domingo, 27 de outubro de 2019

Das ovelhas, das cabras e do Bonifácio

A propósito de conformismo v/s rebeldia.




Um dos animais mais teimosos que existe deve ser a cabra. Se a puxamos para a frente ela puxa para trás, se a empurramos para trás ela empurra para a frente.
Nisto, a cabra está no extremo oposto da ovelha, o animal mais seguidista que se conhece.
E aqui está. Parecem opostos, a cabra, sempre do contra, e a ovelha, sempre conforme.
Mas as ovelhas, por vezes, formam rebanhos mais pequenos. Estes rebanhos mais pequenos têm a sua autonomia e afastam-se do grande. Às vezes há uma ou outra ovelha que abandona um rebanho e passa a correr para o outro: vai sempre a correr como se não quisesse ser apanhada no hiato, naquele instante em que já não é um dos rebanhos, mas também ainda não é o outro. A ovelha precisa de um rebanho para ser ovelha. Uma ovelha sem rebanho não existe.
As cabras não são nada assim. Quando menos se espera vamos dar com uma cabra tresmalhada nas couves enquanto as outras fazem de conta que está tudo normal. Enquanto vamos buscar a cabra tresmalhada há sempre outra que aproveita para se meter nos nabos enquanto não estávamos a olhar.
Depois há o gato Bonifácio. O gato Bonifácio está-se nas tintas para os outros - sejam gatos ou não. E também não é aconselhável deixar sardinhas em cima da mesa. Contudo, não é propriamente um rebelde, a julgar pelo formato rechonchudo que foi desenvolvendo nas longas sestas à lareira. Mas também ninguém se lembraria de lhe chamar um seguidista. A última coisa de que o gato Bonifácio se lembraria seria de se levantar da sua alcofa para seguir quem quer que seja. Nunca ninguém sabe muito bem o que o Bonifácio está a pensar, mas de certo nenhuma rebeldia lhe atormenta o espírito pachorrento, nem nenhum seguidismo estimula a sua placidez.
Diferente da ovelha, da cabra e do Bonifácio, há a subjectividade humana, a que desde Sócrates se chama pensar por si mesmo. Sócrates achava que o decisivo estava aí, em pensar por si mesmo, mas primeiro era preciso que um sujeito soubesse o que ele mesmo é exactamente. Sócrates estava às avessas de tudo quanto hoje tendemos a pensar. Nós pensamos assim: bem, já que é preciso andar é preciso ir para algum lugar, convém ter um destino, por isso, vou escolher um e, depois, caminho para lá. A coisa parece óbvia. Pensamos o futuro à nossa frente connosco a caminhar para o futuro que está à nossa frente.
Mas os gregos pensavam-se virados para o passado e a caminhar de costas para o futuro. Caminhavam de costas para o futuro, pois, como é evidente, ninguém vê o futuro, por isso é preciso ter um ponto fixo a partir do qual caminhar. É exactamente o oposto de nós.
Para Sócrates era preciso, primeiro, fixar o ponto de partida. E isto nada tem que ver com a dicotomia conformismo v/s rebeldia. Trata-se de ser alguém em concreto, definido. E não uma forma abstracta: uma ovelha que segue alguma coisa, uma cabra que está sempre do contra, ou com os olhos nas couves, um gato Bonifácio que se borrifa para os outros.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Da Internet

A propósito dos tempos que correm...


Houve um tempo em que as pessoas seguiam a moda como as ovelhas o rebanho. Mas graças à Internet vivemos num tempo em que as pessoas dizem seguir a moda que o rebanho diz seguir, mas de tal modo que nem as pessoas, nem o rebanho seguem de facto aquilo que se tornou moda dizer que se segue.

A ovelha está sentada no sofá a tratar da sua lã, mas no Facebook é a primeira a esfolar o lobo com as próprias mãos. O rebanho, entretanto, anda nas couves.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Pensar de forma crítica

A propósito de pensamento crítico

Um conjunto considerável de pessoas julga que pensar de forma crítica significa negar qualquer coisa que pareça científico.
Por exemplo, se a ciência diz que a Terra é redonda, então, pensar de forma crítica é acreditar que ela é plana. Se a ciência diz que as vacinas são benéficas, então, pensar de forma crítica é acreditar que elas são prejudiciais. Se a ciência diz que há alterações climáticas provocadas pelos homens, então, pensar de forma crítica é negar as alterações climáticas, ou negar que sejam provocadas pelos homens.


Este tipo de pensamento reproduz-se como os coelhos e atinge todas as áreas. Aqueles que o praticam consideram que o facto de estarem a negar uma posição cientificamente consolidada já significa que estão a pensar criticamente.

Como este tipo de pensamento, por força do seu próprio funcionamento, tem de negar a validade das evidências científicas, estipula como dogma que a investigação científica está sempre comprada e enviesada. Não interessa quais e quantas sejam as evidências científicas disponíveis, pois se são evidências científicas, então, não merecem crédito algum. 

Em contrapartida, qualquer fonte que não seja científica tem a sua validade assegurada: ler a sina, astrologia, o sacerdote da igreja das caixas de sapatos ao luar, as nuvens, os ditados populares, o "instinto" (sic), o sentimento, a sabedoria dos avós, a sabedoria das revistas, a sabedoria do twitter, o doutor que aparece no anúncio das televendas, a senhora que usa uma varinha mágica nas manhãs da tv, o Herói líder político que vem salvar a pátria, e muitas outras fontes muito mais sérias, rigorosas e confiáveis do que a ciência!!!

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Há culturas que são superiores a outras

A propósito da superioridade de uma cultura em relação a outra


Sim, homens de diversas culturas usam lentes diferentes... Esse argumento é antigo e comum, sobretudo, nas ciências humanas, como a Antropologia e a Sociologia, ou até mesmo na Filosofia... mas não se segue da existências das diferentes culturas que estas configurem diferentes perspectivas igualmente válidas. Porque isso só será o caso se não houver um critério independente das mesmas pelas quais estas possam ser medidas, e o facto de haver várias culturas não impede que tal critério possa ser estabelecido. Ou seja, o facto de haver várias culturas, e a possibilidade de haver um padrão de medida independente, não são termos mutuamente exclusivos.

Neste particular, a Psicologia moral, a Antropologia e a Antropologia Moral, têm apresentado argumentos interessantes. Argumentos que sugerem a possibilidade de haver algo como um substracto moral comum.

Para evitar equívocos, admitir que há culturas superiores a outras não implica rejeitar que uma cultura X superior a uma cultura Y também tenha aspectos condenáveis. A cultura X pode ser, em geral, superior à Y, mas também ter aspectos condenáveis. E pode até acontecer que Y seja superior a X em certos aspectos. A cultura X pode ser globalmente superior a Y sem ser superior em todos os aspectos.

Pode-se admitir que uma cultura é inferior a outra e, simultaneamente, reconhecer nela aspectos interessantes e valorizáveis: mas, justamente, reconhecemos estes aspectos interessantes (como as tribos que respeitam os homossexuais, ou aquelas que tratam com reverência os animais e a natureza), e os aspectos condenáveis (como o canibalismo, ou a exploração de homens por homens), em virtude de algum critério.

Não digo que esteja absolutamente convencido que existam culturas superiores a outras. Mas sou sensível ao reconhecimento de que o aspecto cultural do canibalismo, ou da escravatura, ou da inferiorização da mulher são aspectos que inferiorizam uma cultura, seja esta qual for, seja a nossa, seja qualquer outra - e este reconhecimento de que há aspectos culturais inferiores a outros aspectos culturais que são superiores leva, logicamente, à admissão da existência de culturas superiores e culturas inferiores, pois seria altamente improvável que as culturas tivessem todas aspectos superiores, e aspectos inferiores exactamente na mesma proporção.

Portanto, pode dizer-se que devem existir culturas que são globalmente superiores a outras em virtude da qualidade dos seus aspectos culturais. Evidentemente, esta determinação pode ser difícil, em razão das dificuldades que este tipo de avaliações sempre têm, como seja o problema da quantidade versus qualidade. Mas, a sugestão mantém-se: há culturas superiores a outras.

domingo, 9 de junho de 2019

Amor de mãe e outras estórias

A propósito da Roda dos Enjeitados


A Roda dos Expostos era um mecanismo de adopção popular na Europa a partir do século XIII. Tratava-se de um mecanismo cilíndrico que permitia que as mães deixassem os bebés lá dentro sem serem vistas por quem os recebia ao fazer rodar o cilindro. Quer dizer, o mecanismo permitia que as mães abandonassem os filhos sem que fossem vistas por quem recebia os bebés.
Aparentemente, a Roda foi introduzida devido às taxas altíssimas de bebés que eram deliberadamente mortos pelas próprias mães. Ao aperceber-se do enorme número de bebés encontrados afogados no Rio Tibre, o Papa Inocêncio III ordenou a instalação do dispositivo na tentativa de que as mães nele depositassem os bebés em vez de os matarem.
Por consequência, as autoridades estavam proibidas de investigarem quem abandonara os bebés, para evitar que as mães, com receio de serem descobertas, continuassem a prática de os matar.
Em complemento ao dispositivo, havia depois uma pequena ajuda a quem recolhesse bebés para cuidar deles ou para os adoptar. Uma ajuda mais substancial, ou um processo mais agilizado, poderia ser concedida às amas de leite.
Desta forma, algumas mães começaram a fazer batotice. De facto, algumas descobriram que podiam depositar o seu recém-nascido na Roda e, depois, recolher outro para, deste modo, receberem a ajuda concedida. Ou seja, a mãe abandonava o seu filho e depois recolhia um bebé que não era seu filho biológico e para receber um rendimento em troca de lhe dar leite do seu peito.
Apesar do dispositivo ter reduzido as mortes por parte das mães, a verdade é que, ao longo dos muitos séculos, nunca foi capaz de reduzir de modo realmente significativo a mortalidade infantil. Os bebés não eram mortos pelas mães, mas passaram a ser mortos por aquelas que os iam buscar. Uma prática comum era ir buscar um bebé para receber a ajuda em causa e, depois, matá-lo para poder ir recolher outro.
De resto, a verdade é que os infanticídios cometidos por mães continuaram a ser muitos. Numa época em que as mulheres só eram maiores de idade depois dos 25 anos, e que os neo-natos não eram considerados humanos, o crime de infanticídio foi sempre levemente penalizado. Mais tarde, já no Iluminismo, até passou a ter atenuantes.
A Roda conseguia que as mães não matassem tanto, mas ainda matavam muitos; e, normalmente, metade daqueles que eram entregues à Roda morriam na própria instituição. A grande maioria dos que chegavam a ser recolhidos também não duravam muito. E isto pode ser confirmado ao longo de séculos, pelo menos, do século XIII ao XIX.
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