as mulheres, etc.
O mundo das empresas e dos empresários é sempre o mesmo, já o era no tempo de Hitler, quando este conseguiu ter do seu lado os grandes industriais, os grandes empresários, etc.
Por isso, acho muito bem que Angola não pague, que o Qatar não cumpra, etc. Aliás, acho que todos esses países estão no direito de não pagar e de não cumprir perante todos os empresários que, nas suas decisões, só têm em conta interesses económicos. A lógica é a mesma: o empresário não se importa de fazer negócio com um ditador que viola os direitos humanos a cada cinco minutos, e o ditador não se importa de não cumprir os seus compromissos. Portanto, só tenho pena que os ditadores e corruptos por esse mundo fora não sejam suficientemente corruptos e ditadores para com todos esses empresários que têm a consciência moral de um texugo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Posthuman: Human or Non-human?

A propósito de ser ou não ser - humano...


To know what makes us human is not an easy task. We tend to approach this question with unexamined presuppositions we are not in control of, but that have too great an influence over us for us to know about them. This hinders a direct approach. [...] But why do we need to know what we are? In life we are rarely called to think about that, however this does not seem to stop anyone from living and succeed. [...] In which sense – if any – do we know what makes us human?


https://www.researchgate.net/publication/313521213_Posthuman_Human_or_Non-human

domingo, 29 de janeiro de 2017

Pedras e troncos

A propósito de humanos

Um rei inglês dizia que o problema da Escócia era haver nela muitos escoceses.

Ora, o problema da humanidade é, do ponto de vista formal, justamente o oposto: é haver nela poucos humanos.

O Padre António Vieira dizia que havia homens-pedra, homens-tronco e homens-homem. E a humanidade está cheia de pedras e troncos.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Quem tem de mudar primeiro: a sociedade, ou o indivíduo?

A propósito de indivíduo e sociedade

O que é preciso é mudar o enquadramento. Para mudar o enquadramento requer-se a acção do indivíduo que, portanto, tem de mudar ele mesmo antes que possa mudar o que quer que seja. Mas para que o indivíduo se mude e adquira elevação da consciência é preciso que o enquadramento mude. Ora, o enquadramento, se ele muda, tem de ser em virtude da acção consciente do indivíduo. Mas para haver acção consciente do indivíduo, este tem de começar por mudar...

Humm... círculo vicioso, este. A subjectividade requer uma prestação da ordem externa, a ordem externa requer a prestação da subjectividade. Este é o facto. A interpretação disto depende. uns são fofos, outros são rudes. O que se sabe é que nada muda se tudo permanece o mesmo - but, then again, isto é, precisamente, a mesma tautologia...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Milagre ou Natureza?

A propósito de milagres?




Um tubarão fêmea reproduziu-se mesmo sem fertilização. Há espécies de animais que se reproduzem de forma assexuada - por exemplo, por clonagem. Mas este foi o primeiro caso registado de troca natural de tipo de reprodução (da sexuada para assexuada) entre os tubarões. E o terceiro registado entre todas as espécies de vertebrados.
Se não contabilizaram o caso da Virgem Maria, então já são quatro.

Ver artigo: http://www.nature.com/articles/srep40537

Como poderemos reconhecer um milagre?

O facto de ser extraordinário?

Só poderemos reconhecer o milagre a partir de um ponto de vista que coloca a possibilidade de haver milagres. Só podemos aceitar que algo é milagre se confiarmos que isso é um milagre.

Por mais extraordinário, ou por mais banal que seja um acontecimento, se olhamos para ele como milagre ou como fenómeno natural, depende do nosso ponto de vista.

A Virgem Maria poderia, de facto, ter dado à luz Jesus sem ter fertilização - como aconteceu com este tubarão fêmea.

Qualquer coisa que aconteça, mesmo que seja o mais extraordinário, posso sempre considerá-lo como natural. Mesmo se ainda não o sei explicar.

E qualquer coisa banal pode ser considerada um milagre, mesmo que haja muitas outras explicações para ele.

Medo e Perigo

A propósito de medo e perigo...


Estudos sobre psicopatas revelam que os psicopatas sentem medo, mas não reconhecem o perigo. Portanto, a estrutura do medo não está na dependência de objectos. Isto é interessante, porque é, justamente, o que Aristóteles dizia.
Segundo Aristóteles, o medo é independente da situação que o faz eclodir. Ou seja, um leão mete medo, mas mete medo porque há em nós uma estrutura que faz dele algo que mete medo. Mas, justamente porque é uma estrutura dada à partida no humano, independentemente, portanto, de qualquer que venha a ser o caso no mundo, pode acontecer que se tenha medo sem causa aparente. Quer dizer, é perfeitamente possível que eu tenha medo sem conseguir encontrar a causa dele - sem que haja um objecto concreto que mete medo. Como se sabe, este é o pior dos medos, o medo que não está limitado por um objecto pode crescer infinitamente, abocanhar o mundo inteiro e ainda lhe sobrar barriga para nos engolir a nós mesmos.
E a ciência - tantas vezes disposta a ridicularizar Aristóteles - descobre agora que o medo é uma coisa, e o perigo outra. Um sujeito pode ter medo sem que isso implique a identificação de um perigo. E, no caso dos psicopatas, não se encontra nada perigoso, de modo que tudo parece fácil. Um psicopata é capaz de fazer tudo, nada lhe mete medo, ultrapassa tudo, abdica de tudo pelo seu querer único, sacrifica tudo pelo seu amor.
Ao psicopata nada mete medo, por isso mesmo não precisa de coragem. Como Aristóteles dizia: ter coragem não é não ter medo, ter coragem é resistir ao perigo, sentir medo do que mete medo e resistir-lhe. Mas quando nada nos mete medo e o mundo está desprovido de perigos não precisamos de coragem para nada.
E, no entanto, até o psicopata sente medo.

Pessoas más podem ser bons profissionais e podem ser mais felizes do que as boas pessoas

A propósito de ilusões...

Uma má pessoa pode ser, simultaneamente, um excelente profissional.
Uma má pessoa pode ser, simultaneamente, feliz.

Uma má pessoa terá mais facilidade em percorrer o caminho que a levará a tornar-se num bom profissional.
Uma má pessoa encontrará menos dificuldades em alcançar aquilo que a fará feliz.

A ideia de que uma pessoa má nunca pode ser um bom profissional é como a ideia de que uma vida moralmente má nunca pode ser boa de viver, ou a de que uma má pessoa não pode ser feliz... ou seja, são uma perfeita parvoíce, uma mentira, uma ilusão perniciosa... Estas ideias contradizem a razão e a experiência, e só por um enorme desejo de auto-engano pode o senso-comum dizer tal coisa.

Sobre isso, ouçamos Frankfurt:
«It is possible, I am sorry to reveal, that immoral lives may be good to live. […] Unless a person cares about being moral, or about something that depends on being moral, being moral will not make his life better for him.» 
E, MUITO IMPORTANTE: «It will not be reasonable for him to do what he is morally obliged to so, or to care that his conduct fails to meet the requirements of the moral law.»


Aliás, o próprio Kant diz exactamente a mesma coisa, em vários sítios - a única diferença é que ele pensa que todos os seres humanos se preocupam com a moralidade. Basicamente, para Kant um psicopata não é humano. Mas já Kant assumia: um ser em que não houvesse móbil ético jamais poderia ter qualquer consciência moral - e, por isso, o mal moral não lhe causaria qualquer repulsa.
ERGO, um sujeito pode ser uma besta e ser feliz. Arendt vai ainda mais longe e afirma que só uma pessoa realmente má pode ser completamente feliz, porque a sua consciência não a incomodará.

Como é evidente, uma pessoa má, não só pode ser um bom profissional, como estará em melhor condições para ser um bom profissional, visto que não será distraído dos seus fins subjectivos pelos requisitos da lei moral.
Por isso mesmo, onde há mais psicopatas é entre os profissionais de topo e nas cadeias...

«Proportion of psychopath corporate executives 'similar to prison population'»

«Até 3,9% dos executivos de empresas podem ser psicopatas, [...]. Uma taxa de psicopatia 4 vezes maior do que na população em geral.»

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A morte e o melhor do humano

A propósito do bem do humano...

«ouve primeiro o que a sabedoria popular grega diz [...]: "Estirpe miserável e efémera, filhos do acaso e da fadiga, porque me obrigas a dizer-te o que para ti é mais proveitoso não ouvir? O melhor é para ti totalmente inatingível: não haver nascido, não ser, 'nada' ser. Mas a segunda coisa melhor para ti é morrer em breve"»
in Nietzsche, O Nascimento da Tragédia
Segundo esta "sabedoria antiga":
-1) o melhor de tudo é "não haver nascido";
-2) visto que nasceste, o melhor é, para ti, "morrer em breve";
-3) mas o melhor seria não saberes isto.
Portanto, há ironia aqui, pois a verdadeira ordem dos bens é:
1º: o melhor para um humano é não saber qual é verdadeiramente o melhor para o humano;
2º: uma vez que me obrigas a revelar qual é o melhor para o humano, o melhor seria não haveres nascido;
3º: uma vez que já estás aqui, o melhor para ti é morreres em breve.
Portanto, o melhor é sempre inatingível.
É inatingível antes de saberes o que é verdadeiramente o melhor porque, como não sabes o que é o melhor, afadigas-te para adquirir aquilo que é irrelevante.
É inatingível quando já sabes o que é o melhor, porque o melhor seria não o saberes.
O melhor é inatingível a partir do momento em que colocas a questão, visto que isso significa que já nasceste, e o melhor seria não teres nascido.
Portanto, de qualquer modo, tens de te contentar com sucedâneos.

Confrontar com...

«vê o rumor que desde há muito percorre a boca dos homens. ‘Qual?’, perguntou. E ele respondeu: ‘Que não ter nascido é o melhor de tudo e que estar morto é melhor do que viver.’»
Aristóteles, Fragmentos dos Diálogos e Obras Exortativas, p. 88

...

---perspectivas-sobre-a-morte---

A propósito de morte...




«Quíron retirou-se para a gruta e aí desejou morrer, mas não podia, porque era imortal»
Apolodoro

«o maior desespero é a desesperança de não poder morrer»
Kierkegaard



«As mais grandiosas mortes cabem aos mais grandiosos destinos»
Heráclito

«o melhor seria, de facto, nunca nascer e, caso tal acontecesse, morrer o quanto antes»
 Sófocles

Uma forma de vida - UMA só

A propósito de Sócrates...


Sócrates descobriu que nem todas as formas de vida que o humano pode assumir convêm ao humano: «uma vida não examinada não é merecedora de ser vivida por um humano» («ὁ δὲ ἀνεξέταστος βίος οὐ βιωτὸς ἀνθρώπῳ»).

E, na mesma penada, o maior bem do humano: «a cada dia produzir sentidos sobre a excelência» («ἑκάστης ἡμέρας περὶ ἀρετῆς τοὺς λόγους ποιεῖσθαι»).


Com isto, numa frase, abarcou a eternidade.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A vida, se há seriedade nela, é um aut-aut

A propósito de aut-aut




«o homem experimentado na vida mantém-se longe do "ou isto/ ou aquilo" abstracto e agarra-se ao concreto»
Hegel, Lesser Logic, 32; 8:98-99 - 80; 81:72

Segundo Kierkegaard, o que torna a vida concreta é o "ou isto/ ou aquilo" que a prende à inevitabilidade de ter de decidir.


E como poderíamos viver se não houvesse na vida um aut-aut???

Um artigo meu sobre o estádio religioso em Kierkegaard

A propósito de ESTÁDIO RELIGIOSO, em KIERKEGAARD



 "Da indiscernibilidade entre religioso e demoníaco, segundo Kierkegaard"

[...]
Neste artigo, a partir de um trecho dos Estádios no Caminho da Vida, defende-se que a esfera religiosa e a esfera demoníaca são formalmente indistinguíveis. [...]
«every individuality who solely by himself has a relation to the idea without any middle term (here is the silence toward all others) is demonic; if the idea is God, then the individual is religious; if the idea is that of evil, then he is in the stricter sense demonic.» Kierkegaard
[...]



In:
APEIRON - Revista Filosófica dos Alunos da Universidade do Minho: Nr. 9 - Filosofia, Religião e Ateísmo
APEIRON - Student Journal of Philosophy (Portugal): Philosophy, Religion and Atheism, Volume 9

ISBN: 1542528801







(ISBN-10: 1-5425-2880-1 / 1542528801)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Dever e Querer - a cisão da vontade

A propósito do hiato entre dever e querer.


Qual é o verdadeiro problema da moralidade?

Bem, em princípio, o decisivo da moralidade é que o sujeito faça coincidir o seu querer com o dever. Este é o problema. Porque, se é preciso o sujeito fazer coincidir o querer com o dever, como é que ele pode querê-lo?
Assim, o mais natural é que o sujeito queira que o dever coincida com o seu querer. E, para isso, tem os infindáveis recursos da razão. Por intermédio da razão, o sujeito pode chegar a convencer-se que o seu dever tem de expressar aquilo que é mais vantajoso.
Como se percebe, isto é o inverso do que inicialmente se apresentava à consciência... porque se começa por haver uma questão de "dever", então teve de começar por um "dever" contrário ao que se queria fazer...
Enfim: sempre que nos parece que o nosso dever coincide com o nosso querer é preciso parar para pensar se não será o nosso querer a fazer das suas magias!
Tudo isto depende, naturalmente, da noção de "dever" que se tenha: como é evidente, se o sujeito pensa que "dever" significa "aquilo que eu quero fazer", então a noção de dever é inútil. A noção de dever serve, justamente, para expressar um hiato entre aquilo que imediatamente queremos fazer e aquilo que achamos que deveríamos fazer. Se na noção de dever não estiver incluído este hiato, então elimine-se a palavra.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Capaz de deveres

A propósito do humano enquanto "ente capaz de deveres".

Um dos princípios éticos decisivos é que uma acção só pode constituir um dever no caso de o sujeito ser capaz de realizá-la. Como é evidente, do princípio de que "ser capaz de" é condição necessária do dever não se segue que seja condição suficiente. Porque, se "ser capaz de fazer x" fosse condição suficiente para que "x seja meu dever", então o dever seria completamente arbitrário - isto é, corresponderia à negação da própria noção de dever. Pois, bastaria que um sujeito fosse capaz de matar outro para que isso pudesse ser seu dever.


Kierkegaard discute, em vários momentos, este princípio. O princípio, por um lado, é intuitivo: o dever tem de corresponder a algo que possa ser formulado como obrigação - ou seja, como algo a que eu sou obrigado. Eu não posso ser obrigado a fazer algo que está fora das minhas possibilidades efectivas. Assim, aquilo que não sou capaz de fazer não pode constituir um dever para mim.
Por outro lado, o princípio parece contra-intuitivo. Suponha-se que me emprestam dinheiro e quando chega o momento de pagar a dívida "não sou capaz de a pagar". Significa isso que o meu dever de pagar esta dívida não existe? Não parece ser esse o caso. O que falta aqui?

Como uma ideia nova se converte numa ideia velha?

A propósito de ideias novas...


A hipocrisia do género humano segundo Kierkegaard


A hipocrisia, segundo Kierkegaard, não é apenas uma tendência inata à estrutura do indivíduo humano, mas também qualquer coisa que se pode verificar em termos históricos.


A dada altura surge no mundo uma ideia nova. Como ideia nova ela deve entusiasmar as pessoas que se apressam a colocá-la em circulação. Justamente, em circulação, diz Kierkegaard, como acontece com o dinheiro. Posto a circular passa de mão em mão, ao fim de algum tempo o seu significado inverte-se completamente.


Por exemplo, o Cristianismo, segundo Kierkegaard, introduziu no mundo a ideia de pecado, uma ideia nova que eleva o humano na medida em que lhe dá um requisito mais alto. Mas a ideia, posta a circular, sofre o efeito das mais variadas transacções, de modo que, ao fim de alguns séculos, como que por efeito de inflacção (que é o processo histórico da desvalorização de um critério de medida...), o seu significado inverte-se completamente.
A ideia do pecado correspondia a uma ideia nova, pois o homem já sabia que podia errar, falhar, mentir e cometer crimes - mas não sabia ainda que podia pecar. Com a noção de pecado introduz-se uma categorização completamente nova, uma medida completamente outra. Mas esta noção, posta a circular, foi sofrendo pequenas mutações até que, finalmente, significa o oposto - exactamente o oposto - do que significava na origem.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Qual o critério da existência?

A propósito de critérios...


É fácil de refutar o relativismo cultural. Mas a refutação do relativismo cultural não refuta o relativismo. Apenas exige um relativismo mais lato. No limite, o relativismo diz apenas: a validade de qualquer coisa depende da medida adoptada, seja esta qual ela for, pois não pode haver uma medida para a adopção de uma medida. Assim, se um sujeito tem como medida Deus, evidentemente, a guerra vai ter um valor determinado sempre em referência a Deus. Um sujeito que tenha como critério a felicidade dos homens pesará a guerra relativamente à felicidade dos homens. Evidentemente, se quiser fragilizar o valor da religião indicando que gera guerra só pode ter sucesso se aquele a quem se dirige não tiver como critério de pesagem Deus. Se o sujeito tiver como critério Deus limitar-se-á a dizer que tudo tem de ser pesado na balança de Deus.
Este relativismo mais geral é a tese de que todos os critérios que podemos ter para pesar o valor das coisas são legítimos, e que não há critério para decidir entre critérios. E este relativismo não parece poder ser refutado senão assumindo previamente um critério. Ou seja: tendo já um critério - de modo que, na verdade, não se refuta o relativismo.
A dificuldade está nisto: que critério pode haver para decidir entre critérios? A razão? Bem: mas qual o critério que permite dizer que a razão é um critério melhor? A própria razão? A experiência? A vida? Seja qual for o critério, o problema é sempre o mesmo: nunca se refuta a tese do relativismo de que o valor de uma coisa depende do critério com que ela é medida.
Kierkegaard: a única refutação do relativismo é existencial: se tudo é igualmente válido, então tudo é igualmente irrelevante.

O critério da opinião



A propósito de critérios


Há um chavão do senso-comum de que não há alegria sem tristeza, bem sem mal, verdade sem mentira, etc.

O problema filosófico aqui em causa é, evidentemente, o do critério. Com isto, o senso-comum, afirma que o critério para se saber de um dos pólos é a existência do outro pólo. Só se sabe o que é a doença por referência ao estado saudável. Assim, toda a escala valorativa não seria mais do que um jogo de contraste.

Claro que este assunto é complexo. O senso-comum limita-se a repetir algo que lhe soa bem e parece imediatamente evidente. Não está ciente, nem daquilo que está por detrás disto - o que fundamenta esta posição filosófica - nem está ciente das suas consequências - daquilo que significa levar esta posição às suas últimas consequências.

Levar uma posição às suas últimas consequências parece o melhor método para julgar a legitimidade de uma posição excluir as demais (quando, evidentemente, não se tem acesso directo à coisa ela mesma).

Porque levar uma tese ou teoria às suas últimas consequências significa: vamos ver o que significa realmente esta tese, vamos ver o que significaria se ela fosse verdadeira.

Este critério é muito importante. A razão pela qual nós temos todos tantas opiniões e tão diferentes entre si é que não temos de pagar o preço de as termos. Se houvesse um deus que, antes de um sujeito abrir a boca, lhe dissesse: "cuidado com a boca, cuidado com aquilo que afirmares: terás de viver o resto da tua vida num mundo em que isso é uma lei da natureza" - se houvesse um deus destes, que nos forçasse a suportar o peso da honestidade, penso que teríamos todos muito menos opiniões. Na verdade, penso que teríamos mesmo muito poucas e que aquelas que tivéssemos ainda coragem de ter seriam muito pouco diferentes umas das outras.


O senso-comum diz que não há positivo sem negativo.

A tradição filosófica, no entanto, diz o inverso: a verdade é o critério da falsidade; o bem é o critério do mal. Só há mal, porque há bem. Razão pela qual Santo Agostinho dizia que a verdade é a medida dela mesma e do seu contrário.

Aparentemente, o senso comum diz o contrário da tradição filosófica, mas a verdade é que o senso-comum limita-se a repetir algo que pertence a essa mesma tradição. Simplesmente, o senso-comum, ao repetir, corrompe.

O que a tradição percebeu, e muito bem, é que, do ponto de vista da consciência, é o negativo a condição de possibilidade da consciência do positivo. Por exemplo, a consciência da felicidade só se constitui pela consciência de um estado de infelicidade, porque a consciência da felicidade tem de começar pela tensão para a adquirir, caso contrário é apenas um pensamento vazio. Ou seja, por paradoxal que pareça, a consciência da felicidade começa por ser consciência da sua ausência - não há outra hipótese. E isto repete-se na consciência moral: a consciência moral tem de começar pela aversão relativamente à transgressão.

Ora, evidentemente, nada disto significa que é a infelicidade o critério da felicidade, ou que é o mal o critério do bem. Pelo contrário: o bem é que é o critério do mal. Paradoxalmente, do ponto de vista da consciência - isto é, do sujeito - a consciência moral, a constituir-se, tem de começar como consciência da ausência do Bem!!! Não há outra hipótese - como, aliás, Sócrates demonstrou muito bem e toda a tradição tem repetido desde então.
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