terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ética: como se sai desta confusão?

A propósito de ética

Como produzir um campo ético em sentido próprio?
A questão é difícil, como se sabe, e eu não pretendo ter uma solução. Como também se sabe, este problema tem levado alguns filósofos a colocar a possibilidade de um intuicionismo ético - qualquer coisa como um senso ético, no sentido que o termo "intuição" tem em Aristóteles. Esta solução tem a vantagem de fazer desaparecer o problema - deslocando-o para o questionamento fáctico (saber se existe, ou não, tal coisa como uma intuição ética - um conhecimento, é certo, mas originariamente ético - e se tal intuição constitui "a cognitive point of view, accessible to human beings, from which that truth can be ascertained", para usar uma expressão de Price). Como se sabe, há até quem defenda que o próprio Aristóteles postula uma faculdade especial de intuição ética... (o que eu não consigo encontrar em Aristóteles, pelo menos, no grego - embora conceda que algumas traduções nos sugiram isso)...

Na minha opinião, o problema ético não se resolve criando novas teorias - as quais partem quase sempre, e talvez inevitavelmente - de observações empíricas para, supostamente, deduzir observações ética... Que os conteúdos cognitivos são eticamente neutros pode confirmar-se pelo facto de que alguns dos piores horrores perpetrados pela humanidade foram efectuados e possibilitados por esses mesmos conteúdos cognitivos... A observação empírica de que todos os humanos sentem dor não foi menos útil aos arquitectos de vários horrores da civilização...
Hoje encontramo-nos numa considerável confusão ética com uma proliferação infindável de teorias prováveis opostas. Praticamente tudo já foi defendido por alguém que dá aulas numa qualquer universidade com prestígio - e se algo ainda não foi defendido podemos ter esperança que o virá a ser já num artigo a ser publicado na próxima semana. Qualquer iniciante no curso de Filosofia - aliás, qualquer comentador e até mesmo qualquer jornalista - se propõe encontrar uma nova ética, ou acha que o que falta é desenhar uma nova ética... Ora, como é evidente, qualquer nova teoria ética, por mais racional e razoável que seja, será apenas mais uma que se vem juntar à confusão: mais uma opinião racional e razoável a acrescentar às restantes! Isto porque, justamente devido ao facto de o âmbito do ético não pertencer ao âmbito cognitivo, não é de prever a ocorrência de uma evidência absoluta e apodíctica (se é que o próprio âmbito cognitivo).

Mas, afinal, como é que se extrai de uma observação empírica um postulado ético? Não será que isso só é possível se eu já tiver uma compreensão ética prévia em funcionamento? Como é que eu poderei alguma vez chegar ao postulado de que "devo agir eticamente" senão porque já possuo uma compreensão ética da vida humana? Ou: como chego ao postulado ético de "não devo matar" senão houver em mim certos pressupostos éticos? Como se chega à conclusão de que devemos respeitar o outro depois de dizer que ele também tem interesses? Quer dizer: afirmar que todos temos interesses não produz, per se, qualquer conclusão ética. 

Faça-se o teste: coloquem-se todas as proposições puramente descritivas da realidade que se queira em linha e veja-se se alguma vez resulta delas uma injunção ética. 

Proposição: todos os homens têm interesses.

Quando é que essa proposição produz um conteúdo ético? Quando é que surge o conteúdo ético segundo o qual devo considerar os interesses dos outros? (ou até mesmo o meu, mas não vou agora para aí - quer dizer, mesmo a minha preocupação relativamente aos meus interesses não tem a forma de uma conclusão lógica deduzida de premissas, como se a minha preocupação por mim resultasse da relação lógica entre determinadas premissas: a minha preocupação por mim parece ter a forma de algo previamente constituído)
Se eu não tiver qualquer outra preocupação senão o interesse por mim, então o interesse pelos interesses dos outros só poderá ser posto em função deste interesse por mim. Mas, claro, se formos honestos com isto penso que as conclusões serão repudiadas pela maioria de nós. Porque, então, por que não enganar os outros sempre que o possa fazer sem ser apanhado? Por que devo respeitar o interesse dos outros senão na exacta medida em que isso for do meu interesse na situação em apreço?

Há, ou não, em nós uma preocupação ética anterior a qualquer teorização ética? Se não há, parece-me que não poderá ser produzida de maneira nenhuma (como, aliás, se poderá ver pelos psicopatas). A haver, então ela provavelmente mobiliza-nos num certo sentido, e, provavelmente, se entramos na investigação ética de modo honesto, então não poderemos fazer mais do que procurar razões para justificar aquela que, afinal, já era a nossa preocupação original - ou seja, encontrar razões para levar outros a ter a mesma preocupação.
Ou, dito de outro modo: por que raio "eu" me preocupo com a crueldade exercida sobre o meu semelhante (ou sobre o dissemelhante, é indiferente para o caso)? Será que é porque um raciocínio me demonstrou que essa preocupação era racional (ou razoável - nem vou aqui entrar no pantanoso universo do razoável)?

E se, amanhã, um dos maiores filósofos do mundo, ou um conluio dos maiores filósofos do mundo (seja lá isso o que for), nos mostrasse que as suas cogitações lógicas, racionais, razoáveis, demonstravam que, afinal, o sentido da vida está no sofrimento e que toda a história da filosofia foi uma confusão categorial: a felicidade é o mal, e o sofrimento o bem que se deve querer por si mesmo e em função do qual tudo deve ser querido?
Será que eu me preocupo em ser feliz devido a um argumento? 
Se não há originariamente em mim outra preocupação a não ser a que vela por mim mesmo, então qualquer outra preocupação terá de ser deduzida dessa. Nesse caso, tudo o que a filosofia pode fazer é encontrar elos racionais entre essa preocupação por mim e a consideração pelos outros (do tipo: se cuidares dos outros outros também te serão favoráveis).
Na minha opinião, só faz sentido falar de um "âmbito ético" se houver, de facto, em nós uma "preocupação ética" que não possa ser reduzida ao interesse imediato por mim (nem às inclinações imediatamente dadas). 
Isto gera uma espécie de monstro: o ético para ser um âmbito próprio (e não apenas um desenvolvimento psicopata) terá de ser, por um lado, uma preocupação imediatamente dada - e, por outro, um interesse ainda não constituído... Tudo isto parece uma contradição nos termos - que, aliás, nós já não estamos em condições de compreender muito bem, porque o empreendimento cultural contemporâneo tem sido o de fazer identificar o âmbito do ético ao âmbito do imediatamente constituído (da satisfação dos interesses)... Mas esta compreensão predominante hoje não tem de ser assim - é uma teoria sobre o assunto, como outra qualquer, e não deve ser vista como se correspondesse "à realidade". Mas não se deveria perder de vista que durante grande parte da nossa história o ético constituiu, de facto, um âmbito próprio que tentou pensar esse "monstro", esse aparente paradoxo do ético. Foi com este monstro que se debateram filósofos tão diferentes como Aristóteles ou Kant, Nietzsche ou Kierkegaard. 
Para concluir: penso que hoje vivemos uma confusão ética que não pode ser resolvida criando uma nova ética que correspondesse aos novos tempos... Esta pretensão de criar uma nova ética parece-me ser, essencialmente, a negação do âmbito ético... Se criar uma nova ética é o que há a fazer, então o que dará mais legitimidade a uma ética como a de Singer do que a uma ética Nazi? Quer dizer: o que seria isso de criar uma nova ética senão pretender dizer o que, doravante, deve ser considerado "dever", ou "certo"? Mas, então, que critério neutro poderia haver para avaliar entre éticas? Mais: será que é admissível sequer exigir um critério neutro para avaliar entre éticas? O ético não é, justamente, a negação da neutralidade?

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Neoliberalismo, hoje?

A propósito de Social-democracia, Neoliberalismo e uma terceira via




Vê-se que o Neoliberalismo começa a gerar entre os intelectuais e especialistas um certo consenso: um continuado e crescente ab-rogar desta ideologia.

Isto é interessante. Cada vez mais, os intelectuais e estudiosos parecem pôr de parte as boas intenções do Neoliberalismo, por um lado, e a capacidade para cumprir aquilo que promete, por outro lado.

Isto significa que o consenso (não interessa se apenas aparente) entre os políticos da política real, e o povo (pois o povo tem continuamente validado com votos o neoliberalismo), não está a ser seguido, ou, pelo menos, já não está a ser seguido pela maioria dos que estudam e pensam a política, a economia e a democracia em particular.

A oposição entre neoliberalismo e social democracia é a oposição entre uma ideologia e outra ideologia - não é a oposição entre a realidade, por um lado, e uma utopia, por outro. Este aspecto é muito importante, e deve ser reconhecido por ambos os lados da disputa.


A Social-democracia foi uma ideologia surgida do Socialismo quando um conjunto de socialistas decidiu que, em vez de acabar com o capitalismo, queria utilizá-lo para promover melhorias sociais. Surgiu assim a divisão entre partidos comunistas, ligados ainda a uma certa ortodoxia socialista, e os partidos socialistas que queriam pôr em prática uma política social-democrata que usasse a prosperidade capitalista para produzir uma sociedade mais justa e igualitária. O Socialismo é uma ideologia que não implica formalmente uma democracia de tipo liberal. A URSS, a China e Cuba são exemplos de regimes socialistas não democráticos (segundo o padrão da democracia liberal enquanto pluralidade partidária). Pelo contrário, a Social-democracia implica pelas suas próprias premissas um regime democrático pluralista. Não há Social-democracia sem democracia, mas pode haver Socialismo sem democracia.


O Neoliberalismo surgiu quando a ideia de liberdade passou a ser restringida a um aspecto da vida social, a saber, à economia. O Liberalismo que defendia a espontaneidade social - que os indivíduos deveriam ser livres e só ser limitados pela liberdade dos outros - deu, assim, origem ao neoliberalismo, o qual defende que o decisivo é a liberdade do indivíduo enquanto detentor de propriedade ou de capital, deste modo reduzindo a noção de justiça a um conceito meramente mercantil.
O Neoliberalismo - ao contrário do Liberalismo - não é uma ideologia que esteja necessariamente associada a uma sociedade e a um regime político democrático. O Liberalismo correspondia a uma certa visão de como a democracia deveria funcionar - o Neoliberalismo é uma visão de como os mercados devem funcionar, mas é-lhe indiferente se esse funcionamento é imposto democrática ou ditatorialmente. Houve governos neoliberais em democracias liberais, e houve governos neoliberais em regimes ditatoriais. Mas nunca seria possível um governo liberal num regime ditatorial, pois o liberalismo é, pelos seus próprios termos, democrático. Não há Liberalismo sem democracia, mas pode haver Neoliberalismo sem democracia.

A dada altura, surgiu, pois, a disputa entre Social-democracia e Neoliberalismo.

A Social-democracia defendia a intervenção do Estado de modo a assegurar uma sociedade mais igualitária. Assim, a Social-democracia precisa de um Estado que cobre impostos e outras taxas para promover a redistribuição de capitais e recursos do topo da sociedade para a base, dos mais ricos para os mais pobres. A isto chamava-se Estado Social. O Estado tem, segundo a Social-democracia, uma função social.

O Neoliberalismo tinha como ideal o desaparecimento do Estado, pois este só poderia ter um efeito limitador e castrador da liberdade económica ao coarctar  a espontaneidade dos mercados. Assim, segundo o Neoliberalismo, os impostos deveriam ser reduzidos ao máximo, tanto quanto possível. O Estado deveria abdicar da sua função social. Idealmente, toda a intervenção do Estado deveria terminar. 

Ora, o Neoliberalismo venceu esta disputa porque os partidos da Social-democracia acabaram por interiorizar grande parte das premissas da narrativa neoliberal. Os social-democratas neoliberalizaram-se. A história da disputa entre Neoliberalismo e Social-democracia é a história da progressiva neoliberalização dos partidos social-democratas. 

Assim, a verdade é que não surgiu, verdadeiramente, uma terceira via. A terceira via - sobretudo apontada por alguns social-democratas, membros de partidos socialistas, não foi mais do que a criação de versões cada vez mais neoliberalizadas da Social-democracia.

Contudo, hoje assistimos, efectivamente, ao surgimento de uma terceira via.

A Social-democracia defendia a intervenção do Estado para transferir recursos do topo para a base da pirâmide. O Neoliberalismo defendia o fim de toda a intervenção estatal na vida económica. Hoje temos uma terceira via: defende-se a intervenção do Estado de modo a transferir recursos financeiros do meio da pirâmide para o topo. Esta terceira via não é Neoliberalismo, porque o Neoliberalismo defende a redução extrema de impostos e a não intervenção do Estado na economia; mas também não é Social-democracia, porque esta defendia a intervenção do Estado mas para auxiliar os mais pobres. Ora, a terceira via põe em prática outra coisa: aumenta e cria novos impostos para remunerar os detentores de capital; transfere dinheiro das classes mais alargadas para o topo da pirâmide; intervém activamente no mercado para assumir dívidas privadas.

Esta terceira via tem estado em prática de modos variados conforme os países. Em Portugal, a sua forma mais visível é o financiamento dos Bancos que, sem essa intervenção do Estado, teriam falido. Esta política contraria as premissas do Neoliberalismo, pois este defende que se um agente económico deve sobreviver no mercado por si e se não for capaz deve deixar-se desaparecer, tal como a natureza condena à extinção as espécies inadaptadas. Mas também contraria a Social-democracia, porque esta considera justos os impostos apenas se servir para reduzir a disparidade entre ricos e pobres, e defende a intervenção do Estado apenas nas áreas do Estado Social.

Nós temos hoje uma ideologia que considera justo aumentar a carga fiscal para remunerar o topo da sociedade, que considera que os danos provocados e sofridos pelos detentores de capital devem ser suportados pela sociedade em geral. Trata-se de algo novo em política. Pensa-se que o topo deve ser favorecido e protegido pelo Estado, mesmo se este tem de onerar as classes menos favorecidas.

Que esta terceira via existe, e que já está em prática - é algo que parece ainda passar despercebido. Os intelectuais e estudiosos continuam ainda a debater a disputa entre Social-democracia e Neoliberalismo. Embora se tenham apercebido da vitória deste último e estejam cada vez mais conscientes da perversidade dele, continuam a não se aperceber de que o Neoliberalismo já foi, também, ultrapassado. 

É importante perceber que esta terceira via existe. Tente-se, por exemplo, confrontar aquilo que Passos Coelho fez nestes quatro anos com aquelas duas ideologias: Passos concordará com a existência de impostos, com a legitimidade do Estado para aumentar a carga fiscal, etc., que é uma noção clássica da Social-democracia, isto é, da esquerda moderada; mas também concordará que os mercados se auto-regulam a si mesmos e que o Estado não deve aumentar os impostos sobre o capital, que era uma ideia neo-liberal. Quer dizer: torna-se muito difícil acusar esta política da terceira via se não estivermos conscientes de que já não é apenas um Neo-liberalismo. Curiosamente, quem tem percebido mais claramente esta deriva da direita tem sido a própria direita. Antigos defensores do Neo-liberalismo têm-se demarcado desta política. Mas a esquerda tem tido muitas dificuldades em perceber que já tem as suas armas descalibradas. O que faz om que, muitas vezes, quando a esquerda moderada pensa estar a dar tiros nesta nova política esteja a dar tiros nos próprios pés. Esteja a dar tiros mais nas suas próprias práticas, do que nesta prática que hoje configura uma terceira via.

Tudo isto ajuda a perceber a razão pela qual é difícil, hoje, distinguir PS e PSD - dada a aproximação da Social-democracia (PS) em Neoliberalismo (PSD). E, simultaneamente, a dificuldade que há em perceber exactamente o que distingue ideologicamente esta nova prática - em Portugal desde há quatro anos, mas há mais lá fora... Tudo isto tem criado um fenómeno interessante. Há, de facto, uma terceira via - que guarda aspectos das antíteses - mas que as antíteses têm muita dificuldade em visar.

Em resumo: é premente percebermos que o Neoliberalismo já foi ultrapassado. Se não continuamos a dar tiros nos próprios pés. E, insisto, são os históricos da direita que estão mais próximos de reconhecerem esta terceira via. A esquerda moderada continua a visar a um Neoliberalismo que já não existe na prática e que é ideologicamente igual a ela.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Ética e direitos

A propósito de Peter Singer

Quanto a Singer, a sua argumentação está sempre dependente de um conjunto básico de premissas. A sua resposta está determinada pela premissa que toma a senciência como critério para a identificação do sujeito de direitos. Portanto, com certeza que ele admite a legitimidade de se matarem crianças que não possuam tal critério - assim como não a admite em animais que possuam esse critério. 

O que me parece errado é considerar que a noção de certo ou errado, de bem ou mal, de moralmente aceitável ou não, esteja dependente do critério da senciência. Da mesma maneira - tenho muita pena, mas - considero que o seu conceito de interesse tem muito pouco de filosófico. Ou melhor: dizer que um porco tem interesses parece-me ser uma antropomorfização do porco - e não que é a consideração de que só o humano tem interesses que é um "especismo" indevido

Finalmente: do ponto de vista ético parece-me que só há deveres, isto é, o ético tem sempre a forma de uma injunção: quando vejo uma criança com fome sinto uma compulsão ética no sentido de a alimentar (ou não, no caso dos psicopatas, mas então também não adianta fazer-lhes um discurso racional porque o psicopata não se converterá à ideia de que os interesses dos outros valem tanto como o dele). 
A noção de direito tem que ver com um estabelecimento de um poder que garanta a sua protecção. Qualquer ideia de que há "direitos naturais", ou direitos previamente existentes em si mesmos, etc., é uma espécie de misticismo. Quando vejo um cão a ser agredido por miúdos com paus sou compelido (dever) a intervir e a evitar tal sofrimento. Quando vejo um touro a ser lidado na arena sou compelido a manifestar-me contra tal. Nada disso significa que o cão ou o touro tem direitos. Mas uma comunidade que converge relativamente a certos sentimentos morais, em que os indivíduos se sentem tomados por certos compromissos éticos, e que está organizada politicamente, pode então produzir normas legais que criem, definam e protejam certos direitos aos homens e aos animais não-humanos.

É aceitável mentir às crianças acerca do mal no mundo?

A propósito de um vídeo...







Flores protegem contra armas de fogo e bombas?

Bem, antes de ambandeirar em arco com qualquer lamechiche convém pensar um pouco.

Primeiro: penso que este pai não teria dito que sim, que as flores são para proteger contra os terroristas, se não estivesse naquela situação. Ele parece ser muito mais inteligente do que isso. Vê-se que o é ao dizer claramente ao filho que homens maus há-os em todo o lado! Teria sido tentador dizer à criança que "já passou", que "os maus serão vencidos", que "ficaremos em segurança", que "eu protejo-te"... Mas não: foi honesto e disse ao miúdo, e bem: há homens maus em todo o lado, por isso não vale a pena fugir!


Contudo, apanhado naquela situação, com a câmara mesmo ali, uma pessoa vacila e lá deixou ficar a ideia de que "as flores são para nos proteger". O que, como se sabe, é mentira: é mentira que as flores protejam contra bombas e é mentira que quem põe ali as flores seja para se proteger contra as bombas...

Quanto à primeira mentira: quem acha, com seriedade, que as flores protegem contra as armas e as bombas sugiro que faça o teste. A próxima vez que haja alguém a fazer reféns tente usar as flores como protecção para chegar perto dos maus e libertar os ditos reféns... Verá, para sua surpresa, que as flores não metem medo nenhum ao assaltante, ao raptor, ao terrorista que empunha uma metralhadora! Nem sequer as armas protegem contra as armas, quanto mais as flores!

Quanto à segunda mentira: se perguntarmos às pessoas que põem ali as flores poderemos ver que ninguém as ali está a pôr para se proteger das balas ou das bombas. Assim como também não pomos flores nos cemitérios para nos protegermos da morte. As flores não só não nos protegem dos terroristas como também não é para nos protegermos que usamos as flores! E o miúdo já sabia isso! Ora, enganar o miúdo - que já sabia que as flores não protegem ninguém - não ajuda ninguém, sobretudo, não ajudará o miúdo!

Naquela idade, as crianças tomam tudo literalmente. Não me parece ser a melhor estratégia lavá-las a acreditar que as flores protegem dos terroristas, das bombas, das balas.

Ora, nós não pomos flores para nos protegermos, mas sim para honrar os que morreram, para prestar homenagem e para mostrar respeito, bem como para assinalar o luto, o pesar que nos vai na alma. E, em segundo lugar, para com esse movimento sentirmos a pertença a uma comunidade e mostrarmos a nossa vontade de fazer parte dessa comunidade: a comunidade daqueles que estão unidos por certos sentimentos e certas crenças ou valores.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Em defesa da Fraternidade

A propósito da ideia de que há ideias intrinsecamente mais capazes de provocar a adesão dos sujeitos...


Quem acredita que a humanidade está irreversivelmente num processo de melhoramento moral - ou que, apesar de retrocessos pontuais, há um processo contínuo de paulatino aprimoramento moral da humanidade - está iludido...




Esta é uma das últimas crenças do ocidente e demorará, provavelmente, muito tempo até percebermos que, na realidade, não há nada intrínseco aos conteúdos que os tornem preferíveis a outros, como também não há nada intrínseco aos humanos que os tornem naturalmente mais propensos a aderirem a certos conteúdos em vez de outros...


Ao contrário do que possa parecer a quem ainda tem este tipo de ilusões, não se trata aqui de relativismo - muito menos de defender qualquer relativismo! Pelo contrário. O que está em causa é, justamente, que os humanos são capazes de aderir a qualquer coisa, de modo que qualquer coisa se pode tornar uma religião de massas: seja o capitalismo, seja o marxismo; seja o sacrifício infantil, seja a defesa da infância...

E a incapacidade para perceber isto - tal como a incapacidade para perceber que perceber isto não corresponde a nenhuma defesa do relativismo - significa a incapacidade para perceber que o processo de adesão se assemelha a uma manipulação. Ideias como a de que "há crenças racionais" e crenças "irracionais", que é possível estabelecer um processo de "iluminismo", "aclaramento" ou "esclarecimento" com base em "pressupostos imparciais, universais e impessoais" - são ideias que continuam a impedir-nos de ver que o nosso ponto de vista está sempre dependente de conteúdos linguísticos e conceptuais que são - e não podem deixar de ser - regionais, datados e localizados, fruto de um processo histórico e cultural... Nem há um ponto de vista puro, livre de conteúdos pressupostos, nem há conteúdos cuja estrutura intrínseca os tornem mais ou menos capazes de provocar a adesão... não há nada na noção de "igualdade", nem na de "fraternidade", por exemplo, que as tornem mais resistentes ao processo histórico, que as tornem intrinsecamente mais capazes de provocar a adesão... Isto não significa que a noção de "fraternidade" seja equivalente, do ponto de vista moral, à noção de "vingança" - pelo contrário: significa que aqueles que efectivamente se vêem a si mesmos por esta ideia e unidos por esta ideia têm de pôr as mãos à obra, praticar a "fraternidade" e procurar difundi-la por todos os meios próprios à própria ideia de fraternidade em vez de acreditar num milagroso deus ex machina que fará com que a fraternidade acabe por ganhar à vingança!



Mas isto deve, também, lembrar-nos que a Fraternidade não ganhará se andarmos a gritar a palavra aos oito ventos, a cunharmos nas moedas, a projectarmos nos monumentos mas praticarmos activamente a Vingança.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Contingência

A propósito de ironia...

"o tipo de pessoa que encara frontalmente a contingência das suas próprias crenças e dos seus próprios desejos mais centrais" ...


"pessoas capazes de reconhecer a contingência do vocabulário no qual formulam as suas mais elevadas esperanças – a contingência de suas próprias consciências – e que ainda assim permanecem fiéis a essa consciência”


Rorty, Contingency, Irony and Solidarity.


Lipovetsky: indiferença e motivação

A propósito de indiferença...

"A indiferença não se identifica com a ausência de motivação". Lipovetsky, A Era do Vazio


Uma confusão comum é trocar "indiferença" com "motivação", mas correspondem a categorias diferentes. Lipovetsky viu isto muito bem: a indiferença pode andar associada até mesmo a um "sobre-investimento" do indivíduo. Ora: é justamente este o nosso caso, na nossa sociedade, nesta era do vazio.


Por isso, pode ser difícil reconhecer a indiferença contemporânea - e é muito fácil confundir fenómenos semelhantes. A indiferença actual é um fenómeno transversal e banal. Não é uma indiferença regional.


De facto, por vezes tem-se a tentação de justificar o nosso tempo dizendo que não é verdadeiramente indiferente na medida em que se tornou indiferente, sim, em relação a valores do passado, ao mesmo tempo que inventou e se fixou noutros.


Mas tudo isso é ilusão de óptica. Como Kierkegaard viu muito bem - e Lipovetsky parece que também - não se trata apenas de a maioria das pessoas não se fixar já a categorias éticas e religiosas, as quais, noutros tempos, parecem ter sido as que orientavam e julgavam a vida. Não se trata só disso. Pois poderia suceder que os sujeitos se desligassem das categorias éticas e religiosas e se fixassem em categorias estéticas. Na verdade, é disso que o homem contemporâneo gosta de se elogiar a si mesmo: da sua seriedade relativamente a categorias estéticas. O próprio Kierkegaard dá, por vezes, a ideia de estar a dizer que o homem natural se fixa em categorias estéticas - por oposição ao homem ético e ao religioso que se fixam em categorias ético-religiosas... Mas o ponto é que o homem natural - portanto, no estado propriamente estético - vive na indiferença, e esta indiferença é, afinal, a forma mais marcante da sua existência, independentemente das categorias pelas quais julga estar a viver.


A seriedade do homem contemporâneo - de nós, de nós na sociedade de massas - e, segundo Kierkegaard, do homem de todos os paganismos, do homem tal como ele sempre foi de início e na maioria das vezes - a seriedade do homem tal como ele é naturalmente é flirt, puro flirt com categorias... e o que é próprio da nossa era, do nosso tempo é que o flirt se tornou objecto de seriedade... Não há apenas um flirt que tem aparência de seriedade, o que ainda não seria tão mau porque bastaria, então, mostrar ao sujeito que a seriedade é outra coisa... A nossa situação é mais grave: o flirt é aquilo a que nós nos apegámos. Nós fixámo-nos no flirt. Hoje em dia um sujeito que não tenha visto os cinco continentes e mais a Lua, não tenha experimentado uma infinidade de aventuras, não tenha assumido um sem-numero de identidades e que, no intervalo de 15 minutos de uma das mil telenovelas não tenha feito zapping por entre 500 canais diferentes - esse sujeito é considerado desinteressante, quase ameaçador, um perfeito violador da ética da diversão e da fun morality!


A indiferença não se opõe à motivação. Não se opõe ao empenhamento. Nós, hoje, somos a prova de que uma motivação pulverizada e um empenhamento vazio podem exacerbar-se ao cúmulo do exagero enquanto se afundam na indiferença mais abjecta.


A nossa indiferença é tão grave que nem sequer se pode falar de "excesso" de indiferença... Também isto Lipovetsky viu muito bem: o deserto contemporâneo não padece de excesso de indiferença, mas sim de um "defeito de indiferença". Uma indiferença standard que constitui o estado em que estamos por defeito - mas nem sequer em excesso. Olhamos à nossa volta e não vemos casos extremos de indiferença: as pessoas continuam a movimentar-se, a correr pelos seus desejos, a buscar satisfação como um corpo morto que, já sem alma, continuasse a executar os seus movimentos.

Lipovetsky

A propósito de indiferença...





"A indiferença não se identifica com a ausência de motivação"


"O homem indiferente não se apega a nada, não tem uma certeza absoluta, está preparado para tudo e as suas opiniões são susceptíveis de modificações rápidas"


Lipovetsky, A Era do Vazio
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