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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Da educação das crianças, Plutarco - citando Licurgo

A propósito de Educação...


Então, quando os Lacedemónios se reuniram, disse-lhes [Licurgo]: "O mais decisivo em conceber a excelência, homens, Lacedemónios, são os hábitos e os tipos de educação e instruções e modos de vida, e eu vou fazer com que isso seja evidente de uma vez por todas". Então, acercando-se dos dois cachorros soltou-os tendo posto entre eles um prato e uma lebre mesmo à frente dos cachorros. E um correu para a lebre, o outro apressou-se para o prato. Mas como os Lacedemónios não foram capazes de juntar as peças e de captar o significado da exibição dos cães, ele disse-lhes: "Ambos da mesma geração, mas como aconteceu terem recebido diferentes criações, um tornou-se um glutão, mas o outro um caçador."

Plutarco, ΠΕΡΙ ΠΑΙΔΩΝ ΑΓΩΓΗΣ, 4
Εἶτά ποτε τῶν Λακεδαιμονίων εἰς ταὐτὸ συνειλεγμένων, « Μεγάλη τοι ῥοπὴ πρὸς ἀρετῆς κύησίν ἐστιν, ἄνδρες, » ἔφησε, « Λακεδαιμόνιοι, καὶ ἔθη καὶ παιδεῖαι καὶ διδασκαλίαι καὶ βίων ἀγωγαί, καὶ ἐγὼ ταῦθ´ ὑμῖν αὐτίκα δὴ μάλα ποιήσω φανερά. » Εἶτα προσαγαγὼν τοὺς δύο σκύλακας διαφῆκε, καταθεὶς εἰς μέσον λοπάδα καὶ λαγωὸν κατευθὺ τῶν σκυλάκων. Καὶ ὁ μὲν ἐπὶ τὸν λαγωὸν ᾖξεν, ὁ δ´ ἐπὶ τὴν λοπάδα ὥρμησε. Τῶν δὲ Λακεδαιμονίων οὐδέπω συμβαλεῖν ἐχόντων τί ποτ´ αὐτῷ τοῦτο δύναται καὶ τί βουλόμενος τοὺς σκύλακας ἐπεδείκνυεν, « Οὗτοι γονέων, » ἔφη, « τῶν αὐτῶν ἀμφότεροι, διαφόρου δὲ τυχόντες ἀγωγῆς ὁ μὲν λίχνος ὁ δὲ θηρευτὴς ἀποβέβηκε. »

sábado, 19 de janeiro de 2013

O confuso e o evidente


Aristóteles, Física, 184a16-21


πέφυκε δὲ ἐκ τῶν γνωριμωτέρων ἡμῖν ἡ ὁδὸς καὶ σαφεστέρων ἐπὶ τὰ σαφέστερα τῇ φύσει καὶ γνωριμώτερα· οὐ γὰρ ταὐτὰ ἡμῖν τε γνώριμα καὶ ἁπλῶς. διόπερ ἀνάγκη τὸν τρόπον τοῦτον προάγειν ἐκ τῶν ἀσαφεστέρων μὲν τῇ φύσει ἡμῖν δὲ σαφεστέρων ἐπὶ τὰ σαφέστερα τῇ φύσει καὶ γνωριμώτερα.


O caminho natural vai do que é mais evidente e mais claro para nós, para as coisas por natureza mais claras e mais evidentes, pois o mesmo não é o que é evidente para nós e o que é simplesmente evidente. Assim, é necessário avançar no sentido do que é confuso por natureza mas claro para nós, para o que é claro e evidente por natureza.


Diz-nos Aristóteles que aquilo que é imediatamente mais evidente e mais claro para nós não é aquilo que em si mesmo é mais evidente e mais claro... Que pode querer dizer este pensamento?

Como pode aquilo que é evidente para nós não ser evidente por natureza? 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Hegel, Virtude e Retórica

A propósito de virtude no nosso tempo...

"Mas, [ao contrário da virtude do mundo antigo], a virtude que estamos a considerar tem o seu ser fora da substância espiritual, é uma virtude irreal, uma virtude apenas de imaginação e de nome, à qual falta o conteúdo substancial. O vazio da sua retórica ao denunciar o "modo do mundo" seria revelado, de uma vez por todas, se o significado das suas belas afirmações tivesse de ser determinado. No entanto, assume-se que este significado é alguma coisa de familiar. A solicitação de um esclarecimento sobre o que seja este significado familiar daria de caras com um jorro de frases ou com um apelo ao coração, o qual diz internamente esse significado - o que nos leva a admitir que a retórica da virtude é, de facto, incapaz de dizer qual é esse significado. A fatuidade desta retórica parece, de uma forma inconsciente, ter-se tornado uma certeza para a cultura do nosso tempo, uma vez que todo o interesse na totalidade dessa retórica, e a forma como é usada para puxar pelo nosso ego, desapareceu - esta perda de interesse expressa-se no facto de que ela já só produz um sentimento de aborrecimento."

Hegel, Fenomenologia do Espírito, §390

terça-feira, 6 de novembro de 2012

O erro...

A propósito da infinita revisibilidade do ponto de vista natural...

Sócrates para Alcibíades (110c)
Também quando eras criança julgavas conhecer, assim parece, o justo e o injusto.

ὤιου ἄρα ἐπίστασθαι καὶ παῖς ὤν, ὡς ἔοικε, τὰ δίκαια καὶ τὰ ἄδικα.


Fazemos aqui tão simplesmente um apontamento: Sócrates realça aqui dois aspectos (entre outros) fundamentais que constituem o ponto de vista humano natural. 

1.º: não fazemos a mínima ideia do que seja o "erro";

2.º: estamos completamente convencidos de que sabemos isso.


A criança está convencida de que sabe o que é justo e injusto. Está convencida de que o sabe. Mas, se ela estiver errada, será que está em condições de o perceber?

Estarmos errados é condição suficiente para percebermos o erro em que estamos?

Não; na verdade, podemos estar perante o erro mais colossal e não o vermos.

Esta determinação do nosso ponto de vista é responsável por uma outra: a infinita revisibilidade do nosso ponto de vista.

Sabemos que já corrigimos o nosso ponto de vista várias vezes; estamos cientes de que já errámos muitas vezes. Mas permanecemos cegos para o facto de nos encontrarmos exactamente nas mesmas circunstâncias formais em que nos encontrávamos antes: simplesmente, podemos estar errados ainda e sempre...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Um tópico da antropologia de Kant

A propósito de Melancolia em Kant:


"O temperamento melancólico: aqui predomina um descontento vital. Mas não é este o aspecto fundamental do temperamento melancólico, caracterizado por lhe serem caras e duradouras as impressões afectivas. A melancolia deriva desse descontento vital, o qual se deriva, por sua vez, de quão profundamente batem as impressões no seu ânimo. Por isso se fala de melancolia profunda, pela intensidade das suas sensações. Concede a tudo uma importância desmedida."

Kant, Antropologia prática (segundo o manuscrito de Mrongovius)


"Aquele que está disposto na melancolia (não o melancólico; porque isto significa um estado e não a mera inclinação para um estado) dá a todas as coisas que dizem respeito a si mesmo uma grande importância, encontra em cada coisa razão para a ansiedade, e começa por dirigir a sua atenção para as dificuldades, ao contrário do que tem carácter sanguíneo que começa pela esperança do sucesso dos que querem subir; por isso aquele pensa também profundamente e este apenas superficialmente. Dificilmente promete alguma coisa: porque cumprir a palavra é para ele algo de sério, mas o poder cumpri-la é duvidoso. Não que tudo isso suceda por razões morais (pois aqui se fala de motivos sensíveis), mas por causa dele mesmo. A contrariedade afecta-o inconvenientemente, e por isso mesmo se faz ansioso, desconfiado e duvidoso, caracterizado também por uma incapacidade para a alegria. - Aliás, esse estado de espírito, quando é habitual, torna-se oposto, pelo menos quanto a encontrar estímulos para isso, ao dos Filantropos, que é mais próprio dos temperamentos sanguíneos: porque quem está privado da alegria em si [como é o caso dos que têm disposição melancólica], dificilmente a concede a outro."

Kant, Antropologia em termos pragmáticos, 288 (ed. da Academia, VII)

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Para reflectir, do Evangelho Segundo São Mateus

A propósito de portas, de perdição e de vida...


Mateus 7:13-14
13 Εἰσέλθατε διὰ τῆς στενῆς πύλης· ὅτι πλατεῖα ἡ πύλη καὶ εὐρύχωρος ἡ ὁδὸς ἡ ἀπάγουσα εἰς τὴν ἀπώλειαν καὶ πολλοί εἰσιν οἱ εἰσερχόμενοι δι’ αὐτῆς· 14 τί στενὴ ἡ πύλη καὶ τεθλιμμένη ἡ ὁδὸς ἡ ἀπάγουσα εἰς τὴν ζωήν καὶ ὀλίγοι εἰσὶν οἱ εὑρίσκοντες αὐτήν.

13 Entrai pela porta estreita: pois larga é a porta e bem espaçoso o caminho que leva à perdição e muitos são os que entram por eles. 14 E estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida e poucos são os que o encontram.

"Entrai pela porta estreita".

Parece que temos à nossa disposição diversas possibilidades de ser. Uma ou outra vez na vida encontramo-nos como a criança que descobre numa manhã primaveril que pode ser o que quiser. 

Essa não é uma descoberta de pouca monta. Pobre o adulto que julga puerilmente que isso é uma ilusão: porque esse adulto ainda não começou a poder compreender a amplitude da sua própria ilusão. Porque não é disso (que ele julga) que fala a criança que descobre de repente que pode ser tudo.

Julga o adulto que está firme e seguro na sua plataforma de onde aponta ferozmente a fragilidade do ponto de vista infantil...

Parece que temos diversas possibilidades de ser e têmo-las por nossas, adquiridas. E queremos muitas. Somos felizes quando podemos parar diante de muitas portas e considerá-las por gozo e gabarolice... Queremos tempo para nos ufanarmos junto dos nossos amigos e comparsas. Como uma criança que tem um brinquedo novo e o leva para casa dos amigos como passaporte para ser, por um dia, a estrela. Pobre o adulto que admoesta nessa criança a ingenuidade com que os seus olhos brilham. Porque esse adulto ainda não começou a compreender a sua própria burrice.

Mas não! Não é assim como pensa o adulto que se comporta como uma criança. Não!

"Entrai pela porta estreita" - e parece que ela está aí, que podemos qualquer dia, quando vagar nos sobrar, empreender escarpa acima, estreiteza fora, de armas e bagagens, rumo à vida. Mas não. O adulto é ainda uma criança que não quer fazer hoje o que pode também não fazer amanhã... E pobre desse adulto que ralha com a criança cortando-lhe a diversão e matando-lhe a brincadeira! Porque esse adulto não compreendeu ainda onde ele próprio está.

Um dia quererá abrir a porta estreita e fazer o caminho apertado e então talvez perceba que durante todo o tempo de vida não encontrou vagar para encontrar essa que seria a porta da vida. Então, só então, perceberá a dificuldade que o evangelista enuncia: 

- Não é que tenhamos a porta da vida escancarada e escolhamos a outra, mais larga! Não! Não é que vejamos claramente o caminho certo e o deixemos ficar lá para seguir pelo caminho da perdição. O ponto é precisamente outro:  "poucos são os que o encontram". 

O evangelista não diz: ide pelo caminho da vida e deixai o caminho da perdição.

O evangelista diz: "Entrai pela porta estreita" mas "poucos são os que a encontram".

Então, se um dia lhe bater à porta da sua vida esta urgência talvez o adulto perceba a que nível elevou a própria estupidez quando admoestou a criança, quando procurou instilar nela sensatez, quando pretendeu dar-lhe o que nunca adquirira para si próprio.


Há um filme em que um assassino rapta o filho de um polícia e diz-lhe que, para reaver o filho são e salvo tem apenas de ter a paciência de não sair da sala de operações... O polícia-pai inquieta-se, não suporta a impaciência, descobre onde está o filho e vai lá com toda a polícia e todas as armas de fogo. Uma vez lá percebe que o filho estava dentro de um cofre na sala de operações - e que, devido ao facto de ter abandonado a sala de operações, o seu filho já morreu.

Bastava-lhe a paciência de ter ficado ali.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tédio: monocórdico

A propósito do mesmo aqui e em toda a parte... "Em toda a parte como aqui" é o tédio!

Uma citação de Marco Aurélio, Τὰ εἰς ἑαυτόν (Ad Se Ipsum, A si mesmo)


VI, 46:
Ὥσπερ προσίσταταί σοι τὰ ἐν τῷ ἀμφιθεάτρῳ καὶ τοῖς τοιούτοις χωρίοις ὡς ἀεὶ τὰ αὐτὰ ὁρώμενα, καὶ τὸ ὁμοειδὲς προσκορῆ τὴν θέαν ποιεῖ, τοῦτο καὶ ἐπὶ ὅλου τοῦ βίου πάσχειν: πάντα γὰρ ἄνω κάτω τὰ αὐτὰ καὶ ἐκ τῶν αὐτῶν. μέχρι τίνος οὖν;

Tradução:
Assim como te ofendes pelo que se passa no anfiteatro e em lugares desses como sempre se veja o mesmo, e a visão do que é igual faz-se aborrecida, e isso passa-se na totalidade da vida: todas as coisas, de cima a baixo, são o mesmo e do mesmo. Até quando será assim?

Por que estamos aqui?

A propósito de sentido...


John Milton, Paradise Lost, X, 743-54
Did I request thee, Maker, from my Clay
  To mould me Man, did I sollicite thee
  From darkness to promote me, or here place
  In this delicious Garden? as my Will
  Concurd not to my being, it were but right
  And equal to reduce me to my dust,
  Desirous to resigne, and render back
  All I receav'd, unable to performe
  Thy terms too hard, by which I was to hold
  The good I sought not. To the loss of that,
  Sufficient penaltie, why hast thou added
  The sense of endless woes?

Pedi-te, Criador, que do meu barro
Me moldasses Homem?, solicitei-te
Que da escuridão me fizesses vir, ou pusesses
Neste Jardim delicioso? Como a minha Vontade
Em nada concorreu para o meu ser, não seria senão certo
E justo reduzir-me ao meu pó,
Desejoso que estou por resignar e devolver
Tudo o que recebi, inábil para cumprir
Os teus árduos termos, pelos quais tinha de manter
O bem que eu não procurara. À perda disso,
Já castigo suficiente, por que juntaste
A sensação de infinitas aflições?

O caso é que o humano se encontra a si mesmo lançado no mundo... e porquê? Para quê?

Não foi visto nem achado. Ninguém lhe perguntou se queria vir à existência mas deu consigo já em jogo.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Humano e o começo da Filosofia


A propósito do humano... e da Filosofia...



Uma das obras em grego certamente mais lida é de Diógenes Laércio, sobre a Vida dos Filósofos Ilustres.

Esta obra é muito importante para qualquer um que estude um qualquer filósofo grego e é um manancial de informação sobre a cultura da Antiguidade. Bem, isto agora não interessa nada... O caso é que, qualquer estudante de Filosofia ou de Grego, ou de Cultura Grega, etc., já deve ter-se visto com esta obra, ou pelo menos lido excertos. E, embora seja sobretudo uma obra de consulta, à qual vamos beber um trecho aqui, outro ali, conforme se estuda Tales ou se procuram afirmações de Demócrito - a verdade é que, mais tarde ou mais cedo, damos de caras com o seu início...



Quando me deparei com aquelas linhas tão enigmáticas do Prólogo duvidei do meu grego, com toda a certeza incipiente, e procurei as traduções inglesafrancesaespanhola... Mas todas elas liam o mesmo que eu!!!

Bem, mas afinal que é que diz o nosso jornalista filosófico da antiguidade? Diz uma coisa muito estranha:


Τὸ τῆς φιλοσοφίας ἔργον ἔνιοί φασιν ἀπὸ βαρβάρων ἄρξαι. […]
Λανθάνουσι δ' αὑτοὺς τὰ τῶν Ἑλλήνων κατορθώματα, ἀφ' ὧν μὴ ὅτι γε φιλοσοφία, ἀλλὰ καὶ γένος ἀνθρώπων ἦρξε, βαρβάροις προσάπτοντες.

Bem, se estão a ler o texto, então, de certeza estão admirados...

De qualquer forma, eu fiquei. Esta é a tradução:

"Dizem alguns que o exercício da Filosofia começou entre os bárbaros. […]
Mas, esses desavisados atribuem aos bárbaros os sucessos dos Gregos, com os quais não só a filosofia, mas também o género humano começou."

O que é estranho não é que Diógenes atribua o começo da Filosofia aos gregos. Com certeza que isso é mais ou menos evidente. O que estranhei foram aquelas palavras: ἀλλὰ καὶ, mas também, γένος ἀνθρώπων, o género humano.

Como ler isto? Se Diógenes quisesse dizer natureza humana teria dito φύσις τοῦ ἀνθρώπου. Mas com certeza que ele não estava a dizer que foram os gregos que fizeram o género humano, como se tivessem manipulado um conjunto de genes e dado origem a uma nova espécie.

Fosse o que fosse que quisesse dizer ele estava a afirmar que os Gregos - portanto, já havia Gregos - deram começo a várias coisas, uma das quais o humano.

E Diógenes apresenta as obras dos Gregos como grandes sucessos, coisas bem feitas, τα κατόρθωματα. O termo deriva de ὀρθόςdireito, correcto, certoThe good deeds of someone, we could say. Os feitos dos Gregos incluem o género humano, γένος ἀνθρώπων - e ele não diz  ἔθνος (tribo, povo, nação), mas sim γένος (descendência, raça).

Ainda hoje nós mantemos diferenciadas essas duas raízes de palavras: etnia não se confunde com genética - embora os membros de uma etnia se considerem, normalmente, geneticamente próximos. A etnologia distingue-se do estudo dos genes. Percebemos que os genes não fazem a etnia. A etnia é mais do que isso. Os mesmos genes poderiam dar etnias diferentes. Genes diferentes a mesma etnia. Mas não podemos inferir que, para Diógenes, no termo γένος estivesse a noção de gene, genoma ou genética. Da mesma forma, compreender o ἔθνος como povo ou nação pode acarretar conotações que Diógenes jamais aceitaria.

O que poderá estar Diógenes a dizer?

Poderia estar a afirmar uma tese meramente histórica, como se afirmasse que foram os Gregos que desenvolveram a Filosofia e que, já agora, o primeiro da espécie homem, no sentido de espécie que usaríamos hoje, foi um grego. Será que Diógenes pensava que todos os homens à face da terra eram descendentes dos Gregos? Como se Adão e Eva tivessem sido Gregos? Não nos parece. É que trata-se de uma obra. Algo feito. O humano é fruto do trabalho dos gregos. Resultado da sua ocupação.

Hoje nós julgamos saber que aquilo que somos hoje se deve aos Gregos. Aos Gregos e não só. Mas aos Gregos. Seria isso que Diógenes estaria a dizer? Teria ele consciência de que aquilo a que chamava humano só o era como era, já no seu tempo, por força da obra helénica?

De facto, os Gregos, e nós com eles, tinham a convicção de que tinham inaugurado um acontecimento no mundo. Eram os executantes de uma novidade. Nada do que tinha sido o homem, nada do que tinham sido os bárbaros poderia igualar-se ao que os Gregos fizeram brotar. Seria isso que Diógenes estaria a dizer: que os Gregos foram o princípio de algo completamente novo, radicalmente diferente, a saber, o género humano? Mesmo que antes dos Gregos, e em simultâneo com eles, existissem outros símios sem pêlos, outros animais bípedes sem penas, outros entes com a mesma aparência externa, na verdade a absoluta novidade grega fora o princípio do humano como tal. Seria isso a sua reivindicação?

Provavelmente, isso estaria na mente de Diógenes, o qual, como qualquer grego antigo, estaria consciente da diferença absoluta entre aquilo que a cultura helénica era e aquilo que o bárbaro fora e continuava a ser. O grego era um novo acontecimento, mas de tal modo novo que não poderia ser confundido, nem poderia ser devolvido, ao anterior. O humano surgira na Hélade - estava, talvez, a dizer Diógenes - com uma cultura, uma consciência, um sentido que não poderia ser reduzido ou dissolvido no que era simplesmente o bárbaro, o homem não grego. A singularidade grega não poderia ser, de forma alguma, compreendida sequer como mera possibilidade, alternativa entre outras, do bárbaro.

Mas a que poderá corresponder esta novidade, este hiato, esta diferença? Com certeza já o Génesis falava do homem, da sua geração, do seu princípio. O princípio grego teria de ser diferente, se dava começo a uma nova coisa, ao género humano, diferente do homem.

Sabemos que os pensadores Gregos foram exímios na arte de fazer surgir no humano a consciência de si próprio. Os Gregos fizeram curvar-se sobre si mesmo o impulso para fora do humano. Pelo menos na medida em que tal pode ser possível. Os filósofos não se limitaram a colher da natureza à sua volta princípios unificadores. Não se limitaram a recolher regularidades, a anotar indícios de previsibilidade - aquilo que, em grande medida, era o ancião não grego. O ancião, o xamã, o sacerdote, o homem de sabedoria não grego podia fazer-se um bom conselheiro e até prever eclipses. E os próprios Gregos fizeram isso forma exímia para o seu tempo. Narraram os fenómenos, descreveram a natureza, encontraram nela princípios unificadores. Mas a dada altura deram conta de que um certo ente não se integrava na paisagem como os outros. Os Gregos fizeram sair do pano de fundo morto da paisagem o humano. Deram-lhe existência, fizeram-no vir à tona. O hebreu descrevia naturalmente, e de forma bastante penetrante, a condição humana. Mas descrever a condição humana não é necessariamente o mesmo que investigar a natureza humana. Muito menos o mesmo que reconhecer e identificar a singularidade humana face ao resto.

E é isso que notamos em Diógenes. Diógenes sabe isso. E diz isso. Seja o que for que isso signifique, se quisermos ir mais além no esboço anterior, Diógenes, de facto, diz que os Gregos foram o princípio de algo completamente novo que teve o seu começo na Filosofia... Porque, com certeza, não é por acaso que, falando da Filosofia, diz que não se trata só da Filosofia... No começo da Filosofia está em causa mais do que uma mera actividade, mais ou menos teórica. O sentido dessa tarefa, da Filosofia, é de tal modo que determina um novo acontecimento no mundo: o género humano. Começar a filosofar há-se significar dar começo ao acontecimento do humano como tal. Não que não existissem homens a passear pelo mundo antes da Filosofia. Mas com a Filosofia Grega nasce a consciência disso. O Humano sabe de si, ou melhor, sabe do seu acontecimento e, embora ainda hoje continuemos na senda da determinação disso, é importante que com os gregos essa senda tenha tido começo. Mas é de facto tão importante que permite que Diógenes afirmasse que um dos sucessos helénicos foi, precisamente, o Género Humano. Isto significa que Diógenes, quer estivesse certo ou errado, estava consciente de fazer parte de algo diferente. Muito diferente dos bárbaros. Portanto, o acontecimento grego é de tal modo que os humanos passam a tomar-se a partir de um ponto de vista que se distingue a si mesmo como radicalmente diferente face ao resto. De tal modo que a característica distintiva deste olhar é a consciência de si, nessa diferença de si face ao resto, e a consciência dessa consciência. Diógenes estava consciente disso. A sua tese prova-se a si mesma pelo simples facto de se expor. Ao dizer o que diz Diógenes já mostra isso que está a dizer: o humano compreende-se como uma outra coisa irredutível aos restantes acontecimentos.

Portanto, é isto que Diógenes afirma antes de mais: que há um acontecimento novo. Esse acontecimento pode ser chamado género humano e o seu começo tem tudo que ver com o começo da Filosofia. E o que chama a atenção é que é alguém que se compreende como parte desse próprio acontecimento que indica isso mesmo. Diógenes considerava-se parte do género humano, desta nova coisa que surgira com os Gregos. E tinha consciência disso. A humanidade implica esta consciência de si que garante uma novidade face ao resto. 

A humanidade tal como a concebemos e da qual somos parte, teve início aí. Refutar Diógenes não é muito fácil. Principalmente deve ter-se o cuidado de perceber que a sua afirmação não pode ser catalogada de forma imediata como racismoxenofobiapatriotismoetnocentrismo, e quantos nomes nos lembremos à roda disto... Não vamos aqui desenvolver isto, porque o artigo já vai demasiado longo... Mas é importante que se leia e compreenda o que está em causa na sua afirmação e entender de que modo isso não é nenhuma declaração patriótica nem racista. Porque, muito provavelmente, a noção de humano que hoje entendemos como capaz de nos juntar a todos num mesmo conceito é essa mesma a que Diógenes faz referência. Muito provavelmente, só porque os Gregos começaram por se compreender a si mesmos na singularidade humana é que nós hoje nos podemos compreender a todos como humanos.










domingo, 7 de outubro de 2012

Pensamentos de Marco Aurélio: a irreversibilidade do tempo

A propósito de tempo...


Lembra-te há quanto atiras para longe e quantas vezes, permitindo-te os deuses adiar, não lidaste com isso. Deves desde já sentir de que ordem és parte, que administrador do mundo te fez emanar e que o limite que tu [próprio] és está delineado de tempo, e se não aproveitares a aberta, ela passará, tu passarás e não será permitido voltar atrás.

Marco Aurélio, Ad Se Ipsum, II, 4
Μέμνησο ἐκ πόσου ταῦτα ἀναβάλλῃ καὶ ὁποσάκις προθεσμίας λαβὼν παρὰ τῶν θεῶν οὐ χρᾷ αὐταῖς. δεῖ δὲ ἤδη ποτὲ αἰσθέσθαι τίνος κόσμου μέρος εἶ καὶ τίνος διοικοῦντος τὸν κόσμον ἀπόρροια ὑπέστης καὶ ὅτι ὅρος ἐστί σοι περιγεγραμμένος τοῦ χρόνου, ᾧ ἐὰν εἰς τὸ ἀπαιθριάσαι μὴ χρήσῃ, οἰχήσεται οἰχήσῃ καὶ αὖθις οὐκ ἐξέσται.

Tirteu e a noção de homem...

A propósito de ἀγαθός e outros termos na literatura grega anterior ao século V a.C.

Tirteu, séc. VII a.C.


Tirteu 12W, 15 – 20 - ver grego e tradução francesa aqui; ver tradução castelhana aqui.

 ξυνὸν δ΄ ἐσθλὸν τοῦτο πόληΐ τε παντί τε δήμωι͵
ὅστις ἀνὴρ διαβὰς ἐν προμάχοισι μένηι
νωλεμέως͵ αἰσχρῆς δὲ φυγῆς ἐπὶ πάγχυ λάθηται͵
ψυχὴν καὶ θυμὸν τλήμονα παρθέμενος͵
θαρσύνηι δ΄ ἔπεσιν τὸν πλησίον ἄνδρα παρεστώς·
οὗτος ἀνὴρ ἀγαθὸς γίνεται ἐν πολέμωι.


Tradução para português:

Isto é um bem comum para a cidade e para o povo,
Algum homem firme de pernas abertas entre os que resistem lutando na frente,
Sem cessar, que de todo se esquecem da fuga vergonhosa,
Pondo de lado a vida e o coração afoito,
Que encoraje com palavras o homem mais próximo a seu lado:
Esse vem a ser o homem bom na guerra.


Tradução para inglês:

This is a common good for the city and for the people,
A man that firmly plants himself between those who resist fighting in front,
Unceasingly, they all forget the shameful flight,
Putting aside life and the reckless heart,
That gives words of hope to the closest man at his side:
This turns out to be the good man in war.




O termo ἀγαθός tem aqui um cariz claramente guerreiro. O bem comum é a competência em situação de guerra real. Ser bom é ser bom na guerra

O termo ἀνήρ, homem, deve ser compreendido no sentido de guerreiro. O verdadeiro homem é aquele que faz a guerra de maneira exímia. Mede-se o homem que se é pelas qualidades em guerra.  O bem da cidade reside em possuir homens deste calibre, homens que fazem a diferença na linha da frente. Um homem deve ser firme, incansável, destemido.

O termo ψυχή traduzimo-lo por vida por não possuirmos outra palavra melhor. Poder-se-ia verter por sopro vital. Entretanto, muito se tem escrito, postulado e especulado sobre a noção em causa neste termo - a qual parece ter variado ao longo dos séculos.
ψυχή é, de facto, o sopro vital, sobretudo o último suspiro, quando o vivente expira. A sua semelhança a ψῦχος, frio, é notável. A ψυχή é vida, mas designa sobretudo os mortos - aqueles entes que abandonam o corpo dos que já não são e se encaminham para o Ἅιδης, Hades. Os mortos são frios. A natureza dos mortos é o frio. Os mortos são do mundo invisível, já não estão mais entre nós. Mas o guerreiro não se faz de medo, antes vive a vida no lance pela sua expressão máxima. O cobarde não vive, não tem vida a perder. Só um guerreiro pode apostar porque só ele é.

θυμός é o coração de guerreiro. Força, coragem, robustez, impulsividade - local também da ira do guerreiro. O θυμός é o ânimo forte e inquebrável daquele que não arreda pé. Um homem de verdade não foge. Estaca como estacam as montanhas.

Mas um guerreiro não é um mercenário, não vive só por si. Ele é o bem da sua cidade, o homem do seu povo. Vai na frente, luta na frente, junto ao perigo, lado a lado com o frio. A sua palavra é com o homem do lado. Juntos enfrentam a vida.

O homem bom, o homem de bem é o bom guerreiro. O termo ἀνήρ foi vertido por homem. Mas o que diz é guerreiro.





sábado, 6 de outubro de 2012

Conhecer-se a si mesmo

A propósito de Sócrates...



Então, Sócrates não era parvo quando se procurava a si mesmo, mas são-no todos os que procuram qualquer outra coisa, pois é difícil encontrar o entendimento necessário disso. De facto não se pode esperar ser capaz de alcançar o conhecimento de outra coisa, se não se for capaz de ter em mãos o principal de si mesmo.




Plutarco, Adversus Colotem 1118F:
Οὐ Σωκράτης οὖν ἀβέλτερος, ὅστις εἴη ζητῶν ἑαυτόν, ἀλλὰ πάντες, οἷς ἔπεισί τι τῶν ἄλλων πρὸ τούτου ζητεῖν, ὅτι τὴν γνῶσιν ἀναγκαίαν ἔχον οὕτως εὑρεθῆναι χαλεπόν ἐστιν. Οὐ γὰρ ἂν ἐλπίσειεν ἑτέρου λαβεῖν ἐπιστήμην, ὃν διαπέφευγε τῶν ἑαυτοῦ τὸ κυριώτατον καταλαβεῖν.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Trecho da Metafísica, de Aristóteles

A propósito da verdade e dos nossos olhos...

A investigação acerca da verdade por um lado é difícil, por outro fácil. Sinal disso é ninguém poder tocá-la suficientemente, nem falhar de todo. Mas cada um diz alguma coisa acerca da natureza, e se tomado individualmente pouco ou nada acrescenta, no conjunto de todos vem a ser muito. De facto acontece como se diz no provérbio: ‘quem poderia errar uma porta?’ Desta forma seria fácil, mas ter o todo e não poder ter a parte evidencia a sua dificuldade. Uma vez que existem dois graus de dificuldade, não é nas coisas mas em nós que reside a causa disso. Com efeito, tal como o olho do morcego está para a luz do meio-dia, também a compreensão da nossa alma está para as coisas por natureza mais evidentes de todas.

Aristóteles, Metafísica, 993a30 – b11
ἡ περὶ τῆς ἀληθείας θεωρία τῇ μὲν χαλεπὴ τῇ δὲ ῥᾳδία. σημεῖον δὲ τὸ μήτ᾽ ἀξίως μηδένα δύνασθαι θιγεῖν αὐτῆς μήτε πάντας ἀποτυγχάνειν, ἀλλ᾽ ἕκαστον λέγειν τι περὶ τῆς φύσεως, καὶ καθ᾽ ἕνα μὲν ἢ μηθὲν ἢ μικρὸν ἐπιβάλλειν αὐτῇ, ἐκ πάντων δὲ συναθροιζομένων γίγνεσθαί τι μέγεθος: ὥστ᾽ εἴπερ ἔοικεν ἔχειν καθάπερ τυγχάνομεν παροιμιαζόμενοι, [5] τίς ἂν θύρας ἁμάρτοι; ταύτῃ μὲν ἂν εἴη ῥᾳδία, τὸ δ᾽ ὅλον τι ἔχειν καὶ μέρος μὴ δύνασθαι δηλοῖ τὸ χαλεπὸν αὐτῆς. ἴσως δὲ καὶ τῆς χαλεπότητος οὔσης κατὰ δύο τρόπους, οὐκ ἐν τοῖς πράγμασιν ἀλλ᾽ ἐν ἡμῖν τὸ αἴτιον αὐτῆς: ὥσπερ γὰρ τὰ τῶν νυκτερίδων ὄμματα πρὸς τὸ [10] φέγγος ἔχει τὸ μεθ᾽ ἡμέραν, οὕτω καὶ τῆς ἡμετέρας ψυχῆς ὁ νοῦς πρὸς τὰ τῇ φύσει φανερώτατα πάντων.



Esta é uma das minhas passagens preferidas da Metafísica


O texto é de uma clareza estonteante. Profundamente honesto, directo. As coisas são assim, tal como Aristóteles as diz ser e fico espantado como, por mais séculos que passem, podemos continuar sempre a declarar ἰδοὺ ὁ ἄνθρωπος ecce homo.


É evidente que nem sempre acertamos, e é evidente que nem todos detemos toda a verdade. Mas também é evidente que não falhamos sempre, tal como é evidente que vamos acertando bastantes vezes...

... fica a suspeita de que a dificuldade acerca da verdade resida em nós próprios, na nossa própria constituição, nas nossas estruturas... uma suspeita importantíssima, feita com sinceridade, com honestidade, como quem aponta um caminho.

Tal como o olho do morcego fica cego perante a luz do meio dia, também a nossa compreensão fica cega perante as coisas mais manifestas... E esta, heim?! Que verdade tão poderosa registou Aristóteles... uma verdade que permanece. Perante isso mesmo que mais é manifesto, nós não vemos, ofuscados por essa luz abundante...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Aristóteles e Causa (αἰτία)

A propósito dos modos de dizer causa (αἰτία)



Metafísica, 983a 24
ἐπεὶ δὲ φανερὸν ὅτι τῶν ἐξ ἀρχῆς αἰτίων δεῖ λαβεῖν [25] ἐπιστήμην (τότε γὰρ εἰδέναι φαμὲν ἕκαστον, ὅταν τὴν πρώτην αἰτίαν οἰώμεθα γνωρίζειν), τὰ δ᾽ αἴτια λέγεται τετραχῶς, ὧν μίαν μὲν αἰτίαν φαμὲν εἶναι τὴν οὐσίαν καὶ τὸ τί ἦν εἶναι (ἀνάγεται γὰρ τὸ διὰ τί εἰς τὸν λόγον ἔσχατον, αἴτιον δὲ καὶ ἀρχὴ τὸ διὰ τί πρῶτον), ἑτέραν δὲ τὴν ὕλην [30] καὶ τὸ ὑποκείμενον, τρίτην δὲ ὅθεν ἡ ἀρχὴ τῆς κινήσεως, τετάρτην δὲ τὴν ἀντικειμένην αἰτίαν ταύτῃ, τὸ οὗ ἕνεκα καὶ τἀγαθόν (τέλος γὰρ γενέσεως καὶ κινήσεως πάσης τοῦτ᾽ ἐστίν), …



É evidente que, desde o princípio, é preciso adquirir conhecimento das causas (pois, de facto, dizemos conhecer cada coisa quando supomos conhecer a sua causa primeira). Mas a causa diz-se de quatro modos. De acordo com um dos quais dizemos que causa é a ‘coisa’ [própria][1] e o que era para ser[2] (pois, o “porquê[3]” reduz-se à razão última, mas o primeiro “porquê” é causa e princípio). Outro é a matéria e o substrato[4]. O terceiro é a origem ou princípio do movimento. O quarto é o oposto dessa causa: o “em vista do qual” e o bem (pois, isso é o fim de toda a geração e movimento).


[1] Coisa própria: οὐσία. A tradição fixou a tradução por substância, mas em grego designa qualquer coisa. Aristóteles converteu o termo vulgar coisa em termo técnico.
[2] A tradução tradicional da expressão τὴν οὐσίαν καὶ τὸ τί ἦν εἶναι é a substância e a essência.
[3] Literalmente, o através.
[4] Literalmente, o que jaz por baixo.


Os quatro modos de dizer causa não se tratam de três diferentes causas.

Diz-se causa em quatro sentidos distintos e que são:
   Causa formal: τὴν οὐσίαν καὶ τὸ τί ἦν εἶναι: a coisa própria e o que era para ser; substância e essência;
   Causa material: τὴν ὕλην καὶ τὸ ὑποκείμενον: a matéria e o substrato;
   Causa eficiente: ὅθεν ἡ ἀρχὴ τῆς κινήσεως: origem e princípio do movimento;
   Causa final: τὸ οὗ ἕνεκα καὶ τἀγαθόν – τὸ τέλος: o em vista do qual e o bem – o fim.





terça-feira, 2 de outubro de 2012

Pequeno trecho do De Anima, de Aristóteles

A propósito de Alma...


415b8-14
ἔστι δὲ ἡ ψυχὴ τοῦ ζῶντος σώματος αἰτία καὶ ἀρχή. ταῦτα δὲ πολλαχῶς λέγεται, ὁμοίως δ' ἡ ψυχὴ κατὰ τοὺς διωρισμένους τρόπους τρεῖς αἰτία· καὶ γὰρ ὅθεν ἡ κίνησις καὶ οὗ ἕνεκα καὶ ὡς ἡ οὐσία τῶν ἐμψύχων σωμάτων ἡ ψυχὴ αἰτία. ὅτι μὲν οὖν ὡς οὐσία, δῆλον· τὸ γὰρ αἴτιον τοῦ εἶναι πᾶσιν ἡ οὐσία, τὸ δὲ ζῆν τοῖς ζῶσι τὸ εἶναί ἐστιν, αἰτία δὲ καὶ ἀρχὴ τούτου ἡ ψυχή. ἔτι τοῦ δυνάμει ὄντος λόγος ἡ ἐντελέχεια. φανερὸν δ' ὡς καὶ οὗ ἕνεκεν ἡ ψυχὴ αἰτία·


Mas a alma é a causa e o princípio do corpo vivo (ζῶντος). Mas isto diz-se de muitas maneiras, tal como a alma é dita causa por três modos distintos. Com efeito, a alma é causa no sentido do ‘de onde vem’ o movimento, do ‘em vista do que’ e como a ‘coisa própria’ (οὐσία) dos corpos animados (ἐμψύχων). De facto, que é como ‘coisa própria’, é evidente. Com efeito, a ‘coisa própria’ é a causa de ser de tudo, o viver é o ser dos viventes, e a alma é a causa e o princípio dele [i.e., do viver]. Além disso, o ‘ter-se-em-completo’ (ἐντελέχεια) é o sentido daquilo que é poder-ser. E é manifesto que a alma também é causa como ‘em vista do que’.


quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Eros, um conquistador de mortais e imortais

A propósito do Amor:




Hesíodo, Teogonia, 120-122:
...ἠδ' Ἔρος, ὃς κάλλιστος ἐν ἀθανάτοισι θεοῖσι,
λυσιμελής, πάντων τε θεῶν πάντων τ'ἀνθρώπων
δάμναται ἐν στήθεσσι νόον καὶ ἐπίφρονα βουλήν.



Tradução:

… e o Amor, o mais belo entre os deuses imortais,
Amacia os membros e conquista, nos peitos de todos
Os deuses e homens, a mente e a vontade sagaz.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Isaías 2:22

A propósito de Humano


Em grego, na Septuaginta (edição de Luciano e outras, embora com algumas diferenças - a propósito ver    Vetus testamentum graecumcum variis lectionibus, Tomo IV)


Isaías 2:22

Παυσασθε υμιν απο του ανθρωπου ο αναπνοη εν μυκτηρι αυτου οτι εν τινι ελογισθη αυτος

Deixai o humano, cujo fôlego está no seu nariz, pois em que é que ele conta?

Podemos traduzir de forma menos literal:

Deixai o humano, esse orgulhoso, pois que é que ele vale?


O texto em hebraico חדלו לכם מן־האדם אשר נשמה באפו כי־במה נחשב הוא׃, é traduzido normalmente no mesmo sentido:

Deixai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar? 
(João Ferreira de Almeida)

Mas a Bíblia da Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), de 1993, verte assim:

Deixem, pois, de confiar no homem! Ele não é mais do que um sopro. Que valor tem ele, então?



Parece haver de facto uma comparação entre o humano e o sopro, na fugacidade de cada inspiração e expiração.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mateus 6:25

A propósito de alma e vida...


Mateus, 6:25
Διὰ τοῦτο λέγω ὑμῖν, μὴ μεριμνᾶτε τῇ ψυχῇ ὑμῶν τί φάγητε [ἢ τί πίητε], μηδὲ τῷ σώματι ὑμῶν τί ἐνδύσησθε. οὐχὶ ἡ ψυχὴ πλεῖον ἐστιν τῆς τροφῆς καὶ τὸ σῶμα τοῦ ἐνδύματος;

Por isso vos digo, não vos preocupeis, quanto à vossa vida, pelo que deveis comer [ou beber], nem, quanto ao vosso corpo, pelo que deveis vestir. Não é a vida mais que comida e o corpo mais que vestuário?


O termo grego ψυχή significa vida neste excerto.

Lutero traduz assim:

Darum sage ich euch: Sorget nicht für euer Leben, was ihr essen und trinken werdet, auch nicht für euren Leib, was ihr anziehen werdet. Ist nicht das Leben mehr denn Speise? und der Leib mehr denn die Kleidung?

Louis Segond verte:

C'est pourquoi je vous dis: Ne vous inquiétez pas pour votre vie de ce que vous mangerez, ni pour votre corps, de quoi vous serez vêtus. La vie n'est-elle pas plus que la nourriture, et le corps plus que le vêtement?

A tradução de Young é:

Because of this I say to you, be not anxious for your life, what ye may eat, and what ye may drink, nor for your body, what ye may put on. Is not the life more than the nourishment, and the body than the clothing?



De facto, nem sempre é evidente se ψυχή deve ser traduzida por vida ou por alma:

Mateus 16:26
τί γὰρ ὠφεληθήσεται ἄνθρωπος ἐὰν τὸν κόσμον ὅλον κερδήσῃ τὴν δὲ ψυχὴν αὐτοῦ ζημιωθῇ; ἢ τί δώσει ἄνθρωπος ἀντάλλαγμα τῆς ψυχῆς αὐτοῦ;

De facto, que beneficiará um humano ainda que ganhe o mundo todo mas perder a sua alma? Ou que dará o humano em troca da sua alma?

Lutero traduz assim:

Was hülfe es dem Menschen, so er die ganze Welt gewönne und nähme Schaden an seiner Seele? Oder was kann der Mensch geben, damit er seine Seele wieder löse?

Louis Segond verte:

Et que servirait-il à un homme de gagner tout le monde, s'il perdait son âme? ou, que donnerait un homme en échange de son âme?

Mas a tradução de Young é:

for what is a man profited if he may gain the whole world, but of his life suffer loss? or what shall a man give as an exchange for his life?

domingo, 23 de setembro de 2012

Πάτερ ἡμῶν - Pater Noster - Pai Nosso

A propósito de Pai Nosso, a oração que o Senhor nos ensinou


Líbera nos, quǽsumus, Dómine, ab ómnibus malis...
Livra-nos, vos suplicamos, Senhor, de todo o mal...

Mateus 6:
9 Οὕτως οὖν προσεύχεσθε ὑμεῖς·
Πάτερ ἡμῶν ὁ ἐν τοῖς οὐρανοῖς·
ἁγιασθήτω τὸ ὄνομα σου·
10 ἐλθέτω ὴ βασιλεία σου·
γενηθήτω τὸ θέλημα σου,
ὡς ἐν οὐρανῷ καὶ ἐπὶ γῆς[i]·
11 τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον·
12 καὶ ἄφες ἡμῖν τὰ ὀφειλήματα ἡμῶν,
ὡς καὶ ἡμεῖς ἀφήκαμεν τοῖς ὀφειλέταις ἡμῶν.
13 καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν,
ἀλλὰ ῥῦσαι ἡμᾶς ἀπὸ τοῦ πονηροῦ.[ii]

9 Então, orai desta forma:
“Pai nosso que estais nos céus;
Santificado seja o teu nome;
10 Venha o teu reino;
Seja feita a tua vontade,
Assim no céu e na terra;
11 O pão nosso de amanhã dá-nos hoje;
12 E perdoa as nossas dívidas,
Como nós também perdoámos aos nossos devedores.
13 E não nos leves à tentação,
Mas livrai-nos da perversão.[iii]


Lucas 11:
2 εἶπεν δὲ αὐτοῖς,  Ὅταν προσεύχησθε λέγετε,
Πάτερ, ἁγιασθήτω τὸ ὄνομα σου·
ἐλθέτω ἡ βασιλεία σου·
3 τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δίδου ἡμῖν τὸ
καθ’ ἡμέραν·
                        4 καὶ ἄφες ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν,
καὶ γὰρ αὐτοὶ ἀφίομεν παντὶ ὀφείλοντι
ἡμῖν·
καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν.

2 Mas ele disse-lhes: “Quando orardes dizei:
            Pai, santificado seja o teu nome;
                        Venha o teu reino;
                        3 O pão nosso de amanhã dá-nos
                                   Cada dia;
                        4 E perdoa as nossas faltas,
                                   Como também nós perdoamos todos os que estão em dívida
                                               Connosco;
                        E não nos leves à tentação.”


Vulgata, Mateus 9 :
9 sic ergo vos orabitis Pater noster qui in caelis es sanctificetur nomen tuum
10 veniat regnum tuum fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra
11 panem nostrum supersubstantialem da nobis hodie
12 et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimisimus debitoribus nostris
13 et ne inducas nos in temptationem sed libera nos a malo

9 Então, deveis orar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 Venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim no céu e na terra;
11 O pão nosso de cada dia[iv] dá-nos hoje;
12 e perdoa-nos as nossas dívidas assim como também nós perdoámos aos nossos devedores;
13 e não nos leves em tentação, mas liberta-nos do mal.

Vulgata, Lucas 11:
2 et ait illis cum oratis dicite Pater sanctificetur nomen tuum adveniat regnum tuum
3 panem nostrum cotidianum da nobis cotidie
4 et dimitte nobis peccata nostra siquidem et ipsi dimittimus omni debenti nobis et ne nos inducas in temptationem

2 E disse-lhes: “Quando orardes dizei: Pai, santificado seja o teu nome, venha o teu reino;
3 pão nosso de cada dia dá-nos cada dia;
4 e perdoa-nos os nossos pecados como também perdoamos a todos os que nos devem, e não nos leves em tentação.”


Missale Romanum

Pater noster, qui es in caelis: sanctificetur nomen tuum; adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Panem nostrum cotidianum da nobis hodie; et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris; et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo.

Pai nosso, que estás nos céus: santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim no céu e na terra. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores; e não nos leves em tentação, mas livra-nos do mal.



Segundo o Catecismo da Igreja Católica – número 2759.
Em latim:
Pater noster qui es in caelis:
sanctificetur Nomen Tuum;
adveniat Regnum Tuum;
fiat voluntas Tua,
sicut in caelo, et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a Malo.

Em Português:
Pai Nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.

Outras versões em latim:

Outras versões em português:




[i] Ou: “Como no céu também na terra.”
[ii] Algumas versões (seis vezes nos Padres da Igreja, atestadas uma vez) acrescenta-se ὅτι σοῦ ἐστιν ἡ βασιλεία καὶ ἡ δύναμις καὶ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· _ : pois teu é o reino e o poder e a glória para sempre: ámen.
[iii] Agostinho acrescenta ἀμήν: ámen.
[iv] Literalmente: necessário para suportar a vida.