sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Da confusão das esferas, segundo Kierkegaard

A propósito de como distinguir um apóstolo de um louco, um religioso de um fanático, e de como o religioso se torna demoníaco, e o demoníaco se torna religioso...


«Pastores "cristãos" é aquilo que será necessário, também em relação ao maior de todos os perigos, o qual está muito mais próximo do que podemos acreditar - nomeadamente, que quando a catástrofe se espalhar e se tornar num movimento religioso (e a força do comunismo, obviamente, é o mesmo ingrediente que está, demoniacamente, potencial na religiosidade, mesmo na religiosidade cristã), então, como cogumelos depois de uma chuva, irão aparecer personagens demoniacamente treinados que logo farão de si mesmos, presunçosamente, apóstolos, a par com "os apóstolos", uns poucos que também assumirão a tarefa de aperfeiçoar o Cristianismo, logo se tornado eles mesmos também fundadores religiosos, inventores de uma nova religião que agradará ao tempo presente e ao mundo de uma maneira completamente diferente do "ascetismo" do Cristianismo. A era dos ataques académico-científicos ao Cristianismo já tinha acabado antes de 1848, nós já estávamos profundamente embrenhados na era dos ataques da paixão, dos ataques dos ofendidos. Mas isto não é o mais perigoso; o mais perigoso chega quando os próprios demoníacos se tornam apóstolos - qualquer coisa como os ladrões se fazerem passar por polícias - e até mesmo fundadores de religiões, os quais terão um ponto de apoio terrível numa era que é de tal modo crítica que do ponto de vista do eterno é eternamente verdadeiro dizer o seguinte dela: O que é preciso é religiosidade - isto é, a verdadeira religiosidade; contudo, do ponto de vista demoníaco, a mesma idade diz acerca de si mesma: É de religiosidade que nós precisamos - nomeadamente, religiosidade demoníaca.»


Kierkegaard, Journals & Papers, X6 B, §41

sábado, 19 de novembro de 2016

Política e politicamente correcto

A propósito de politicamente correcto... e de política...

O fim da política


O fim da política não é o bem-estar das pessoas. Não é o "bem comum", e certamente que não é construir um sociedade mais justa.
O fim da política é o poder.
Lamento, mas é assim.
Pode ser chato, pode ser injusto, pode ser f*****. Mas é como as coisas são.
Isto vale para todos. Seja-se Trump, seja-se Clinton.
O fim da política é o poder.
Ponto.


O povo e a política


Pense-se numa corrida de cavalos da Roma Antiga.

Ninguém vai lá assistir para ver como os cavalos correm bem ou como os cavaleiros competem destemidamente. As pessoas não vão lá porque perder ou ganhar é desporto. As pessoas não querem saber de desportistas perdedores. As derrotas não lhes interessam.

As pessoas não vão lá para ver um cavaleiro ganhar com coragem, honra e justiça. É indiferente. A justiça e a honra não lhes interessam.

As pessoas também não vão lá para ver vitórias. As vitórias não lhes interessam.

As pessoas vão lá para ver sangue
Para ver os corpos cortados ao meio pelas rodas. 
Sempre que uma corrida acaba sem meia dúzia de membros perdidos e um par de mortes, o público vai para casa com uma espécie de letargia no espírito.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Hegel, Kierkegaard e o fenómeno Trump

A propósito do movimento da história...


Como se sabe, Kierkegaard aborrece alguns aspectos de Hegel. Nomeadamente, o facto de Hegel se apresentar a si mesmo como se antecipasse todo e qualquer ponto de vista possível, como se todo e qualquer ponto de vista que alguma vez existiu, existe ou venha a existir não fosse nem venha alguma vez a ser senão um momento, um estágio preliminar, um troço do caminho em direcção à Verdade que só ele pode revelar. Hegel apresenta-se a si mesmo como se antecipasse que todos nós somos momentos no desenvolvimento da sua Verdade, de modo que por mais que o critiquemos, toda a nossa crítica será apenas um momento no processo pelo qual nos tornamos conscientes da Verdade que Hegel já revelou. Como se dissesse: "critica-me à vontade, mas toma nota de uma coisa: se a tua crítica for suficientemente profunda, se for capaz de se tornar progressivamente transparente para si mesma, então hás-de chegar ao ponto onde eu quero que tu chegues, a crítica que me fazes é apenas um processo pelo qual chegarás onde eu já sei que chegarás".


Há algo de hegeliano no modo como tendemos a pensar a história das ideias, a evolução dos costumes, o movimento político das sociedades. Nós tendemos, de facto, a pensar que a História corre numa direcção, num sentido definido e imparável. Há algo de hegeliano no modo como julgamos que as nossas ideias políticas, sociais, morais e éticas correspondem a "avanços", a "progressos", a momentos "mais à frente" numa linha temporal ininterrupta e necessária. 


Porém, a História mostra-nos outra coisa. Mostra-nos civilizações que existiram durante vários milhares de anos e que se esfumaram. Mostra-nos religiões que existiram durante tanto tempo que fazem o Cristianismo parecer um bebé mas que já não existem hoje. Mostra-nos que num belo dia Hitler pode vencer eleições. Mostra-nos que padrões de comportamento se podem inverter num piscar de olhos histórico. Mostra-nos que alguns padrões de comportamento antigos se inverteram hoje. Mostra-nos que alguns dos nossos padrões de comportamento estiveram suspensos durante séculos seguidos antes de voltarem a ser restabelecidos. Enfim, a História não parece ser uma corrida linear - excepto se considerarmos que a História se limita aos últimos 50 anos, ou se lermos a História sob o ponto de vista hegeliano: como se, de qualquer modo, tudo não foi mais do que um momento da nossa própria mentalidade a formar-se; como se a nossa própria mentalidade fosse a Verdade histórica a que todos os arrepios hão-de inexoravelmente chegar.


Há qualquer coisa de hegeliano em dizer que Trump representa um retrocesso. Há qualquer coisa de hegeliano em dizer que o crescimento da xenofobia representa um retrocesso. E há um grande perigo em ver as coisas desse modo. Porque a História, muito provavelmente, não seguirá em nenhuma direcção definida se não na eventualidade de os homens a construírem desse modo.


Há um grande perigo em pensar que a mentalidade xenófoba é um retrocesso que a história há-de reverter. 


Há um grande perigo em chamar-lhe "retrocesso", porque então chega-se muito facilmente à ilusão de que estamos a salvo porque "o tempo não volta para trás".

sábado, 15 de outubro de 2016

A cara do outro - considerações patéticas

A propósito do outro...

Por vezes tem-se o pressuposto de que o mal moral se segue apenas de se evitar o reconhecimento do outro como outro.

Este tipo de mal é subjectivamente vivido como amoral, pois o sujeito não o reconhece como mal, mas simplesmente como algo "que tem de ser feito", reflexo da lógica da vida, como se o próprio sujeito da intenção estivesse reduzido à condição de mero instrumento. Neste mal negativo não é apenas o outro que é previamente despido da sua condição de "outro": é o próprio agente do mal que se despede da tarefa de agente moral.

Mas é ingénuo pensar que o mal moral tem apenas esta forma negativa. Aliás, como se disse, este mal negativo é, na verdade, amoral: trata-se de uma forma de demissão do sujeito moral, de uma forma de indiferença. O mal moral em sentido próprio, pelo contrário, consiste no oposto disto. No mal moral positivo não se evita a consciência: esta é, precisamente, a autoridade que é explicitamente confrontada. Neste tipo de mal, o outro é aquele que eu quero maltratar - aquele que odeio, que suscita sentimentos agressivos. Aqui o outro não é apenas fonte de aversão e repugnância, algo que se evita olhar e tratar como "um outro". Pelo contrário, aqui o outro, mais do que repugnar, suscita violência, desejo de vingança, vontade de espezinhar.

São todos ingénuos os autores moralistas que supõe que a face do outro é aquilo que evita que eu o agrida. São ingénuos aqueles que julgam que a agressão ao outro só surge porque evito considerá-lo como "outro".

(E é também ingénuo julgar que se tomo o outro como "um outro eu" não vou querer maltratá-lo. Pelo contrário, que o outro seja reconhecido, precisamente, como "outro eu" pode ser ocasião de descarregar todo o meu desejo de vingança. Não é isso que se põe a claro em romances tipo "Homem Duplicado"? Porque é ingénuo pensar que cada um se ama placidamente a si mesmo de forma tão pura que ao projectar no outro um outro eu vai sempre amá-lo também. A psicologia sabe há muito tempo que não é assim: quantos desejos de se agredir a si mesmo o eu não precisa de suprimir para sobreviver? E quanto não descomprime poder aliviar no "outro eu" os desejos de agressão que habitualmente se suprime em relação a si mesmo?)

Se a experiência do outro pode suscitar - como defendem alguns, e bem - o amor, na verdade pode suscitá-lo não mais, não menos quanto pode suscitar o ódio.

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A maravilhosa nova Ética

A propósito da suposta necessidade de uma "nova Ética"...


Acho sempre tremendamente irónicos os textos de "Ética" que, a dada altura, afirmam que "precisamos de uma nova Ética"... É comum ler e ouvir isto por todo o lado... "Precisamos de uma nova Ética" que faça sobressair os direitos dos animais... "Precisamos de uma nova Ética" que proteja a natureza... "Precisamos de uma nova Ética" que isto e aquilo! Na minha opinião, já há "Éticas" de mais, e tão pouca ética... Por isso mesmo é que quando um secretário é apanhado numa qualquer actuação menos clara, logo se reúne o Governo em peso para redigir "uma nova Ética", "um novo código de conduta", enfim... O que se precisa é de ética! De teorias está o inferno bem atulhado - que deve ser por isso que o fogo lá é eterno: devido às infinitas resmas de papel usadas para escrever todas as "Éticas"!
A ética é uma questão de injunção: uma pressão-tensão que nos indica que algo deve ser feito, ou que algo não deve ser feito. Portanto, lamento, mas é uma questão de "móbil", como dizia Kant nas suas lições, tantas vezes esquecidas por aqueles que se agarram à Fundamentação para nos informar que "precisamos de uma nova Ética" que vá para lá de Kant... 
O ético é uma questão de "vontade", como diziam os medievais. Uma questão de paixão, de amor, de decisão. Não é uma questão de se ter uma boa teoria para a coisa - nem de escrever um livro que vai com a moda de defender que um gato bebé vale o mesmo que um bebé humano. 
A injunção ética nada tem que ver com o saber.
Se eu estiver à espera de saber com certeza absoluta, de um ponto de vista teórico, o que devo fazer estarei perdido. Dada a multidão de teorias que há em qualquer livraria, a ignorância declarada relativamente a este tipo de "certeza" não pode - "não deve" - servir de pretexto para não agir, para não fazer aquilo que me surge numa injunção. Aquilo que produz clarificação ética não é comprar muitos livros de moral, muito menos ler muitas Éticas - quanto muito, poderão aumentar a confusão. O que é preciso é, justamente, passar a injunção para o âmbito da acção...
Claro que quando se está a escrever uma "nova Ética" sentado na cadeira-meio-sofá do escritório, tudo isto parece "indefinido e abstracto"... De facto, quando estou à mesa do café a beber uma caipirinha não há muitas injunções éticas que me assolem. Quando estou esparramado a ver televisão não vem ter comigo nenhuma injunção que me atire ao chão. Por isso, é natural que quando queimo os meus neurónios a tentar descobrir um nexo lógico entre A e B também nenhuma injunção ética me pareça clara e evidente.
Mas se vou na rua e passo indiferente ao lado de um bruto a espumar-se que esbofeteia a sua mulher, porque, afinal, ainda não sei bem o que faz de algo um dever - ou se, perante a injunção ética, que naquele momento com certeza me vem aos nervos, passo de largo porque ainda me falta explicitar o conceito formal de "dever" ou "útil" - nesse caso, com certeza uma "nova Ética" não me servirá de muito.
O ponto da injunção é a interiorização: o ponto em que a possibilidade de agir perde o carácter de mera possibilidade vazia, abstracta e neutra - porque nenhuma possibilidade abstracta pode ser para mim um dever. Esta consciência moral é aquilo que é preciso: o sujeito intervém e impede que o bruto esbofeteie a rapariga.
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