quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Obras de Mário Jorge de Carvalho


Autor: Mário Jorge de Carvalho (Professor de Filosofia)

Total de artigos: [ 13 ].

A ordenação dos artigos não segue qualquer critério excepto o da data de inclusão neste Blog.



"To begin, there is no evidence to suggest that Fichte had any direct knowledge of the Stoic doctrine of oikeiosis. He never uses the concept of oikeiosis. It is probable he had absolutely no idea of it. And to impute him a doctrine of oikeiosis may seem far-fetched, if not absurd. Nevertheless, it is possible to speak of Fichte's "doctrine of oikeiosis," and an analysis of it may prove useful and enlightening, both with regard to the study of oikeiosis and to the study of Fichte. For, to a certain extent, Fichte deals with the same phenomena and faces the same problems, viz., the same dilemmas as the Stoics. In a certain sense, then, we can say that Fichte developed his own doctrine of oikeiosis. This doctrine can be found in different texts, among them the Sittenlehre of 1798. A comparison of Fichte and the Stoics on oikeiosis can, therefore, be of value for the study of Fichte, as it can provide a better understanding of his own philosophical stance, and it can also be of value for the study of the phenomena falling under the heading of oikeiosis, because Fichte attempts a fresh analysis of these phenomena and calls into question some of the deepest and most pervasive assumptions accepted in their philosophical and scientific analysis from antiquity to the present time."

2. Do Belo como constituinte do humano segundo Sócrates/Diotima

‎"ἡ θνητὴ φύσις ζητεῖ κατὰ τὸ δυνατὸν ἀεί τε εἷναι καὶ ἀθάνατος". Platão, Symposium/Banquete, 207d1.

"O texto fala de qualquer coisa como um καλόν puramente tal – e seria ocioso acentuar como é difícil entender o que isso seja e como é legítimo duvidar que, na verdade, haja (ou até mesmo que em absoluto pudesse alguma vez haver) algo assim.

[...] independentemente do que há ou não há, independentemente do que se consegue ou não consegue atingir, em última análise aquilo para que tende a petição de καλόν inscrita em nós (aquilo que, no fundo, procuramos na procura do Belo) seria nem mais nem menos do que a total conversão num καλόν puramente tal, feito inteiramente, exclusivamente disso. [...] esse é que é, em última análise, o Belo envolvido na constituição do Humano, essa é que é como que a Ítaca do nosso desassossego – uma Ítaca que até pode não haver ou a que, de todo o modo, porventura temos de renunciar, por não estar ao nosso alcance, mas para que tendemos. De sorte que nos define também sermos aqueles que, no fundo, mesmo que não tenham clara noção disso, sempre estão na falta e na procura de algo assim."


Mário Jorge de Carvalho, "Do Belo como constituinte do Humano segundo Sócrates/Diotima", In Revista Filosófica de Coimbra — n.º 38 (2010), pp. 369-468. Citação das pp. 446-447.

3. O egoísmo lógico e a sua superação – um aspecto fundamental do projecto crítico de Kant (ver pág. 229)

"A noção de “egoísmo lógico”, o complexo de fenómenos que designa e a análise daquilo que é preciso para a respectiva superação constituem importantes elementos do conceito formal de crítica. Na origem do projecto crítico, tal como foi desenvolvido por Kant (e tanto quer dizer, na origem de todos os seus desenvolvimentos), está a identificação de um conjunto de requisitos ou princípios de exigência quanto à perfeição formal na adopção de juízos. Esta perfeição corresponde à correcção na forma como os juízos são adoptados. Ela não tem que ver com (e não garante) a verdade material dos juízos. Consiste pura e simplesmente numa forma de adopção dos juízos (ou de relação com os juízos a adoptar) que não abra o flanco à possibilidade de erro – e isso quer dizer: que não envolva qualquer transgressão, não contenha nada de indevido ou mal formado no modo como se produz. Por outras palavras, no seu núcleo de base, a crítica tem que ver com a verificação da ausência (e, caso se encontre algum, com a total eliminação) daquilo a que Kant algumas vezes chama vitium cognitionis formale1 – um vício formal do conhecimento, um vício que compromete, por razões de forma, a perspectiva que se tem, impedindo-a de constituir efectivamente conhecimento."

Mário Jorge de Carvalho, "O egoísmo lógico e a sua superação - um aspecto fundamental do projecto crítico de Kant", In Kant: posteridade e actualidade, Lisboa, CFUL, 2006, pp. 229-256.


"Vorliegender Beitrag  befasst sich mit Fichtes Rezeption  von  Schellings System des transzendentalen  Idealismus. Es geht aber nicht darum, sämtliche Elemente zusammenzustellen und zu verwerten, die für die Erörterung dieser Frage relevant sind, und Fichtes Auseinandersetzung  mit dem genannten Hauptwerk Schellings eingehend zu analysieren. Man  muss sich  vielmehr darauf beschränken, auf einen  Teil der einschlägigen Quellen, und zwar auf Fichtes Kommentar zu Schellings Werk (unter der Überschrift „Bei der Lektüre von Schellings tr. Idealismus“) einen Blick zu werfen. Es handelt sich um ein zweiseitiges Manuskript, d. h. also um ein Fragment, ja um flüchtige Notizen, zum Teil sogar aus unvollständigen  Sätzen  bestehend. Hinzu  kommt, dass Fichtes Kommentar sich nur mit den ersten dreißig Seiten der schellingschen Abhandlung befasst. Ob  dies bedeutet, dass er die Lektüre abgebrochen  hat, weil er „sich  über die grundsätzliche Natur dieses Systems klargeworden  war“, muss hier dahingestellt bleiben. Sicher ist auf jeden Fall, dass der Kommentar sehr knapp gefasst und ziemlich bruchstückhaft ist."

Mário Jorge de Carvalho, Brüsseler Kongress der Internationalen Fichte-Gesellschaft (2009), disponível em www.europhilosophie.eu

5. Μέθοδος e ὑπόθεσιςo problema do pressuposto na fundação platónica da filosofia (ver ambos os links)


"Uma análise suficientemente fundada das questões que vamos considerar requereria que se examinasse, ponto por ponto, pelo menos toda a sequência dos livros V a VII da República."

6. A Further Point of View on Points of View

"This paper focuses on what is usuallu called "point of view" or "viewpoint" ("Standpunkt", "Gesichtspunkt", "point de vue", "punctum visus", "intuentis situs", etc.)."

7. Mallas que la autoconciencia teje


"Antes de concentrarnos en el § 9, convendrá tener presente la recapitulación que le precede y donde se diseña una sinopsis delrecorrido hecho desde el principio de la Wlnm. [...]

[...] En primer lugar, Fichte subraya que el hecho de que yo tenga en absoluto conciencia de algo radica propiamente en mí y no en las cosas. Por un lado, ese algo del que por de pronto tengo conciencia soy yo mismo. Por otro, todo lo demás (esto es, todo aquello que puede distinguirse de la autoconciencia propiamente dicha y, en concreto, las cosas mismas) corresponde tan sólo a las condiciones o a los requisitos de la autoconciencia misma —es decir corresponde a algo sin lo cual la misma autoconciencia no sería en absoluto."

8. O Tempo e o Cântico - Um Aspeto das Análises de Agostinho Sobre o Tempo


"Analisa-se a comparação entre o cântico e o tempo em Confessiones, XI. Procura-se mostrar que esta comparação a) ilustra a complexidade da distentio animi, enquanto cada um dos seus momentos também está constituído no modo da distentio, b) foca a isomorfia de estrutura entre as partes da actio, a actio, a actio longior, a uita, o saeculum, c) chama a atenção para o facto de uma actio se integrar sempre no quadro de uma actio longior, de esta se integrar sempre no quadro de uma uita e de esta se integrar sempre no quadro do saeculum, d) evidencia, portanto, que a distentio animi é de cada vez total, corresponde sempre a um cântico total – de sorte que e) antecipa a tese de Kant segundo a qual não é possível uma representação apenas parcial do tempo e a representação do tempo constitui um totum analyticum."

9. Wahrnehmung und Selbstreferenz: der selbstreferentielle Charakter der Wahrnehmung nach Hierokles

"Im Folgenden ist ausschließlich von Hierokles, dem Stoiker aus der Mitte des 2. Jahrhunderts nach Christus die Rede, wovon im voraus jedermann ausdrücklich verständigt sei, damit niemand später getäuschte Erwartungen einklagen könne."

10. Die Aristophanesrede in Platons Symposium: die Verfassung des Selbst (parcial)

11. Introducción histórica (parcial) in: J. RIVERA DE ROSALES et al. (ed.), La polémica sobre el ateismo. Fichte y su época

12. Fichte y el problema de la relevancia ética de la existencia de Dios (parcial) in: J. RIVERA DE ROSALES et al. (ed.), La polémica sobre el ateismo. Fichte y su época

13. La politique de l’expérience et ses limites – Fichte et les enjeux gnoséologiques de la politique


"D' ordinaire la réflexion politique ne s'attarde sur des questions gnoséologiques et on ne peut pas non plus dire que la politique soit un object priviligié de la réflexion sur la problématique de la connaissance. L'un des traits les plus intéressants de la pensée de Fichte est le fait qu'il rapproche ces deux domaines traditionnellement assez éloignés l'un de l'autre" Pour lui la question politique ne peut pas faire abstraction des problèmes qu'elle soulève sur le plan gnoséologique et d'autre part le problème de la connaissance est tellement crucial qu'il embrasse et touche tous les aspects de la vie y compris la vie politique."

13. Gedachtes Denken/Wirkliches Denken: A Strictly Philosophical Problem in Fichte’s Reden (parcial)


Outros:
Teses orientadas por Mário J. Carvalho, publicadas na Internet.

A questão da existência do mundo objectivo vale ainda a pena?

A propósito de epistemologia, o mundo...

Será que faz sentido perguntar pela existência do mundo em si depois dos estudos de ontologia de Heidegger?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O estereótipo da menoridade feminina, cont.3

A propósito do Afeganistão, a mulher...

Cap. 4

A sublimação é a passagem de uma substância directamente do estado sólido para o estado gasoso, sem passar pelo estado líquido. Trata-se, portanto, de uma passagem que chama a atenção, sobretudo, para o hiato que deixa: seria suposto o sólido passar a líquido antes de chegar a gasoso.


Esta noção é também usada em Psicanálise e em Pasicologia, sendo que Freud lhe deu um uso que muito tem sido discutido. Como não nos interessa aqui debater a sublimação em Freud, iremos apenas apontar aquilo que pretendemos indicar com este termo. Entendemos, para o efeito, sublimação como a manifestação de um aspecto (psicológico, sociológico, etc.) que, no modo como manifesta o que se manifesta, apresenta um desvio relativamente aos modos directos de manifestação do mesmo aspecto.




Tomemos por exemplo o caso do Sr. X que chega a casa depois de ter sido despedido e encontra a sua esposa na cama com o seu melhor amigo. O Sr. X tem diversas formas de reagir. Uma delas é assassinar os prevaricadores. Também pode suicidar-se em seguida. Estas reacções são imediatas e não apresentam nenhum desvio considerável perante o que seria expectável. Não ocorreu sublimação relativamente ao aspecto frustação. Mas imaginemos agora que, um estudante de Filosofia a elaborar uma tese sobre escatologia descobre este caso. O estudante pretende mostrar que o impulso básico e estruturante da vida humana é o impulso para a felicidade. O estudante teria que explicar o suicídio a partir da busca para a felicidade. Podemos dizer que, relativamente ao impulso para ser feliz, o suicídio revela um desvio.

Imaginemos que o mesmo estudante tem que apresentar outro estudo, para Filosofia Antiga, sobre a afirmação de Aristóteles de que todos os homens desejam naturalmente saber. O estudante pretende mostrar que Aristóteles está certo. Ora, o estudante vai ter que explicar, a partir desse desejo de saber, o querer esquecer que os seres humanos por vezes ostentam perante certas verdades. Podemos dizer que, relativamente ao impulso para saber, o querer esquecer revela um desvio.

Devemos deixar patente que tomaremos aqui o termo sublimação neste sentido amplo. Em sentido restrito haveria bastantes ressalvas e aperfeiçoamentos a fazer. Devo, no entanto,ressalvar que os exemplos dados visam simplificar a apreensão do que está em causa no processo de sublimação: afastamento, desvio e, de algum modo, exagero. Ou seja, habitualmente o processo de sublimação é bastante mais complexo do que os casos que foram aqui apresentados, não se tratando da mera negação do aspecto originário. Assim, na análise da sublimação surge sempre a questão: não será mais fácil considerar o resultado da sublimação como um novo aspecto (formulando um novo conceito)? É que o resultado da sublimação muitas vezes contém características que o objecto dito sublimado não contém em si próprio.

Note-se que o aspecto a ser sublimado também contém características que o resultado do processo de sublimação já não conterá. Isto significa que, para que a sublimação seja possível, o aspecto a ser sublimado tem que conter em si mesmo a possibilidade de contornabilidade. Isto é, tem que se tratar de um aspecto moldável/flexível. Contudo, para que a sublimação possa se verificar a contornabilidade do aspecto em causa não pode significar a sua revogabilidade. Isto é, o aspecto deve constituir-se de tal modo que é irrevogável, mas apesar disso é flexível. A sua flexibilidade significa que, mesmo quando não é sublimado, o aspecto sublimável caracteriza-se por ser prorrogável. O impulso sexual, por exemplo, é sublimável por excelência precisamente por deter, em potência, uma adiabilidade infinita: é possível, em tese, viver-se cem anos e morrer-se virgem. Mas isso não significa que o impulso foi revogado. Ser celibatário não significa não ter desejo sexual, pelo contrário, o valor do celibato reside, precisamente, no facto de o desejo continuar.

Por ser contornável mas não revogável implica um substracto cuja permanência possibilita a identificação, no resultado da sublimação, o aspecto sublimado. Isto é, o resultado da sublimação, apesar de ser diverso do aspecto originário, de tal modo que permite a instauração de uma nova rede conceptual que (aparentemente) exclui o conceito originário (sublimado), deve conter em si um carácter fundamental que constitui, também, o aspecto originário. Assim sendo, o resultado da sublimação esteve desde sempre, em potência, no conjunto de possibilidades em que o aspecto originário se pode manifestar. Ou seja, uma das formas de o impulso sexual se manifestar é através das suas formas sublimadas. A sublimação é uma possibilidade que está presente na constituição dos aspectos psicológicos sublimáveis, passo a redundância.

Finalmente, em Psicologia também se pode chamar sublimação simplesmente à manifestação que enobrece um determinado aspecto manifestando-o a partir de um afastamento em relação a modos libidinosos de manifestação. Deste modo, o resultado da sublimação apresenta aquilo que se pode chamar um aperfeiçoamento do aspecto originário. Neste sentido, a sublimação aproxima-se bastante da substituição, na medida em que se apresenta como uma dissimulação do aspecto originário, nomeadamente, desviando a manifestação de impulsos institivos da líbido para formas consideradas nobres (socialmente). Assim, a Filosofia poderia ser considerada uma sublimação do impulso sexual, e o vício pelo trabalho uma sublimação da agressividade. Aliás, habitualmente dizemos que aqueles que se esforçam muito no trabalho têm personalidade lutadora. Reconhecemos facilmente, aí, uma canalização da agressividade básica para uma agressividade socialmente engrandecida. Isto é importante na medida em que, pecisamente na agressividade social/profissional reconhecemos ainda esse substrato que nos premite dizer que este ou aquele vendedor é agressivo e que o mundo dos negócios é uma selva.

O que eu pretendo mostrar é que o estereótipo da menoridade feminina passou, também, por uma sublimação. Os casos de aparente exaltação do estatuto da mulher tratam-se de manifestações da sua menoridade social, apesar de se tratarem de manifestações dissimuladoras.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Choque de Civilizações

A propósito de, Deus...

Um terceiro deus
By José Saramago

"Creio que as teses de Huntington sobre o “choque de civilizações”, atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução dos conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e activa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidireccional, sem ânimo de domínio de qualquer das suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para a concretizar. Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao desejado pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz ao mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário onde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isto não tenha remédio e que as civilizações continuem a chocar-se umas com as outras."

Texto de José Saramago in O Caderno de Saramago

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

O estereótipo da menoridade feminina, cont.2

A propósito do Afeganistão, a mulher...


Cap. 3

O aspecto feudal do estereótipo da menoridade feminina apresenta a mulher em relação de vassagem para com o homem, sobretudo, para com o seu marido o qual se apresenta na figura de senhor.

Como é óbvio, a relação que o senhor estabelece é uma relação de posse. O vassalo não é um escrava, nem se pretende aqui afirmar isso. Mas há como que uma relação de posse: o vassalo é possuído pelo seu senhor. Claro que o senhor tem a obrigação de proteger o seu vassalo. Tal como, na savana ou na selva, o babuino dominante protege o seu grupo de fêmeas. Aliás, existe aqui uma grande similaridade. Durante a idade média o senhor tinha jus primae noctis. Isto é, o direito de primeira noite, o qual lhe conferia a si o privilégio de tirar a virgindade às donzelas que se casavam (a primeira noite, a noite de núpcias, pertencia ao senhor). Portanto, o macho dominante não tinha apenas direitos sobre a sua esposa. A prerrogativa do senhor sobre todas as noivas em seu domínio é, claramente, uma noção medieval, de cariz feudal, mas que durou, em certos casos, até ao século XIX (nomeadamente, na Sicília). Esta noção não representa apenas a prioridade do senhor relativamente ao seu servo. Pelo contrário, esta noção traz ao de cima, sobretudo, a total irrelevância da vontade da mulher em toda esta questão. O direito do senhor relativamente ao seu servo implicava o direito do primeiro a estar com a mulher do último antes mesmo dele. Por outro lado não se esperava, obviamente, que a senhora fosse exigir estar com os seus servos na primeira noite do casamento destes. Como se vê, este direito é coisa que se passava entre homens, onde as mulheres não tinham voto na matéria, apesar de ser a sua perda da sua virgindade que estava em causa.

Este aspecto do não reconhecimento da voz (voto) da mulher não é apenas um pormenor, pelo contrário, manifesta um traço fundamental da menoridade feminina. Como diz o povo às crianças impertinentes, não sabem o que dizem. O que a mulher diz não tem consistência, assim se preconcebe. Todavia, não se trata aqui da negação de um direito. A questão deve ser colocada a montante: à mulher não eram reconhecidos direitos, ou pelo menos, a sua maioria. Não era uma questão de negar à mulher qualquer coisa. Não havia nada para negar.



Mais tarde, quando começaram os movimentos em prol da feminilidade e da afirmação da mulher, aí houve de facto uma resistência conservadora que tratou de negar certos direitos à mulher. No início, contudo, o estereótipo da menoridade da mulher não vê, tão pouco, que exista aí qualquer coisa a negar. Simplesmente, nem se tratava de qualquer coisa que se pudesse debater ou discutir. A mulher não tinha ainda direitos, por isso eles não eram negados. E as próprias mulheres não eram diferentes dos homens, neste aspecto. Também elas não achavam que existissem direitos associados à mulher.

Quando mais tarde a mulher começou a sua luta pelo reconhecimento dos seus direitos, um dos que mais demorou a ser instituído foi o direito a ter voz. A mulher foi tendo cada vez mais direito a alguma protecção institucional, todavia o direito a ter voz foi qualquer coisa que apenas muito lentamente ganhou consistência. Na maioria das vezes era o marido que falava pela esposa, eram os seus irmãos que lutavam pela sua honra, era o seu pai que a representava para determinar quem haveria de casar com ela. A voz da mulher não se deveria ouvir. Só muito a custo as nossas sociedades ocidentais lhe reconheceram o direito à voz, quer em privado, quer em público, quer em política: apenas há muito pouco tempo a mulher tem direito ao voto (o voto, mais não é que um modo da voz).

Todas estas características da menoridade feminina são mais ou menos claros, mas, como já foi dito, certas características deste estereótipo não são tão evidentemente manifestações dele. Destas formas de um (pre)conceito se manifestar de tal forma que não reconhecemos nelas uma apresentação dele, dizemos tratarem-se de modos sublimados. É, pois, da sublimação deste preconceito que iremos falar a seguir.

O homem e o abismo

A propósito do homem, o abismo...

O homem vive como que atravessando um abismo: tentando equilibrar-se numa corda bamba, cambaleia tendo por baixo um abismo imensurável e por cima um céu inantigível.

Ver

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O estereótipo da menoridade feminina, cont.

A propósito do Afeganistão, a mulher...

Cap. 2

O estereótipo da menoridade feminina significa, pois, que, no início e na maioria da vezes, se considera a mulher como não sendo maior. Além disso, na maioria das vezes toma-se a menoridade da mulher como inalterável, sendo duvidoso que ela possa vir a atingir a maioridade. Aliás, nós podemos observar que muitas mulheres muita vezes reclamam que, para serem consideradas tão eficientes, eficazes e capazes como os homens têm de o ser mais, e mais recorrentemente, que os homens.

A mulher tem de dispender um esforço superior para ser reconhecida. Na maioria das vezes o macho adulto toma a sua maioridade por garantida, e a comunidade está pronta a assegurar essa confiança. No entanto, a mulher tem de merecer esse reconhecimento. Este pormenor faz toda a diferença. A comunidade habituou-se desde sempre a esperar que um homem esteja na posse de todas as faculdades exigíveis a um ser humano, ao mesmo tempo que espera que uma mulher esteja em falta relativamente a essa normalidade. Assim, o homem é o padrão para a norma. A mulher está sujeita a ser pesada segundo as regras previamente definidas pela masculinidade.

Por outro lado, a menoridade da mulher não é um mero juízo acerca da força física ou das capacidades motoras da mulher. A mulher não só é fraca e descoordenada, como também incapaz de dominar a sua sensibilidade e de seguir um raciocínio correctamente. Antes mesmo que uma mulher abra a sua linda boca a comunidade espera que ela vá dizer qualquer coisa lamechas ou ilógica. Claro que se aceita que a mulher seja melhor a fazer certas coisas. Aceita-se pacificamente que a mulher está apta a fazer tudo aquilo que se considera condizer com a sua personalidade: tudo o que exigir uma sensibilidade apurada, pouca força, paciência, tempo disponível para gastar. À mulher estão reservadas todas as tarefas com que o homem não deve perder tempo. Todas as tarefas que a longa e sinuosa história da civilização se habituou a, de uma forma ou de outra, desconsiderar, foram entregues à mulher. Mesmo que hoje se considere que cuidar e educar os filhos é uma tarefa difícil, complexa e extremamente importante, a todos os níveis, a verdade é que, ao longo dos tempos, não foi mais que uma tarefa perfeitamente marginal. Isto é, marginal àquilo que era interessante e importante: a guerra, a política. Quando a Filosofia e as Artes eram importantes, elas eram do domínio dos homens. Quantas filósofas se conhecem na História (até à 200 anos, por exemplo)? E se podemos dizer que houve quem considerou que a educação das crianças era importante, isso foi para logo recomendar que não fossem as mães a fazê-lo. Houve excepções, mas clado, as excepções são excepções porque fogem a uma regra instituída.

A mulher não está, pois, segundo o preconceito aqui analisado, na posse plena das faculdades humanas. Na mulher as faculdades parecem atrifiar-se. Ou melhor, na mulher as faculdades boas parecem estar atrofiadas. Não parece ser boa ideia deixar-lhes o poder de decisão, pois não só parecem incapazes de chegar a uma conclusão por um processo racional, mas mesmo que o fizessem, não parecem capazes de se manter firmes. Inconstantes, volúveis e frágeis, eis as mulheres. A menoridade significa, pois, fragilidade. O menor é frágil, facilmente se magoa, não sabe bem o que quer, as suas decisões não são de levar a sério. Por isso é preciso que decidam pelo menor, por isso é preciso que decidam pela mulher.

A forma originária da comunidade lidar com a mulher é decidir por ela. Assim, está desde há muito decidido qual é o papel da mulher na comunidade, na família e em casa. De forma idêntica, ao homem compete ser seu tutor: primeiro o pai, depois o marido e, para qualquer eventualidade, lá estão os seus irmãos ou os seus cunhados. Essa regra antiga de casar com a mulher do irmão que morreu não é um tópico isolado na História do povo hebreu. Pelo contrário, é uma manifestação desse modo originário de lidar com a mulher: tutoriá-la.

Ser tutor da mulher, confiná-la, definir o seu espaço, decidir por ela, protegê-la - são tudo formas do mesmo modo de lidar com a mulher. Claro que este tutoriar pode apresentar diversas intensidades e formas. Por exemplo, a mulher pode tornar-se aquela que se protege a um grau mais ou menos extremo. O petrarquismo não é mais do que isso mesmo: a sublimação do tutoriar a mulher. Aliás, podemos observar todos os dias este fenómeno na forma como as pessoas hoje, muitas vezes, lidam com as crianças: protegendo-as em demasia, acarinhando-as extremamente, e, até, apararicando-a fazendo-lhe todas as suas vontades. A criança tornou-se um pequeno imperador, mas não deixou de ser menor, aliás, tornou-se ditadora por um fenómeno de sublimação da sua menoridade (de resto, os pais jamais agiriam assim se o menor não fosse, precisamente, menor, de tal modo que, quando o menor começa a ser visto como devendo não mais comportar-se como menor os pais percebem que agiram mal, pois não educaram o menor para a maioridade).

Este modo de tutoriar a mulher de forma a apaparicá-la, a protegê-la execivamente, a colocá-la numa redoma não deve ser visto como uma modo menos grave do preconceito da menoridade feminina. Pelo contrário, o apaparicar tende a eternizar essa mesma menoridade pois gera no menor o desejo de permanecer menor. Do mesmo modo como o pequeno imperador/ditador não aceita crescer e, quando os pais lhe exigem alguma responsabilidade, ele se recusa a largar a sua menoridade - também as mulheres não aceitam deixar de ser tratadas como menores quando o cavalheirismo entra em decadência. Mas o cavalheirismo é apenas uma forma de decidir pela mulher, de fazer coisas por ela: abrir-lhe a porta, pagar-lhe a conta, jamais a tratar como um igual. Para o cavalheiro a mulher é uma pequena relíquia a conquistar, ou uma frágil flor a colher, mas jamais um ser humano na posse de todas as suas faculdades. Mais do que isso, para o cavalheiro a mulher é algo de que pode tomar posse, algo que pode possuir.

Este aspecto da menoridade pode ser considerado o seu aspecto feudal: a mulher é o vassalo, o homem é o senhor; o senhor protege o vassalo, o vassalo deve obdiência ao senhor; o senhor possui vassalos, os quais lhe prestam vassalagem. A forma como a mulher se torna vassalo pode ser mais ou menos evidente, mas a vassalagem da mulher perante o homem vem de tempos imemoriais.

domingo, 23 de agosto de 2009

O espírito do portuga

A propósito de Albufeira, o portuga...

O portuga é naturalmente crente no destino.

Fatum: o fado.

O portuga está certo da incerteza do seu destino. Mas, como com tantos outros conceitos, o portuga relaciona-se com o destino de uma forma peculiar.

Para o portuga o facto de não sabermos que uma arriba nos vai cair em cima significa que ela não vai cair. Mesmo depois da tragédia que ocorreu, é possível encontrar muitos portugas a dormir à sombra das arribas que ostentam avisos como o que ficou enterrado na dita tragédia.

"A verdade é que podemos estar em casa e cair-nos um avião em cima", afirma alguém à sombra de uma arriba.

Na verdade este é o espírito do portuga presto em abandalhar os velhos do Restelo. Poderemos dizer que este é o mesmo espírito que nos lançou da Europa aos confins do mundo abrir novos mundos ao mundo. Ou não?

Bem, talvez seja necessário que uma pessoa tenha uma boa dose de aventurismo. Neste mundo, os velhos do Restelo, não morrem de velhice: mas ficam velhos mais cedo.

Por outro lado, a capacidade de prever o futuro (e seria interessante discutir esta noção), embora não nos revele o fatum de cada um, permite-nos visar um objectivo, um destino para a nossa viagem), permite-nos preparar as armas e as bagagens necessárias à viagem, permite-nos então precavermo-nos para aqueles perigos que podemos prever.

Ou seja, não estou a contradizer aquele que afirma que, mesmo em casa, nos pode cair um avião em cima. Isso é uma possibilidade. Estou apenas a dizer: já que há tantos perigos que nos apanham de surpresa, pelo menos tenhamos a conveniência de nos precavermos daqueles de que estamos prevenidos.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O estereótipo da menoridade feminina

A propósito do Afeganistão, a mulher...

Cap. 1

O estereótipo da menoridade feminina significa o quê? Ou melhor, que significa afirmar que a história da civilização se deixa permear pelo preconceito da menoridade da mulher?

Bem, se está a ler esta mensagem provavelmente essa é a questão que deseja ver satisfeita.

Habitualmente, o senso-comum aplica a noção de menoridade de modo negativo: na maioria das vezes consideramos a menoridade como um estádio do desenvolvimento em que a maioridade ainda não foi atingida. Deste modo, a menoridade é, no início, um "ainda não" relativamente à maioridade que será, eventualmente, atingida. Na maioria das vezes, portanto, a noção de menoridade é aplicada para designar uma situação particular de negação, a saber, de omissão. O menor é aquele no qual a maioridade está omissa por ainda não ter sido tempo de se adquirir.

Numa primeira abordagem, a maioridade é algo de positivo. Tomamos a maioridade como algo de verificável num certo sentido: ao contrário da menoridade, a maioridade atinge-se quando se verifica a aquisição de determinada(s) característica(s). O menor torna-se maior num certo ponto. A característica mais visível da noção de maioridade é, precisamente, a visibilidade. Assim, os vários povos que existem no mundo têm os seus mais diversos ritos de passagem, de amostragem daquilo que, precisamente, se quer fazer ver. Atingir a maioridade é um dar-se a ver, um mostrar-se de uma nova forma, para uma nova vida. A maioridade representa a subsistência daquele que, de ora em diante, vem ao de cima, vem à tona. A maioridade é, pois, mais que uma nova forma de existência em sociedade. A maioridade é a existência.

De início, a menoridade é, então, o ainda-não disso tudo. A criança, menor, é um adulto em potência, mas sobretudo, ainda não é um adulto. E durante milénios, e para muitos povos ainda hoje, isso significa, de facto, não ser plenamente. A noção de menoridade começa o seu sentido precisamente num jogo ontológico, o qual não apresenta em si mesmo uma grande consistência metodológica, mas que tem muito poder pois hierarquiza entes em níveis de ser: o menor apresenta um nível ontológico mais fraco.

Neste sentido, a menoridade feminina tem que ver com uma desconsideração ontológica da mulher, por comparação ao homem, e em si mesma ela é menos que poderia ser se fosse um homem. Ora, como sempre, o senso-comum é rápido a transferir para o plano axiológico aquilo que concebe no plano ontológico. Ou seja, na maioria das vezes, quando o senso-comum fala em menores, assume a omissão de valor do menor. O menor é um ser inferior e, por isso, vale menos.

Neste sentido, no início e na maioria das vezes, o menor é menos que... A mulher é, pois, considerada como um ser que é menos e vale menos que o homem. Mas a menoridade da mulher não é como a menoridade da criança porque o carácter negativo do ser menor da criança vem cunhado com a noção de circunstâncialidade: a criança ainda-não é um adulto, mas é-o em potência. A criança encontra-se a caminho de vir a ganhar a sua maioridade, ou se quizermos, a maioridade encontra-se em semente na criança: daqui a um tempo, a criança tornar-se-á um adulto, um ser pleno, visivelmente activo. O carácter negativo da menoridade da criança parece, pois, ser de natureza activa. Potencialmente, o menor é um adulto. E por isso a criança vive a sua criancice lançando-se para a sua maioridade, projectando-se nela. A criança lança-se na sua maioridade estando já lá onde planeia o que será quando for grande. A mulher, por seu turno, por mais que cresça será sempre menor. É constitutivo do seu ser não se tornar maior. Enquanto que a criança salta ontologicamente para adulto, a mulher varia os seus modos de ser mulher: filha, esposa, dona de casa, mãe.

A menoridade da mulher significa no início uma inferioridade que a rebaixa e subalterniza. A menoridade da mulher não lhe permite ser vista por si, pois ela está sempre dependente do homem uma vez que se caracteriza por ser menos que ele. A menoridade da mulher reflecte, como um espelho, a atenção dela para a sua alegada inferioridade. A mulher está submersa na invisibilidade e não tem nenhum rito de passagem à maioridade que a venha resgatar desse fosso. É isso que as mulheres contemporâneas afirmam aos quatro ventos: dizem ter que trabalhar o dobro daquilo que um homem teria para verem reconhecidas as mesmas competências. A razão está na menoridade com que a mulher é vista. No antigamente, a voz da mulher, o trabalho da mulher, etc., valia metade da voz do homem, do trabalho do homem, etc.. Com a liberalização do espaço público e a diversificação dos olhares, aparentemente, foi permitido à mulher soltar-se. Se, no início, a mulher não podia mostrar o corpo, hoje ela pode mostrá-lo. Ela mostra o corpo, ela sai de casa, ela vai trabalhar, e tudo isso serve para reflectir a atenção. Se num lado a burca mantém a mulher na sua invisibilidade, no outro é o seu corpo, a sua língua ágil, a sua impertinência que a continuam a fazer resvalar para o invisível. Todos estes aspectos da mulher emancipada (aspecto que a burca vela para que não se evidenciem) chamam os olhares, atraiem as atenções, distraindo os olhares e as atenções de si própria.




A mulher chega a ser atraiçoada pelas próprias armas. A imagem parece conferir à mulher poderes imensos. No entanto, a imagem feminina só pode ter o seu alcance enquanto a mulher permanecer refém da sua menoridade. Deve aqui afirmar-se que não se diz isto com qualquer recriminação. Pensamos que as mulheres podem e devem continuar a abusar do cuidado com o corpo. Não nos queixamos. Mas o cuidado que o corpo feminino exige é exigido pela predominância social e cultural do olhar masculino. Tal como quando uma criança faz uma cara laroca porque a mãe tem o poder de lhe comprar um brinquedo novo. Se o mundo tivesse sido dominado até hoje pelas mulheres, provavelmente os homens usariam batôn.



Ler cap. 2

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