terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Kant e o mal e a culpa inatos

A propósito de mal radical...



Segundo Kant há o mal inato e radical (de raiz, originário), e há também uma culpa inata... E a tentação é lermos estes termos e interpretarmos o resto que ele diz por estes termos... Mas Kant não está a dizer em lado algum que há um mal no homem desde que nasce que o leva a cometer o mal, nem que já se nasce culpado...

O que Kant diz é mais ou menos isto:
Originariamente no humano há duas propensões, independentemente de quando o sujeito venha a tomar consciência delas... porque nós nascemos ainda bebés e tal...


Mas lá estão, originariamente, como constituintes do humano, duas propensões. Uma delas é o amor de si mesmo que tende para a felicidade e essas coisas que nós sabemos que a natureza quer. Desde cedo o sujeito parece entregue a este elemento da sua natureza. A outra é a propensão para o bem.

Bem, até aqui temos a consciência ingénua. Não temos propriamente mal, e também não há propriamente bem. Há duas propensões.

Então, estas duas propensões chocam. Não podem ser ambas satisfeitas. Surge a contradição para si. Surge, propriamente falando, a consciência moral... Note-se: sem o choque não havia contradição, sem contradição não havia mal nem bem... Ou seja, havia dois elementos que eram contrários em si mesmos, mas que só quando são postos no mesmo medium - a consciência - se tornam contrários para o sujeito e, então, é preciso decidir. Portanto, é pela constituição da contradição que o elemento do amor de si se torna mal porque está posto como contrário do bem, e vice-versa. E ao constituir-se a consciência enquanto contradição entre possibilidade de bem e possibilidade de mal o sujeito torna-se consciente de que é livre... Neste sentido constitui-se também a culpa inata...

Quer dizer, o sujeito não nasceu culpado, mas acontece que no momento em que se torna consciente -no sentido de consciência moral -, no momento em que se constitui a contradição, surge o mal como possibilidade e, por isso, como tentação e, neste sentido, o sentimento de culpa que a pessoa já sente só porque se sente tentado...

Assim, o mal é radical... é radical à liberdade porque desde que o sujeito toma consciência de ser livre encontra-se já sempre confrontado com a possibilidade do mal... e é por isso que há propriamente DEVER. Em Kant a santidade e a divindade - a existirem - não têm nenhum dever, nem nenhum imperativo, e isto é assim porque o seu querer já coincide per si mesmo com a lei... isto é, o seu querer não está cindido, não tem que fazer nenhum esforço para o bem. E isso quer dizer, também, que não há propriamente uma consciência... A santidade é uma espécie de genialidade que faz o bem naturalmente. Não há propriamente mérito nisso, nem há uma vontade boa no santo.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O intolerável não é um argumento

A propósito de Paris

O terror levou as pessoas a terem de falar, a comentar. O modo rápido e expedito como toda a gente se sentiu na obrigação de falar indicia que se tratou de falatório, porque a rapidez com que se comentou tornou evidente que não houve, verdadeiramente, qualquer reflexão profunda ou séria sobre o assunto. De repente, toda a gente soube qual é o verdadeiro problema e o que há a fazer. Não sei se sabem de facto ou não, mas a rapidez com que se falou mostra que se limitaram a aplicar ao que aconteceu os velhos cânones. Assim, interpreta-se o acontecimento novo com a mesma grelha de chavões e padrões de sempre, não importa o grau de choque que se sofreu. Não é de admirar, por isso, que ainda hoje se possam ouvir as mesmas confusões. A direita tenta compreender o que se passou na mesma lógica de sempre do outro v/s nós, do emigrante/nacional, do fechamento das fronteiras e exclusão. Deixa completamente de lado o facto de os terroristas serem franceses, nacionais franceses. A esquerda tenta compreender tudo na mesma lógica da integração, da falta de condições de vida, da falta de emprego. Fica completamente de fora o facto de este tipo de terrorismo - tal como o do 11 de Setembro - apresentar como traço verdadeiramente distintivo, precisamente, a integração, a capacidade de desaparecer na paisagem - bem como a detenção de capitais, de mão de obra qualificada, de formação académica. A nova estrutura terrorista tem estudos, tem dinheiro, tem até capacidade de manipular os mercados, e sabe usar as suas capacidades, sabe integrar-se, sabe passar despercebida, como um psicopata.

Os mal-entendidos são abstrusos. Perante o atentado, desatou-se a defender a liberdade de expressão, a actividade dos cartonistas, etc. Como se aqueles que morreram tivessem menos direito à vida se, porventura, não se dedicassem a uma actividade nobre em democracia. Ora, discutir a liberdade de expressão no contexto de um atentado terrorista só significa que se considerou o atentado terrorista como um argumento contra a liberdade de expressão.

A violência não é um argumento. Pode ter e tem efeitos reais, mas não porque é um argumento. Aliás, a maioria dos argumentos, como se sabe, não tem efeitos reais - ao contrário da violência. Mas o atentado não é um argumento contra a liberdade de expressão, não há nada para discutir neste aspecto: e se o discutimos só estamos a dar razão aos terroristas, pois estamos a admitir que, perante a violência, levantamos a questão, dando-lhes a sensação de que talvez um dia consigam que nós respondamos de modo diferente. Contudo, não se deve pensar que a "liberdade de expressão" não é discutível. É-o. Porém, não o é devido ao atentado.No contexto do atentado não se deve discutir a liberdade de expressão. A liberdade de expressão deve ser discutida, SIM, mas sempre livre deste tipo de coacção (ou te calas ou mato-te). Podemos discutir se o Charlie deve ferir susceptibilidades da maneira como o faz. Podemos discutir se a lei o deve permitir. Etc. Mas isto deve ser discutido SEM QUALQUER RELAÇÃO e SEM QUALQUER PRESSÃO vinda do terrorismo: o facto de a pessoa ferida na sua susceptibilidade resolver matar não é um argumento contra nem a favor da liberdade de ofender susceptibilidades. Caso contrário, ficaríamos na situação estranha de permitirmos que se ferissem as susceptibilidades de todos aqueles excepto de quem estivesse disposto a matar.

É normal que as pessoas elogiem o trabalho daqueles que morreram. Mas associar o atentado a este elogio, pretendendo mostrar que a grandeza do trabalho daqueles que morreram agrava o acto de violência, é absurdo. Imagine-se que alguém tem crenças fortes contra a prostituição e desata a matar prostitutas. Significa isto que devemos saltar em êxtase a defender a prostituição? Significa isto que o assassínio de prostitutas é menos grave do que o assassínio de cartonistas que pugnam pela liberdade e lutam contra o preconceito? NÃO e NÃO. No entanto, toda a gente desatou a gritar "Je suis Charlie". O que quer isto dizer? Que estamos a defender o que o Charlie faz? Mas nenhum argumento foi dito sobre isso. O que há é um acto de terror que foi praticado e que DEVE SER CONDENADO INDEPENDENTEMENTE de ter sido praticado contra o Charlie ou contra uma prostituta, ou contra um qualquer outro indiscriminado. (Para evitar equívocos, devo dizer que sou totalmente defensor da ironia aguda do Charlie - o ponto é que isto é irrelevante: mesmo que se tratasse da pior espécie de jornalismo, o terrorismo seria condenável. Mas isto também não quer dizer que a liberdade de expressão deva ser absoluta: será que deveríamos tolerar um jornal que defendesse o terrorismo?).

O que nos deveria preocupar é saber em que medida seremos capazes de resistir à tentação de erguer barreiras, de condenar o Islão como um todo, de atacar os islâmicos só por serem islâmicos, de nos tornarmos, nós próprios, naquilo que condenamos. O perigo não é que o ataque terrorista nos leve a reduzir a liberdade dos jornais, mas sim que nos leve a reduzir a liberdade em geral sob a pressão para a segurança. O perigo é que o atentado produza de facto medo e que CEDAMOS ao medo, cortando a liberdade, a democracia, e passemos a discriminar, a controlar abusivamente. O perigo é que o medo nos leve a instalar um estado ditatorial. É aí que o terror vence. Se não resistirmos à tentação de condenar o outro, de erguer fronteiras, de excluir.

Um último ponto: tem-se dito que deve haver colaboração internacional entre serviços de informação, e tem-se insistido na ideia de que deve ser apertado o controlo de informação por parte dos serviços secretos. Ora, aqui está a tendência para ceder ao medo, para criar um estado securitário em detrimento da democracia, para sacrificar a liberdade em nome da segurança. É um facto que se tem de pensar no assunto. Contudo, não é evidente que o problema tenha residido numa falta de informação. Na verdade, parece que os terroristas estavam referenciados e nada se fez. Não faltou informação. Faltou outra coisa. E não foi um problema de fronteiras em si, nem de imigração, nem de integração.

Mas há um aspecto disto que deve ser tido em conta: se alguém decide ir para o Estado Islâmico, lá onde se cortam cabeças e queimam pessoas vivas, e depois regressa, alguma coisa tem de mudar no modo como lhe é permitido estar cá. Quer dizer, isto, pelo menos, deve estar mais ou menos claro: decidir integrar o Estado Islâmico não é o mesmo que decidir jogar PC, ou xadrez. A decisão de integrar o Estado Islâmico não é uma decisão revogável, da qual se possa voltar para trás. Pode acontecer, de facto, que alguém se arrependa, mas isto não impede esta constatação: a decisão de se tornar parte de algo como o Estado Islâmico envolve uma nível de convicção, de esforço, de compromisso com algo que é de tal modo extremo, intolerável, inumano, que tem de ter consequências. Não se pode simplesmente aceitar que alguém que foi para o Estado Islâmico estagiar possa simplesmente voltar como se tudo não tivesse passar de um sonho - pois, caso contrário, arriscamo-nos a ser acordados da pior maneira.










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