sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Sexta-feira treze e os cátaros

A propósito do azar da sexta-feira treze

Como todas as superstições, parece difícil traçar até à origem a crença de que a sexta-feira treze é um dia particularmente azarento. De facto, misturam-se muitos mitos e histórias.

Por um lado, o próprio número 13 já está marcado por uma carga negativa. Na nossa cultura, parece ter pesado especialmente que na última ceia estivessem 13 indivíduos à mesa: os doze, mais Jesus.
Mas isso não explica a carga da sexta-feira.

Por outro lado, Jesus parece ter sido morto numa sexta-feira, o que pode explicar a negatividade associada à sexta-feira.

No entanto, estes aspectos, verdadeiros ou não, parecem não explicar a conotação da sexta-feira treze.

Ora, já faz parte da cultura popular associar a origem desta superstição ao episódio que condenou os Templários ao desaparecimento. De facto, a 13 de Outubro de 1307, sexta-feira, a Ordem dos Templários foi declarada ilegal. Perseguidos, torturados e executados, este acontecimento pode ter marcado a mentalidade das pessoas que viram uma ordem tão poderosa ser incapaz de escapar ao extermínio por meios violentos e cruéis.

Mas, aparentemente, a sexta-feira treze já estava negativamente marcada quando os Templários foram ilegalizados. Aliás, os episódios mais cruéis e marcantes da perseguição aos Templários não sucederam nessa sexta-feira, mas depois disso.

No entanto, foi numa sexta-feira, dia 13, de maio de 1239, que pelo menos 183 cátaros, homens e mulheres, foram queimados, às mãos da Santa Inquisição, na Champanhe. O episódio foi o primeiro de uma série de atrocidades e massacres, dos quais o de Montségur é o mais conhecido. E esse episódio ocorreu numa sexta-feira treze em que 183 cátaros foram queimados. Apesar de este acontecimento ter, de algum modo, caído no esquecimento popular, parece ter deixado uma ideia clara nas mentalidades: que a sexta-feira treze não é dia de boa sorte. Ideia que pode ter sido fortalecida por outros acontecimentos posteriores, como a perseguição dos Templários, tal como por outros acontecimentos e crenças anteriores, tal como o número de pessoas à mesa da última ceia de Jesus.
Assim - ou de outra maneira semelhante - se constroem mitos e superstições.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Pensamento positivo na narrativa da felicidade

A propósito da narrativa da felicidade



Uma narrativa enche hoje cada recanto da mentalidade padrão. Somos viciados na felicidade e na busca da felicidade. Quando não estamos a tentar mostrar ao mundo que o mundo não nos atinge, quando não estamos a tentar mostrar aos outros e a nós mesmos que ainda somos felizes, estamos a ler livros de auto-ajuda de um qualquer guru, seja actor, seja desportista, filósofo de pacotilha ou psicólogo de sofá. Ou então a devorar estudos científicos recentes que partem do princípio que todos aspiramos à felicidade e que todos devem querer ser felizes, ou a fazer uma festa para não fazer o luto, ou a beber para não pensar, ou a pensar para não sofrer. Ou então estamos a tomar antidepressivos, porque se não estivermos sempre felizes com certeza já não estamos vivos, não somos dignos de usar o tempo de vida. Nunca como hoje se acreditou tanto e tão cegamente no poder transformador do "pensamento positivo"... ao contrário de uma outra "evidência", já hoje esquecida, assassinada e cremada na gasolina da adrenalina do "parar é morrer" moderno, que era a certeza de que nada tem tanto poder para manter as coisas como sempre foram, para arrastar e adormecer do que, precisamente, o "pensamento positivo".

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O estético como estádio natural do homem

A propósito do estádio estético


É muito comum os comentadores de Kierkegaard - sobretudo, os não especializados - descreverem o «estádio estético» como aquele em que «o homem se abandona à busca pelo prazer imediato». Esta descrição não é, de todo, apropriada. É certo que o prazer desempenha um papel importante no estádio estético, mas se fosse o prazer a característica definidora do estádio em causa (transversal a todas as suas desformalizações), então este chamar-se-ia «estádio hedonista», e não «estádio estético». Também não se trata apenas de haver nele a procura imediata da felicidade, caso em que se chamaria «estádio eudemonista».

Ou seja, não se deve confundir o estádio estético enquanto tal como uma, ou algumas das suas modulações, desformalizações possíveis, ou categorias. O prazer e a felicidade imediata são, de facto, duas categorias muito importantes no estádio estético, mas não é por isso que esse estádio se chama estético, nem é isso que o define como tal. O estádio estético é estético, precisamente, por ser «estético», no sentido técnico do termo: porque a exclusão das alternativas tem valência estética; ou, por outras palavras, porque as decisão tomadas pelo sujeito seguem as tensões de perseguição e de fuga imediatamente constituídas no sujeito.
Ou seja: aquilo que caracteriza a vida da maioria de nós, ou, talvez, de todos nós - é isso que define o estádio estético, o qual corresponde, para Kierkegaard, ao estado do «homem natural», àquilo que cada homem pode ser simplesmente em virtude daquilo que já encontra naturalmente constituído em si.

Ora, como a maioria de nós está neste estádio, quando tenta descrever o estádio estético, tem a tendência a defini-lo apenas por uma desformalização possível dele. Porque a maioria de nós dificilmente tem ângulo de visão para as alternativa ao estádio estético, ou seja, para os estádios ético e religioso, no sentido que Kierkegaard lhes atribui.

Por isso é que o estádio estético é o "estádio em que o indivíduo humano se encontra no início e na maioria das vezes": porque é o estádio em que o humano tem de começar a sua vida, e no qual a maioria dos indivíduos humanos se encontra toda a sua vida sem detectar que essa é apenas um modo, entre outros possíveis, de se estar na vida. Para a maioria, o estádio estético é, precisamente, tudo quanto a vida pode ser.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Da raposa, das uvas e do humano

A propósito da precisão de ter uma impressão de si genuína...

É o ser humano que é assim como à raposa da estória...

Ao perceber que as uvas estão muito altas a raposa convence-se de que estão verdes, o que, por sua vez, alivia a tensão, pois a pressão para as alcançar desaparece. Ou seja, desistir das uvas tem um efeito parecido ao que teria chegar às uvas, visto que descomprime a vontade da raposa. É certo que o efeito não é exactamente o mesmo, pois, afinal, não conseguiu gozar do prazer de saborear as uvas. Mas, por outro lado, ao direccionar a sua atenção para fitos mais à-mão, a raposa abriu todo um novo horizonte de possibilidades: é certo que não chegará a saborear as uvas, mas, em compensação, poderá saborear muitos outros frutos rasteiros que imediatamente lhe surgirão pela frente aliciando-a a curvar-se, a curvar-se cada vez mais até que acabará, certamente, a comer batatas e outras iguarias subterrâneas.

Assim é o humano, nas palavras de Kierkegaard: "os homens têm uma maior impressão das vacas do que de si mesmos".

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Estado de Banalidade - em Kierkegaard

A propósito da noção de numérico, segundo Kierkegaard

O "numérico" refere-se ao indivíduo que se deixa reger, e deixa guiar-se na sua vida, por determinações universais. Por exemplo, pela "comunidade", pelo "Estado", pela "espécie".Quando o indivíduo assume para si o regime «numérico» da existência torna-se uma simples cópia do universal: a identidade da cópia define-se pela sua pertença ao universal. O indivíduo é compreendido e compreende-se a si mesmo a partir de determinações universais: pai, filho, médico, cristão, etc. O ponto é que, de cada vez, o sujeito interpreta-se a partir de um universal, quer seja sempre o mesmo, quer existam vários a configurar o seu ponto de vista. Assim, há um conjunto de regras, preceitos, objectivos, etc., previamente determinados, dentro de um certo horizonte de possibilidades, dentro das quais o sujeito escolhe e actua, como se a cada vez a decisão fosse sua, mas, na verdade, está entregue a projectos que não são dele, que lhe são oferecidos de fora.

O sujeito vê-se a si mesmo ora como pai, ora como filho, ora como marido, ora como aluno, ora como médico, ora como cidadão. De cada vez há um conjunto de competências, um perfil do qual deve ser a repetição segundo um conjunto de actividades, um plano, certas acções, comportamentos, etc. No limite, o sujeito "numérico" é um conjunto de camadas, desempenha sempre um ou outro papel - deve ser sensato, ou racional, ou feliz, etc., etc., etc. -, mas não há qualquer profundidade nelas. Se as camadas forem retiradas nada resta, não há indivíduo, não há subjectividade: apenas uma abstracção, um nada que pode ser tudo, que pode adaptar-se a qualquer coisa, assumir qualquer função, singrar no mundo e, sem espinha dorsal, tornar-se o mais bem-sucedido homem de negócios de uma nação, de um país, de um regime, qualquer que ele seja.
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