sábado, 27 de dezembro de 2014

Jesus e Natal

A propósito de Natal...

No Natal as pessoas gastam milhões em coisas que foram feitas por crianças com a mesma idade dos seus filhos, escravizadas num país mais ou menos longínquo, imersas nas lamas de minas de lítio, ou nas masmorras de fábricas de roupa. Na loja ao lado das marcas que vendem escravidão podemos sentar-nos a ler um artigo sobre essa mesma escravidão num país africano ou asiático. E a beleza de tudo isto é que esta escravidão se mantém na inocência da ignorância das pessoas que não sabem, nem querem saber, que não são responsáveis, que não prenderam ninguém, que não escravizaram ninguém, que apenas vão comprar prendas para oferecer. A beleza de tudo isto é que não há verdadeiramente ninguém para acusar. Todos os intervenientes na história estão escudados nisto ou naquilo, e assim o Natal é mais uma roda dentada. Porque, afinal, o que interessa é sermos felizes! Uma troada pelo mundo assevera a quem quer e a quem não quer ouvir que o que interessa na vida é sermos felizes! O resto é resto. Que cada um seja feliz!
Há uma música de Natal particularmente interessante, que diz:
"O que é preciso para ser feliz?

Amar como Jesus amou
Sonhar como Jesus sonhou
Pensar como Jesus pensou
Viver como Jesus viveu
Sentir o que Jesus sentia
Sorrir como Jesus sorria
E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz"

Bem... a quantidade de cosméticos que inundam esta canção - muito apreciada em meios religiosos - é de uma finíssima desilusão, de uma ilusão tão refinada que nem se sabe bem por onde começar... "O que é preciso para ser feliz?" Era mesmo esta a questão que Jesus colocava? Mas será que o Novo Testamento é algum romanesco manual de auto-ajuda!?? Deram-se ao trabalho de ler alguma coisa sobre a vida de Jesus antes de espetar esta pergunta aqui?

"Amar como Jesus amou" - mas Jesus amou sentado à lareira com a sua família, enfardando e bebericando enquanto esperava pela meia noite para abrir os presentes? Como foi que Jesus amou? Foi no quentinho ao ouvir músicas de natal?  Disse Jesus que era preciso odiar pai e mãe, mulher e filhos e a própria alma para se ser digno de o seguir... Jesus amava, acolhia e andava com prostitutas, ladrões, cobradores de impostos (que ainda eram mais odiados naquele tempo do que hoje)... Com foi, então que Jesus amou? À lareira? É certo que é cristão amar como Jesus amou. Mas como foi que Jesus amou? Deu uma esmola? Deu presentes? Deu afectos?

"Sonhar como Jesus sonhou"... esta nem vale a pena... Com que foi que Jesus sonhou??? Sabe-se de Jesus ter sonhado? O que era importante para Jesus era "sonhar"? Como foi que Jesus sonhou? Na cama, aconchegado? Nem vale a pena...

"Pensar como Jesus pensou"... Pois! E como foi que Jesus pensou? O que era a verdade para ele? Pensou que queria ser boa pessoa? Pensou como ele era justo e bom? Quando lhe chamaram Bom ele recusou aceitar que o era. Será que Jesus pensou como seria bom ser feliz??? vemos essa imensa preocupação dele em querer ser feliz? Andou Jesus a dizer que pensava que o importante é ser-se feliz?

"Viver como Jesus viveu"... esta é a mais hipócrita de todas... Então, para se ser feliz é só viver como Jesus viveu??? E tem-se a coragem de cantar isto com uma viola nas mãos? Ou sentado no quentinho do sofá? Mas como foi que Jesus viveu? Viveu Jesus a louvar como era feliz??? Por que pedia ele então que se afastasse dele aquele que era o seu cálice? Será que era por ser feliz? Viver como Jesus viveu... Jesus viveu como viveu apesar disso ter consequências tremendas para si, para o seu bem estar... Jesus foi chicoteado, torturado, preso, morto. Morto de uma forma particularmente sofredora. Uma pessoa morria afogado no próprio peso na cruz! Como foi que Jesus viveu? Jesus viveu de uma maneira que o levou à cruz. Viveu um cálice muito agressivo, que ele pedia que fosse afastado. Mas bebeu desse cálice, viveu essa vida! Então, como foi que Jesus viveu?

"Sentir o que Jesus sentia" - o que sentia Jesus? O chicote na carne. O chicote no corpo. O que sentia Jesus? O que sentia Jesus pela prostituta? Ficou a ver enquanto ela era apedrejada? Jesus atirou também alguma pedra? Como sentia Jesus? Sentia-se feliz? Era assim que ele se sentia? Como era que ele amava? Como foi que ele se sentiu e como foi que ele amou quando acolheu os que mais eram odiados? Quando deixou a mãe e a família para andar com desconhecidos odiados??? Como foi que Jesus se sentiu quando lhe quebraram os joelhos? Queremos sentir-nos como Jesus se sentiu? Queremos ser felizes assim? Ou é tudo uma baboseira que se canta porque rima?

"E ao chegar ao fim do dia
Eu sei que dormiria muito mais feliz"

Muito bom? Então Jesus chegava ao fim do dia e dormia? Dormia mais feliz??? Ou eram os seus discípulos que dormiam? enquanto ele, Jesus, passava as noites acordado, assolado com tribulações, preocupações??? Então Jesus chegava ao fim do dia e dormia muito feliz, talvez de consciência pacificada como se diz por aí que a gente dorme? Jesus tinha uma consciência leve? Onde se diz que Jesus dormia bem? Onde se diz que ele dormia? Como era que Jesus dormia mais feliz????????????????????????

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Há qualquer coisa superior à felicidade?

A propósito da dicotomia porco feliz v/s Sócrates infeliz

1. Penso que, em termos humanos, há qualquer coisa superior à felicidade.


2. Mas também pode acontecer que não se trate de haver algo superior à felicidade.

2.1. Não é imediatamente evidente se há, ou não, algum sentido em que o ἐλέγχειν socrático (a crítica, o exame, o destruir ilusões) constitua um fim pelo qual valha a pena, per se, destruir uma felicidade ilusória (seria preciso também averiguar se poderia haver coincidência entre o ser feliz e o adquirir consciência de si). Pode simplesmente acontecer que ser feliz seja efectivamente o fim autêntico do humano, e que o ser passivamente feliz seja perverso exclusivamente na medida em que impede o lançamento para o ser feliz autêntico

2.2. Ora, se assim for, então, se se der o caso de não haver nenhuma felicidade autêntica passível de ser adquirida, seria preferível que o sujeito se mantivesse passivamente feliz sem o saber - sendo que, então, o problema é que para perceber que não há essa felicidade autêntica seria necessário empreender um processo de exame que impediria o regresso à situação de felicidade passiva...

O Natal e a Cristandade

A propósito da época natalícia...

O Natal da Cristandade é um momento pagão por excelência! Nota bene: NÃO é um momento ateu, muito muito menos agnóstico...

O Natal é puramente pagão  e é-o desde a origem! Tudo nele se circunscreve à regência da doação mundana de sentido! Tudo nele é servidão ao mundo!

O Natal é o momento em que a Cristandade se ajoelha e presta vassalagem às coisas. Todas as coisas são a medida do humano!


O que é o Mundo?

A propósito de Mundo...

Na Fenomenologia do Espírito, na análise do "mundo da utilidade", diz Hegel que o termo imediato é aquele através do qual o sujeito media o acesso a si mesmo... quer dizer, a relação a si mesmo é presidida pelas categorias do imediato. Na maioria das vezes isso significa: pelas categorias do mundo, pois o mundo é, justamente, a compreensão já dada, já tida, em que já sempre de início se está. O valor da vida e de si mesmo é pesado pelo mundo!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Alma estendida e colada por todo o corpo sensitivo

A propósito de União entre Alma e Corpo

"Pois, a união do corpo com a alma parece-se com algo deste tipo, tal como se diz que os Tirénios torturam frequentemente os seus cativos acorrentando cadáveres aos vivos, cada parte de um juntinho a cada parte do outro, da mesma maneira a alma parece estar esticada e presa em todas as partes sensíveis do corpo."

Aristotle, Protrepticus
Πάνυ γὰρ ἡ σύζευξις τοιούτωι τινὶ ἔοικε πρὸς τὸ σῶμα τῆς ψυχῆς. ὥσπερ γὰρ τοὺς ἐν τῆι Τυρρηνίαι φασὶ βασανίζειν πολλάκις τοὺς ἁλισκομένους προσδεσμεύοντας κατ᾽ ἀντικρὺ τοῖς ζῶσι νεκροὺς ἀντιπροσώπους ἕκαστον πρὸς ἕκαστον μέρος προσαρμόττοντας, οὕτως ἔοικεν ἡ ψυχὴ διατετάσθαι καὶ προσκεκολλῆσθαι πᾶσι τοῖς αἰσθητικοῖς τοῦ σώματος μέλεσιν.

Autores e textos que, possivelmente, remetem para aqui:
.  Virgílio, Eneida, canto 8, versos 478-485;
.  Cícero, Hortênsio, apud Santo Agostinho, Contra Juliano, IV.15.78:
verumque sit illud quod est apud Aristotelem, simili nos affectos esse supplicio, atque eos qui quondam, cum in praedonum Etruscorum manus incidissent, crudelitate excogitata necabantur, quorum corpora viva cum mortuis, adversa adversis accommodata, quam aptissime colligabantur; sic nostros animos cum corporibus copulatos, ut vivos cum mortuis esse coniunctos

A esta concepção parece estar ligada, de algum modo, a noção cristã de νεκροφόρος, portador de cadáver:
. São Paulo, Epístola aos Romanos, 7:24:
Ταλαίπωρος ἐγὼ ἄνθρωπος· τίς με ῥύσεται ἐκ τοῦ σώματος τοῦ θανάτου τούτου;

Tradução: "Miserável humano eu sou! Quem me resgatará deste corpo de morte?" (Vulgata: "infelix ego homo quis me liberabit de corpore mortis huius")
. Inácio, Epístola aos Esmirnenses, capítulo 5, parágrafo 2;
. Epifânio, Contra as heresias, 433.5; 434.9; 471.19; Epifânio compara o corpo a uma roupa que a alma tem de carregar.



(As referências aqui apresentadas são meramente indicativas, não são exaustivas, visto que é possível identificar muitas outras citações directas ou indirectas).


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Apontamentos sobre Filosofia, ciência e religião...

A propósito de Filosofia...




Há uma ideia que tende a passar por evidente no domínio do senso-comum filosófico e que é a de que são filosóficas as questões para que não há respostas empíricas. Mas isto resulta, na minha perspectiva, de uma confusão.

Segundo este princípio que, infelizmente, tende a encontrar-se em qualquer manual de filosofia, a questão "por que existe o mundo?", ou "por que há alguma coisa e não o nada'" seriam questões essencialmente filosóficas, e isso porque, entre outras coisas, não se lhes pode arranjar uma resposta no âmbito empírico.


Imaginemos que há dois séculos alguém pergunta se há vida na Lua. Ninguém poderia ir à Lua, mas isso não tornava a questão filosófica. A resposta teria de ser encontrada empiricamente, ainda que não fosse possível fazê-lo na altura.

Imaginemos que alguém quer saber o que se passa no interior de um buraco negro. É impossível ir dentro do buraco negro para saber o que lá se passa, mas a questão permanece uma questão empírica. A haver uma resposta, ela tem de pertencer ao âmbito empírico, e até esse momento não é verdadeiramente uma resposta, mas apenas especulação.

Saber se o Universo tem cem anos, ou se é eterno, se veio a existir desta ou daquela maneira, por este ou aquele processo, ou se nunca veio a existir e existe desde sempre, - saber a razão por que há Universo e não apenas o nada, tudo isto, são questões que não pertencem à filosofia, são questões que, a haver respostas para elas - e pode não as haver - são do domínio empírico.

Mas esta confusão é comum e levou a outra fantástica consideração dentro de um certo senso-comum filosófico. Alguns filósofos, percebendo que algumas destas questões realmente não têm resposta - ou pelo menos assim supondo - induziram daí que as perguntas filosóficas não têm resposta, e, em alguns casos, foi-se mais longe dizendo que as perguntas fora do âmbito empírico não são questões com sentido. Mas o equívoco está lá atrás, na suposição de que o âmbito da filosofia é o âmbito das perguntas para as quais não há resposta. Assim, o âmbito próprio da filosofia foi tomado ao modo do âmbito empírico-epistemológico, e ao aplicar-se à filosofia os critérios que pertencem propriamente a outra coisa que não à filosofia, a filosofia caiu moribunda! O seu respirar arrastado fez-se enquanto se confundiu a filosofia com a religião... isto porque o âmbito da religião é, justamente, o âmbito das questões cuja verdade dependem de critérios epistemológicos mas que não há critérios empíricos para as suas respostas, o que significa, justamente, que são do âmbito da crença...

terça-feira, 11 de novembro de 2014

A liberdade como milagre privado: sobre a indiferença da vontade

A propósito de: Indiferença; Liberdade; Milagre Privado; Não-indiferença.


A liberdade como milagre privado: sobre a  indiferença da vontade
Luís Mendes

O autor estuda a noção de liberdade como milagre privado, segundo Leibniz. O homem é capaz de milagres, i.e., ser-se humano é ser-se capaz de liberdade. A vontade livre está sempre inclinada, mas é capaz de ser excepcional e de se soltar das amarras que a escravizam às coisas exteriores. A mente humana é capaz de produzir o imprevisível (excepto para Deus). O humano é, por princípio, capaz de se assenhorear de si e de se determinar ao que de melhor lhe é possível, ainda que na maioria das vezes se deixe afundar no mar das paixões.

Artigo disponível em http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/doispontos/article/viewFile/35134/23545

«Neste texto tentar-se-á determinar a noção de liberdade como milagre privado, expressão utilizada por Leibniz num pequeno texto sem título original escrito na última metade da década de 1680.»

O mal como constituinte mental da humanidade

A propósito de mal, banalidade e humano...


E agora desviem o olhar dos indivíduos e considerem a Grande Guerra que ainda devasta a Europa. Pensem na imensa brutalidade, crueldade e mentiras que são capazes de se espalhar pelo mundo civilizado. Acreditais que um punhado de homens ambiciosos e alucinados, sem consciência, poderiam ter sucesso a soltar todos esses maus espíritos se os seus milhões de seguidores não partilhassem da sua culpa? Tereis coragem, nestas circunstâncias, de apostar em que o mal está excluído da constituição mental da humanidade?

Freud, Lições introdutórias à Psicanálise, Lição IX

O milagre da multiplicação dos neurónios

A propósito de consciência e cérebro...


Um cientista diz "Um único neurónio não é capaz, por si só, de gerar nenhum comportamento ou pensamento", e a coisa parece ficar resolvida: pronto, é ingénuo pensar que um neurónio pensa, mas se supusermos milhões de neurónios e milhões de ligações entre eles a coisa parece resolver-se por si mesma. As dificuldades parecem desaparecer.

Esta ilusão é cimentada por haver âmbitos em que este afastamento realmente resolve as coisas. É o que acontece com a teoria da evolução das espécies: não se percebe claramente como é que um dinossauro vira galinha, mas se estendermos o processo por vários milhões de anos a coisa resolve-se sozinha: o dinossauro vai evoluindo, vai evoluindo, vai evoluindo até que chega a um ponto em que vira ave! Pronto. É como quando estamos a cozer batatas: chega um momento em que estão cozidas! Pronto.

Então a coisa parece ser igual com os neurónios: um neurónio é nada, uma sinapse nada é, mas se juntarmos muitos neurónios, muitas ligações entre eles, muitas sinapses, se multiplicarmos isto até um número em que já não conseguimos imaginá-lo, por exemplo, 10 elevado a 10, então parece que o mistério da consciência se resolve por si mesmo! A "multiplicação dos neurónios" é o mais grave e circunspecto milagre dos tempos modernos! Mais fantástico do que a multiplicação dos pães! É o mesmo que cortar o nó górdio - em vez de o desatar.

Há um fenómeno que ocorre com a nossa visão que é semelhante: certos quadros, quando vistos ao perto, parecem meros aglomerados de pontos sem qualquer sentido que os reúna numa unidade; contudo, quando nos afastamos surge perante nós um "quadro", um rosto, uma paisagem, etc. O afastamento em relação ao quadro cria um "quadro" que não havia: o haver afastamento insurge-se como solução para o problema de passar a haver uma imagem global com sentido. Tudo se passa como se o "afastamento" fosse a resposta e não o próprio problema: como é que o afastamento produz uma imagem com sentido a partir de uma multiplicidade?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O andar descentrado de si

A propósito de diversão...

Uma das coisas mais extraordinárias do humano é que, sendo um ente que, como se sabe, está dotado de um interesse absoluto por si mesmo, tende a estar no mundo de tal modo que a sua própria vida toma verdadeiramente a forma de uma distracção. O interesse desmedido por si continua a vigorar - de facto e inamovível - e é precisamente no meio dele e por ele que o humano se entrega ao totalmente irrelevante. Isso pode ser visto sempre que consideramos o correspondente disto no mundo, da perspectiva do mundo: um sujeito que se move por um interesse superlativo pode ser justamente aquele que se ocupa de aquisições absolutamente irrelevantes - de aquisições que se caracterizam propriamente por corresponderem a um grau zero de aquisição! A excentricidade é isso: o sujeito é o centro do seu mundo e, no entanto, está completamente descentrado de si!

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A consciência de si e o desespero inconsciente, segundo Kierkegaard

A propósito de consciência de si, contradição, decisão, desespero, idealidade, imediato, interioridade, Kierkegaard, síntese


A CONSCIÊNCIA DE SI E O DESESPERO INCONSCIENTE, SEGUNDO KIERKEGAARD


A tradição cartesiana identificou um conjunto de condições para que se possa dizer que um sujeito está consciente de si. Simultaneamente, procurou a consciência de si num acompanhamento de si ao modo do pensamento. Ora, do ponto de vista de Kierkegaard, os requisitos cartesianos da consciência de si não são cumpridos na concepção de consciência da própria tradição cartesiana. É precisamente isso que se evidencia com a noção de desespero inconsciente. Neste estudo, procura-se determinar em que condições é possível falar de estar consciente de si, segundo Kierkegaard, o que conduzirá a uma multiplicidade paradoxal. Para se compreender o que está em causa estudar-se-á a estrutura sintética e heterogénea do humano. Em última análise, os requisitos da constituição da consciência de si, porque o são do si, só se cumprem numa certa forma de desconhecimento de si que corresponde a uma forma de consciência de si em que nunca se está certo e seguro de si, mas que passa pela decisão na interioridade.


SELF-CONSCIOUSNESS AND THE UNCONSCIOUS DESPAIR, ACCORDING TO KIERKEGAARD


The Cartesian tradition identified a set of requirements for self-consciousness. At the same time, it sought the self-consciousness in the self-monitoring mode of thought. So, according to Kierkegaard’s point of view, the Cartesian requirements of self-consciousness are not accomplished in the conception of consciousness of the Cartesian tradition itself. That is precisely what is shown with the notion of unconscious despair. In this study, it sought to determine under which conditions it is possible to speak about being self-conscious, according to Kierkegaard, which will lead to a paradoxical multiplicity.To understand what it is at stake we will study the heterogeneous and synthetic structure of the human. Ultimately, the requirements for the constitution of self-consciousness, because they are of the self, only meet in a certain form of lack of knowledge of the self that matches a certain form of self-consciousness in which one is never certain and sure of himself, but which passes through the decision in inwardness.


Dissertação de Mestrado de Luís Filipe Fernandes Mendes com orientação do Prof. Nuno Ferro.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Suicídio, sentido, racionalidade e consumismo

A propósito do aumento de suicídios de jovens em Portugal...*

Os casos de suicídio não parecem poder ser reduzidos a um tipo único. Muitas pessoas se suicidarão porque consideram que a vida não merece ser vivida - e este é um problema filosófico. Outras fazem-se matar por aquilo que dá sentido às suas vidas. Há o suicídio de Sócrates, e o de Jesus. Há o suicídio por efeito Werther (por imitação). Há o do código de honra bushido, seppuku. Há o dos empresários que ficam sem nada e se matam, e o dos empresários que têm tudo o que se pode comprar e se matam. Há os suicídios que tendem a aumentar em países desenvolvidos, e há os suicídios que aparecem em tempos de crise económica. Há os suicídios que estão associados a patologias como a melancolia ou a depressão (clinicamente definidas), e há os suicídios de sujeitos que parecem os mais felizes do mundo! Nunca me hei-de esquecer de um colega meu do 3º ciclo. Era um sujeito animado, que jogada futebol de forma fantástica, tinha boas notas e vivia mesmo em frente à escola! Fomos numa visita de estudo já não faço a mínima ideia a onde. Durante o dia inteiro ele foi como sempre foi, divertiu-se, fez-nos rir, riu, atirou-se às raparigas. No dia seguinte ficámos a saber que ele se enforcara!

Hoje, o suicídio já não é visto como pecado. A medicina e a ciência substituiu a religião. O suicídio não é, geralmente, considerado um acto racional, autónomo, livre, tradutor da vontade do sujeito, mas antes um sintoma (de depressão, solidão, etc.), uma desordem electroquímica, etc. De facto, nós impediríamos o suicídio, a polícia e os bombeiros desarmariam ou tentariam preservar a vida do suicida, os médicos usam expedientes para lhes conservar a vida - e na imensa maioria dos casos estes procedimentos estarão correctos pois a liberdade do suicida estava, provavelmente, comprometida. O médico não poderá ser acusado de atentar contra a autonomia do suicida quando o salva.

Mas se, como João Barreto conclui, cerca de 95% dos suicídios ocorrem em sujeitos com "perturbações", não se pode esquecer os 5% que se podem integrar no grupo da freitod ou do suicídio racional. Evidentemente, as decisões - todas elas - nunca estão isentas de motivações subjectivas, de "paixões" e, nesse sentido, nunca deixam de ser "patológicas". Mas isso é assim, justamente, com todas as decisões.

Talvez o aumento dos suicídios esteja associado às mesmas condições que levam tantos jovens europeus a rumarem ao Estado Islâmico... Evidentemente, cada caso será um caso, e haverá muitas razões distintas para cada um, mas o suicídio parece-me andar associado ao problema de haver uma razão para viver - e este problema não parece poder ser reduzido a um suposto "reconhecimento" de que a vida está aí para ser vivida, justamente porque para o potencial suicida é isso mesmo que está em causa. E a Europa parece ter-se tornado perita num modo de vida cada vez mais despido, sem alma e, afinal, sem sentido - e, como é óbvio, pode sempre acontecer que as ilusões que ocultam esta falta, esta ausência e esta agonia se desvaneçam pondo a descoberto o desespero! A nossa sociedade consumista e capitalista parece ser extremamente eloquente neste aspecto. Não tanto que o problema consista no facto de vivermos cada vez mais envoltos em ilusões, mas na circunstância de as nossas ilusões serem cada vez mais frágeis!!!

*Ver notícia: http://www.sol.pt/noticia/116056

terça-feira, 30 de setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Uma pessoa é um número?

A propósito das perspectivas de Nuno Crato e Passos Coelho



Ora bem, Portugal é o país que está melhor, embora os portugueses estejam pior... e o erro do MEC só afectou 2% dos professores.

Estas declarações distanciadas no tempo são, afinal, expressão do mesmo tipo de pensamento: aquele que reduz as pessoas aos números e às percentagens. Para este governo as famílias não interessam, a saúde mental e a estabilidade emocional das pessoas são negligenciáveis.

Há uma grave problema de perspectiva quando pessoas são tratadas como meras percentagens.

Tudo vai bem porque o erro afectou apenas 2%. Tu que estás no fundo aguenta porque és apenas uma pequena parte desses insignificantes 2%.

Mas o que dizer dos 2% que estão no topo da pirâmide socio-económica? Será que o Passos sabe ser tão bom em estatística quando se trata de lidar com esses 2%?

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ayaan Hirsi Ali

A propósito de confronto de civilizações



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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Nero, imperador romano, o mais amado ou o maldito?

A propósito de percepções e factos



Nero, condenado à damnatio memoriae pelo Senado Romano...

Depois da morte de Nero, as manifestações de pesar foram tão significativas entre o povo que Otão, sucessor no trono, teve de adoptar à pressa o nome de Otão Nero. Permaneceu entre os romanos a crença de que o jovem imperador deveria voltar um dia...

Nero gostava de música, de poesia e das artes em geral...


Erigiu um enorme ginásio público, ao contrário das termas que até aí estavam reservadas à aristocracia. Assim, introduziu na cultura romana o conceito grego de educação física e intelectual dos jovens - mente sã, corpo são, mens sana in corpore sano - o qual se propagaria rapidamente pelo Império..
Fez várias obras públicas culturais e funcionais.

Acabou com os julgamentos secretos que Cláudio implementara e emitiu indultos.
Certa vez, ao pedirem-lhe para assinar uma sentença de morte lamentou ter aprendido a escrever.

Concedeu liberdade à Grécia como reconhecimento pelos seus contributos culturais.

Em vez de optar por incursões militares para angariar dinheiro decidiu taxar as classes mais abastadas. Muitas destas iniciativas políticas angariaram-lhe inimigos e o Senado opunha-se-lhe vigorosamente. Mas Nero fez o que pôde para ultrapassar a resistência do Senado.

Chegou a convidar toda a cidade de Roma para a Domus Aurea. Queria estar junto do povo, como um deus vivo. Apoiava-se nas massas e centrava em si todo esse poder.

Talvez o mais amado de todos os imperadores romanos reformou a ordem social tirando recursos aos senadores e distribuindo-os entre os pobres.

"Durante o seu reinado o Império viveu um período de paz, de esplendor grandioso e de importantes reformas."

O MODO COMO SE CONTA A HISTÓRIA, COMO SE SELECCIONAM FACTOS E ACONTECIMENTOS, INFLUENCIA DE MANEIRA DECISIVA A PERCEPÇÃO QUE TEMOS DAS GRANDES FIGURAS DO PASSADO.

(fonte: National Geographic, Setembro 2014)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A Máquina do Mundo, de Paulo José Miranda

A propósito de Mundo, Violência e Jogo

A Máquina do Mundo é um livro inquietante.

É um livro sobre o mundo, um livro sobre a violência, sobre a violência do jogo do mundo.

E se a violência for a essência do jogo? Se o mundo é mundo na violência? Se o jogo é jogo pela violência?

Percebemos facilmente que a natureza envolve violência: o leão caça a gazela. Admitimos esta violência, reconhecemos que a há. Assumimos que a sociedade é, também ela, violência. Como os peixes que se comem uns aos outros - porque a violência é exercida pelos fortes sobre os fracos, porque a violência é quando há desequilíbrio. Percebemos isto muito bem. Sabêmo-lo.

E se não é só isto?

Habitualmente, atribuímos a violência a uma qualquer forma de vício, de corrupção, como se fosse uma doença, uma deficiência crónica - não só do jogo, do sistema, mas também dos intervenientes, dos jogadores. Há violência porque o sistema está viciado por agentes corruptos - há agentes corruptos num sistema viciado. Um vicia, os outros corrompem - ou uice-uersa. É difícil discernir se é o jogo que vicia ou o mundo que se deixa corromper, se são os agentes que corrompem ou se deixam viciar. Percebemos isto mais ou menos.

E se não é só isto? E se a violência for a essência do jogo?

Pois, "o que seria do mundo sem violência?" E se a violência não for apenas um vício do sistema, não for apenas uma corrupção dos agentes? E se a violência é o mundo?

O mundo é na violência, mas também pela violência. Não há apenas violência no mundo: não haveria mundo sem violência. Não é só o leão que morre de fome sem violência - não é só o poderoso que não o seria sem a sua força, sem a sua capacidade de exercer poder sobre os fracos. A haver mundo, há violência. E se for de facto assim?

O mundo é a máquina onde se joga. O jogo é a essência do mundo e a essência do jogo é a violência.

Mas o mundo é complexo, a humanidade está hoje muito longe de ser uma tribo de agricultores, "e com o incremento de possibilidades aumenta a complexidade da liberdade". Quem pode dizer - quem pode saber se é livre?

E se dedicamos toda a nossa seriedade no jogo, se empenhamos a nossa alma ao mundo e ao lado disso fica a vida?

Quantas vidas teremos de perder no jogo para darmos conta de que podemos ter uma vida?


Este é um livro que não nos deixa indiferentes, que não parece ter sido feito para as tardes de bronze na praia. Um livro que nos faz pensar sobre o mundo, sobre a vida e sobre a morte. Que nos faz pensar sobre o valor da vida, de uma vida, da morte e de uma morte. E que, afinal, nos leva a interrogarmo-nos a nós mesmos sobre nós mesmos, a nossa natureza, ou a ausência dela, a nossa vida, ou a ausência dela... a consciência de si, ou a ausência dela.


"A história do homem começa com a história da violência."

"o mundo não é outra coisa senão uma empresa, a Existe Lda., na qual apenas alguns participam nos lucros e os outros fazem o que lhes mandam, ainda que julguem que não é assim, que não estão a ser mandados, que têm livre-arbítrio social e político, ao invés de estarem a ser manipulados por quem realmente manda, por quem realmente decide"

A Máquina do Mundo, Paulo José Miranda

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Esboço filosófico - o que é a Filosofia?

A propósito de uma definição de Filosofia...


[TEXTO MUITO BREVE SOBRE A DEFINIÇÃO DE "FILOSOFIA"]

O que é a Filosofia?

Antes de mais, quem procura encontrar respostas definitivas e fechadas deve ser alertado de que não encontrará nada disso em Filosofia. Esta pergunta é um bom exemplo disso: desde os inícios da filosofia que os filósofos perguntam "o que é a Filosofia?", e ainda continuam nisso. Isto é muito comum, na verdade, é a regra em Filosofia.

Além disso, é muito provável que com uma busca rápida se perceba que há um sem-fim de respostas, uma quantidade imensa de possibilidades de responder a esta pergunta. Na verdade, um leigo talvez ficará admirado por perceber que são justamente os filósofos que não se entendem quanto ao que seja isso que eles próprios fazem. E esta é, na verdade, a regra em Filosofia: parece impossível encontrar consensos. Já Aristóteles se queixava que era impossível fazer com que os filósofos se entendessem quanto a uma opinião, de tal modo que até mesmo quanto às coisas que parecem mais evidentes ao comum dos mortais se encontrarão divergências entre os filósofos.

Ora, estas características repetem-se em todas as perguntas essencialmente filosóficas. Muitas vezes, o senso-comum, isto é, o homem comum tende a brincar com este aspecto, chegando mesmo a ridicularizar os filósofos. E é verdade que alguns filósofos parecem ter uma capacidade extraordinária para complicar as coisas. Mas, o decisivo, é que esta abertura das perguntas filosóficas é essencial à Filosofia: ou seja, não é uma mania de complicar. É da própria natureza das perguntas filosóficas que elas se mostrem escorregadias. Não é apenas difícil responder-lhes. Não. É também difícil entendê-las. Por exemplo, se alguém perguntar quantas patas tem um gato, à partida e em princípio, não é um problema entender o que está a ser perguntado - a não ser que não compreendamos a língua em que a pergunta foi formulada, ou qualquer coisa do género. Por princípio, sabemos o que está a ser perguntado e também sabemos como responder-lhe. E, neste caso específico, também sabemos qual deve ser a resposta correcta: um gato tem quatro patas. É verdade que pode haver excepções, mas estas são circunstanciais.

Ora, as perguntas filosóficas são o oposto disto. Quando uma pessoa pergunta "o que é a Filosofia?", ou "o que é o Bem?", o problema começa logo em não ser imediatamente óbvio saber o que é que se está a perguntar. Evidentemente, uma pessoa pode julgar que sabe o que se está a perguntar e, então, a resposta pode parecer-lhe acessível. Mas isto significa, justamente, que a pergunta não foi colocada de uma maneira filosófica. O que caracteriza a maneira filosófica de colocar as perguntas é a própria abertura do modo como se faz a pergunta. Isto não significa, necessariamente, que o filósofo vai aceitar todas as respostas - se todas as respostas fossem aceitáveis, então para quê colocar sequer a pergunta: cada um viveria com a sua resposta e seria indiferente aos outros. Mas a postura filosófica não se confunde nem com o fanatismo, o dogmatismo, etc., nem com o relativismo, a indiferença, etc. É certo que um filósofo pode ser relativista, ou pode até revelar-se dogmático, mas o decisivo na postura filosófica é que, ao se colocar a pergunta, se procura alargar a perspectiva, isto é, superar os preconceitos que possam estar a afunilar o nosso próprio ponto de vista - e, neste sentido, procura-se encontrar uma resposta que satisfaça critérios universais, que possam ser compreendidos e aceites por outros. Quer dizer, o filósofo procura uma resposta adequada ao problema, mas não de um modo preconceituoso - no entanto, ele procura efectivamente uma resposta válida para o problema. Isto é muito difícil de fazer porque é fácil tomar "uma resposta válida" por um "dogma", e, por outro lado, é muito difícil saber o que é "uma resposta válida".

Por exemplo: se alguém disser que "Bem é o que me parece bem", ou que "Bem é o que satisfaz os meus interesses", será que estas respostas nos satisfazem? Se não, quais são os critérios que elas estão a violar? Se sim, quais são os critérios que estão a ser cumpridos? A maioria das vezes a maioria das pessoas salta imediatamente para a resposta "que lhe parece" e, por isso, não se apercebe da complexidade inerente à própria pergunta. Contudo, a Filosofia dá uma atenção extraordinária aos problemas, antes, sobretudo antes de tentar uma resposta. Isto não quer dizer, como muitas vezes se pensa, que em Filosofia as respostas não interessam: é justamente porque as respostas interessam que é preciso ter cuidado com o modo como se entende a pergunta. Da mesma maneira, quando alguém tem cancro e não sabe é fundamental que venha a saber que o tem para que possa tratar-se em devido tempo. Isso não quer dizer que o sujeito ficará contente por saber que tem cancro. Na verdade, não ficará nada contente ao saber isso e talvez caia em depressão ou fique profundamente infeliz. No fundo, o importante é que ele se cure, não que ele tenha e permaneça no cancro, mas para que ele se cure efectivamente é preciso que se saiba que tem cancro, que tipo de cancro é que ele tem exactamente, em que fase é que está, etc. Dizer que em Filosofia só as perguntas é que interessam e não as respostas é como dizer que ao doente só interessa saber que está doente e não curar-se da doença. Se assim não fosse, a Filosofia seria Arte: o quadro que retrata uma pessoa de uma perspectiva cubista não é mais válido do que aquele que a retrata de uma perspectiva expressionista, etc. A Filosofia não é Arte - ou, pelo menos, não é evidente que o seja.

Ora, sendo difícil definir o problema, isto é, determinar os critérios que devem ser cumpridos para que ele seja respondido, não é mais fácil responder-lhe, mesmo se se conseguiu definir os critérios.

Umas das razões pelas quais é muito difícil definir a Filosofia é, precisamente, que é muito difícil perceber qual é o seu objecto. Por exemplo, a Biologia, a Matemática, a Física são áreas cujo objecto está bem delimitado e qualquer manual de Biologia, de Sociologia ou de Psicologia começa imediatamente por definir o objecto da disciplina. Cada disciplina estuda um objecto. Claro que também há alguma dificuldade em saber qual é o objecto próprio da Psicologia ou da Matemática, e também há quem discorde daquilo que os manuais dizem, mas, em princípio, cada uma dessas disciplinas tem um objecto definido, preciso, claro e distinto. Contudo: o que é que a Filosofia estuda? O objecto da Filosofia parece ser mais vago, pelo menos, mais difícil de definir, de tal modo que as outras disciplinas parecem nascer, justamente, quando a definição dos seus objectos atinge um certo grau. Na verdade, quase todas as disciplinas têm a sua origem, mais ou menos remota, na Filosofia. A Filosofia é, de algum modo, a mãe de todas as disciplinas - e estas nascem separando-se da Filosofia quando o seu objecto está rigorosamente definido. Entretanto, a Filosofia permanece ao longo de milénios com imensas dores de parto relativamente ao seu próprio objecto. Mas esta é uma das razões pelas quais a Filosofia não se confunde com as demais disciplinas.

Então, como vimos, a Filosofia não se confunde nem com o relativismo artístico, nem com os dogmas da religião, nem com os preconceitos do senso-comum, nem com a objectividade formal e protocolar das ciências. Que é, então, a Filosofia?

Poder-se-ia procurar na sua história um padrão, o suco da actividade dos filósofos, o denominador comum aos que, nas diversas épocas, fizeram Filosofia. Mas também isto se torna muito difícil: o que é que é comum a Tales, a Sócrates, a Platão, a Aristóteles, a Santo Agostinho, a Descartes, a Hume, a Voltaire, ao Marquês de Sade, a Hegel, a Kierkegaard, a Nietzsche, a Rawls, etc... De resto, são eles próprios que não concordam entre si relativamente ao que é a Filosofia, relativamente ao sentido daquilo que eles fazem enquanto filósofos. Muitos deles nem eram filósofos profissionais, nem estudaram Filosofia de um modo formal. E aqui está outro problema quanto ao que é a Filosofia: as perguntas da Filosofia interessam a todos, são perguntas que todos colocam ou podem colocar, independentemente da profundidade com que o fazem.

A pergunta pelo sentido da vida não é, evidentemente, uma pergunta exclusiva dos filósofos profissionais, contudo, esta é uma pergunta essencialmente filosófica e é mesmo a pergunta-tipo da Filosofia. O que caracteriza os filósofos profissionais - e, neste sentido, a Filosofia - é colocarem estas perguntas de modo explícito, sistemático e rigoroso, enquanto a maior parte das pessoas tem uma relação implícita com elas. Por exemplo, um sujeito vive se acordo com um certo sentido pressuposto, dá a pergunta por resolvida, na verdade pode nunca colocar a pergunta de um modo explícito justamente porque já vive segundo uma determinada resposta que está em funcionamento. Talvez um dia, por um motivo qualquer, dê consigo sem um sentido, ou a vida despe-se de sentido para ele, e então suicida-se. Estes dois modos de lidar com a pergunta pelo sentido da vida são modos imediatos de se haver: num deles tudo corre sobre rodas e o sujeito nem se apercebe de que há uma pergunta em causa; no outro a pergunta abate-se sobre ele na forma de embargo, de colapso do sentido que estava em causa. Assim, é perfeitamente possível que uma pessoa viva a sua vida como se o seu sentido fosse acumular dinheiro, e isto sem colocar explicitamente a pergunta sobre qual é o sentido da vida. E é possível que um dia, por um qualquer azar, perca tudo o que tem e se suicide sem colocar verdadeiramente em causa que o dinheiro constitua o sentido da vida. Este modo imediato de aceitar sentidos, significados, etc., que estão imediatamente disponíveis, dados e adquiridos distingue-se da atitude filosófica perante a vida que se caracteriza, justamente, por colocar perguntas e levantar problemas.

Neste sentido, a Filosofia e o filósofo questionam aquilo que, muitas vezes, a maioria das pessoas não questiona. Nisso, o filósofo é semelhante à criança, mas é diferente dela porque o questionamento da criança é espontâneo, isto é, não é menos imediato do que a aceitação dos adultos relativamente aos status quo. A criança pergunta aquilo que ainda não sabe, aquilo para o qual ainda não tem uma resposta disponível - mas isto ainda não é uma atitude estritamente filosófica, pois se encontra ainda num estado imediato: pergunta, justamente, porque não tem uma resposta. É evidente que o filósofo também pergunta porque não sabe e, nesse sentido, pergunta pela mesma razão que a criança. Mas o filósofo coloca em questão, justamente, aquilo que já tem uma resposta disponível - e é precisamente esta resposta disponível que o filósofo começa por colocar em questão. Ou seja, enquanto a criança pergunta, de certa forma, porque ainda não tem um preconceito em vigor, o filósofo pretende colocar expressamente o preconceito em questão. Assim, o facto de uma criança colocar muitas questões não quer dizer, de modo nenhum, que tenha um espírito filosófico - com o tempo, a maioria delas tende a entrar em rotinas, a aceitar conceitos e juízos em vigor: grande parte da educação e da aprendizagem consiste nisto.

Outro aspecto que distingue a pergunta do filósofo da pergunta da criança é a autonomia, a sistematicidade e o rigor. A criança pergunta e espera uma resposta - e todo o seu perguntar pode consistir apenas nisto. Depois pode simplesmente aceitar a resposta. O filósofo, por seu lado, procura responder à pergunta por si. Isto não significa que ignore todos os outros, tudo o que se disse sobre o assunto: significa que não está apenas à espera que a pergunta seja respondida por uma autoridade, pelo pai ou pelo Papa, por exemplo. Procurará responder à pergunta por si mesmo, embora com rigor. E porque a Filosofia procura manter esta atitude relativamente a tudo, evitando preconceitos, ideias fixas, dogmas sem fundamento, etc., a Filosofia é sistemática: a regra é assumir apenas o que tem fundamento.

Ora, desde há muito o espanto é associado à Filosofia e à atitude filosófica. De facto, o espanto parece ser uma condição sem a qual não há questionamento e, simultaneamente, parece ser uma causa deste. Quando conduzimos por uma caminho que nos é habitual raramente prestamos atenção às coisas e, assim, é perfeitamente possível que um dia nos surpreendamos com aquilo que não conhecemos nesse caminho que nos parecera sempre tão familiar. Mas quando nos surpreendemos, quando nos espantamos que algo esteja ali, talvez fora do lugar, talvez a impedir-nos de continuar, nesse momento damos conta disso que salta à vista, que literalmente nos invade a esfera de atenção. A Filosofia parece começar por algo deste género: por uma chamada de atenção. No início, na maioria das vezes, o questionamento instala-se porque alguma coisa correu mal ou porque alguma coisa está fora do lugar.

Quando, de repente, rebenta um trovão, assustamo-nos. Quando algo extremamente belo, ou extremamente feio nos confronta, nós admiramo-lo. O susto e a admiração são formas de espanto. O espanto é algo que nos interpela, que perturba a nossa normalidade, que interfere com a indiferença em que nos possamos encontrar.

Como é evidente, este espanto natural que provém do incomum, do invulgar, do anormal, não basta para caracterizar a atitude filosófica. Para percebermos porquê podemos tomar atenção a dois pequenos exemplos.

Conta-se que havia no oriente um sábio cego que um dia encontrou um elefante. Depois de apalpar o animal o nosso sábio concluiu que se tratava de uma vaca estranha: ao apalpar a tromba sentenciou que se tratava de uma cauda no lado errado, ao apalpar as presas sentenciou que se tratavam de chifres no sítio errado. Parecia-lhe, pois, uma vaca extraordinária, de enormes proporções e com partes fora do sítio.

O nosso sábio sabia bem o que era uma vaca, mas nunca tinha apalpado um elefante. Como é evidente, o nosso sábio também poderia ter admitido que não sabia o que aquilo era, ou posto a possibilidade de se tratar de uma animal desconhecido para ele até à data. Não interessa que nome ele lhe desse. Mas era-lhe mais cómodo tratar daquele animal como sendo uma vaca porque já sabia o que era. Claro que o sábio se espantou da envergadura do animal, mas foi-lhe difícil ver que não se tratava de algo que ele já conhecesse. O filósofo tem, se ele é filósofo, a lentidão necessária para não saltar apressadamente para conclusões.

Um filósofo grego suspeitou um dia que a Terra não era plana, mas sim redonda. Sustentou que a Terra se movimentava no espaço. Eram teses difíceis de aceitar que contradiziam crenças muito antigas. Mais do que isso, o filósofo punha em causa todo um modo de ver o problema. Ao defender as suas teses ficava exposto a uma grande dificuldade: como era possível que a Terra se movimentasse no vazio do espaço sem cair; a Terra, dizia o senso-comum, deveria ser suportada por algo ou então cairia. Mas o nosso filósofo pôs em causa essa dificuldade, reformulou o próprio problema: aquilo que nós sabemos é que as coisas caem para a Terra, mas por que motivo a própria Terra deve cair? Assim, em vez de assumir que a Terra deve estar sobre alguma tartaruga, ou às costas de algum elefante, o nosso filósofo decidiu que o problema em causa era um falso problema. Com isto ele chegou onde muito poucos chegaram antes de passados perto de 2000 anos depois dele... 

O decisivo não é sublinhar que o nosso filósofo descobriu isto ou aquilo acerca do planeta Terra. Ele poderia até estar errado, não é isso que está em questão. Mas ele fez algo muito difícil - talvez o mais difícil - que é ver o preconceito. Isto é muito difícil porque os preconceitos são aquilo com que vemos o mundo, o que torna muito difícil vê-los a eles. É muito fácil ver um preconceito apenas quando ele está nos olhos dos outros

O espanto que caracteriza a Filosofia não deve ser confundido com o espanto espontâneo. O decisivo é a capacidade do sujeito se espantar com o vulgar, com o comum, com o mais ordinário, justamente, com aquilo que faz de cada-dia apenas mais um dia. O filósofo espanta-se, precisamente, pelo facto de haver alguma coisa em vez do nada - isso mesmo que é o mais vulgar: haver mundo, haver isto que há, isto mesmo espanta o filósofo. Enquanto o senso-comum afirma prudentemente que as coisas são como são, que a vida é assim, a realidade é o que é, o filósofo espanta-se com aquilo que há, que as coisas sejam assim e não de outro modo qualquer. Daí que a Filosofia se projecte não só sobre o mundo para compreender o que ele é e como é, mas também sobre o que ele deve ser e porquê.

Uma forma bastante antiga de definir a Filosofia é recorrer à sua etimologia, ao significado da palavra tendo em conta a sua origem grega. Filo-sofia significa amor (filia) à sabedoria (sofia).

A concepção que os gregos tinham do amor é a de falta ou sentimento de falta: nós amamos aquilo que nos falta, ou amarmos algo é sentirmos falta disso e amamos enquanto e na medida em que sentimos tal falta. De facto, é possível que algo esteja em falta, que algo nos falte e não o amemos apenas porque não sentimos a falta. Quer dizer, a falta só produz efeitos reais quando é consciente. Como é evidente, eu posso perder a carteira e não estar nada preocupado com isso simplesmente porque não me apercebo da sua falta. 

Assim, ao definirem-se como amantes da sabedoria, os filósofos demarcavam-se relativamente a toda uma tradição de sábios. Mas note-se bem: os filósofos não se demarcavam senão para sublinharem que eles, ao contrário dos sábios, não sabiam

Os filósofos admiravam, citavam, comentavam, respeitavam os sábios que fizeram parte da Antiguidade. Podemos ver como Platão respeitava muitos desses sábios cujas máximas ainda hoje podem ser citadas, admiradas e comentadas. Ou seja, não há nada de errado em ser sábio. Como amante da sabedoria, o filósofo deseja tornar-se sábio. O problema, evidentemente, é que um sujeito pode ser tomado por sábio, julgar-se ele mesmo sábio e, no entanto, ser um ignorante. Aquilo que os primeiros a chamarem-se filósofos parecem ter descoberto é que há semelhanças muito significativas entre o sábio e o ignorante. Nomeadamente, ambos julgam saber. Claro que o ignorante julga saber aquilo que não sabe e o sábio julga saber aquilo que sabe. Portanto, entre os dois não há diferença nenhuma senão a de que um sabe e o outro não sabe, e isto é o que é decisivo.

Dado que ambos julgam possuir o saber, nenhum deles o procura. O sábio não o procura porque julga possuí-lo e, de facto, possui-o. O ignorante não o procura porque julga possuí-lo, mas, de facto, não o possui. Entre estas duas possibilidades limite - a sabedoria e a ignorância - encontra-se a Filosofia como caminho, sendo que o decisivo é que o caminho faz-se percorrendo-o. E no momento em que o sujeito descansa sob a pretensão de já saber, nesse instante, ele adormece, relaxa: se ele se tornou sábio ou não ainda não o sabemos. O facto de um sujeito asseverar que sabe isto ou aquilo, o facto de ele estar convicto não prova, não demonstra, não significa que ele o sabe - mas se ele descomprimiu a sua relação com a sabedoria, então ele está anestesiado, não procura o saber. 

E foi esta uma das grandes descobertas de Sócrates.

Habitualmente, pensamos na ignorância como uma ausência de saber reconhecida, como quando perguntamos a alguém quem foi Homero e essa pessoa nos diz que não sabe. Pensamos na ignorância como uma ausência explícita de saber, como quando alguém nos diz que Nietzsche foi um médico Holandês do século XVII. Estes dois casos revelam ignorâncias facilmente identificáveis para terceiros, e é em casos como estes que normalmente pensamos quando pensamos na ignorância. Então, a nossa tendência é, naturalmente, para ensinar e corrigir - no pressuposto de que nós sabemos. Mas Sócrates mostrava-se sempre admirado por os seus interlocutores afirmarem saber aquilo que, para ele, não era nada evidente. Por isso, assumia uma atitude diferente: através de perguntas procurava verificar se o sujeito sabia realmente daquilo que falava e, normalmente, o próprio acabava por assumir que, afinal, não sabia aquilo que julgava saber.

Assim, Sócrates mostrou que a ignorância tem um aspecto que não se mostra à primeira vista - nem aos outros, nem ao próprio. Um sujeito pode julgar-se sábio e estar equivocado quanto àquilo que julga que sabe. O primeiro passo para procurar é reconhecer que ainda não se tem, e é este primeiro passo que falta à ignorância. Para que o sujeito procure a sabedoria, para que se torne filósofo, não basta que seja ignorante - na verdade, o ignorante enquanto ignorante nunca é filósofo - é preciso que reconheça a sua ignorância, é preciso que saiba que é ignorante. Mas também não basta isto.

De facto, um sujeito pode assumir que não sabe isto ou aquilo e não se sentir minimamente pressionado para o procurar saber. É isto que acontece com todos nós. Na verdade, nós assumimos e sabemos que não sabemos muitas coisas e julgamos que, ao reconhecer isso, somos humildes. Ou seja, julgamos que reconhecemos a nossa ignorância simplesmente assumindo que, por exemplo, não sabemos quem foi Homero, ou quem foi Nietzsche.

Acontece, porém, que muitas vezes esta forma de assumir a nossa própria ignorância não é mais do que um subterfúgio. Ou até um modo de reforçarmos as outras coisas que sabemos

Normalmente, assumimos que há coisas que não sabemos, que não sabemos a maioria das coisas - mas este reconhecimento não afecta, para nós, o estatuto daquilo que julgamos saber. Ou seja, eu não sei quem é Homero, mas isso também não afecta a maneira como vejo as coisas e permaneço certo acerca da maneira como vejo as coisas. Com isto, na verdade, eu ajo como se já soubesse que isso que eu não sei é indiferente, de maneira que não me move, não me interessa. Nós não ficamos paralisados quando descobrimos que não sabemos quem foi Homero. A maioria de nós continuará a ir para os seus empregos, etc., certo de que a sua ignorância quanto a Homero não influencia as suas certezas vitais.

Mesmo quando reconhecemos que há coisas que não sabemos tendemos a fazê-lo dentro do horizonte de familiaridade daquilo que sabemos. Por isso, a maioria das pessoas reconhece sem dificuldade que não sabe nada de matemática, de política, de arte, etc., sem que isso lhe paralise a existência. Admitem, justamente, que não se interessam por essas matérias, e têm por certo que tais assuntos são inócuos quanto ao sentido daquilo que fazem. Isto é, comportam-se como se soubessem que aquilo que não sabem é irrelevante. Como se soubessem que, mesmo se soubessem aquilo que reconhecem que não sabem, nada mudaria de substancial quando às suas vidas. Mas Sócrates afirmava que só sabia que nada sabia.

Portanto, o filósofo não é um simples ignorante, nem é um simples sábio. Ele sabe na medida em que reconhece a sua ignorância. Ele ignora na medida em que não julga já saber. Mas ele é, sobretudo, um conflito, isto é, um confronto entre o reconhecimento da ignorância e o desejo de saber. A Filosofia lida com problemas que interessam a todos justamente no sentido em que as respostas a estes problemas têm consequências na forma como se está na vida. Pelo menos, isto é assim se o interesse for genuíno, pois, como é evidente, um sujeito pode fazer filosofia apenas na medida em que é a sua actividade profissional. Mas os problemas tipicamente filosóficos são essencialmente humanos: qual é o sentido da vida?, o que significa ser humano?, o que é a morte?

Portanto, a maioria das pessoas vive, por exemplo, segundo uma determinada concepção de vida, um determinado sentido na vida: o emprego, o dinheiro, a família, os filhos, etc. Isso não significa que o sujeito que assim vive, por exemplo, recebendo sentido da sua entrega à família ou ao emprego tenha alguma vez posto de modo explícito e sério a pergunta pelo "sentido da vida". De facto, uma parte das pessoas talvez assuma que não sabe qual é o sentido da vida e reconheça que nunca teve tempo para pensar nisso. Mais do que isso, uma parte das pessoas talvez respondesse que não se interessa por esse tipo de perguntas, ou que tem coisas mais importantes com que se ocupar para perder tempo a filosofar. Ou seja, o sujeito que assim faz está aquém de reconhecer efectivamente a sua ignorância e a sua declaração de ignorância é apenas hipocrisia.
Ora, o filósofo não se limita a reconhecer que é ignorante. O filósofo está comprometido com a busca, com a procura. O filósofo está em tensão.

Neste sentido, a Filosofia como amor à sabedoria consiste no interesse do sujeito, na tensão em que um indivíduo se encontra para procurar uma resposta adequada. E isto envolve, como já se disse, toda uma complexidade de problemas, de modo que o filósofo tem de manter, continuamente, a atenção posta numa série de factores: nos preconceitos que possam estar a deturpar a sua perspectiva, nos mal-entendidos em que a própria colocação da questão possa estar embrenhada, etc. E claro que um bom filósofo também não deixará de lado a própria história da Filosofia, aquilo que outros já disseram sobre os assuntos que o ocupam, etc.

E uma das perguntas que ainda ocupa a Filosofia é: o que é a Filosofia?

De alguma forma, a resposta que um filósofo der a outras questões filosóficas fundamentais - tais como: qual é o sentido da vida?, o que significa existir?, o que é o humano?, o que é a morte? - determinará a sua noção completa de Filosofia. Mas, provavelmente, a Filosofia permanecerá para sempre associada à noção de douta ignorantia de Sócrates, e, provavelmente, este permanecerá para sempre como o exemplo paradigmático do filósofo.


Nicholas Winton e o silêncio

A propósito de baldes de água gelada e coisas afins...


Nicholas Winton trabalhava na bolsa, tinha dinheiro e uma vida confortável no Reino Unido.

Um dia decidiu usar os seus dias de férias para viajar para a Checoslováquia com o objectivo de salvar crianças ameaçadas pelo regime nazi.

Foi assim que Winton esteve 15 dias na Checoslováquia a receber famílias preocupadas em pôr os filhos a salvo fora da esfera de influência do Reich.

Winton salvou 669 crianças. Crianças que, graças a ele, se tornaram adultas, tiveram filhos, netos e bisnetos. Em 15 dias quantas vidas não são da responsabilidade da acção de Nicholas?

O que é fazer "tudo quanto podemos"?

Como sabemos se fizemos tudo quanto estava em nosso poder?

Winton poderia ter permanecido - como toda a gente - na sua terra, na sua cidade, no seu trabalho, sem ter feito nada disto. Poderia ter usado as suas férias para se levantar tarde, para ler, para apanhar banhos de sol na praia. Winton poderia ter-se envolvido em longas disputas retóricas em cafés, poderia ter-se manifestado durante as refeições contra Hitler, contra a Alemanha. Poderia ter manifestado aos seus amigos o seu repúdio pelos nazis. Poderia ter despejado um balde de água fria pela cabeça a baixo para mostrar com isso o quanto amava as crianças judias que o Nazismo queria dizimar.

Contudo, Nicholas não fez nada disso. Permaneceu nele sempre um tipo peculiar de silêncio. Mesmo depois da guerra acabar, Winton guardou para si o que fizera. Não o publicou para receber atenção, não o postou para receber likes, não o cantou para ser admirado pelos amigos, colegas, amigas e amantes.

Winton manteve silêncio. Um silêncio peculiar. O silêncio da seriedade. O silêncio da consciência.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Do incomensurável no humano...

A propósito do humano...


Se nada há de incomensurável no humano...

"toda a forma é igual aos olhos da natureza, nada se perde [...].
O que importa à natureza sempre criadora que aquela massa de carne que hoje tem a forma de uma mulher se reproduza amanhã sob a forma de mil insectos diferentes? Ousarás dizer que a construção de um indivíduo como nós custa mais à natureza que a de um verme e que, por conseguinte, ela deva dar-lhe mais atenção?"
Justine, Marquês de Sade


Se o humano é matéria e pó e lama e nada há nele que o distinga de um monte de átomos...

"Wer leben will, der kämpfe also, und wer nicht streiten will in dieser Welt des ewigen Ringens, verdient das Leben nicht." - Se queres viver, então luta, e quem não quiser lutar neste mundo de luta eterna não merece a Vida."
Mein Kampf, Hitler


"só as naturezas inferiores encontram as regras para as suas acções em terceiros, e as premissas para as suas acções fora de si mesmo."

Temor e Tremor, Kierkegaard [Johannes de silentio]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Construir e edificar

A propósito de edificação...

Cada vez mais o nosso mundo está obcecado com a construção, quer horizontal quer vertical. Construir, construir, construir... mas não lhe interessa, de facto, edificar! Pois para edificar exige-se uma construção peculiar, específica: que a construção se eleve a partir do fundamento, que a elevação corresponda integralmente à profundidade.

O auto-engano em Descartes

A propósito de auto-engano...

"E tal como um escravo que goza em sonhos de uma liberdade imaginária logo que começa a desconfiar que a sua liberdade não é mais do que um sonho teme ser acordado e conspira, com as suas ilusões agradáveis, para continuar a ser enganado, assim também eu recaio insensivelmente por mim mesmo nas minhas antigas opiniões e refreio-me de me acordar desse adormecimento com medo de que a vigília laboriosa que sucederia à tranquilidade desse repouso, em vez de me fazer chegar alguma clareza e alguma luz no conhecimento da verdade, não seja suficiente para esclarecer as trevas das dificuldades"

Descartes, Meditações, Primeira Meditação

Neutralização

A propósito de finitude...


"[...] por um peculiar condicionamento do nosso ponto de vista, essas novas perspectivas, mesmo quando se impõem numa evidência, mesmo quando percebo que a realidade a que se reportam é tão real quanto a que tenho efectivamente apresentada, tende, apesar disso, a não ter o mesmo grau de impacto que aquilo que naturalmente me está dado. De tal modo que até quando claramente compreendo e homologo que as coisas são assim, como nessas perspectivas se aponta, isso não invade, tende a não invadir o meu campo numa incontornável imposição de si, num prendimento ao facto que manifesta. Notícia, que é, do remoto, a apercepção dos horizontes não tidos tende a conservar-se, não obstante a sua evidência, ela própria algo de remoto, que não move, não "faz frente" ao nosso ponto de vista."
Mário Jorge de Carvalho, Problemas Fundamentais de Fenomenologia da Finitude, pp. 753





"um sujeito pode perfeitamente «perceber» um enunciado e mantê-lo, ainda assim, muito longe de ter significado PARA A SUA VIDA"
Nuno Ferro e Mário Jorge de Carvalho (in Kierkegaard, Adquirir a Sua Alma na Paciência, p. 266) (destaque com maiúsculas meu)


"Nenhum enunciado pode, por si mesmo, obrigar o leitor a despertar para o facto de que, quando lê, tende para o adormecimento da sua própria situação."
Nuno Ferro e Mário Jorge de Carvalho (in Kierkegaard, Adquirir a Sua Alma na Paciência, p. 266) 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Sobre o REI está a MORRER, de IONESCO

A propósito da vida


O humano procura o máximo em cada fôlego, quer respirar vida em cada compasso. E nessa ânsia de usufruir da vida, de a aproveitar para viver, o humano não escapa ao mesmo de tudo. O último acto é a morte, e na vida nunca se chega realmente a viver.

para quê?



Comeria eu e beberia, só para poder voltar a ter fome e sede e comer e beber, até que a sepultura aberta sob os meus pés me tragasse e eu mesmo brotasse do solo como alimento? Geraria eu seres iguais a mim mesmo, para também eles comerem e beberem, e morrerem, e deixarem atrás de si seres como eles, que hão-de fazer o mesmo que eu já fiz? Para quê este círculo que continuamente torna a si, este jogo que sempre recomeça do mesmo modo, em que tudo passa-a-ser para perecer e perece para passar-a-ser de novo, tal como já foi; [para quê] este monstro incessantemente a devorar-se a si mesmo, para poder voltar a gerar-se, e a gerar-se, para poder de novo devorar-se?

FICHTE, Die Bestimmung des Menschen, trad. N. Ferro e M.J. Carvalho (a tradução surge em KIERKEGAARD, Diapsalmata, p. 57, numa nota da autoria dos tradutores)

quinta-feira, 29 de maio de 2014

da cegueira






"[...] a cegueira é, para nós, condição de possibilidade da lucidez: o único modo de abarcarmos a totalidade das determinações que há [...] depende, portanto, de um obscurecimento ou enfraquecimento dessas mesmas determinações. [...]
[...] A cegueira não é puramente negativa, mas permite um contacto com as coisas [...]. Mas esse aspecto positivo decorre do negativo."

Nuno Ferro, Comentário ao Da Reminiscência e da Reflexão da Mente Sobre Si Mesmo, de Leibniz (Fundação Eng. António de Almeida, Porto, 2008

The nature of knowledge

About... understanding.


The more you educate yourself, the less you understand where things come from, the less obvious things become and you begin to see the lies you tell to yourself. So, sometimes you realize you are not the wise person you thought. But, in the next second, you are back to the illusion that you're the only one to see the whole truth.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Comentário aos Resultados das Europeias de 25-05-2014, em Portugal

A propósito de Eleições Europeias - Portugal, 25-05-2014

1º.
É verdade que, em números absolutos, o PS ganhou, com 31,45%. Mas a coisa começa a ser cómica: o Seguro teve de se desunhar para fazer notar que o PS ganhou. Repetiu-o tantas vezes que até os mais distraídos começaram a desconfiar de que talvez, afinal, o PS tenha sido o verdadeiro derrotado do dia...
O PS começa a configurar um paradoxo interessante. Desde há milénios que se sabe que se pode ir ganhando batalha atrás de batalha até à derrota final... Mas o PS de Seguro tem mostrado que é possível ganhar e ser o derrotado! E isto é qualquer coisa!


É verdade. O grande vencedor da noite - à falta de melhor - foi Marinho e Pinto. Em 2009 o MPT teve 0.66% e agora teve 7,15%. E é absolutamente interessante a forma como os jornalistas - já nem falo de zombies como o Marques Mendes - se deleitaram a vilipendiar e a menosprezar o resultado, a posição e as ideias de Marinho e Pinto. Os jornalistas mostram-se, cada vez mais, como uma força de bloqueio, severamente conservadores, adversos a qualquer ideia com mais espessura do que o dedo de testa que eles não chegam a ter. Eu nem votei, nem votaria, nem me revejo na candidatura de Marinho e Pinto - mas a forma como se tentou, ontem, e se tentará hoje e amanhã, converter a vitória de Marinho e Pinto num resultado fruto de populismo é uma tentativa absolutamente ignorante, ignóbil e estúpida... e, curiosamente, são os jornalistas os seus principais mentores.


O Bloco de Esquerda tem de deixar, de uma vez por todas, de clamar vitória quando perde - tem de deixar de reclamar vitórias que não se obtiveram à sua custa, etc... A direita não perdeu graças aos votos que o BE teve. Por outro lado, os comentadores e fazedores de opinião do bloco central, PS-PSD-CDS, continuam com a ideia de que o BE deve "abrir-se", deve ir ao encontro deles, das suas ideias, das suas posturas, ser como eles, etc... É curioso, o bloco central acha muito bem que os outros partidos existam, desde que eles sejam como ele. Vamos lá a ver se nos entendemos: o facto de haver uma maioria PS-PSD-CDS não mostra que este "centro" esteja certo, esteja bem, etc. Não mostra, sequer, que a maioria da população esteja a seu favor... Porquê: porque a maioria das pessoa não está, de todo, interessada em política, em eleições, em votar, etc...


Alguém sugeriu que se fizesse um sorteio de um carro para ver se as pessoas vão votar... Mas isso não daria em nada, como é evidente. Mas se, por outro lado, se oferecesse a todos quanto fossem votar um bilhete para um jogo de futebol do Benfica, do Porto ou do Sporting, à escolha, tenho a certeza absoluta que a abstenção praticamente desapareceria e, de repente, toda agente acharia muito produtivo ir votar.
É verdade que há algo na abstenção que tem que ver com um distanciamento entre políticos e povo... Mas é uma falácia reduzir a abstenção a isto. Aliás, só quem ainda não foi ver o histórico de eleições nas democracias em geral (desde que não se seja legalmente obrigado a votar, porque há países em que isso acontece), ainda não teve ocasião de perceber que a abstenção é o fenómeno mais assíduo da Democracia. Parece que em Portugal a coisa se agrava, e se agrava sobretudo nas Europeias... Mas isso não invalida esta hipótese: as pessoas não votam porque não há interesse, há abstenção porque as pessoas se estão nas tintas. Falam contra o Governo porque falar é fácil, mas estão noutra - literalmente noutra: estão no futebol, por exemplo. A coisa é por demais evidente: há consciência futebolística em Portugal.
Dito isto, é também evidente que um certo comportamento dos políticos tem afastado ainda mais as pessoas. Mas não é só o facto de os políticos falarem uma linguagem incompreensível, ou de mentirem, etc... Tudo isso poderia, justamente, fazer com que as pessoas fossem votar: para penalizar os mentirosos, para substituir os que não se compreendem por outros compreensíveis...
Há aqui aspectos que não interessa agora focar, mas, no essencial, as pessoas não votam porque, em geral, reina o desinteresse, a falta de uma consciência política. É um aspecto estrutural. A abstenção não é circunstancial.


As pessoas passam ano atrás de ano a dizer mal dos que governam e, depois, ou votam nos mesmos de sempre, ou não vão votar - para continuarem, depois, a queixar-se que os políticos são sempre iguais... Estranho seria que mantendo sempre lá os mesmos, os mesmos não fossem sempre a mesma coisa... Isto é um princípio muito bem conhecido: o princípio do lunático que consiste em fazer o mesmo repetidamente, passo o pleonasmo, esperando resultados diferentes. E, mais uma vez, isto acontece porque até mesmo entre os que votam reina um pano de fundo de indiferença, de desinteresse, de inconsciência.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

A atracção da consciência pela inconsciência

A propósito de sonambulismo.



Regra geral e ordinariamente, a consciência de um indivíduo ocupa-se sobretudo de garantir a diminuição do esforço. Qualquer economista, biólogo, agente de marketing, sabe isto e aplica-o diariamente. Aquilo que os homens mais desejam é "obter com facilidade, rapidamente, e sem esforço". E querem tanto isto que, na maioria das vezes, não só querem obter sem esforço aquilo que querem, como também se convencem a si mesmos que querem apenas aquilo que não lhes exige esforço.

Isto tudo quer dizer que há um receio íntimo na consciência acerca de si mesma - há uma espécie de medo inconsciente de intensificar a consciência, e este medo parece fazer parte da própria consciência como ela habitualmente se mantém. Quer dizer: a consciência é naturalmente atraída pela inconsciência - o estado de vigília é naturalmente atraído pelo adormecimento. (Não se deve confundir isto com a preguiça - que é, de facto, um modo, mas apenas um, desta atracção pelo adormecimento).

Dito de outro modo, os homens desejam naturalmente ser sonâmbulos - o que revela que eles não o são. Isto pode ser dito assim: a natureza tende para o menor caminho que leva à fonte, e a consciência, no início e na maioria das vezes, rege-se por esta regra natural.

No entanto, e de modo decisivo, a intensificação da consciência dá-se só e apenas na intensificação do esforço, e a capacidade humana para resistir à tentação é, justamente, a marca de que é um si mesmo, e isto quer apenas dizer que um homem não é um si mesmo senão por via do esforço... Então, a questão é: mas se a consciência se vive habitando um estado de sonambulismo voluntário, se o sujeito está a dormir enquanto está acordado, como é que ele se pode acordar a si mesmo?

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Instalação do Medo, de Rui Zink

A propósito de ZINK, R., A Instalação do Medo...

Zink, Rui, A Instalação do Medo... é um livro interessante que vale a pena ler.

Explora o medo, como o nome indica, nas sociedades contemporâneas.

Provavelmente, desde que o homem é homem que tem medo de alguma coisa... Há medos mais ou menos radicais, supérfluos, profundos ou superficiais... desde os antiquíssimos medos às feras, à escuridão, à morte, à dor, à violação, ao abandono, medos que são tão antigos quanto o sangue humano, até ao medo incutido, artificialmente, pelas estruturas de poder, pelas instituições, pelos homens uns aos outros... Há medos para todos os gostos.

A Instalação do Medo - põe às claras uma hipótese bastante incisiva: o modo como, nas sociedades contemporâneas, altamente tecnológicas e economicizadas, os poderes usam e abusam do medo para controlar os cidadãos corre o perigo - mais do que de criar uma sociedade sem vontade, sem estrutura dorsal - corre o perigo de criar uma sociedade psicopata. Literalmente psicopata.

A linguagem da economia e das finanças, das dívidas, da austeridade, da necessidade, da subjugação da humanidade à moeda não corre apenas o perigo de criar um mundo pobre, cão, injusto. Corre o perigo de criar um mundo psicopata. Não apenas um mundo desumano. Mas sim um mundo desumano psicopata.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

A loucura inconsciente

A propósito da loucura de Demócrito

No célebre problema da loucura de Demócrito aos olhos dos abderitas desoculta-se o aspecto louco da vida quotidiana do homem vulgar. Demócrito sugere que o mundo todo está louco, doente.

Pode acontecer que o mundo inteiro esteja doente sem o saber - e que a sua doença seja a loucura. Assim, a doença dos homens é que aquilo que tomam por sabedoria seja loucura - e esta doença consiste no passar despercebida ao paciente.

sábado, 12 de abril de 2014

Inconsciência de si

A propósito de "Immediacy, the aesthetic, finds no contradiction in existing: to exist is one thing, and the contradiction is something else which comes from outside",
Kierkegaard, Postscript

Onde quer que haja existência há contradição.
Onde quer que haja consciência, há contradição para si.
Do ponto de vista da existência, a maior contradição é o humano que vive sem ser contradição para si mesmo - e a contradição é o facto de ele estar inconsciente de si, de ele, sendo consciência, não estar consciente de si. Do ponto de vista da consciência, o humano que vive sem ser contradição para si não é efectivamente contradição alguma - e a contradição é que ele não é, realmente, um si-mesmo.

Como é que, havendo consciência, pode não haver consciência de si?
Vivendo no imediato, o sujeito pensa-se a si mesmo como uma coisa, e pensa aquilo que ele quer como sendo outra coisa, de modo que a contradição não está nele, mas vem de fora, quando o mundo não lhe dá o que ele quer.
No limite, o sujeito que vive no imediato pode estar tão inconsciente de si que quase não há nele nenhuma consciência, nenhuma reflexão - e isto pode acontecer na medida em que a vida lhe corra bem, porque nesse caso, visto que a contradição não lhe chega de fora, e ele não está consciente de si, na verdade este sujeito, embora possa desempenhar qualquer função no mundo, ser considerado um homem de sucesso e até parecer ser um homem de grande lucidez, é uma espécie de anémona ou de polvo, que passa daqui para ali sem dificuldade, que tanto está num lado como no outro, e que com facilidade pode vir a ser para o mundo o homem mais feliz da sua geração. E, contudo, si-mesmo é que ele não é.

sábado, 29 de março de 2014

A Cobardia da Consciência

A propósito de cobardia


O medo é uma categoria psicossomática. Tenho medo, logo, estou lúcido. Aliás, como é evidente, quanto mais medo tenho, mais lúcido estou. Paradoxalmente, o medo parece poder ser tão extremo que dá o salto, para o pânico, em que a lucidez se vai e o sujeito é como que um corpo, um animal a fugir pela sua pele. O pânico é, ou parece, uma categoria somática.
A cobardia não é uma categoria psicossomática. Porquê? Porque a cobardia envolve a relação entre o medo e um ideal. Há, portanto, uma contradição: o sujeito quer avançar pela estrada, mas é de noite e tem medo. Ter medo não é qualquer coisa neutra, que um indivíduo notifica sem ser afectado. Ter medo é estar lúcido de uma afecção, e por isso é psicossomático. Mas ser cobarde vem depois. Um sujeito pode ser cobarde porque ele pode sentir medo e seguir em frente. Um sujeito pode ser cobarde porque o facto de ele sentir medo não implica voltar para trás. É isso que acontece com o corajoso. O corajoso vai pela estrada e é afectado pelo medo, até mesmo por um medo intenso. Talvez pare de andar, pare para duvidar de si, da estrada, da noite e do escuro. Depois, consigo, decide. Pois trata-se de decidir visto que o medo não decide por ele. E porquê? Por que não decide por ele? Porque o sujeito está consciente: ele tem uma tarefa, e a possibilidade de ceder ao medo é uma oposição à realização dessa tarefa. O corajoso é corajoso, não porque tenha nascido assim - porque, então, ele seria intrépido e não sentiria medo algum -, mas ele é corajoso porque decidiu seguir em frente. Ele decidiu seguir em frente porque não sentia medo? Não. Ele é corajoso, justamente, porque vai em frente com medo. Se ele fosse em frente sem medo não seria corajoso nem cobarde - seria intrépido, mas, então, seria intrépido apenas do ponto de vista de um terceiro. Como poderia o intrépido saber que é intrépido se ele se caracteriza por não saber o que é o medo, nem o que mete medo, porque ele não sente medo. Pode arriscar a vida, mas se o faz intrepidamente, não há nenhuma coragem nisso.
Contudo, o cobarde não é um medroso. O medroso vai por uma estrada, sente o medo e volta para trás. O medroso é psicossomático: sente-se o medo e inverte-se o caminho, foge-se, não há alternativa, ele não tem uma alternativa. O cobarde, pelo contrário, sabe que fugir é uma possibilidade, e sabe que seguir em frente é uma possibilidade - por isso decide, porque se trata realmente de decidir fugir ou seguir em frente. O cobarde decide fugir.
A cobardia é uma qualificação do espírito, do si. O sujeito é cobarde porque sabe que é cobarde. Não se é cobarde sem se saber que se é cobarde, mas se se é cobarde, então há consciência de que havia outra possibilidade e que não a ter seguido foi uma decisão que se tomou.
Ninguém pode saber quando um outro é um cobarde. Porquê? Porque ele pode ter sido simplesmente um medroso. Se foi medroso, a culpa não foi realmente dele. Culpar um medroso por ser medroso é como culpar um sonâmbulo por ter partido a televisão enquanto andava a dormir: se ele estava a dormir como pode a culpa ser dele? Se um sujeito está a dormir, como se lhe pode exigir que ele se acorde a si mesmo? Ninguém pode saber quando um outro é um cobarde - porque a cobardia é uma qualificação da interioridade. Só o cobarde pode ter consciência de ser cobarde. Outra questão é se ele "sabe" que é cobarde. Ele é cobarde se estava consciente da contradição entre o medo e um ideal, de tal modo que estava consciente de haver duas escolhas possíveis, a de voltar para trás e a de seguir em frente, e perante isto decidiu voltar para trás. E disto ele está consciente, como todos nós sabemos, se já aconteceu sermos cobardes ou corajosos: o que era evidente para nós naquele momento é que havia dois abismos profundos que nos dividiam em dois, a cobardia e a coragem; o que era transparente para nós era a urgência do momento que nos engolia com o tempo que não tínhamos; o que nos dilacerava era a dualidade tão dolorosa de um lado como do outro, embora cada uma das dores fosse completamente diferente da outra. Mas daqui não se segue que aquele que foi cobarde saiba que foi cobarde. E porquê? Deve ter existido um momento em que soube que foi cobarde e, no entanto, no dia seguinte, não só nas conversas com os amigos como nas conversas consigo mesmo, talvez tudo já tenha sido reflectido, explicado, traduzido num conjunto de conceitos mais ou menos sofisticados cuja função é pacificar a consciência. Então, ele pode não só já não ser para si mesmo um cobarde, como se pode ter tornado no mais prudente dos homens, num excelente exemplo de capacidade de auto-avaliação e de perspicácia, de tal modo que aquele que numa sexta à noite foi o mais cobarde da sua aldeia, e foi cobarde para si mesmo, se pode ter tornado, lá por volta do café da manhã de sábado, e graças aos pozinhos da lucidez, o mais corajoso dos homens. Sim, porque agrada mais a um sujeito chamar coragem àquilo que fez do que chamar-lhe cobardia. E desta maneira aquele que, por cobardia, fugiu, pode acreditar que o fez por ter tido a coragem de abandonar o caminho. E ele mesmo o dirá: "por vezes, é preciso ter a coragem de saber quando desistir".
Assim, só o cobarde pode saber se foi cobarde, e, no entanto, ele é o menos interessado em sabê-lo. Por isso, acontece com a consciência esta coisa muito estranha: aquele que para ser cobarde tem de estar consciente de ser cobarde pode tão facilmente como quem muda de camisa tratar-se por corajoso.

Evidentemente, não é num mesmo momento que ele tem consciência de agir cobardemente e não tem consciência disso. No entanto, a existência tem este pormenor: o tempo. E um sujeito, se for atento a si mesmo, deve ser capaz de, volta e meia, se apanhar a si mesmo neste jogo de conceitos, nesta artimanha inconsciente-consciente. De tal modo que talvez aquele sujeito que fugiu numa sexta à noite e no sábado de manhã se tratava a si mesmo por corajoso, anos mais tarde venha a reconhecer para si mesmo: "eu sempre o soube e, no entanto, nunca o quis admitir".

sábado, 22 de março de 2014

Fé, conhecimento e opinião - o espectro da crença

A propósito de πίστις, ἐπιστήμη e δόξα...


Humm. Interessante assunto. Penso que, de qualquer forma, há uma constelação comum à fé e à crença. O termo cristão/grego para a fé é πίστις (pístis): confiança. Se se toma crença no sentido de opinião, δόξα, doxa, então parece estar no extremo do espectro: opinião-fé. A opinião pode ser considerada uma crença que se tem por uma questão de habituação, hábito ou interiorização irreflectida. A fé não é isto. No âmbito etimológico da pístis encontramos também a ἐπιστήμη (epistême): a familiaridade com o assunto. Pode-se ter um conhecimento porque se adquiriu uma familiaridade com a coisa - e, no limite, podemos falar de conhecimento fundamentado: que sabe a razão de ser daquilo que acredita, ou tem conhecimento acerca dos fundamentos do seu conhecimento. Se isto é possível, ainda assim não é fé. A fé não é, pois, nem opinião, nem conhecimento - e se já há conhecimento, não pode haver fé, e se há só opinião, ainda não há fé. A fé, portanto, pertence ao domínio do paradoxal: o crente sabe que não tem justificação para acreditar, ou que não há provas para aquilo em que acredita, e é neste ambiente de ausência de provas que ele tem fé. Em termos ético-religiosos a consciência é necessária: por isso, se simplesmente se acredita por hábito, e não se sabe que a crença é voluntária, não pode haver fé - há opinião que crê ser fé. Mas, em termos religiosos, se se sabe aquilo que se crê, então não se tem fé. E esta é, justamente, a fórmula da confiança: eu confio em alguém se não sei, de facto, o que vai fazer mas confio nela. E quando eu confio mais numa pessoa é quando tenho todas as razões para não confiar, e ainda assim confio plenamente - porque aqui a confiança é pura confiança. Quando eu tenho todas as razões para acreditar, então há de facto pouca confiança.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

a palma da minha mão

A propósito do princípio de isotropia do ponto de vista humano.





O indivíduo julga assim: se conheço a palma da minha mão esquerda, então conheço o Universo inteiro!

Bem, não duvido desse "se". Mas, até que ponto conheces realmente a palma da tua mão esquerda?

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Saber . Existir .

A propósito de conhecimento...

E se todo o conhecimento do mundo tiver como função o sujeito iludir-se a si mesmo?

O ser humano que viveu nos confins de uma floresta antiga sem saber nada do mundo tinha mais ou menos à sua disposição a possibilidade fundamental de ser autêntico?

Se a autenticidade é o decisivo - qual é a importância de todo o conhecimento, de todas as comodidades, de toda a civilização tecnológica? 

Não pode o humano confundir-se de tal maneira com a tecnologia que julga já não poder existir sem ela?

O humano é capaz de conhecer o mundo inteiro só para se encontrar, e de consumir o mundo para existir. E depois?


O sujeito que já viu o Evereste conhece-se melhor? O sujeito que tem o mundo a seus pés vive melhor? - o ponto de vista estético está-nos na carne


Como é que se pode vir a saber o que quer que seja? Não pode.

Só há duas hipóteses: ou já se sabe, e então é um saber tautológico (dedução); ou não se sabe ainda, e então nunca se pode vir a saber (indução, analogia...).

Podem-se acrescentar as provas que se quiser, mas se é preciso prova, então nunca se chega a saber.

A prova é uma aproximação - tipo o Aquiles atrás da tartaruga: nunca a provaalcançará a certeza, o saber, o conhecimento certo.

Se se quer mesmo dizer que se veio a saber alguma coisa mais, então o sujeito teve, em algum momento, DECIDIR dar o salto e dizer: "ok, já chega, agora acredito".

O saber ou é tautológico, ou é crença. A crença dá-se por um salto. A parte da aproximação sucessiva por meio de provas é o aspecto ilusório da coisa!

Isto é relevante do ponto de vista existencial - e não apenas para a ciência...

Como Kierkegaard muito bem viu, perceber isto é existencialmente decisivo...

O que é uma ilusão? O que é que se sabe? Quantas das coisas que dizemos saber foram aprendidas? Quanto do nosso mundo foi uma aprendizagem?

A dialéctica da honestidade

A propósito de honestidade e autenticidade

É qualquer coisa assim: (a análise fenomenológica em Kierkegaard tem de ser sempre dialéctica - isto é, não se pode determinar uma categoria sem a referência a uma outra - e sem, no limite, uma referência à estrutura fundamental do humano)

Do ponto de vista da autenticidade, quando o sujeito pensa que é honesto, então está a ser hipócrita - não há outra hipótese, se pensa que é honesto é hipócrita;
quando pensa que não está a ser honesto, pode ser que tenha ou não vencido a hipocrisia, mas isto só pode ser analisado dialecticamente - de onde se segue que

- quando pensa que não está a ser honesto, e não está a ser honesto, ele ainda se está a enganar e apenas diz que sabe que não é honesto para descansar a sua consciência, quando o decisivo não é admitir que não se é honesto, mas sim ser honesto; logo, do ponto de vista da autenticidade, ele está a ser hipócrita consigo mesmo;

- quando pensa que não está a ser honesto, e está a ser honesto ao dizer isso, então o decisivo já não é o que ele pensa que é, mas aquilo que ele está a fazer por vir a ser e, neste caso, ele com certeza não sabe se está ou não a ser honesto e, se portanto pensa que não está a ser honesto, isso significa que, no fundo, ele sabe que ainda havia mais alguma coisa no seu poder que poderia fazer e não faz, de maneira que, justamente porque é honesto quando diz que não é honesto, ele ainda está a ser desonesto; logo, do ponto de vista da autenticidade, ele está a ser hipócrita consigo mesmo.

Do ponto de vista da honestidade, quando o sujeito é autêntico, ele não sabe se é honesto.

A Autenticidade não se resume à Honestidade - apontamentos

A propósito de autenticidade e honestidade

Complicado. Kierkegaard é complicado...

Então: um sujeito é um sujeito real, e é um sujeito ideal. O sujeito é um sujeito existente e também pensa que é um certo sujeito.

O sujeito ideal está comprometido pela hipocrisia natural ao ponto de vista. Tem uma tendência natural para se enganar a si mesmo, sobretudo para se enganar quanto ao que ele é. Ora, isto não é uma característica exclusiva dos políticos ou dos padres, como uma certa leitura de Kierkegaard poderia dar a entender. Isto é assim connosco. Quando Kierkegaard diz que há uma hipocrisia natural no humano não está a dizer isso só das figuras públicas e de sucesso - mas de todos os homens.

Então basta ser honesto para se ser autêntico? Bem, não. Não basta. Não basta porque o que quer que eu pense que eu sou isso é, justamente, o que eu penso que sou. Por mais honesto que eu seja - isso sou eu a pensar que estou a ser honesto! O sujeito não sabe, de facto, o que ele mesmo é. O sujeito diz "eu sou isto" - e aqui está a hipocrisia. Quando ele diz "eu sou isto", o "isto" é o seu "eu ideal". Mas se ele diz "eu sou", está a querer entender que o "isto" é o "eu real". Mas onde está o "isto" que ele diz que é senão nas suas ideias? Em lado nenhum. Quando é que alguém consegue pensar alguma coisa senão por ideias? Nunca. O que é então "isto" que o sujeito diz ser? É um conjunto de ideias do sujeito acerca de si mesmo - e por muito honesto que ele esteja a ser relativamente a estas ideias, o sujeito real é outra coisa... Então como sair daqui? Bem, não se sabe... Mas presume-se que o sujeito real é o sujeito que existe - e, este "existe" não tem nada que ver com ideias, com teorias sobre como é fantástico que o sujeito pense e logo exista. Este "existo" quer dizer que tem uma vida. Portanto, não se sabe o que o sujeito real é - mas o ponto é exactamente esse: a autenticidade, seja o que for, tem de ter que ver com a existência, isto é, tem que ter que ver também com o que se faz.

Agora: se o sujeito pensa que é uma boa pessoa, isso é um pensamento, mas interessa que ele seja uma boa pessoa. Ser uma boa pessoa tem que ver com o ser uma boa pessoa. Pensar que se é uma boa pessoa não ajuda com isto.

O problema é: mesmo a honestidade não garante que já se esteja a ser honesto (justamente porque o sujeito não tem um acesso imediato a si). Ora, isto é um paradoxo. E o ser paradoxo é uma indicação de que deve ser assim. Senão, vejamos: o que é ser-se honesto? Será isso eu estar convencido de que estou a ser honesto?

Eu penso: estou a fazer tudo quanto posso! Mas justamente isto já é hipocrisia: "estou a fazer tudo quanto posso"??? E quando é que eu sei que estou a fazer tudo quanto posso? Saber isto - este saber, justamente este saber, é a hipocrisia!
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