quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Obras de Mário Jorge de Carvalho


Autor: Mário Jorge de Carvalho (Professor de Filosofia)

Total de artigos: [ 13 ].

A ordenação dos artigos não segue qualquer critério excepto o da data de inclusão neste Blog.



"To begin, there is no evidence to suggest that Fichte had any direct knowledge of the Stoic doctrine of oikeiosis. He never uses the concept of oikeiosis. It is probable he had absolutely no idea of it. And to impute him a doctrine of oikeiosis may seem far-fetched, if not absurd. Nevertheless, it is possible to speak of Fichte's "doctrine of oikeiosis," and an analysis of it may prove useful and enlightening, both with regard to the study of oikeiosis and to the study of Fichte. For, to a certain extent, Fichte deals with the same phenomena and faces the same problems, viz., the same dilemmas as the Stoics. In a certain sense, then, we can say that Fichte developed his own doctrine of oikeiosis. This doctrine can be found in different texts, among them the Sittenlehre of 1798. A comparison of Fichte and the Stoics on oikeiosis can, therefore, be of value for the study of Fichte, as it can provide a better understanding of his own philosophical stance, and it can also be of value for the study of the phenomena falling under the heading of oikeiosis, because Fichte attempts a fresh analysis of these phenomena and calls into question some of the deepest and most pervasive assumptions accepted in their philosophical and scientific analysis from antiquity to the present time."

2. Do Belo como constituinte do humano segundo Sócrates/Diotima

‎"ἡ θνητὴ φύσις ζητεῖ κατὰ τὸ δυνατὸν ἀεί τε εἷναι καὶ ἀθάνατος". Platão, Symposium/Banquete, 207d1.

"O texto fala de qualquer coisa como um καλόν puramente tal – e seria ocioso acentuar como é difícil entender o que isso seja e como é legítimo duvidar que, na verdade, haja (ou até mesmo que em absoluto pudesse alguma vez haver) algo assim.

[...] independentemente do que há ou não há, independentemente do que se consegue ou não consegue atingir, em última análise aquilo para que tende a petição de καλόν inscrita em nós (aquilo que, no fundo, procuramos na procura do Belo) seria nem mais nem menos do que a total conversão num καλόν puramente tal, feito inteiramente, exclusivamente disso. [...] esse é que é, em última análise, o Belo envolvido na constituição do Humano, essa é que é como que a Ítaca do nosso desassossego – uma Ítaca que até pode não haver ou a que, de todo o modo, porventura temos de renunciar, por não estar ao nosso alcance, mas para que tendemos. De sorte que nos define também sermos aqueles que, no fundo, mesmo que não tenham clara noção disso, sempre estão na falta e na procura de algo assim."


Mário Jorge de Carvalho, "Do Belo como constituinte do Humano segundo Sócrates/Diotima", In Revista Filosófica de Coimbra — n.º 38 (2010), pp. 369-468. Citação das pp. 446-447.

3. O egoísmo lógico e a sua superação – um aspecto fundamental do projecto crítico de Kant (ver pág. 229)

"A noção de “egoísmo lógico”, o complexo de fenómenos que designa e a análise daquilo que é preciso para a respectiva superação constituem importantes elementos do conceito formal de crítica. Na origem do projecto crítico, tal como foi desenvolvido por Kant (e tanto quer dizer, na origem de todos os seus desenvolvimentos), está a identificação de um conjunto de requisitos ou princípios de exigência quanto à perfeição formal na adopção de juízos. Esta perfeição corresponde à correcção na forma como os juízos são adoptados. Ela não tem que ver com (e não garante) a verdade material dos juízos. Consiste pura e simplesmente numa forma de adopção dos juízos (ou de relação com os juízos a adoptar) que não abra o flanco à possibilidade de erro – e isso quer dizer: que não envolva qualquer transgressão, não contenha nada de indevido ou mal formado no modo como se produz. Por outras palavras, no seu núcleo de base, a crítica tem que ver com a verificação da ausência (e, caso se encontre algum, com a total eliminação) daquilo a que Kant algumas vezes chama vitium cognitionis formale1 – um vício formal do conhecimento, um vício que compromete, por razões de forma, a perspectiva que se tem, impedindo-a de constituir efectivamente conhecimento."

Mário Jorge de Carvalho, "O egoísmo lógico e a sua superação - um aspecto fundamental do projecto crítico de Kant", In Kant: posteridade e actualidade, Lisboa, CFUL, 2006, pp. 229-256.


"Vorliegender Beitrag  befasst sich mit Fichtes Rezeption  von  Schellings System des transzendentalen  Idealismus. Es geht aber nicht darum, sämtliche Elemente zusammenzustellen und zu verwerten, die für die Erörterung dieser Frage relevant sind, und Fichtes Auseinandersetzung  mit dem genannten Hauptwerk Schellings eingehend zu analysieren. Man  muss sich  vielmehr darauf beschränken, auf einen  Teil der einschlägigen Quellen, und zwar auf Fichtes Kommentar zu Schellings Werk (unter der Überschrift „Bei der Lektüre von Schellings tr. Idealismus“) einen Blick zu werfen. Es handelt sich um ein zweiseitiges Manuskript, d. h. also um ein Fragment, ja um flüchtige Notizen, zum Teil sogar aus unvollständigen  Sätzen  bestehend. Hinzu  kommt, dass Fichtes Kommentar sich nur mit den ersten dreißig Seiten der schellingschen Abhandlung befasst. Ob  dies bedeutet, dass er die Lektüre abgebrochen  hat, weil er „sich  über die grundsätzliche Natur dieses Systems klargeworden  war“, muss hier dahingestellt bleiben. Sicher ist auf jeden Fall, dass der Kommentar sehr knapp gefasst und ziemlich bruchstückhaft ist."

Mário Jorge de Carvalho, Brüsseler Kongress der Internationalen Fichte-Gesellschaft (2009), disponível em www.europhilosophie.eu

5. Μέθοδος e ὑπόθεσιςo problema do pressuposto na fundação platónica da filosofia (ver ambos os links)


"Uma análise suficientemente fundada das questões que vamos considerar requereria que se examinasse, ponto por ponto, pelo menos toda a sequência dos livros V a VII da República."

6. A Further Point of View on Points of View

"This paper focuses on what is usuallu called "point of view" or "viewpoint" ("Standpunkt", "Gesichtspunkt", "point de vue", "punctum visus", "intuentis situs", etc.)."

7. Mallas que la autoconciencia teje


"Antes de concentrarnos en el § 9, convendrá tener presente la recapitulación que le precede y donde se diseña una sinopsis delrecorrido hecho desde el principio de la Wlnm. [...]

[...] En primer lugar, Fichte subraya que el hecho de que yo tenga en absoluto conciencia de algo radica propiamente en mí y no en las cosas. Por un lado, ese algo del que por de pronto tengo conciencia soy yo mismo. Por otro, todo lo demás (esto es, todo aquello que puede distinguirse de la autoconciencia propiamente dicha y, en concreto, las cosas mismas) corresponde tan sólo a las condiciones o a los requisitos de la autoconciencia misma —es decir corresponde a algo sin lo cual la misma autoconciencia no sería en absoluto."

8. O Tempo e o Cântico - Um Aspeto das Análises de Agostinho Sobre o Tempo


"Analisa-se a comparação entre o cântico e o tempo em Confessiones, XI. Procura-se mostrar que esta comparação a) ilustra a complexidade da distentio animi, enquanto cada um dos seus momentos também está constituído no modo da distentio, b) foca a isomorfia de estrutura entre as partes da actio, a actio, a actio longior, a uita, o saeculum, c) chama a atenção para o facto de uma actio se integrar sempre no quadro de uma actio longior, de esta se integrar sempre no quadro de uma uita e de esta se integrar sempre no quadro do saeculum, d) evidencia, portanto, que a distentio animi é de cada vez total, corresponde sempre a um cântico total – de sorte que e) antecipa a tese de Kant segundo a qual não é possível uma representação apenas parcial do tempo e a representação do tempo constitui um totum analyticum."

9. Wahrnehmung und Selbstreferenz: der selbstreferentielle Charakter der Wahrnehmung nach Hierokles

"Im Folgenden ist ausschließlich von Hierokles, dem Stoiker aus der Mitte des 2. Jahrhunderts nach Christus die Rede, wovon im voraus jedermann ausdrücklich verständigt sei, damit niemand später getäuschte Erwartungen einklagen könne."

10. Die Aristophanesrede in Platons Symposium: die Verfassung des Selbst (parcial)

11. Introducción histórica (parcial) in: J. RIVERA DE ROSALES et al. (ed.), La polémica sobre el ateismo. Fichte y su época

12. Fichte y el problema de la relevancia ética de la existencia de Dios (parcial) in: J. RIVERA DE ROSALES et al. (ed.), La polémica sobre el ateismo. Fichte y su época

13. La politique de l’expérience et ses limites – Fichte et les enjeux gnoséologiques de la politique


"D' ordinaire la réflexion politique ne s'attarde sur des questions gnoséologiques et on ne peut pas non plus dire que la politique soit un object priviligié de la réflexion sur la problématique de la connaissance. L'un des traits les plus intéressants de la pensée de Fichte est le fait qu'il rapproche ces deux domaines traditionnellement assez éloignés l'un de l'autre" Pour lui la question politique ne peut pas faire abstraction des problèmes qu'elle soulève sur le plan gnoséologique et d'autre part le problème de la connaissance est tellement crucial qu'il embrasse et touche tous les aspects de la vie y compris la vie politique."

13. Gedachtes Denken/Wirkliches Denken: A Strictly Philosophical Problem in Fichte’s Reden (parcial)


Outros:
Teses orientadas por Mário J. Carvalho, publicadas na Internet.

A questão da existência do mundo objectivo vale ainda a pena?

A propósito de epistemologia, o mundo...

Será que faz sentido perguntar pela existência do mundo em si depois dos estudos de ontologia de Heidegger?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

O estereótipo da menoridade feminina, cont.3

A propósito do Afeganistão, a mulher...

Cap. 4

A sublimação é a passagem de uma substância directamente do estado sólido para o estado gasoso, sem passar pelo estado líquido. Trata-se, portanto, de uma passagem que chama a atenção, sobretudo, para o hiato que deixa: seria suposto o sólido passar a líquido antes de chegar a gasoso.


Esta noção é também usada em Psicanálise e em Pasicologia, sendo que Freud lhe deu um uso que muito tem sido discutido. Como não nos interessa aqui debater a sublimação em Freud, iremos apenas apontar aquilo que pretendemos indicar com este termo. Entendemos, para o efeito, sublimação como a manifestação de um aspecto (psicológico, sociológico, etc.) que, no modo como manifesta o que se manifesta, apresenta um desvio relativamente aos modos directos de manifestação do mesmo aspecto.




Tomemos por exemplo o caso do Sr. X que chega a casa depois de ter sido despedido e encontra a sua esposa na cama com o seu melhor amigo. O Sr. X tem diversas formas de reagir. Uma delas é assassinar os prevaricadores. Também pode suicidar-se em seguida. Estas reacções são imediatas e não apresentam nenhum desvio considerável perante o que seria expectável. Não ocorreu sublimação relativamente ao aspecto frustação. Mas imaginemos agora que, um estudante de Filosofia a elaborar uma tese sobre escatologia descobre este caso. O estudante pretende mostrar que o impulso básico e estruturante da vida humana é o impulso para a felicidade. O estudante teria que explicar o suicídio a partir da busca para a felicidade. Podemos dizer que, relativamente ao impulso para ser feliz, o suicídio revela um desvio.

Imaginemos que o mesmo estudante tem que apresentar outro estudo, para Filosofia Antiga, sobre a afirmação de Aristóteles de que todos os homens desejam naturalmente saber. O estudante pretende mostrar que Aristóteles está certo. Ora, o estudante vai ter que explicar, a partir desse desejo de saber, o querer esquecer que os seres humanos por vezes ostentam perante certas verdades. Podemos dizer que, relativamente ao impulso para saber, o querer esquecer revela um desvio.

Devemos deixar patente que tomaremos aqui o termo sublimação neste sentido amplo. Em sentido restrito haveria bastantes ressalvas e aperfeiçoamentos a fazer. Devo, no entanto,ressalvar que os exemplos dados visam simplificar a apreensão do que está em causa no processo de sublimação: afastamento, desvio e, de algum modo, exagero. Ou seja, habitualmente o processo de sublimação é bastante mais complexo do que os casos que foram aqui apresentados, não se tratando da mera negação do aspecto originário. Assim, na análise da sublimação surge sempre a questão: não será mais fácil considerar o resultado da sublimação como um novo aspecto (formulando um novo conceito)? É que o resultado da sublimação muitas vezes contém características que o objecto dito sublimado não contém em si próprio.

Note-se que o aspecto a ser sublimado também contém características que o resultado do processo de sublimação já não conterá. Isto significa que, para que a sublimação seja possível, o aspecto a ser sublimado tem que conter em si mesmo a possibilidade de contornabilidade. Isto é, tem que se tratar de um aspecto moldável/flexível. Contudo, para que a sublimação possa se verificar a contornabilidade do aspecto em causa não pode significar a sua revogabilidade. Isto é, o aspecto deve constituir-se de tal modo que é irrevogável, mas apesar disso é flexível. A sua flexibilidade significa que, mesmo quando não é sublimado, o aspecto sublimável caracteriza-se por ser prorrogável. O impulso sexual, por exemplo, é sublimável por excelência precisamente por deter, em potência, uma adiabilidade infinita: é possível, em tese, viver-se cem anos e morrer-se virgem. Mas isso não significa que o impulso foi revogado. Ser celibatário não significa não ter desejo sexual, pelo contrário, o valor do celibato reside, precisamente, no facto de o desejo continuar.

Por ser contornável mas não revogável implica um substracto cuja permanência possibilita a identificação, no resultado da sublimação, o aspecto sublimado. Isto é, o resultado da sublimação, apesar de ser diverso do aspecto originário, de tal modo que permite a instauração de uma nova rede conceptual que (aparentemente) exclui o conceito originário (sublimado), deve conter em si um carácter fundamental que constitui, também, o aspecto originário. Assim sendo, o resultado da sublimação esteve desde sempre, em potência, no conjunto de possibilidades em que o aspecto originário se pode manifestar. Ou seja, uma das formas de o impulso sexual se manifestar é através das suas formas sublimadas. A sublimação é uma possibilidade que está presente na constituição dos aspectos psicológicos sublimáveis, passo a redundância.

Finalmente, em Psicologia também se pode chamar sublimação simplesmente à manifestação que enobrece um determinado aspecto manifestando-o a partir de um afastamento em relação a modos libidinosos de manifestação. Deste modo, o resultado da sublimação apresenta aquilo que se pode chamar um aperfeiçoamento do aspecto originário. Neste sentido, a sublimação aproxima-se bastante da substituição, na medida em que se apresenta como uma dissimulação do aspecto originário, nomeadamente, desviando a manifestação de impulsos institivos da líbido para formas consideradas nobres (socialmente). Assim, a Filosofia poderia ser considerada uma sublimação do impulso sexual, e o vício pelo trabalho uma sublimação da agressividade. Aliás, habitualmente dizemos que aqueles que se esforçam muito no trabalho têm personalidade lutadora. Reconhecemos facilmente, aí, uma canalização da agressividade básica para uma agressividade socialmente engrandecida. Isto é importante na medida em que, pecisamente na agressividade social/profissional reconhecemos ainda esse substrato que nos premite dizer que este ou aquele vendedor é agressivo e que o mundo dos negócios é uma selva.

O que eu pretendo mostrar é que o estereótipo da menoridade feminina passou, também, por uma sublimação. Os casos de aparente exaltação do estatuto da mulher tratam-se de manifestações da sua menoridade social, apesar de se tratarem de manifestações dissimuladoras.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Choque de Civilizações

A propósito de, Deus...

Um terceiro deus
By José Saramago

"Creio que as teses de Huntington sobre o “choque de civilizações”, atacadas por uns e celebradas por outros aquando do seu aparecimento, mereceriam agora um estudo mais atento e menos apaixonado. Temo-nos habituado à ideia de que a cultura é uma espécie de panaceia universal e de que os intercâmbios culturais são o melhor caminho para a solução dos conflitos. Sou menos optimista. Creio que só uma manifesta e activa vontade de paz poderia abrir a porta a esse fluxo cultural multidireccional, sem ânimo de domínio de qualquer das suas partes. Essa vontade talvez exista por aí, mas não os meios para a concretizar. Cristianismo e islamismo continuam a comportar-se como inconciliáveis irmãos inimigos incapazes de chegar ao desejado pacto de não agressão que talvez trouxesse alguma paz ao mundo. Ora, já que inventámos Deus e Alá, com os desastrosos resultados conhecidos, a solução talvez estivesse em criar um terceiro deus com poderes suficientes para obrigar os impertinentes desavindos a depor as armas e deixar a humanidade em paz. E que depois esse terceiro deus nos fizesse o favor de retirar-se do cenário onde se vem desenrolando a tragédia de um inventor, o homem, escravizado pela sua própria criação, deus. O mais provável, porém, é que isto não tenha remédio e que as civilizações continuem a chocar-se umas com as outras."

Texto de José Saramago in O Caderno de Saramago
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