A propósito da família no cristianismo original - em particular, nas cartas de Paulo
Se o Novo Testamento estivesse ordenado por ordem cronológica da sua escrita, os primeiros textos a figurar nele seriam as cartas autênticas de Paulo (as “autênticas” porque o cânone do Novo Testamento inclui algumas cartas que reclamam a autoria paulina, mas que não podem ter sido escritas por Paulo). As epístolas paulinas (autênticas) são anteriores aos Evangelhos, e são os documentos cristãos mais antigos que possuímos hoje: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, Carta a Filémon e Carta aos Romanos – por esta ordem. Curiosamente, e segundo a crítica actual, estes são os únicos documentos do Novo Testamento que podemos efectivamente associar a uma biografia pessoal real, a saber, Paulo. Não sabemos quem escreveu qualquer dos outros 20 livros que integram o Novo Testamento (por exemplo, não sabemos quem escreveu os Evangelhos, apesar de cada um deles estar associado a um nome). Quando Paulo morreu, por volta do ano 64, mais nenhum texto cristão canónico havia sido escrito, excepto as suas sete cartas. Paulo terá escrito as cartas em questão na década de 50 (do século I). Por isso, as epístolas paulinas constituem um conjunto de documentos fundamentais para conhecermos o cristianismo dos primeiros tempos – o cristianismo tal como ele existia no tempo em que ainda estavam vivas pessoas que já estavam vivas quando Jesus estava vivo.
Há diversas diferenças entre as cartas autênticas de Paulo e as chamadas pseudo-paulinas. Algumas dessas diferenças são relativas à sexualidade e à relação entre homens e mulheres. As cartas autênticas de Paulo revelam-nos que, para ele, o estado ideal do ser humano, em relação à sexualidade, era a virgindade – ou, caso alguém se tornasse cristão já não sendo virgem, a castidade. Paulo é muito claro quanto a isto (cf. 1 Cor. 7:1-8). Portanto, para Paulo, o estado ideal do homem é a castidade, a ausência de relações sexuais – e é só para evitar o recurso à prostituição que recomenda que aqueles que não sejam capazes de cumprir tal requisito, então, se casem. É só porque está ciente da enorme dificuldade que a exigência de castidade implica, que Paulo aceita o recurso ao casamento. Ainda assim, segundo ele, é preferível que o marido se esforce por não tocar na sua mulher, apesar de casado – e a haver relações sexuais, o sexo entre marido e mulher devem ser isentos de prazer (cf. 1 Tess. 4:3-5). Quer dizer, segundo Paulo, mesmo entre marido e mulher, não deve haver sexo, e a haver sexo, deve ser sexo sem prazer. Paulo considera o prazer sexual um elemento pagão (aparentemente, desconhecendo as diversas correntes filosóficas pagãs que, mesmo antes de Sócrates, já eram adversas ao prazer sexual). Como diz Frederico Lourenço, na sua Nota Introdutória à Carta aos Romanos: para Paulo, “é a sexualidade em si que se tornou obsoleta”.
Curiosamente, os conservadores contemporâneos, por vezes, recorrem a Paulo para defenderem a noção de “família cristã”. Para os conservadores, o ponto de vista de Paulo rejeita o “politicamente correcto” e defende peremptoriamente a “família cristã” tradicional. Ora, é certo que, se há coisa que Paulo não era, é “politicamente correcto”, mas os conservadores actuais falham completamente o ponto ao recorrerem a Paulo para defenderem a suposta noção de “família cristã”. Na verdade, Paulo de modo nenhum defende a família dita cristã – nem, de resto, o próprio Jesus a defendia (cf. Mt. 22:30). Para Paulo, a relação sexual entre pessoas de sexo oposto não era muito melhor do que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo: em ambos os casos, a palavra de ordem era para evitar. Idealmente, para Paulo – tal como para Jesus – nem os homens devem ter mulheres, nem as mulheres devem ter homens. O resto, a família, a suposta “família cristã”, era apenas um expediente para evitar males ainda piores. Ou seja, Paulo só admitia o casamento (e, portanto, a constituição da família) para evitar o mal maior da “fornicação” desregrada. Paulo insiste no valor da virgindade e da castidade, e o casamento só é aceite como mal menor – mas, ainda assim, um mal.
É nas cartas pastorais (as duas epístolas a Timóteo e a epístola a Tito), pseudo-paulinas, escritas já depois da morte de Paulo, que se procura conciliar a vida cristã com o casamento e a família. São as cartas pastorais que defendem o οἶκος (oîkos – de onde veio a nossa palavra “economia”), termo este que designava a estrutura familiar, constituída por marido, mulher, filhos, outros descendentes e ascendentes, e escravos. As cartas pastorais, pseudo-paulinas, colidem directamente com o ideal paulino da castidade. Em vez da apologia da abstinência sexual, as pastorais fazem a apologia da estrutura familiar antiga. A família aparece nelas como a estrutura básica, sobre a qual a ἐκκλησία (ekklêsía – de onde provém o termo “eclésia”), a comunidade, se deveria fundar.
O οἶκος era chefiado pelo οἰκοδεσπότης (oikodespótês), o marido. O marido era, literalmente, o déspota da família, o chefe do lar. Assim, nas cartas pastorais, o autor pseudo-paulino oferece-nos uma visão do mundo impregnada de misoginia. Na sua perspectiva, a mulher só se salvará pela τεκνογονία (teknogonía), pelo acto de dar à luz uma criança (1 Tim. 2:14-15). Assim, as cartas pastorais, não só contrariam o ideal paulino da abstinência sexual, como estabelecem a ideia de que as mulheres têm na parturição de filhos a sua condição de possibilidade de salvação. O seu papel na estrutura familiar (οἶκος) e, por extensão, na comunidade (ἐκκλησία) fica restrito à sua condição biológica de procriação, estando submetida ao seu marido, enquanto chefe de família (οἰκοδεσπότης). O homem é concebido como o déspota ao qual a mulher está submetida, numa condição de silenciamento, reduzida à sua função de procriadora: “Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio. E Adão foi o primeiro a ser formado; depois Eva” (1 Tim. 2:11-13). As cartas pseudo-paulinas serviram para legitimar, durante séculos, a subalternização da mulher em relação ao homem.
Assim, a visão expressa pelo autor pseudo-paulino contraria o respeito pela mulher que Paulo manifesta nas suas cartas (autênticas). Ao procurar enquadrar na vida cristã o casamento e a estrutura familiar tradicional, o autor pseudo-paulino coloca a mulher numa posição subalterna em relação ao homem, rejeitando assim a visão de Paulo, na qual a mulher gozava de um estatuto surpreendentemente generoso.
Portanto, quando os conservadores apelam à posição de Paulo para legitimar a suposta noção de “família cristã”, na verdade, incorrem num equívoco. Ao pretenderem invocar um Paulo politicamente incorrecto pelos padrões de hoje, esquecem que Paulo era politicamente incorrecto, também, no seu próprio tempo. No seu tempo, Paulo – como Jesus já fizera – opõe-se directamente às instituições tradicionais do seu tempo. Inclusivamente, opõe-se à instituição da “família tradicional”. Se, no tempo de Paulo, Paulo defendesse a estrutura familiar tradicional, Paulo não teria sido, como foi, politicamente incorrecto no seu próprio tempo. E, ao pretenderem trazer Paulo para o debate contemporâneo, os conservadores esquecem que Paulo continua politicamente incorrecto no nosso tempo. Continua politicamente incorrecto de tal modo que não se coaduna com a posição que os conservadores pretendem derrubar, mas também continua de tal modo politicamente incorrecto que não se coaduna, sequer, com a posição dos conservadores. A posição de Paulo tanto se opunha aos conservadores do seu tempo, como aos conservadores do nosso tempo – e não se opõe menos à posição dos conservadores do nosso tempo, do que se opõe à posição dos progressistas. Parafraseando o próprio Paulo (cf. 1 Cor. 1:23): o cristianismo original era um escândalo para os do seu tempo, e é uma loucura para nós.
Ao invocarem Paulo, os conservadores dão um tiro nos próprios pés.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2021
sexta-feira, 10 de abril de 2020
Como se distingue um fanático político?
A propósito do fanatismo em política
Como se distingue um fanático político?
Isto é sempre muito complicado porque toda a gente tem direito à sua opinião e a manter-se nela - portanto, como é que se distingue um fanático?
É difícil, mas tenho notado uma coisa. A maioria de nós não concorda totalmente com nenhum partido, nem com nenhum político. Eu, por exemplo, tenho um partido de que sou mais próximo, porque muitas das suas posições são semelhantes às minhas, sobretudo naquelas áreas que considero mais importantes. Mas mesmo assim, muitas vezes simplesmente não concordo com as suas posições, outras vezes toma posições que considero ridículas. Mesmo os líderes que mais gosto desse partido irritam-me às vezes, ou dizem coisas que abomino. Discordo muitas vezes do partido e dos seus líderes. E muitas vezes faço parte daqueles que os acusam.
Em geral, a maioria das pessoas parece-me fazer o mesmo que eu. Tem um partido, contudo nem sempre concorda com aquilo que os seus líderes dizem.
Mas tenho notado algo naqueles que defendem o Bolsonaro e Trump: é que estão sempre de acordo com eles, defendem-nos sempre, seja o que for que digam, e mesmo quando dizem uma coisa e o seu contrário. Seja o que for que Bolsonaro diga ou faça, eles concordam e defendem-no. Seja o que for que Trump faça ou diga, eles concordam e defendem-no. Haja ou não contradição. Mesmo quando Trump ou Bolsonaro defendem algo que eles próprios não seriam capazes de defender para Portugal, continuam a defender Trump e Bolsonaro.
Eu diria que este é um bom indício de fanatismo. Os apoiantes de Trump e Bolsonaro, se não são, parecem-se muito com fanáticos.
Nenhuma realidade, nenhum facto, nenhuma evidência os fará mudar. São fanáticos! Ou, pelo menos, comportam-se de modo indistinguível dos fanáticos.
Como se distingue um fanático político?
Isto é sempre muito complicado porque toda a gente tem direito à sua opinião e a manter-se nela - portanto, como é que se distingue um fanático?
É difícil, mas tenho notado uma coisa. A maioria de nós não concorda totalmente com nenhum partido, nem com nenhum político. Eu, por exemplo, tenho um partido de que sou mais próximo, porque muitas das suas posições são semelhantes às minhas, sobretudo naquelas áreas que considero mais importantes. Mas mesmo assim, muitas vezes simplesmente não concordo com as suas posições, outras vezes toma posições que considero ridículas. Mesmo os líderes que mais gosto desse partido irritam-me às vezes, ou dizem coisas que abomino. Discordo muitas vezes do partido e dos seus líderes. E muitas vezes faço parte daqueles que os acusam.
Em geral, a maioria das pessoas parece-me fazer o mesmo que eu. Tem um partido, contudo nem sempre concorda com aquilo que os seus líderes dizem.
Mas tenho notado algo naqueles que defendem o Bolsonaro e Trump: é que estão sempre de acordo com eles, defendem-nos sempre, seja o que for que digam, e mesmo quando dizem uma coisa e o seu contrário. Seja o que for que Bolsonaro diga ou faça, eles concordam e defendem-no. Seja o que for que Trump faça ou diga, eles concordam e defendem-no. Haja ou não contradição. Mesmo quando Trump ou Bolsonaro defendem algo que eles próprios não seriam capazes de defender para Portugal, continuam a defender Trump e Bolsonaro.
Eu diria que este é um bom indício de fanatismo. Os apoiantes de Trump e Bolsonaro, se não são, parecem-se muito com fanáticos.
Nenhuma realidade, nenhum facto, nenhuma evidência os fará mudar. São fanáticos! Ou, pelo menos, comportam-se de modo indistinguível dos fanáticos.
domingo, 27 de outubro de 2019
Das ovelhas, das cabras e do Bonifácio
A propósito de conformismo v/s rebeldia.
Um dos animais mais teimosos que existe deve ser a cabra. Se a puxamos para a frente ela puxa para trás, se a empurramos para trás ela empurra para a frente.
Nisto, a cabra está no extremo oposto da ovelha, o animal mais seguidista que se conhece.
E aqui está. Parecem opostos, a cabra, sempre do contra, e a ovelha, sempre conforme.
Mas as ovelhas, por vezes, formam rebanhos mais pequenos. Estes rebanhos mais pequenos têm a sua autonomia e afastam-se do grande. Às vezes há uma ou outra ovelha que abandona um rebanho e passa a correr para o outro: vai sempre a correr como se não quisesse ser apanhada no hiato, naquele instante em que já não é um dos rebanhos, mas também ainda não é o outro. A ovelha precisa de um rebanho para ser ovelha. Uma ovelha sem rebanho não existe.
As cabras não são nada assim. Quando menos se espera vamos dar com uma cabra tresmalhada nas couves enquanto as outras fazem de conta que está tudo normal. Enquanto vamos buscar a cabra tresmalhada há sempre outra que aproveita para se meter nos nabos enquanto não estávamos a olhar.
Depois há o gato Bonifácio. O gato Bonifácio está-se nas tintas para os outros - sejam gatos ou não. E também não é aconselhável deixar sardinhas em cima da mesa. Contudo, não é propriamente um rebelde, a julgar pelo formato rechonchudo que foi desenvolvendo nas longas sestas à lareira. Mas também ninguém se lembraria de lhe chamar um seguidista. A última coisa de que o gato Bonifácio se lembraria seria de se levantar da sua alcofa para seguir quem quer que seja. Nunca ninguém sabe muito bem o que o Bonifácio está a pensar, mas de certo nenhuma rebeldia lhe atormenta o espírito pachorrento, nem nenhum seguidismo estimula a sua placidez.
Diferente da ovelha, da cabra e do Bonifácio, há a subjectividade humana, a que desde Sócrates se chama pensar por si mesmo. Sócrates achava que o decisivo estava aí, em pensar por si mesmo, mas primeiro era preciso que um sujeito soubesse o que ele mesmo é exactamente. Sócrates estava às avessas de tudo quanto hoje tendemos a pensar. Nós pensamos assim: bem, já que é preciso andar é preciso ir para algum lugar, convém ter um destino, por isso, vou escolher um e, depois, caminho para lá. A coisa parece óbvia. Pensamos o futuro à nossa frente connosco a caminhar para o futuro que está à nossa frente.
Mas os gregos pensavam-se virados para o passado e a caminhar de costas para o futuro. Caminhavam de costas para o futuro, pois, como é evidente, ninguém vê o futuro, por isso é preciso ter um ponto fixo a partir do qual caminhar. É exactamente o oposto de nós.
Para Sócrates era preciso, primeiro, fixar o ponto de partida. E isto nada tem que ver com a dicotomia conformismo v/s rebeldia. Trata-se de ser alguém em concreto, definido. E não uma forma abstracta: uma ovelha que segue alguma coisa, uma cabra que está sempre do contra, ou com os olhos nas couves, um gato Bonifácio que se borrifa para os outros.
Um dos animais mais teimosos que existe deve ser a cabra. Se a puxamos para a frente ela puxa para trás, se a empurramos para trás ela empurra para a frente.
Nisto, a cabra está no extremo oposto da ovelha, o animal mais seguidista que se conhece.
E aqui está. Parecem opostos, a cabra, sempre do contra, e a ovelha, sempre conforme.
Mas as ovelhas, por vezes, formam rebanhos mais pequenos. Estes rebanhos mais pequenos têm a sua autonomia e afastam-se do grande. Às vezes há uma ou outra ovelha que abandona um rebanho e passa a correr para o outro: vai sempre a correr como se não quisesse ser apanhada no hiato, naquele instante em que já não é um dos rebanhos, mas também ainda não é o outro. A ovelha precisa de um rebanho para ser ovelha. Uma ovelha sem rebanho não existe.
As cabras não são nada assim. Quando menos se espera vamos dar com uma cabra tresmalhada nas couves enquanto as outras fazem de conta que está tudo normal. Enquanto vamos buscar a cabra tresmalhada há sempre outra que aproveita para se meter nos nabos enquanto não estávamos a olhar.
Depois há o gato Bonifácio. O gato Bonifácio está-se nas tintas para os outros - sejam gatos ou não. E também não é aconselhável deixar sardinhas em cima da mesa. Contudo, não é propriamente um rebelde, a julgar pelo formato rechonchudo que foi desenvolvendo nas longas sestas à lareira. Mas também ninguém se lembraria de lhe chamar um seguidista. A última coisa de que o gato Bonifácio se lembraria seria de se levantar da sua alcofa para seguir quem quer que seja. Nunca ninguém sabe muito bem o que o Bonifácio está a pensar, mas de certo nenhuma rebeldia lhe atormenta o espírito pachorrento, nem nenhum seguidismo estimula a sua placidez.
Diferente da ovelha, da cabra e do Bonifácio, há a subjectividade humana, a que desde Sócrates se chama pensar por si mesmo. Sócrates achava que o decisivo estava aí, em pensar por si mesmo, mas primeiro era preciso que um sujeito soubesse o que ele mesmo é exactamente. Sócrates estava às avessas de tudo quanto hoje tendemos a pensar. Nós pensamos assim: bem, já que é preciso andar é preciso ir para algum lugar, convém ter um destino, por isso, vou escolher um e, depois, caminho para lá. A coisa parece óbvia. Pensamos o futuro à nossa frente connosco a caminhar para o futuro que está à nossa frente.
Mas os gregos pensavam-se virados para o passado e a caminhar de costas para o futuro. Caminhavam de costas para o futuro, pois, como é evidente, ninguém vê o futuro, por isso é preciso ter um ponto fixo a partir do qual caminhar. É exactamente o oposto de nós.
Para Sócrates era preciso, primeiro, fixar o ponto de partida. E isto nada tem que ver com a dicotomia conformismo v/s rebeldia. Trata-se de ser alguém em concreto, definido. E não uma forma abstracta: uma ovelha que segue alguma coisa, uma cabra que está sempre do contra, ou com os olhos nas couves, um gato Bonifácio que se borrifa para os outros.
quarta-feira, 23 de outubro de 2019
Da Internet
A propósito dos tempos que correm...
Houve um tempo em que as pessoas seguiam a moda como as ovelhas o rebanho. Mas graças à Internet vivemos num tempo em que as pessoas dizem seguir a moda que o rebanho diz seguir, mas de tal modo que nem as pessoas, nem o rebanho seguem de facto aquilo que se tornou moda dizer que se segue.
A ovelha está sentada no sofá a tratar da sua lã, mas no Facebook é a primeira a esfolar o lobo com as próprias mãos. O rebanho, entretanto, anda nas couves.
Houve um tempo em que as pessoas seguiam a moda como as ovelhas o rebanho. Mas graças à Internet vivemos num tempo em que as pessoas dizem seguir a moda que o rebanho diz seguir, mas de tal modo que nem as pessoas, nem o rebanho seguem de facto aquilo que se tornou moda dizer que se segue.
A ovelha está sentada no sofá a tratar da sua lã, mas no Facebook é a primeira a esfolar o lobo com as próprias mãos. O rebanho, entretanto, anda nas couves.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Pensar de forma crítica
A propósito de pensamento crítico
Um conjunto considerável de pessoas julga que pensar de forma crítica significa negar qualquer coisa que pareça científico.
Por exemplo, se a ciência diz que a Terra é redonda, então, pensar de forma crítica é acreditar que ela é plana. Se a ciência diz que as vacinas são benéficas, então, pensar de forma crítica é acreditar que elas são prejudiciais. Se a ciência diz que há alterações climáticas provocadas pelos homens, então, pensar de forma crítica é negar as alterações climáticas, ou negar que sejam provocadas pelos homens.
Este tipo de pensamento reproduz-se como os coelhos e atinge todas as áreas. Aqueles que o praticam consideram que o facto de estarem a negar uma posição cientificamente consolidada já significa que estão a pensar criticamente.
Como este tipo de pensamento, por força do seu próprio funcionamento, tem de negar a validade das evidências científicas, estipula como dogma que a investigação científica está sempre comprada e enviesada. Não interessa quais e quantas sejam as evidências científicas disponíveis, pois se são evidências científicas, então, não merecem crédito algum.
Em contrapartida, qualquer fonte que não seja científica tem a sua validade assegurada: ler a sina, astrologia, o sacerdote da igreja das caixas de sapatos ao luar, as nuvens, os ditados populares, o "instinto" (sic), o sentimento, a sabedoria dos avós, a sabedoria das revistas, a sabedoria do twitter, o doutor que aparece no anúncio das televendas, a senhora que usa uma varinha mágica nas manhãs da tv, o Herói líder político que vem salvar a pátria, e muitas outras fontes muito mais sérias, rigorosas e confiáveis do que a ciência!!!
quarta-feira, 17 de julho de 2019
Há culturas que são superiores a outras
A propósito da superioridade de uma cultura em relação a outra
Sim, homens de diversas culturas usam lentes diferentes... Esse argumento é antigo e comum, sobretudo, nas ciências humanas, como a Antropologia e a Sociologia, ou até mesmo na Filosofia... mas não se segue da existências das diferentes culturas que estas configurem diferentes perspectivas igualmente válidas. Porque isso só será o caso se não houver um critério independente das mesmas pelas quais estas possam ser medidas, e o facto de haver várias culturas não impede que tal critério possa ser estabelecido. Ou seja, o facto de haver várias culturas, e a possibilidade de haver um padrão de medida independente, não são termos mutuamente exclusivos.
Sim, homens de diversas culturas usam lentes diferentes... Esse argumento é antigo e comum, sobretudo, nas ciências humanas, como a Antropologia e a Sociologia, ou até mesmo na Filosofia... mas não se segue da existências das diferentes culturas que estas configurem diferentes perspectivas igualmente válidas. Porque isso só será o caso se não houver um critério independente das mesmas pelas quais estas possam ser medidas, e o facto de haver várias culturas não impede que tal critério possa ser estabelecido. Ou seja, o facto de haver várias culturas, e a possibilidade de haver um padrão de medida independente, não são termos mutuamente exclusivos.
Neste particular, a Psicologia moral, a Antropologia e a Antropologia Moral, têm apresentado argumentos interessantes. Argumentos que sugerem a possibilidade de haver algo como um substracto moral comum.
Para evitar equívocos, admitir que há culturas superiores a outras não implica rejeitar que uma cultura X superior a uma cultura Y também tenha aspectos condenáveis. A cultura X pode ser, em geral, superior à Y, mas também ter aspectos condenáveis. E pode até acontecer que Y seja superior a X em certos aspectos. A cultura X pode ser globalmente superior a Y sem ser superior em todos os aspectos.
Pode-se admitir que uma cultura é inferior a outra e, simultaneamente, reconhecer nela aspectos interessantes e valorizáveis: mas, justamente, reconhecemos estes aspectos interessantes (como as tribos que respeitam os homossexuais, ou aquelas que tratam com reverência os animais e a natureza), e os aspectos condenáveis (como o canibalismo, ou a exploração de homens por homens), em virtude de algum critério.
Pode-se admitir que uma cultura é inferior a outra e, simultaneamente, reconhecer nela aspectos interessantes e valorizáveis: mas, justamente, reconhecemos estes aspectos interessantes (como as tribos que respeitam os homossexuais, ou aquelas que tratam com reverência os animais e a natureza), e os aspectos condenáveis (como o canibalismo, ou a exploração de homens por homens), em virtude de algum critério.
Não digo que esteja absolutamente convencido que existam culturas superiores a outras. Mas sou sensível ao reconhecimento de que o aspecto cultural do canibalismo, ou da escravatura, ou da inferiorização da mulher são aspectos que inferiorizam uma cultura, seja esta qual for, seja a nossa, seja qualquer outra - e este reconhecimento de que há aspectos culturais inferiores a outros aspectos culturais que são superiores leva, logicamente, à admissão da existência de culturas superiores e culturas inferiores, pois seria altamente improvável que as culturas tivessem todas aspectos superiores, e aspectos inferiores exactamente na mesma proporção.
Portanto, pode dizer-se que devem existir culturas que são globalmente superiores a outras em virtude da qualidade dos seus aspectos culturais. Evidentemente, esta determinação pode ser difícil, em razão das dificuldades que este tipo de avaliações sempre têm, como seja o problema da quantidade versus qualidade. Mas, a sugestão mantém-se: há culturas superiores a outras.
Portanto, pode dizer-se que devem existir culturas que são globalmente superiores a outras em virtude da qualidade dos seus aspectos culturais. Evidentemente, esta determinação pode ser difícil, em razão das dificuldades que este tipo de avaliações sempre têm, como seja o problema da quantidade versus qualidade. Mas, a sugestão mantém-se: há culturas superiores a outras.
domingo, 28 de abril de 2019
Para que serve filosofia?
A propósito da utilidade da Filosofia
Para que serve filosofia? A resposta de Aristóteles, há mais de 2000 anos, já era que não serve para nada.
Por vezes há aqueles que procuram mostrar a utilidade da filosofia. Mas isso é um erro, e o maior atentado contra a própria filosofia. A característica mais importante da filosofia consiste, precisamente, na sua capacidade de se manter inútil.
Para que serve filosofia? A resposta de Aristóteles, há mais de 2000 anos, já era que não serve para nada.
Por vezes há aqueles que procuram mostrar a utilidade da filosofia. Mas isso é um erro, e o maior atentado contra a própria filosofia. A característica mais importante da filosofia consiste, precisamente, na sua capacidade de se manter inútil.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Hoje temos sociedades mais libertadoras?
A propósito de costumes libertadores...
Os homens gostam de amarras. Vivem mal sem elas. Antes preferem o stress das amarras do que a angústia da liberdade.
Diz-se que hoje a sexualidade na adolescência é mais libertadora, porque antigamente era preciso casar para ter relações sexuais e hoje não é assim. No entanto, a verdade é que, antigamente, havia uma pressão para a preservação da virgindade, enquanto hoje um adolescente que ainda é virgem sofre de bullying por parte dos seus pares. Não houve libertação. Nunca há libertação na sociedade, na multidão, na massa.
Nunca há libertação nos costumes. Os costumes nunca se tornam libertadores. Quando um costume parece libertador isso apenas significa que já está incorporado e ainda não produziu um efeito de reacção, por isso, não o sentimos como diferente de nós. Um costume libertador é apenas um costume com o qual ainda estamos conciliados: mas possa o sujeito querer opôr-se-lhe e aí dar-se-á imediatamente conta de que a amarra está lá.
O que há não é libertação, mas apenas mudança de amarras. Por vezes até inversão, como neste caso: antes havia pressão para a preservação da virgindade, hoje há pressão para perder a virgindade.
O costume é sempre uma força de pressão. É apenas ilusão a ideia de que hoje temos costumes libertadores. Temos apenas outras amarras. E algumas amarras que se disfarçam melhor. Que são melhores a produzir stress sem denunciarem o ponto em que a força é aplicada.
Os homens gostam de amarras. Vivem mal sem elas. Antes preferem o stress das amarras do que a angústia da liberdade.
Diz-se que hoje a sexualidade na adolescência é mais libertadora, porque antigamente era preciso casar para ter relações sexuais e hoje não é assim. No entanto, a verdade é que, antigamente, havia uma pressão para a preservação da virgindade, enquanto hoje um adolescente que ainda é virgem sofre de bullying por parte dos seus pares. Não houve libertação. Nunca há libertação na sociedade, na multidão, na massa.
Nunca há libertação nos costumes. Os costumes nunca se tornam libertadores. Quando um costume parece libertador isso apenas significa que já está incorporado e ainda não produziu um efeito de reacção, por isso, não o sentimos como diferente de nós. Um costume libertador é apenas um costume com o qual ainda estamos conciliados: mas possa o sujeito querer opôr-se-lhe e aí dar-se-á imediatamente conta de que a amarra está lá.
O que há não é libertação, mas apenas mudança de amarras. Por vezes até inversão, como neste caso: antes havia pressão para a preservação da virgindade, hoje há pressão para perder a virgindade.
O costume é sempre uma força de pressão. É apenas ilusão a ideia de que hoje temos costumes libertadores. Temos apenas outras amarras. E algumas amarras que se disfarçam melhor. Que são melhores a produzir stress sem denunciarem o ponto em que a força é aplicada.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Democracia e verdade
A propósito de opiniões...
Há a ideia de que a democracia é cada um ter a sua opinião e que a opinião que vence é a que é partilhada por mais pessoas.
Daqui segue-se, por um lado, a ideia de que todas as ideias valem, essencialmente o mesmo e, por isso, a verdade é o que cada um quiser.
Por outro lado, daquilo também se segue a ideia de que a melhor opinião é aquela que se vender melhor e, por isso, a verdade é aquilo em que mais gente acredita.
Que triste destino aguardará a humanidade se estes engodos continuarem a fazer carreira?
Há a ideia de que a democracia é cada um ter a sua opinião e que a opinião que vence é a que é partilhada por mais pessoas.
Daqui segue-se, por um lado, a ideia de que todas as ideias valem, essencialmente o mesmo e, por isso, a verdade é o que cada um quiser.
Por outro lado, daquilo também se segue a ideia de que a melhor opinião é aquela que se vender melhor e, por isso, a verdade é aquilo em que mais gente acredita.
Que triste destino aguardará a humanidade se estes engodos continuarem a fazer carreira?
terça-feira, 18 de dezembro de 2018
Em busca da felicidade
A propósito da obsessão pela felicidade
Estudos em Comunicação nº 27, vol. 2, 79-101
DOI: 10.20287/ec.n27.v2.a06
Em busca da felicidade: uma narrativa
por Luís MendesEm primeiro lugar, o nosso propósito, neste artigo, é mostrar que a ideia de que a felicidade constitui o fim último da vida humana corresponde a uma narrativa, isto é, a uma compreensão possível que admite alternativas. Em segundo lugar, pretendemos confrontar a narrativa da felicidade com uma alternativa ao seu núcleo duro. Assim, colocamos a hipótese de que a pior coisa que pode acontecer a um sujeito é viver feliz toda a vida. Para analisar esta hipótese estudaremos o episódio dos lotófagos, na Odisseia, de Homero, e o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley
Firstly, our purpose in this article is to show that the idea that happiness constitutes the ultimate end of human life corresponds to a narrative, that is, to a possible understanding which admits alternatives. Secondly, we will confront the narrative of happiness with an alternative to its hard core. Thus, we hypothesize that the worst thing that can happen to a human is to live happily all his life. With this hypothesis in mind, we will study the episode of the lotus-eaters, in Homer’s Odyssey, and the Aldous Huxley’s Brave New World.
Estudos em Comunicação nº 27, vol. 2, 79-101
DOI: 10.20287/ec.n27.v2.a06
quarta-feira, 12 de dezembro de 2018
A injustiça social e a banalidade do mal
A propósito da Banalização da Injustiça Social
Injustiça social.
A injustiça social é a "injustiça perfeita". No sentido em que se fala de "crime perfeito": um crime cujo autor não pode ser apanhado.
A injustiça social é a mais perfeita, porque ninguém é efectivamente culpado, porque nenhum de nós se sente efectivamente culpado, porque as culpas são sempre de um "eles" indefinido com o qual nenhum sujeito individualmente se identifica.
A banalidade do mal é isto.
Injustiça social.
A injustiça social é a "injustiça perfeita". No sentido em que se fala de "crime perfeito": um crime cujo autor não pode ser apanhado.
A injustiça social é a mais perfeita, porque ninguém é efectivamente culpado, porque nenhum de nós se sente efectivamente culpado, porque as culpas são sempre de um "eles" indefinido com o qual nenhum sujeito individualmente se identifica.
A banalidade do mal é isto.
sábado, 27 de outubro de 2018
O homem concebido como se fosse um cão
A propósito da ideia segundo a qual é o professor que tem de motivar os alunos
Concordo completamente com a posição defendida por Carlos Fiolhais neste artigo de jornal.
Mais: parece-me que a principal razão (havendo, naturalmente, outras) para os alunos hoje andarem tão desmotivados é precisamente esta "modernice" de terem de ser os outros a motivá-los. Eles próprios já interiorizaram isto e, portanto, sentem que a responsabilidade à partida não é deles. A responsabilidade foi-lhes retirada. Não lhes compete esforçarem-se: só têm de esperar que os outros os motivem. Se não estudam porque não lhes apetece, a responsabilidade não é deles; se não estudam porque não gostam da matéria, a responsabilidade não é deles. Sabem muito bem que a responsabilidade será posta no professor: se o aluno não estuda porque não gosta da matéria a culpa é do professor que não o motivou.
Pobre concepção de "humano" que subjaz a esta "modernice". É conceber o humano como se ele mais não fosse do que um "cão de Pavlov".
Concordo completamente com a posição defendida por Carlos Fiolhais neste artigo de jornal.
Mais: parece-me que a principal razão (havendo, naturalmente, outras) para os alunos hoje andarem tão desmotivados é precisamente esta "modernice" de terem de ser os outros a motivá-los. Eles próprios já interiorizaram isto e, portanto, sentem que a responsabilidade à partida não é deles. A responsabilidade foi-lhes retirada. Não lhes compete esforçarem-se: só têm de esperar que os outros os motivem. Se não estudam porque não lhes apetece, a responsabilidade não é deles; se não estudam porque não gostam da matéria, a responsabilidade não é deles. Sabem muito bem que a responsabilidade será posta no professor: se o aluno não estuda porque não gosta da matéria a culpa é do professor que não o motivou.
Pobre concepção de "humano" que subjaz a esta "modernice". É conceber o humano como se ele mais não fosse do que um "cão de Pavlov".
sábado, 20 de outubro de 2018
Trump no Montana e outras estórias
A propósito da natureza humana
Então Trump foi ao Montana dizer que quando um dos seus apoiantes deu uns sopapos num jornalista pensou "é pá, isto é capaz de ser mau para a sua campanha", mas depois logo reconsiderou: "ah, isto foi no Montana: até é capaz de o favorecer". E tendo dito isto, o público, gente do Montana, aplaude e ri-se.
Eu nem sei bem quantas camadas de ironia se sobrepõem neste episódio! Ainda falam da falta de cultura de Trump. A capacidade de Trump para as figuras de estilo suplanta os mais extraordinários escritores. Onde é que encontramos em Eça uma ironia com este nível de densidade??? Trump vai muito à frente!
Mas Trump revela, mais uma vez, aquilo que eu temia: ao contrário do que supõem muitos intelectuais, Trump conhece muito melhor a realidade Americana, e a realidade do povo, do que os intelectuais e classe dos comentadores.
Já perdi a conta àqueles que num momento ou noutro declararam que "não, as pessoas não votam nele por apoiarem a violência, ou por serem racistas", ou que "não, não, as pessoas não querem o que ele diz, apenas confiam que ele diz mas não faz".
Mas Trump, que não se deixa iludir com parvoíces pseudo-rousseaunianas, conhece muito melhor as pessoas do que os analistas. Trump não presume, como presumem os comentadores, que as pessoas do Montana são basicamente anti-violência e que iriam castigar nas urnas um candidato que desanca um jornalista!!! Trump sabia muito bem que as pessoas adoram esse tipo de espectáculo, e não só não condenam uns sopapos bem dados num jornalista, como logo se disponibilizariam para revesar o candidato e darem elas mesmas uns sopapos no jornalista.
Trump também não presume, como presumem os comentadores, que as pessoas do Montana não gostariam de ser vistas como adoradores de sopapos!!! Pelo contrário, ele diz na cara das pessoas do Montana que acha que elas são do tipo de pessoas que ficam contentes quando um candidato dá uns sopapos num jornalistas, e as pessoas do Montana acham piada e aprovam que o presidente fale com elas nestes modos familiares.
Trump sabe muito bem - como já sabiam Freud, Nietzsche, e até Schopenhauer - que o ser humano tem uma afinidade natural com a violência. E tem uma afinidade especial com o espectáculo, com a publicidade - porque, como dizia Kierkegaard, o humano tem uma tendência natural para ser "público". Ou, como dizia Heidegger, o humano, no início e na maioria das vezes, é "das Man". Como sabiam Óscar Wilde e Fernando Pessoa, o ser humano tem tendência para ser "a gente". O sujeito prefere ser "a gente" do que ser ele mesmo, quanto mais não seja porque sendo "a gente" pode-se ser o que quiser, sendo nada.
E Trump sabe todas estas coisas para as quais muitos, desde há muito, nos tentam alertar. Mas a classe dos comentadores de hoje, desde os jornalistas aos "especialistas políticos" e passando pelos intelectuais, esqueceu ou desconsidera essas lições profundas que encontramos em Freud, Nietzsche, Schopenhauer, Kierkegaard, Heidegger - porque o intelectual de hoje só acredita que o cidadão pode votar livremente num ditador, ou num fascista, ou num racista, depois dele ter ganho... e mesmo assim ainda tentará mostrar que, na verdade, as pessoas não queriam votar em Trump, ou em Bolsonaro, ou já agora em Hitler, foram mas é enganadas...
Nisto tudo tiro o meu chapéu a Trump: tem menos preconceitos do que muitos daqueles que o acusam de ser preconceituoso; e parece perceber muito melhor como funciona o ser humano do que todos os comentadores juntos.
quarta-feira, 17 de outubro de 2018
A democracia e outros regimes
A propósito de democracia...
Não penso que a democracia é um dogma. A democracia não constitui uma verdade auto-evidente, nem deve ser considerada a forma definitiva da política. Penso que a fórmula correcta continua a ser a de Churchill: "a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros".
A democracia não é um regime perfeito
Na verdade tem muitos defeitos e vícios, possibilidades de deturpação e corrupção. O objectivo da política não é, nem deve ser, a democracia. A política é um meio para outro fim (o fim da política não é a política; a política pela política não existe: queremos a política porque precisamos dela para outra coisa). Portanto, a democracia é um meio, não é o fim. Julgo que estamos já em erro se supomos que a democracia é um fim em si mesmo esquecendo que ela é um meio de que nos servimos. Ora, como tudo aquilo de que nos servimos podemos usá-la para o bem ou para o mal. Podemos usá-la para nos enriquecermos a nós mesmos, ou para procurar melhorar as condições dos nossos concidadãos, erradicar a pobreza, etc. Podemos usá-la para um conjunto significativo de objectivos, alguns deles são melhores do que outros.
Todos os outros regimes conhecidos são piores
Agora, o facto de a democracia não ser perfeita e de ter muitas perversões não significa que devamos adoptar alternativas com defeitos ainda mais graves. Pelo menos, sabemos que os outros regimes conhecidos até ao momento já se revelaram ainda piores do que a democracia no passado. Sabemos isso. Podemos não o querer saber. Podemos omitir certos aspectos negativos dos outros regimes para sobrevalorizar as suas vantagens, mas os outros regimes só conseguem aparecer como vantajosos omitindo aspectos significativos. Por exemplo, podemos considerar que o Nazismo foi extraordinariamente eficaz a resolver problemas económicos e de desemprego, e é verdade que teve um desempenho fantástico nesses domínios; mas para considerar o regime nazi melhor do que a democracia é preciso omitir que matou milhões de judeus e deflagrou uma guerra mundial; ou então é preciso arranjar uma boa teoria da conspiração que simplesmente negue tudo isso. Ou seja: o Nazismo só consegue aparecer como preferível numa consideração global para quem seja ignorante, fanático, psicopata ou de facto pense que certas "raças inferiores" devem ser eliminadas. Para todos os outros, os que não são ignorantes, nem fanáticos, nem psicopatas nem pensam que os judeus devem ser eliminados, o Nazismo não parecerá uma alternativa preferível à democracia numa perspectiva global, depois de pesados todos os prós e os contras. Por isso é que a democracia é o pior dos regimes, à excepção de todos os outros: sempre que se consideram os outros regimes acabamos em algo ainda pior. A democracia é, por isso, uma espécie de resposta por exclusão de partes: os outros são piores.
A democracia não é o fim da história
Pensar que a democracia é o fim da história parece-me ser não perceber nada de história. Aquilo que a história nos tem mostrado desde sempre é que coisas que num momento nem sequer se imaginavam se vêm a tornar a ordem estabelecida.
Portanto, pode acontecer que se inventem regimes melhores, mais eficazes, preferíveis à democracia, mas sabemos que essas soluções não se encontram dentro do leque das opções do passado, pois essas já se revelaram piores do que a democracia. Por isso mesmo, havendo alternativa melhor do que a democracia, esta ainda terá de ser inventada. Recorrer ao fascismo, ou às ditaduras em geral, é apenas estupidez. Ou estupidez, ou ignorância. Ou banalidade (cf. Arendt). Em qualquer destes casos - estupidez, ignorância, banalidade - raramente, para não dizer nunca, sai algo de bom daí.
terça-feira, 16 de outubro de 2018
O ser-se filósofo
A propósito do filosofar...
Há sempre em nós já um modo de compreender em funcionamento, um conjunto ideal que permite reconhecer o mundo de uma determinada forma. Esses pressupostos estão já em vigor quando formulamos uma questão e a importância de cada questão, o modo como lhe respondemos e o critério para decidir o que é uma resposta própria à questão depende desses pressupostos. Este é o B-A-Bá antropológico, o facto de precisarmos sempre de ter, e de termos sempre já, um regime de sentido em vigor, seja qual ele for. Nascemos nus, mas quando damos connosco estamos já sempre vestidos de alguma maneira, e é muito difícil distinguir esta roupa de nós mesmos, pois ela torna-se como que uma espécie de "segunda natureza", como diziam os medievais.
Não estou certo, contudo, de que isso signifique, em algum sentido, que todos somos um pouco filósofos. Suponho que dependa daquilo que se entenda por ser filósofo, mesmo que seja só um pouco. Parece-me que começamos a ser um pouco filósofos quando reconhecemos as vestes que trazemos e colocamos a hipótese de que poderíamos trazer outras, de modo que é preciso encontrar alguma justificação para envergar aquelas que envergamos.
Neste sentido, somos todos um pouco filósofos na medida em que todos nós, num ou noutro momento, por um ou outro motivo, nos sentimos inquietos e suspeitamos que "tudo poderia ser de outra forma". E, "neste sentido", a suspeita, a dúvida, a melancolia, a ironia e até mesmo o desespero são muito mais filosóficos do que a atitude plácida e serena perante o mundo que se limita a apontar para o rosto que as coisas insistem em "mostrar-nos". E, também "nesse sentido", somos todos um pouco filósofos, porque provavelmente nunca existiu um sujeito que nunca tenha sido afectado por esse tipo de inquietação, de mal-estar e de desassossego...
Quer dizer, o ser filósofo, mesmo que só um pouco, parece-me não ter tanto que ver com todos nós possuirmos alguma metafísica, alguma epistemologia e alguma ética, mas sim sobretudo com a atitude de colocar isso em questão. O ser-se filósofo não parece ter tanto que ver com já ter algumas respostas, mas sim com o de colocar questões onde pareceria já termos respostas.
Depois, é claro, há formas mais ou menos espontâneas, mais ou menos sistemáticas de ser "um pouco filósofo"...
Há sempre em nós já um modo de compreender em funcionamento, um conjunto ideal que permite reconhecer o mundo de uma determinada forma. Esses pressupostos estão já em vigor quando formulamos uma questão e a importância de cada questão, o modo como lhe respondemos e o critério para decidir o que é uma resposta própria à questão depende desses pressupostos. Este é o B-A-Bá antropológico, o facto de precisarmos sempre de ter, e de termos sempre já, um regime de sentido em vigor, seja qual ele for. Nascemos nus, mas quando damos connosco estamos já sempre vestidos de alguma maneira, e é muito difícil distinguir esta roupa de nós mesmos, pois ela torna-se como que uma espécie de "segunda natureza", como diziam os medievais.
Não estou certo, contudo, de que isso signifique, em algum sentido, que todos somos um pouco filósofos. Suponho que dependa daquilo que se entenda por ser filósofo, mesmo que seja só um pouco. Parece-me que começamos a ser um pouco filósofos quando reconhecemos as vestes que trazemos e colocamos a hipótese de que poderíamos trazer outras, de modo que é preciso encontrar alguma justificação para envergar aquelas que envergamos.
Neste sentido, somos todos um pouco filósofos na medida em que todos nós, num ou noutro momento, por um ou outro motivo, nos sentimos inquietos e suspeitamos que "tudo poderia ser de outra forma". E, "neste sentido", a suspeita, a dúvida, a melancolia, a ironia e até mesmo o desespero são muito mais filosóficos do que a atitude plácida e serena perante o mundo que se limita a apontar para o rosto que as coisas insistem em "mostrar-nos". E, também "nesse sentido", somos todos um pouco filósofos, porque provavelmente nunca existiu um sujeito que nunca tenha sido afectado por esse tipo de inquietação, de mal-estar e de desassossego...
Quer dizer, o ser filósofo, mesmo que só um pouco, parece-me não ter tanto que ver com todos nós possuirmos alguma metafísica, alguma epistemologia e alguma ética, mas sim sobretudo com a atitude de colocar isso em questão. O ser-se filósofo não parece ter tanto que ver com já ter algumas respostas, mas sim com o de colocar questões onde pareceria já termos respostas.
Depois, é claro, há formas mais ou menos espontâneas, mais ou menos sistemáticas de ser "um pouco filósofo"...
terça-feira, 20 de fevereiro de 2018
Virtude e felicidade
A propósito de virtude e felicidade
«O estóico afirmava que a virtude é todo o soberano bem, e a felicidade constitui apenas a consciência da posse da mesma virtude enquanto inerente ao estado do sujeito. O epicurista alegava que a felicidade é todo o soberano bem, e a virtude é somente a forma da máxima a ela conducente, consistindo no uso racional dos meios para a conseguir»
Kant, Crítica da Razão Prática
Bem, e ainda estamos nisto. Ainda se encontram hoje estas duas perspectivas.
Uns acham que o bem mais alto a alcançar é a felicidade e que, por isso, a virtude é o modo de vida que nos leva à felicidade, ou que nos traz felicidade. Estes são epicuristas, mas acham que têm uma perspectiva muito "moderna" e "revolucionária". Quase se engasgam quando descobrem que esta é uma perspectiva tão antiga como o cagar na história da Filosofia.
Outros acham que o bem mais alto a alcançar é cumprir o dever, é ser-se virtuoso, é fazer-se o bem, e que ter a consciência de que se fez o bem, de que se cumpriu um dever, de que se é virtuoso é a própria felicidade. Quantas vezes ouvimos isto: "ser feliz é ajudar os outros", ou "ajudar os outros torna-nos felizes". E pronto, também estes acham que têm uma perspectiva "revolucionária" e muito "moderna". Mas é mais uma perspectiva tão velha como a fome.
Eu concordo com Kant: tão parvo é achar que "ajudar os outros" nos faz felizes, como é estúpido achar que o Bem é ser feliz. Nem cumprir o dever, fazer o bem ou ser virtuoso é equivalente a sermos felizes; nem sermos felizes é equivalente a fazer o bem, cumprir o dever ou ser virtuoso.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Cardápio religioso
A propósito de cristãos
Um sujeito entra no restaurante, senta-se e pede o menu. Estuda com cuidado a oferta e conclui que o frango assado com arroz custa 10 €, mas o bacalhau com batatas a murro custa 50 €. O prezado cliente bem que degustaria o bacalhau com as batatinhas, o prato que decididamente mais o cativa. Mas o facto de custar 50 € é uma grande desvantagem, por isso resolve o assunto chamando o empregando e pedindo:
- Olhe, eu quero o frango assado com arroz, mas se fizesse favor, troque-me o frango por bacalhau e, já agora, o arroz por batatas a murro.
Como é evidente, o empregado não aceitou a negociata, facto que indispôs terrivelmente o prezado cliente que imediatamente abandonou o restaurante queixando-se de que não tinha liberdade de escolha ali.
Ora, é mais ou menos isto que se passa com o cristão nos tempos de hoje: o sujeito quer ser cristão, mas não se contenta com a liberdade de poder escolher ser cristão ou não. Também quer decidir o que significa ser cristão. Então, diz que é cristão, mas ser cristão passa a ser outra coisa qualquer. Tal como o cliente que pede frango, mas depois quer comer bacalhau.
Um sujeito entra no restaurante, senta-se e pede o menu. Estuda com cuidado a oferta e conclui que o frango assado com arroz custa 10 €, mas o bacalhau com batatas a murro custa 50 €. O prezado cliente bem que degustaria o bacalhau com as batatinhas, o prato que decididamente mais o cativa. Mas o facto de custar 50 € é uma grande desvantagem, por isso resolve o assunto chamando o empregando e pedindo:
- Olhe, eu quero o frango assado com arroz, mas se fizesse favor, troque-me o frango por bacalhau e, já agora, o arroz por batatas a murro.
Como é evidente, o empregado não aceitou a negociata, facto que indispôs terrivelmente o prezado cliente que imediatamente abandonou o restaurante queixando-se de que não tinha liberdade de escolha ali.
Ora, é mais ou menos isto que se passa com o cristão nos tempos de hoje: o sujeito quer ser cristão, mas não se contenta com a liberdade de poder escolher ser cristão ou não. Também quer decidir o que significa ser cristão. Então, diz que é cristão, mas ser cristão passa a ser outra coisa qualquer. Tal como o cliente que pede frango, mas depois quer comer bacalhau.
quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Espírito partidário
(texto original em: http://www.sks.dk/AaS/txt.xml)
Kierkegaard, Confissão Pública
«Há um vigoroso espírito partidário por todo o lado. Isto, claro está, não significa que nós temos apenas um partido que é vigoroso, pois isso, afinal de contas, não seria um vigoroso espírito partidário, mas um espírito vigoroso dentro de um partido. Não, há um vigoroso espírito partidário numa variedade de partidos. Temos liberais, ultra-liberais, conservadores, ultra-conservadores, e os do meio. Na política temos todos os valores concebíveis e inconcebíveis. Temos kantianos, schleiermacherianos e hegelianos; estes, por sua vez, estão divididos em dois grandes partidos: um que compreende aqueles que não se esforçaram para se tornar hegelianos, mas que são, apesar de tudo, hegelianos; outro que compreende aqueles que foram para além de Hegel, mas que são, apesar de tudo, hegelianos. O terceiro partido, os hegelianos genuínos, é muito pequeno. Temos cinco baptistas anti-crianças, sete baptistas, nove anabaptistas. Entre os baptistas há três que pensam que os adultos devem ser baptizados com água salgada, dois que pensam que devem ser baptizados com água doce, e um que faz a mediação entre as duas facções e insiste na água salobra. Temos dois straussianos. Temos um alfaiate que formou uma nova seita que consiste nele próprio e em dois aprendizes de alfaiate. Por algum tempo houve muito falatório de que teria ganho um terceiro discípulo de outra profissão, mas mesmo quando estava quase a capturá-lo houve uma disputa que levou o neófito a deixá-lo e a levar um dos aprendizes com ele, e a outra pessoa da outra profissão acabou também por desencantar uma nova fé. Neste preciso momento, em Pistolstrædet, é suposto alguém ter-se remetido à solidão para pensar numa nova religião, e as suas conclusões são expectantemente aguardadas nas ruas vizinhas [...]. O espírito partidário está por todo o lado. Brevemente, não haverá mão-de-obra suficiente para ter uma pessoa por cada partido. [...] Brevemente, bem que podemos acabar por ter de representar [cada um de nós] vários partidos, [...].»
Kierkegaard, Confissão Pública
(cf. Kierkegaard, The Corsair affair, tradução de Howard Hong e Edna Hong, Princeton: Princeton University Press, 1982, p. 6 ss.)
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
Pensamento positivo na narrativa da felicidade
A propósito da narrativa da felicidade
Uma narrativa enche hoje cada recanto da mentalidade padrão. Somos viciados na felicidade e na busca da felicidade. Quando não estamos a tentar mostrar ao mundo que o mundo não nos atinge, quando não estamos a tentar mostrar aos outros e a nós mesmos que ainda somos felizes, estamos a ler livros de auto-ajuda de um qualquer guru, seja actor, seja desportista, filósofo de pacotilha ou psicólogo de sofá. Ou então a devorar estudos científicos recentes que partem do princípio que todos aspiramos à felicidade e que todos devem querer ser felizes, ou a fazer uma festa para não fazer o luto, ou a beber para não pensar, ou a pensar para não sofrer. Ou então estamos a tomar antidepressivos, porque se não estivermos sempre felizes com certeza já não estamos vivos, não somos dignos de usar o tempo de vida. Nunca como hoje se acreditou tanto e tão cegamente no poder transformador do "pensamento positivo"... ao contrário de uma outra "evidência", já hoje esquecida, assassinada e cremada na gasolina da adrenalina do "parar é morrer" moderno, que era a certeza de que nada tem tanto poder para manter as coisas como sempre foram, para arrastar e adormecer do que, precisamente, o "pensamento positivo".
Uma narrativa enche hoje cada recanto da mentalidade padrão. Somos viciados na felicidade e na busca da felicidade. Quando não estamos a tentar mostrar ao mundo que o mundo não nos atinge, quando não estamos a tentar mostrar aos outros e a nós mesmos que ainda somos felizes, estamos a ler livros de auto-ajuda de um qualquer guru, seja actor, seja desportista, filósofo de pacotilha ou psicólogo de sofá. Ou então a devorar estudos científicos recentes que partem do princípio que todos aspiramos à felicidade e que todos devem querer ser felizes, ou a fazer uma festa para não fazer o luto, ou a beber para não pensar, ou a pensar para não sofrer. Ou então estamos a tomar antidepressivos, porque se não estivermos sempre felizes com certeza já não estamos vivos, não somos dignos de usar o tempo de vida. Nunca como hoje se acreditou tanto e tão cegamente no poder transformador do "pensamento positivo"... ao contrário de uma outra "evidência", já hoje esquecida, assassinada e cremada na gasolina da adrenalina do "parar é morrer" moderno, que era a certeza de que nada tem tanto poder para manter as coisas como sempre foram, para arrastar e adormecer do que, precisamente, o "pensamento positivo".
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
O estético como estádio natural do homem
A propósito do estádio estético
É muito comum os comentadores de Kierkegaard - sobretudo, os não especializados - descreverem o «estádio estético» como aquele em que «o homem se abandona à busca pelo prazer imediato». Esta descrição não é, de todo, apropriada. É certo que o prazer desempenha um papel importante no estádio estético, mas se fosse o prazer a característica definidora do estádio em causa (transversal a todas as suas desformalizações), então este chamar-se-ia «estádio hedonista», e não «estádio estético». Também não se trata apenas de haver nele a procura imediata da felicidade, caso em que se chamaria «estádio eudemonista».
Ou seja, não se deve confundir o estádio estético enquanto tal como uma, ou algumas das suas modulações, desformalizações possíveis, ou categorias. O prazer e a felicidade imediata são, de facto, duas categorias muito importantes no estádio estético, mas não é por isso que esse estádio se chama estético, nem é isso que o define como tal. O estádio estético é estético, precisamente, por ser «estético», no sentido técnico do termo: porque a exclusão das alternativas tem valência estética; ou, por outras palavras, porque as decisão tomadas pelo sujeito seguem as tensões de perseguição e de fuga imediatamente constituídas no sujeito.
Ou seja: aquilo que caracteriza a vida da maioria de nós, ou, talvez, de todos nós - é isso que define o estádio estético, o qual corresponde, para Kierkegaard, ao estado do «homem natural», àquilo que cada homem pode ser simplesmente em virtude daquilo que já encontra naturalmente constituído em si.
Ora, como a maioria de nós está neste estádio, quando tenta descrever o estádio estético, tem a tendência a defini-lo apenas por uma desformalização possível dele. Porque a maioria de nós dificilmente tem ângulo de visão para as alternativa ao estádio estético, ou seja, para os estádios ético e religioso, no sentido que Kierkegaard lhes atribui.
Por isso é que o estádio estético é o "estádio em que o indivíduo humano se encontra no início e na maioria das vezes": porque é o estádio em que o humano tem de começar a sua vida, e no qual a maioria dos indivíduos humanos se encontra toda a sua vida sem detectar que essa é apenas um modo, entre outros possíveis, de se estar na vida. Para a maioria, o estádio estético é, precisamente, tudo quanto a vida pode ser.
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