domingo, 19 de novembro de 2017

Sem-abrigo por opção

A propósito de Natal (2017)

Sem-abrigo por opção:
«Jorge Toledo, de 50 anos, deixou a ilha Terceira, nos Açores, em setembro de 2009. Para trás ficaram a família, com duas filhas, e um emprego estável como eletricista na empresa Eletricidade dos Açores (EDA). Sentiu-se "chateado com a sociedade" e decidiu "vir fazer vida de sem-abrigo"». (fonte: https://www.rtp.pt/noticias/politica/sem-abrigo-de-lisboa-fazem-biscates-atraves-dos-cacifos-solidarios_n769990)


Fenómeno conhecido desde a Antiguidade, teve diversos enquadramentos sociais ao longo dos séculos, mas trata-se sempre da mesma situação: pessoas que decidem livremente deixar para trás toda a riqueza, abandonar a sua função (trabalho, emprego, etc.), a sua família, os seus bens e, em muitos casos, até a sua comunidade, vila, aldeia, cidade ou país, e passar a viver sem casa ou ligações fixas à sociedade, na situação que hoje em dia reconhecemos como de "sem-abrigo", mas que ao longo do tempo recebeu denominações e conotações muito diferentes, nem sempre pejorativas ou marginalizantes.


Buda e Jesus são, provavelmente, os dois casos mais conhecidos, por razões óbvias, mas entre filósofos e religiosos podem encontrar-se bastantes exemplos. Contudo, este fenómeno não se limita, de modo nenhum, aos filósofos e religiosos, mas também entre o comum dos mortais, e até entre os que pertencem às classes mais ricas e poderosas, desde sempre parece ter existido quem decidisse abandonar tudo e viver sem posses ou ligações sociais e familiares típicas.

sábado, 18 de novembro de 2017

O Dia da Filosofia e a ânsia da servidão

A propósito da Utilidade da Filosofia

Este ano, o dia da Filosofia voltou a fazer levantar-se a ânsia de alguns "filósofos" para mostrar ao mundo que a Filosofia é útil. Nesta ânsia de provar que a Filosofia é útil ao mundo, à sociedade, ao país, à educação, ao mercado de trabalho, um sujeito quase dá por si a convencer-se de que a Filosofia é assim como uma espécie de canivete suíço, ao qual só falta mesmo ser capaz de descascar batatas e descaroçar azeitonas.

Arendt, num artigo chamado Pensamento e Considerações Morais, sobre a importância do pensamento - e Arendt pensava que o pensamento era, de facto, muito importante - começa logo por despachar a questão da utilidade do pensamento esclarecendo que o pensamento não serve para nada. Não serve para nada, é absolutamente inútil. E, apesar disso, pode revelar-se absolutamente decisivo.
Ora, a mais crua das verdades é, precisamente, a de que a Filosofia não serve para nada. E, para ser honesto, não sei se consigo levar a sério um filósofo que defenda a utilidade da filosofia. A verdade é que a Filosofia não serve mesmo para nada. E um filósofo que queira provar o contrário deve ter-se enganado na profissão. É melhor que se dedique a coisas mais úteis, sei lá, talvez a cozinhar, a criar empresas, a produzir mais valias, qualquer coisa, desde que deixe a Filosofia antes que a transforme num descascador de batatas.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Provas da "existência"

A propósito do Dia da Filosofia...

«acontece que ao ver, alguém se apercebe de que vê, ou que ao escutar, alguém se apercebe de que escuta, ou ainda que ao caminhar, alguém se apercebe de que caminha e assim de modo semelhante no que respeita a todas as outras actividades - parece então haver algo que nos permite apercebermo-nos de que nos cumprimos em tais possibilidades quando as accionamos. Ou seja, apercebemo-nos de que accionamos a capacidade perceptiva e apercebemo-nos de que accionamos o poder compreensivo. [...] apercebermo-nos do facto de percepcionarmos ou apercebermo-nos do facto de compreendermos é apercebermo-nos do facto de existirmos (porque existir é desde sempre perceber ou compreender)»

Aristóteles, Ética a Nicómaco,1170a25ss


«Efectivamente, somos e sabemos que somos e amamos esse ser e esse conhecer. [...] é coisa absolutamente certa que sou, que conheço e que amo. [...] Pois se me enganar, existo. Realmente, quem não existe de modo nenhum se pode enganar. Por isso, se me engano é porque existo. Portanto, se existo se me engano, como poderei enganar-me sobre se existo, quando é certo que existo quando me engano?»
Santo Agostinho, A Cidade de Deus, XI, XXVI


«eu existo sem dúvida alguma se me persuadi ou se simplesmente pensei algo. [Ainda que] um qualquer [Deus] poderosíssimo e manhosíssimo embusteiro empregue toda a sua indústria a enganar-me sempre. Portanto, não há dúvida de que existo se ele me engana; e ele que me engane quanto quiser, pois nunca conseguirá fazer com que eu nada seja enquanto eu pensar ser algo»
Descartes, As Meditações Metafísicas, 2ª Meditação, 4

A filosofia é uma obsessão compulsiva

A propósito do Dia da Filosofia

Filosofia «significa uma obsessão compulsiva».
António Caeiro, ao minuto 03:35


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Arbitrariedade e moral

A propósito da arbitrariedade da moralidade externa

Na natureza, o infanticídio é uma prática comum para garantir a sobrevivência de uma espécie.

De facto, há vários estudos sobre o infanticídio nos animais, incluindo mamíferos, mesmo primatas e até entre chimpanzés - os animais que, do ponto de vista genético, mais próximos estão dos homens.

Na verdade, também entre os humanos o infanticídio parece ter sido uma prática comum em tempos idos - do que parecem ser testemunhos alguns mitos que ainda hoje conhecemos.

Certas tribos ainda hoje existentes praticam o infanticídio segundo critérios validados por longas tradições.

Um estudo mais aprofundado permitir-nos-á confirmar que, entre os humanos, os motivos que poderiam determinar a morte de um infante poderiam ser muito variados, nem sempre associados à mal-formação física, a qualquer deficiência ou fraqueza - características que, no mundo animal, parecem andar associadas ao infanticídio, embora nem sempre. 

Para um povo era normal matar os primeiros dois filhos, para outro era regra matar os bebés que tivessem o azar de lhes nascer primeiro os dentes superiores. Enfim, quaisquer que sejam as características físicas que nos definam, provavelmente encontraremos em nós uma que, num ou noutro povo, numa ou noutra época, nos teria condenado à morte simplesmente por termos nascido com ela.

Mas o infanticídio chegou a assumir dimensões de massacre. Algumas civilizações realizavam rituais religiosos que incluíam o sacrifício de milhares de crianças de uma só vez. Nem sempre as crianças sacrificadas eram entregues a este destino por terem perdido alguma guerra, ou por serem consideradas etnicamente inferiores. Por vezes, as vítimas sacrificadas eram, justamente, consideradas melhores e privilegiadas.

Tudo isto sugere que a moralidade externa é intrinsecamente arbitrária.
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