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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Da raposa, das uvas e do humano

A propósito da precisão de ter uma impressão de si genuína...

É o ser humano que é assim como à raposa da estória...

Ao perceber que as uvas estão muito altas a raposa convence-se de que estão verdes, o que, por sua vez, alivia a tensão, pois a pressão para as alcançar desaparece. Ou seja, desistir das uvas tem um efeito parecido ao que teria chegar às uvas, visto que descomprime a vontade da raposa. É certo que o efeito não é exactamente o mesmo, pois, afinal, não conseguiu gozar do prazer de saborear as uvas. Mas, por outro lado, ao direccionar a sua atenção para fitos mais à-mão, a raposa abriu todo um novo horizonte de possibilidades: é certo que não chegará a saborear as uvas, mas, em compensação, poderá saborear muitos outros frutos rasteiros que imediatamente lhe surgirão pela frente aliciando-a a curvar-se, a curvar-se cada vez mais até que acabará, certamente, a comer batatas e outras iguarias subterrâneas.

Assim é o humano, nas palavras de Kierkegaard: "os homens têm uma maior impressão das vacas do que de si mesmos".

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Construir e edificar

A propósito de edificação...

Cada vez mais o nosso mundo está obcecado com a construção, quer horizontal quer vertical. Construir, construir, construir... mas não lhe interessa, de facto, edificar! Pois para edificar exige-se uma construção peculiar, específica: que a construção se eleve a partir do fundamento, que a elevação corresponda integralmente à profundidade.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O mundo inteiro é um palco, As You Like It

A propósito do cómico do mundo...


"O mundo inteiro é um palco"...

Shakespeare, As You Like It

Se o mundo é um palco fica indeterminado se a vida é uma tragédia ou uma comédia, porque a comédia e a tragédia são faces da mesma moeda.
Mas a expressão "o mundo inteiro é um palco" parece sugerir a compreensão cómica da vida: a vida é uma comédia. Porque reforçar o carácter de representação da vida significa chamar a atenção para o seu lado cómico, da mesma maneira que chamar a atenção para a seriedade de um drama significa chamar a atenção para o seu lado trágico. Assim, dizer que a vida é como uma peça de teatro aponta para o seu lado cómico, tal como dizer que uma peça de teatro é como a vida aponta para o seu lado trágico. A tragédia prende-se com o lado sério da moeda, a tensão, a pressão, a vida como sofrimento - a comédia prende-se com o lado neutralizado, afastado, distante, a vida como paródia. O riso tem diante de si o grande teatro do mundo. O comediante total engole o mundo todo e o mundo todo é uma farsa.


"A vida é apenas uma sombra ambulante, um pobre comediante
Que se panoveia e agita na sua hora em cima do palco
E depois não mais é ouvido: é um conto
Contado por um idiota, cheio de som e de fúria,
Que nada significa."

Shakespeare, Macbeth

A vida é um conto contado por um idiota que vive a sua vida que significa nada cheio de som e de fúria, como se a sua vida fosse de facto algo sério, de monta. E por isso mesmo a vida é essencialmente cómica, porque ela é levada seriamente, até mesmo vivida intensamente, com fúria e som, quando não passa de um grande nada - que fica revelado, justamente, no facto de que se pode rir de toda a vida e de todo o mundo. A vida é uma sombra: a vida é o próprio comediante. E depois, nada - e a diferença entre o antes e o depois é apenas o ruído. Por isso não há, efectivamente, uma diferença essencial entre a comédia e a tragédia: a tragédia dá-se na fúria, a comédia dá-se no sem sentido - e ambas, comédia e tragédia, são essa contradição. E também por isso não há uma diferença essencial entre a comédia e o tédio: no limite, o tédio é cómico. E só porque o mundo é absolutamente sem graça nenhuma é que ele é essencialmente cómico.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

O imediato: a elisão das possibilidades alternativas



Não se duvida de uma crença imediata. Aquilo de que não se pode duvidar é uma crença imediata. A crença imediata é indubitável porque é o horizonte da própria dúvida: não pode ser visto apesar - ou, precisamente, devido à sua imediaticidade.

Somos imediatamente quando nos deixamos levar por aquilo que nos prende. Num certo sentido, o imediato é aquilo que não temos de nos esforçar por ser, ainda que nos tenhamos de esforçar para isso.

Aquilo que nos impede de ser imediatamente é sentido como infortúnio. A dor é um grande infortúnio. Choramos a dor que nos tolhe. Queremos ver-nos livres dela. Sabemos bem o que é a dor, e sabemos bem o que é o prazer. O prazer e a dor prendem-nos num caminho imediato. O caminho do prazer: a dor é o resguardo.

Imediatamente somos como uma planta. O nosso desenvolvimento é o crescimento vegetativo e só a muito custo nos podemos compreender como vegetais. Ser como um vegetal é precisamente o modo que inicialmente compreendemos como ser aquilo que somos. Quando a vida nos corre bem, quando tudo se dispõe a permitir-nos ser aquilo que imediatamente somos: é então que nos julgamos felizes, nos julgamos afortunados. E é então que nos julgamos livres.

Para nós, imediatamente, a liberdade é que o sol e a chuva e a terra e os poderes ignorados da nossa natureza nos permitam ser como uma planta.

É um pensamento muito profundo que estejamos presos numa cadeia infinita. O que é que isso pode querer dizer? Que verdade misteriosa viu Fernando Pessoa nisto?

Atiramos ao ar os nossos vãos desejos de liberdades que não temos, mas não executamos aquela que temos. E se nos apontam a porta de saída nós não queremos outra coisa senão permanecer onde estamos.

Crescemos, de facto, como uma planta: e pensamos que isso é o máximo que temos para ser.

A possibilidade em que nos encontramos desde início: é essa que nós desenvolvemos. E tornamo-nos cada vez mais desconhecidos para nós mesmos. Cada vez somos possuídos em maior grau pelo que supomos adquirir, de tal modo que a dada altura se torna absolutamente impossível reconhecer quem somos. Porque, de facto, somos essas coisas. Somos uma coisa.

É, aliás, isso que compreendemos todos os dias quando dizemos que devemos tornar-nos úteis. O pensamento mais elevado que conseguimos ter acerca de nós mesmos é vermo-nos como um martelo se veria. Mas o martelo sabe melhor que isso: antes não ver do que ver-se como martelo. Ou tudo, ou nada.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O apego ao mundo

A propósito do mundo...


“Assim é a morte em si mesma. É preciso que primeiro a sofras, antes que o espírito que vivifica possa vir. Quando, por vezes, um ou mais dias, me sinto cansado, abatido, incapaz de um esforço e – não se pode dizer? – quase aniquilado, suspiro para mim mesmo: «Oh! Dai a vida; eu preciso da vida!»; ou quando, quase ultrapassado nas minhas forças, me parece que já não posso mais; ou quando, por um certo tempo, me pareceu que estava votado ao fracasso e que me afundava no desencorajamento, então eu suspiro para mim mesmo: «A vida! Dai a vida!» Mas daí não resulta que o Cristianismo acredite que seja disso que eu preciso. Suponha que ele tem um ponto de vista diferente e que diz: «Não, morre por completo primeiro; o teu mal é estares apegado egoisticamente à vida, a essa vida a que tu chamas um tormento, um fardo: morre por completo!»”

Kierkegaard, Para um exame de consciência recomendado aos contemporâneos, XII, 418