sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Pensar de forma crítica

A propósito de pensamento crítico

Um conjunto considerável de pessoas julga que pensar de forma crítica significa negar qualquer coisa que pareça científico.
Por exemplo, se a ciência diz que a Terra é redonda, então, pensar de forma crítica é acreditar que ela é plana. Se a ciência diz que as vacinas são benéficas, então, pensar de forma crítica é acreditar que elas são prejudiciais. Se a ciência diz que há alterações climáticas provocadas pelos homens, então, pensar de forma crítica é negar as alterações climáticas, ou negar que sejam provocadas pelos homens.


Este tipo de pensamento reproduz-se como os coelhos e atinge todas as áreas. Aqueles que o praticam consideram que o facto de estarem a negar uma posição cientificamente consolidada já significa que estão a pensar criticamente.

Como este tipo de pensamento, por força do seu próprio funcionamento, tem de negar a validade das evidências científicas, estipula como dogma que a investigação científica está sempre comprada e enviesada. Não interessa quais e quantas sejam as evidências científicas disponíveis, pois se são evidências científicas, então, não merecem crédito algum. 

Em contrapartida, qualquer fonte que não seja científica tem a sua validade assegurada: ler a sina, astrologia, o sacerdote da igreja das caixas de sapatos ao luar, as nuvens, os ditados populares, o "instinto" (sic), o sentimento, a sabedoria dos avós, a sabedoria das revistas, a sabedoria do twitter, o doutor que aparece no anúncio das televendas, a senhora que usa uma varinha mágica nas manhãs da tv, o Herói líder político que vem salvar a pátria, e muitas outras fontes muito mais sérias, rigorosas e confiáveis do que a ciência!!!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Há culturas que são superiores a outras

A propósito da superioridade de uma cultura em relação a outra


Sim, homens de diversas culturas usam lentes diferentes... Esse argumento é antigo e comum, sobretudo, nas ciências humanas, como a Antropologia e a Sociologia, ou até mesmo na Filosofia... mas não se segue da existências das diferentes culturas que estas configurem diferentes perspectivas igualmente válidas. Porque isso só será o caso se não houver um critério independente das mesmas pelas quais estas possam ser medidas, e o facto de haver várias culturas não impede que tal critério possa ser estabelecido. Ou seja, o facto de haver várias culturas, e a possibilidade de haver um padrão de medida independente, não são termos mutuamente exclusivos.

Neste particular, a Psicologia moral, a Antropologia e a Antropologia Moral, têm apresentado argumentos interessantes. Argumentos que sugerem a possibilidade de haver algo como um substracto moral comum.

Para evitar equívocos, admitir que há culturas superiores a outras não implica rejeitar que uma cultura X superior a uma cultura Y também tenha aspectos condenáveis. A cultura X pode ser, em geral, superior à Y, mas também ter aspectos condenáveis. E pode até acontecer que Y seja superior a X em certos aspectos. A cultura X pode ser globalmente superior a Y sem ser superior em todos os aspectos.

Pode-se admitir que uma cultura é inferior a outra e, simultaneamente, reconhecer nela aspectos interessantes e valorizáveis: mas, justamente, reconhecemos estes aspectos interessantes (como as tribos que respeitam os homossexuais, ou aquelas que tratam com reverência os animais e a natureza), e os aspectos condenáveis (como o canibalismo, ou a exploração de homens por homens), em virtude de algum critério.

Não digo que esteja absolutamente convencido que existam culturas superiores a outras. Mas sou sensível ao reconhecimento de que o aspecto cultural do canibalismo, ou da escravatura, ou da inferiorização da mulher são aspectos que inferiorizam uma cultura, seja esta qual for, seja a nossa, seja qualquer outra - e este reconhecimento de que há aspectos culturais inferiores a outros aspectos culturais que são superiores leva, logicamente, à admissão da existência de culturas superiores e culturas inferiores, pois seria altamente improvável que as culturas tivessem todas aspectos superiores, e aspectos inferiores exactamente na mesma proporção.

Portanto, pode dizer-se que devem existir culturas que são globalmente superiores a outras em virtude da qualidade dos seus aspectos culturais. Evidentemente, esta determinação pode ser difícil, em razão das dificuldades que este tipo de avaliações sempre têm, como seja o problema da quantidade versus qualidade. Mas, a sugestão mantém-se: há culturas superiores a outras.

domingo, 9 de junho de 2019

Amor de mãe e outras estórias

A propósito da Roda dos Enjeitados


A Roda dos Expostos era um mecanismo de adopção popular na Europa a partir do século XIII. Tratava-se de um mecanismo cilíndrico que permitia que as mães deixassem os bebés lá dentro sem serem vistas por quem os recebia ao fazer rodar o cilindro. Quer dizer, o mecanismo permitia que as mães abandonassem os filhos sem que fossem vistas por quem recebia os bebés.
Aparentemente, a Roda foi introduzida devido às taxas altíssimas de bebés que eram deliberadamente mortos pelas próprias mães. Ao aperceber-se do enorme número de bebés encontrados afogados no Rio Tibre, o Papa Inocêncio III ordenou a instalação do dispositivo na tentativa de que as mães nele depositassem os bebés em vez de os matarem.
Por consequência, as autoridades estavam proibidas de investigarem quem abandonara os bebés, para evitar que as mães, com receio de serem descobertas, continuassem a prática de os matar.
Em complemento ao dispositivo, havia depois uma pequena ajuda a quem recolhesse bebés para cuidar deles ou para os adoptar. Uma ajuda mais substancial, ou um processo mais agilizado, poderia ser concedida às amas de leite.
Desta forma, algumas mães começaram a fazer batotice. De facto, algumas descobriram que podiam depositar o seu recém-nascido na Roda e, depois, recolher outro para, deste modo, receberem a ajuda concedida. Ou seja, a mãe abandonava o seu filho e depois recolhia um bebé que não era seu filho biológico e para receber um rendimento em troca de lhe dar leite do seu peito.
Apesar do dispositivo ter reduzido as mortes por parte das mães, a verdade é que, ao longo dos muitos séculos, nunca foi capaz de reduzir de modo realmente significativo a mortalidade infantil. Os bebés não eram mortos pelas mães, mas passaram a ser mortos por aquelas que os iam buscar. Uma prática comum era ir buscar um bebé para receber a ajuda em causa e, depois, matá-lo para poder ir recolher outro.
De resto, a verdade é que os infanticídios cometidos por mães continuaram a ser muitos. Numa época em que as mulheres só eram maiores de idade depois dos 25 anos, e que os neo-natos não eram considerados humanos, o crime de infanticídio foi sempre levemente penalizado. Mais tarde, já no Iluminismo, até passou a ter atenuantes.
A Roda conseguia que as mães não matassem tanto, mas ainda matavam muitos; e, normalmente, metade daqueles que eram entregues à Roda morriam na própria instituição. A grande maioria dos que chegavam a ser recolhidos também não duravam muito. E isto pode ser confirmado ao longo de séculos, pelo menos, do século XIII ao XIX.

domingo, 28 de abril de 2019

Para que serve filosofia?

A propósito da utilidade da Filosofia

Para que serve filosofia? A resposta de Aristóteles, há mais de 2000 anos, já era que não serve para nada. 
Por vezes há aqueles que procuram mostrar a utilidade da filosofia. Mas isso é um erro, e o maior atentado contra a própria filosofia. A característica mais importante da filosofia consiste, precisamente, na sua capacidade de se manter inútil.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Hoje temos sociedades mais libertadoras?

A propósito de costumes libertadores...

Os homens gostam de amarras. Vivem mal sem elas. Antes preferem o stress das amarras do que a angústia da liberdade.
Diz-se que hoje a sexualidade na adolescência é mais libertadora, porque antigamente era preciso casar para ter relações sexuais e hoje não é assim. No entanto, a verdade é que, antigamente, havia uma pressão para a preservação da virgindade, enquanto hoje um adolescente que ainda é virgem sofre de bullying por parte dos seus pares. Não houve libertação. Nunca há libertação na sociedade, na multidão, na massa.
Nunca há libertação nos costumes. Os costumes nunca se tornam libertadores. Quando um costume parece libertador isso apenas significa que já está incorporado e ainda não produziu um efeito de reacção, por isso, não o sentimos como diferente de nós. Um costume libertador é apenas um costume com o qual ainda estamos conciliados: mas possa o sujeito querer opôr-se-lhe e aí dar-se-á imediatamente conta de que a amarra está lá.
O que há não é libertação, mas apenas mudança de amarras. Por vezes até inversão, como neste caso: antes havia pressão para a preservação da virgindade, hoje há pressão para perder a virgindade.
O costume é sempre uma força de pressão. É apenas ilusão a ideia de que hoje temos costumes libertadores. Temos apenas outras amarras. E algumas amarras que se disfarçam melhor. Que são melhores a produzir stress sem denunciarem o ponto em que a força é aplicada.
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