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quinta-feira, 8 de junho de 2017

Antes fosses ou frio ou quente

A propósito da indiferença...


Um dos momentos em que, na Bíblia, se condena a indiferença.

«Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Antes fosses ou frio ou quente. Assim, porque és morno, e nem quente nem frio, estou quase a vomitar-te da minha boca.»
João, Revelação 3:15-16
Οἶδά σου τὰ ἔργα, ὅτι οὔτε ψυχρὸς εἶ οὔτε ζεστός. ὄφελον ψυχρὸς ἦς ἢ ζεστός. οὕτως, ὅτι χλιαρὸς εἶ, καὶ οὔτε ζεστὸς οὔτε ψυχρός, μέλλω σε ἐμέσαι ἐκ τοῦ στόματός μου.
Note-se que o texto - posto na boca de Jesus pelo autor do chamado Apocalipse - parece dizer que é preferível errar do que permanecer a salvo não tomando posição. Outros textos dos evangelhos parecem confirmar esta posição de Jesus.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Odiar o próprio pai e a própria mãe

A propósito de Lucas 14:26

Jesus não está a pedir-nos que odiemos tudo e todos e a nós mesmos. Mas o que também é errado é presumirmos que a palavra de Jesus deve ser, ou deve adequar-se, àquilo que à partida queremos que nos seja dito. Jesus - como, aliás, outros na história da humanidade - teve essa característica que é a de não encaixar as bitolas habituais. E é sempre uma absurdidade pretender-se fazê-lo caber nos nossos padrões habituais, nos nossos preconceitos, nos nossos juízos ao sabor do senso-comum. Se alguém pretende procurar os ensinamentos de Jesus não deve fazê-lo impondo-lhe a condição de que Jesus só possa dizer aquilo com que à partida concordará. Jesus não lhe dirá sempre o que espera ouvir, não lhe dirá sempre o que quer ouvir. Aliás - se for honesto e não deturpar as suas palavras - verificará que, na maior parte das vezes, Jesus lhe dirá o que não espera ouvir, lhe dirá o que não quer ouvir. Porque já a Abraão não foi pedido que amasse o seu filho acima de todas as coisas, e Jesus também não nos pede que sejamos amigos dos nossos amigos. A Abraão foi pedido que matasse o seu filho, e Jesus pediu-nos que amassemos os nossos inimigos.
Quando Sócrates disse que "vale mais sofrer uma injustiça do que cometê-la", todos o julgaram louco. Quando Jesus disse que "devemos amar aos nossos inimigos", julgaram-no louco. Porque os homens sempre se querem colocar na posição de medida de todas as coisas, mas na maioria das vezes nem sequer sabem qual é a sua própria medida.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Ayaan Hirsi Ali

A propósito de confronto de civilizações



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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Jesus - uma mensagem inovadora

A propósito de Jesus

Como podereis vós acreditar, [vós] que tomais fama uns dos outros e a fama do deus único não procurais? [...] Então, aqueles humanos tendo visto o que ele fez disseram: "Este é verdadeiramente o profeta que está para vir ao mundo". Jesus, então, tendo compreendido que eles pretendiam vir e forçá-lo de modo a fazê-lo rei, retirou-se novamente para o monte sozinho.

João 5:44; 6:14-15
πῶς δύνασθε ὑμεῖς πιστεῦσαι, δόξαν παρὰ ἀλλήλων λαμβάνοντες, καὶ τὴν δόξαν τὴν παρὰ τοῦ μόνου Θεοῦ οὐ ζητεῖτε; [...] Οἱ οὖν ἄνθρωποι ἰδόντες ὃ ἐποίησεν σημεῖον ἔλεγον ὅτι Οὗτός ἐστιν ἀληθῶς ὁ προφήτης ὁ ἐρχόμενος εἰς τὸν κόσμον. Ἰησοῦς οὖν γνοὺς ὅτι μέλλουσιν ἔρχεσθαι καὶ ἁρπάζειν αὐτὸν ἵνα ποιήσωσιν βασιλέα, ἀνεχώρησεν πάλιν εἰς τὸ ὄρος αὐτὸς μόνος.

Disseram aqueles homens, depois de verem o que Jesus fez, que ele era verdadeiramente o profeta esperado. Aparentemente, acreditaram nele, porque viram, e porque viram reconhecem-no. Não o reconheceram pela sua mensagem, por aquilo que ele lhes disse. Não. Foi antes o êxtase do extraordinário, o êxtase dos milagres que os cativou.

Esperávamos, talvez, um Jesus agradecido, contente com o reconhecimento da multidão. Mas nada disso se passou. Jesus recolheu-se, sozinho, no monte. Descontente. Descontente porque percebera que fora o êxtase da multidão frente ao seu líder, o êxtase da multidão em rebelar-se contra os invasores Romanos - Jesus percebera que aqueles homens não o compreenderam - se é que algum o compreendeu.

Jesus falava-lhes de alhos e eles regozijavam-se na perspectiva dos bugalhos. Mas o Reino de Jesus não seria deste mundo e aqueles homens queriam um rei para este mundo. 

Este trecho do Novo Testamento é absolutamente fundamental. A frase "Este é verdadeiramente o profeta que está para vir ao mundo" parece indicar que Jesus fora bem aceite, compreendido e louvado. Contudo, essa aparência é que constitui a ilusão aqui em causa. Não, Jesus não fora compreendido. O vinho novo continuava a ser colocado em vasilhas velhas.

Aqueles homens louvavam-no e queriam fazer dele o seu Rei - mas Jesus não estava ali para ser Rei deles, não estava ali para alimentar os seus êxtases e as suas aspirações mundanas.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Deste tempo, deste mundo

A propósito deste mundo


E o senhor elogiou o feitor de injustiça pois fez sensatamente: pois os filhos deste tempo são mais sensatos do que os filhos da luz na sua própria geração.
Lucas 16:8
καὶ ἐπῄνεσεν ὁ κύριος τὸν οἰκονόμον τῆς ἀδικίας ὅτι φρονίμως ἐποίησεν· ὅτι οἱ υἱοὶ τοῦ αἰῶνος τούτου φρονιμώτεροι ὑπὲρ τοὺς υἱοὺς τοῦ φωτὸς εἰς τὴν γενεὰν τὴν ἑαυτῶν εἰσιν.

O "senhor" a que o trecho se refere não é Jesus, nem Deus, mas sim o senhor para o qual trabalha o feitor. O "feitor" - literalmente, "aquele que gere a casa", οἰκόνομος - utiliza as suas artimanhas, em seu proveito, com injustiça. O seu senhor, i.e., o seu patrão elogia-o, mas não elogia a injustiça. O feitor, de facto, enganou o patrão, mas o patrão, não se sabendo enganado, fica contente com a colecta que o feitor apresentou. Contudo, o feitor foi efectivamente esperto porque fez com que os registos coincidissem com a colecta apresentada - na verdade, os registos não foram justos: o feitor fez com que fossem feitos em seu proveito e não em proveito do seu patrão, nem em proveito do que é justo. Mas justamente pela sua esperteza o feitor acabou por ser elogiado pelo patrão enganado.
Aqueles que se preocupam com as coisas do mundo são mais espertos, mais eficazes e mais proficientes do que aqueles que se ocupam da luz - justamente porque não se preocupam com as coisas do mundo parecem descoordenados e insensatos.

Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém julga ser sábio entre vós neste tempo, que se torne estúpido, para que venha a ser sábio.
1 Coríntios 3:18
Μηδεὶς ἑαυτὸν ἐξαπατάτω· εἴ τις δοκεῖ σοφὸς εἶναι ἐν ὑμῖν ἐν τῷ αἰῶνι τούτῳ, μωρὸς γενέσθω, ἵνα γένηται σοφός.
Mas a sabedoria do mundo é ignorância, de tal modo que para adquirir a verdadeira sabedoria é preciso ser ignorante nas coisas do mundo. A sabedoria do mundo é apenas uma ilusão em que cada um se ilude a si mesmo.



Respondendo-lhe disse o senhor: «Marta, Marta, ansiosa e afligida por tantas coisas, mas uma [apenas] é precisa. De facto, Maria escolheu a boa parte a qual não lhe será retirada.
Lucas 10:41-42
ἀποκριθεὶς δὲ εἶπεν αὐτῇ ὁ κύριος, Μάρθα Μάρθα, μεριμνᾷς καὶ θορυβάζῃ περὶ πολλά, ἑνὸς δέ ἐστιν χρεία·Μαριὰμ γὰρ τὴν ἀγαθὴν μερίδα ἐξελέξατο ἥτις οὐκ ἀφαιρεθήσεται αὐτῆς.
As pessoas ocupam-se de tantas coisas que acabam na aflicção. A imensidão de coisas que as preocupam apertam-nas, sufocam-nas. Nessas aflições gastam tempo de vida, mas gastam a vida em coisas que são deste mundo e que, portanto, pertencem ao mundo. Não podem ser levadas e uma vez que chegue a morte tudo fica no mundo mas vai-se a vida e vai-se o tempo. Assim, as pessoas gastam a vida com coisas que só servem enquanto há tempo e servem na medida do mundo. E este é o problema, porque então a morte, se só se têm coisas do mundo, reduz tudo a nada e vai-se tão nu como se chegou ao mundo - por mais riqueza, sucesso, fama ou felicidade se tenha acumulado no mundo, sendo coisas do mundo, são sempre do mundo. Na verdade, nada disso chega alguma vez a ser, verdadeiramente nosso. Na verdade, nem mesmo se conquistarmos o mundo inteiro ele nos pertence. Nada do mundo pode ser adquirido pelo humano, justamente porque é do mundo, é exterior, é outra coisa.
Ou já se nasceu com tudo o que é preciso, ou nada do que é verdadeiramente preciso pode alguma vez ser adquirido. Ou se tem adquirido desde início tudo, ou nada vale a pena. Ou tudo ou nada. Só o que desde sempre já estava adquirido não nos pode ser retirado - desde que o escolhamos e o preservemos.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O fruto e o pecado original...

A propósito da maçã...


A maçã e o pecado original. A maçã simplesmente não está na bíblia como pecado original. No entanto, em latim, "malus" tanto pode designar o "mal" como a "macieira". Talvez daí venha a confusão. Entretanto, o fruto em geral é considerado como símbolo de caducidade. Quer dizer, daquilo que passa

Aquilo que passa não se pode constituir em posse plena. Não é algo que permaneça, que possa estar disponível enquanto fizer falta, por exemplo. Os frutos são assim qualquer coisa de dura pouco, que rapidamente se destrói em razão da sua própria constituição. Neste sentido, é relevante que o conhecimento e a vida sejam, no Génesis, referidos como "frutos". 

A própria vida é um fruto que dura um certo tempo, mas que é constitutivamente caduca: "tu és pó e ao pó voltarás". Por outro lado, pode ser consumida, ou guardada. Enfim, há toda uma simbologia que importaria explorar, mas, de facto, não há nenhuma referência a uma maçã. O fruto proibido não é a maçã.

A única proibição explícita é a de "comer da árvore do conhecimento do bem e do mal".

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A vida é curta e a ciência é longa...

A propósito de decisão...


Um indício da humanidade de Jesus é o passo de São Marcos 15:33-34. Podemos com alguma confiança aceitar que Jesus tenha de facto proferido essas palavras: seria de esperar que os seus seguidores preferissem ocultá-las. Jesus parece desesperado, angustiado, sentindo-se abandonado e talvez perdido. Ser humano implica uma lida quotidiana com o próprio destino. O comércio da vida, por sua vez, implica perdas e ganhos, mas por vezes o saldo não é evidente, a dúvida trabalha na mente e a angústia assoma. Jesus rejeita o epiteto de “bom” e afirma que apenas Deus o é. Aceita e reconhece a fragilidade humana. O tempo em que decorre a vida humana é de exposição. O humano está fundamentalmente exposto: é a sua condição. Exposto à acção destruidora das tempestades, ao sol que cuida e amadurece. É fácil ser-se bom quando o tempo corre bem, é inevitável ser-se pervertido quando as coisas correm mal. Só por Deus as coisas passam inócuas. E aqueles que os deuses amam mais são os mais felizes.
“A vida é curta”. Esta afirmação não significa apenas que se vive pouco tempo. Por vezes os que são levados mais cedo foram os que realmente existiram. Pode viver-se uma vida longa sem jamais se ter existido. O fundamental não é o tempo de vida que se tem. Mas “a ciência é longa”. Não é que não se viva o tempo suficiente para nele caber a ciência toda – ainda que isto também seja verdade. Mas o que aqui importa é outra ideia. A ciência que permite que o labrador are a terra adequadamente e faça dela uma colheita é uma sabedoria específica. Também o humano pode tornar-se exímio no cultivo da vida: para isso há mister de ciência. Esta ciência é que importa. Mas a forma da vida é o lance, é o desgaste. O humano desde sempre se encontra a si mesmo jogado a fazer pela vida. Esta urgência é natural nele como o leite do seio materno para o bebé. Mas é precisamente esta urgência que afunila a compreensão da vida naquilo que de cada vez ocupa a sua atenção. E assim, a forma da vida é a correria, enquanto a forma da ciência é a contemplação. Na maioria das vezes vive-se sem tempo para prestar atenção à vida. As oportunidades estão disponíveis por curtos períodos em que são ocasião propícia e depois somem-se – muitas vezes sem que a correria da vida tenha permitido dar por isso. Pode perder-se um destino num minuto e não se dar por isso. A questão é, portanto, ser-se avisado, para se poder ser bom. Aristóteles defende que se pode ser bom sem ser por condição (como os deuses, ou como os predilectos dos deuses), mas por um esforço consciente do humano para fazer de si o seu melhor. Este esforço é árduo, pois exige uma inversão daquela que é a forma natural da vida. A experiência é íngreme e a queda é fácil. Mas, no fim, são as escolhas que cada um faz que esculpem o seu destino. E é na escolha que está a angústia porque nada se consegue sem sacrifício.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Para reflectir, do Evangelho Segundo São Mateus

A propósito de portas, de perdição e de vida...


Mateus 7:13-14
13 Εἰσέλθατε διὰ τῆς στενῆς πύλης· ὅτι πλατεῖα ἡ πύλη καὶ εὐρύχωρος ἡ ὁδὸς ἡ ἀπάγουσα εἰς τὴν ἀπώλειαν καὶ πολλοί εἰσιν οἱ εἰσερχόμενοι δι’ αὐτῆς· 14 τί στενὴ ἡ πύλη καὶ τεθλιμμένη ἡ ὁδὸς ἡ ἀπάγουσα εἰς τὴν ζωήν καὶ ὀλίγοι εἰσὶν οἱ εὑρίσκοντες αὐτήν.

13 Entrai pela porta estreita: pois larga é a porta e bem espaçoso o caminho que leva à perdição e muitos são os que entram por eles. 14 E estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida e poucos são os que o encontram.

"Entrai pela porta estreita".

Parece que temos à nossa disposição diversas possibilidades de ser. Uma ou outra vez na vida encontramo-nos como a criança que descobre numa manhã primaveril que pode ser o que quiser. 

Essa não é uma descoberta de pouca monta. Pobre o adulto que julga puerilmente que isso é uma ilusão: porque esse adulto ainda não começou a poder compreender a amplitude da sua própria ilusão. Porque não é disso (que ele julga) que fala a criança que descobre de repente que pode ser tudo.

Julga o adulto que está firme e seguro na sua plataforma de onde aponta ferozmente a fragilidade do ponto de vista infantil...

Parece que temos diversas possibilidades de ser e têmo-las por nossas, adquiridas. E queremos muitas. Somos felizes quando podemos parar diante de muitas portas e considerá-las por gozo e gabarolice... Queremos tempo para nos ufanarmos junto dos nossos amigos e comparsas. Como uma criança que tem um brinquedo novo e o leva para casa dos amigos como passaporte para ser, por um dia, a estrela. Pobre o adulto que admoesta nessa criança a ingenuidade com que os seus olhos brilham. Porque esse adulto ainda não começou a compreender a sua própria burrice.

Mas não! Não é assim como pensa o adulto que se comporta como uma criança. Não!

"Entrai pela porta estreita" - e parece que ela está aí, que podemos qualquer dia, quando vagar nos sobrar, empreender escarpa acima, estreiteza fora, de armas e bagagens, rumo à vida. Mas não. O adulto é ainda uma criança que não quer fazer hoje o que pode também não fazer amanhã... E pobre desse adulto que ralha com a criança cortando-lhe a diversão e matando-lhe a brincadeira! Porque esse adulto não compreendeu ainda onde ele próprio está.

Um dia quererá abrir a porta estreita e fazer o caminho apertado e então talvez perceba que durante todo o tempo de vida não encontrou vagar para encontrar essa que seria a porta da vida. Então, só então, perceberá a dificuldade que o evangelista enuncia: 

- Não é que tenhamos a porta da vida escancarada e escolhamos a outra, mais larga! Não! Não é que vejamos claramente o caminho certo e o deixemos ficar lá para seguir pelo caminho da perdição. O ponto é precisamente outro:  "poucos são os que o encontram". 

O evangelista não diz: ide pelo caminho da vida e deixai o caminho da perdição.

O evangelista diz: "Entrai pela porta estreita" mas "poucos são os que a encontram".

Então, se um dia lhe bater à porta da sua vida esta urgência talvez o adulto perceba a que nível elevou a própria estupidez quando admoestou a criança, quando procurou instilar nela sensatez, quando pretendeu dar-lhe o que nunca adquirira para si próprio.


Há um filme em que um assassino rapta o filho de um polícia e diz-lhe que, para reaver o filho são e salvo tem apenas de ter a paciência de não sair da sala de operações... O polícia-pai inquieta-se, não suporta a impaciência, descobre onde está o filho e vai lá com toda a polícia e todas as armas de fogo. Uma vez lá percebe que o filho estava dentro de um cofre na sala de operações - e que, devido ao facto de ter abandonado a sala de operações, o seu filho já morreu.

Bastava-lhe a paciência de ter ficado ali.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O homem é aborrecimento

A propósito de aborrecimento...



"As pessoas de experiência defendem que é muito importante começar do princípio. Concedo-lhes isso e começo com o princípio de que todos os homens são aborrecidos. [...] O aborrecimento é a raiz de todo o mal."
Kierkegaard, Ou isto/ Ou aquilo, Rotação de Culturas.


"[para a alma é] um sofrimento insuportável estar obrigado a viver consigo mesma, e a pensar em si. [...] Essa é a origem de todas as ocupações tumultuosas dos homens..."
Pascal, Pensées, XXVI



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O aborrecimento é constitutivo do humano. A fuga ao aborrecimento dá forma à sua vida centrífuga e diletante. Mas essa fuga corresponde (isto é, é acompanhada de) à fuga de si mesmo para qualquer distracção que o possa afectar e ajudar a camuflar-se, criando-se à medida que perde contacto consigo. O filósofo não está livre disso. Analisa o conceito de "fuga de si" em Platão, em Pascal, em Kierkegaard, em Heidegger, e sem dar por isso domesticou o próprio conceito de fuga: na verdade foge de si estudando o conceito de fuga de si. Sócrates dizia apenas: deixemos Homero quieto, deixemos Simónides sossegado, examinemos a nós próprios.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Isaías 2:22

A propósito de Humano


Em grego, na Septuaginta (edição de Luciano e outras, embora com algumas diferenças - a propósito ver    Vetus testamentum graecumcum variis lectionibus, Tomo IV)


Isaías 2:22

Παυσασθε υμιν απο του ανθρωπου ο αναπνοη εν μυκτηρι αυτου οτι εν τινι ελογισθη αυτος

Deixai o humano, cujo fôlego está no seu nariz, pois em que é que ele conta?

Podemos traduzir de forma menos literal:

Deixai o humano, esse orgulhoso, pois que é que ele vale?


O texto em hebraico חדלו לכם מן־האדם אשר נשמה באפו כי־במה נחשב הוא׃, é traduzido normalmente no mesmo sentido:

Deixai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar? 
(João Ferreira de Almeida)

Mas a Bíblia da Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), de 1993, verte assim:

Deixem, pois, de confiar no homem! Ele não é mais do que um sopro. Que valor tem ele, então?



Parece haver de facto uma comparação entre o humano e o sopro, na fugacidade de cada inspiração e expiração.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mateus 6:25

A propósito de alma e vida...


Mateus, 6:25
Διὰ τοῦτο λέγω ὑμῖν, μὴ μεριμνᾶτε τῇ ψυχῇ ὑμῶν τί φάγητε [ἢ τί πίητε], μηδὲ τῷ σώματι ὑμῶν τί ἐνδύσησθε. οὐχὶ ἡ ψυχὴ πλεῖον ἐστιν τῆς τροφῆς καὶ τὸ σῶμα τοῦ ἐνδύματος;

Por isso vos digo, não vos preocupeis, quanto à vossa vida, pelo que deveis comer [ou beber], nem, quanto ao vosso corpo, pelo que deveis vestir. Não é a vida mais que comida e o corpo mais que vestuário?


O termo grego ψυχή significa vida neste excerto.

Lutero traduz assim:

Darum sage ich euch: Sorget nicht für euer Leben, was ihr essen und trinken werdet, auch nicht für euren Leib, was ihr anziehen werdet. Ist nicht das Leben mehr denn Speise? und der Leib mehr denn die Kleidung?

Louis Segond verte:

C'est pourquoi je vous dis: Ne vous inquiétez pas pour votre vie de ce que vous mangerez, ni pour votre corps, de quoi vous serez vêtus. La vie n'est-elle pas plus que la nourriture, et le corps plus que le vêtement?

A tradução de Young é:

Because of this I say to you, be not anxious for your life, what ye may eat, and what ye may drink, nor for your body, what ye may put on. Is not the life more than the nourishment, and the body than the clothing?



De facto, nem sempre é evidente se ψυχή deve ser traduzida por vida ou por alma:

Mateus 16:26
τί γὰρ ὠφεληθήσεται ἄνθρωπος ἐὰν τὸν κόσμον ὅλον κερδήσῃ τὴν δὲ ψυχὴν αὐτοῦ ζημιωθῇ; ἢ τί δώσει ἄνθρωπος ἀντάλλαγμα τῆς ψυχῆς αὐτοῦ;

De facto, que beneficiará um humano ainda que ganhe o mundo todo mas perder a sua alma? Ou que dará o humano em troca da sua alma?

Lutero traduz assim:

Was hülfe es dem Menschen, so er die ganze Welt gewönne und nähme Schaden an seiner Seele? Oder was kann der Mensch geben, damit er seine Seele wieder löse?

Louis Segond verte:

Et que servirait-il à un homme de gagner tout le monde, s'il perdait son âme? ou, que donnerait un homme en échange de son âme?

Mas a tradução de Young é:

for what is a man profited if he may gain the whole world, but of his life suffer loss? or what shall a man give as an exchange for his life?

domingo, 23 de setembro de 2012

Πάτερ ἡμῶν - Pater Noster - Pai Nosso

A propósito de Pai Nosso, a oração que o Senhor nos ensinou


Líbera nos, quǽsumus, Dómine, ab ómnibus malis...
Livra-nos, vos suplicamos, Senhor, de todo o mal...

Mateus 6:
9 Οὕτως οὖν προσεύχεσθε ὑμεῖς·
Πάτερ ἡμῶν ὁ ἐν τοῖς οὐρανοῖς·
ἁγιασθήτω τὸ ὄνομα σου·
10 ἐλθέτω ὴ βασιλεία σου·
γενηθήτω τὸ θέλημα σου,
ὡς ἐν οὐρανῷ καὶ ἐπὶ γῆς[i]·
11 τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον·
12 καὶ ἄφες ἡμῖν τὰ ὀφειλήματα ἡμῶν,
ὡς καὶ ἡμεῖς ἀφήκαμεν τοῖς ὀφειλέταις ἡμῶν.
13 καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν,
ἀλλὰ ῥῦσαι ἡμᾶς ἀπὸ τοῦ πονηροῦ.[ii]

9 Então, orai desta forma:
“Pai nosso que estais nos céus;
Santificado seja o teu nome;
10 Venha o teu reino;
Seja feita a tua vontade,
Assim no céu e na terra;
11 O pão nosso de amanhã dá-nos hoje;
12 E perdoa as nossas dívidas,
Como nós também perdoámos aos nossos devedores.
13 E não nos leves à tentação,
Mas livrai-nos da perversão.[iii]


Lucas 11:
2 εἶπεν δὲ αὐτοῖς,  Ὅταν προσεύχησθε λέγετε,
Πάτερ, ἁγιασθήτω τὸ ὄνομα σου·
ἐλθέτω ἡ βασιλεία σου·
3 τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δίδου ἡμῖν τὸ
καθ’ ἡμέραν·
                        4 καὶ ἄφες ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν,
καὶ γὰρ αὐτοὶ ἀφίομεν παντὶ ὀφείλοντι
ἡμῖν·
καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν.

2 Mas ele disse-lhes: “Quando orardes dizei:
            Pai, santificado seja o teu nome;
                        Venha o teu reino;
                        3 O pão nosso de amanhã dá-nos
                                   Cada dia;
                        4 E perdoa as nossas faltas,
                                   Como também nós perdoamos todos os que estão em dívida
                                               Connosco;
                        E não nos leves à tentação.”


Vulgata, Mateus 9 :
9 sic ergo vos orabitis Pater noster qui in caelis es sanctificetur nomen tuum
10 veniat regnum tuum fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra
11 panem nostrum supersubstantialem da nobis hodie
12 et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimisimus debitoribus nostris
13 et ne inducas nos in temptationem sed libera nos a malo

9 Então, deveis orar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 Venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim no céu e na terra;
11 O pão nosso de cada dia[iv] dá-nos hoje;
12 e perdoa-nos as nossas dívidas assim como também nós perdoámos aos nossos devedores;
13 e não nos leves em tentação, mas liberta-nos do mal.

Vulgata, Lucas 11:
2 et ait illis cum oratis dicite Pater sanctificetur nomen tuum adveniat regnum tuum
3 panem nostrum cotidianum da nobis cotidie
4 et dimitte nobis peccata nostra siquidem et ipsi dimittimus omni debenti nobis et ne nos inducas in temptationem

2 E disse-lhes: “Quando orardes dizei: Pai, santificado seja o teu nome, venha o teu reino;
3 pão nosso de cada dia dá-nos cada dia;
4 e perdoa-nos os nossos pecados como também perdoamos a todos os que nos devem, e não nos leves em tentação.”


Missale Romanum

Pater noster, qui es in caelis: sanctificetur nomen tuum; adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Panem nostrum cotidianum da nobis hodie; et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris; et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo.

Pai nosso, que estás nos céus: santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim no céu e na terra. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores; e não nos leves em tentação, mas livra-nos do mal.



Segundo o Catecismo da Igreja Católica – número 2759.
Em latim:
Pater noster qui es in caelis:
sanctificetur Nomen Tuum;
adveniat Regnum Tuum;
fiat voluntas Tua,
sicut in caelo, et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a Malo.

Em Português:
Pai Nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.

Outras versões em latim:

Outras versões em português:




[i] Ou: “Como no céu também na terra.”
[ii] Algumas versões (seis vezes nos Padres da Igreja, atestadas uma vez) acrescenta-se ὅτι σοῦ ἐστιν ἡ βασιλεία καὶ ἡ δύναμις καὶ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· _ : pois teu é o reino e o poder e a glória para sempre: ámen.
[iii] Agostinho acrescenta ἀμήν: ámen.
[iv] Literalmente: necessário para suportar a vida.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tradução de Jonas, segundo a Septuaginta


VER COMENTÁRIO AQUI
Tradução de Jonas, da Septuaginta, para português:


Jonas 1
1 A palavra do Senhor foi até Jonas, filho de Amitai, dizendo: 2 “Levanta-te e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama nela que subiu até mim o grito da sua perversão. 3 Mas Jonas levantou-se para fugir, da presença do Senhor, para Thársis. Foi para Joppa e encontrou um barco que ia para Thársis, pagou a sua passagem e entrou nele para navegar até Thársis, fugindo da presença do Senhor. 4 Mas o Senhor acordou um vento no mar e surgiu uma grande tempestade, e o barco ficou em perigo de se destruir. 5 Os nautas tiveram medo, cada um clamou ao seu deus e atiraram ao mar as mercadorias que havia no barco de modo a aliviarem-no. Mas Jonas descera ao porão e, deitado, dormia e ressonava. 6 O capitão do barco foi até ele e disse-lhe: “Por que ressonas? Levanta-te e chama o teu deus, assim talvez nos salve e não nos destrua.” 7 E cada um dizia ao seu próximo: “Vamos tirar sortes e saber por conta de quem este mal está em nós.” Tiraram sortes, e a sorte calhou a Jonas. 8 Disseram-lhe então: “Conta-nos por que está este mal em nós. Qual é o teu trabalho? E de onde vens: de que região e de que povo és tu?” 9 E ele respondeu-lhes: “Eu sou um servo do Senhor e tenho estado a desafiar o Senhor Deus do céu, que fez o mar e a terra firme.” 10 Os homens tiveram muito medo e disseram-lhe: “Por que fizeste isso?” Sabiam que ele estava a fugir da presença do Senhor, pois ele próprio lhes contara. 11 E perguntaram-lhe: “Que devemos fazer que acalme o mar para nós?” Pois o mar ondulava e erguia-se tempestuosamente. 12 E Jonas respondeu-lhes: “Agarrem-me e atirem-me ao mar, e isso o acalmará para vós, pois eu sei que é por mim que esta grande tempestade vos aflige.” 13 Então os homens esforçaram-se para se aproximarem da terra, mas não estavam a conseguir, pois o mar estava bravo e abatia-se tempestuosamente sobre eles. 14 E rogavam e pediam ao Senhor: “Não permitas, Senhor, não deixes que sejamos destruídos por causa da alma deste homem, e não deites sobre nós sangue inocente, pois, tu, Senhor, fizeste como quiseste.” 15 E agarraram Jonas e atiraram-no ao mar, e a tempestade acalmou. 16 Os homens ficaram com muito temor ao Senhor, ofereceram-lhe um sacrifício e fizeram votos.


Jonas 2
1 Então o Senhor mandou um grande monstro marinho engolir Jonas. Assim, Jonas esteve na barriga do monstro três dias e três noites. 2 Na barriga do monstro rezou ao Senhor seu Deus 3 e disse: “Clamei, na minha angústia, ao Senhor meu Deus, e ele escutou-me: da barriga do Hades ouviste o clamor da minha voz. 4 Atiraste-me para as profundezas do coração do mar e as correntes devolveram-me. Todas as tuas ondas e as tuas vagas me atravessaram. 5 Fui afastado dos teus olhos. Voltarei ainda a olhar para o teu templo sagrado? 6 A água rodeia-me até à alma, o abismo circunda-me no limite, a minha cabeça afundou-se nas fendas dos montes. 7 Desci à terra, cujas grades são pedras tumulares eternas, mas tu levantaste a minha vida da destruição, oh Senhor, meu Deus. 8 Estando a minha alma a morrer em mim lembrei-me do Senhor: que cheguem até ti, no teu santo templo, as minhas preces. 9 Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão. 10 Mas eu, através da voz de adoração e gratidão, sacrifico a ti: quanto prometi, te darei, Senhor da Salvação.” 11 E [o Senhor] ordenou ao monstro que expelisse Jonas para terra firme.




Jonas 3
1 Então a palavra do Senhor chegou até Jonas, pela segunda vez, dizendo: 2 “Levanta-te e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama nela de acordo com o que te disse antes.” 3 E Jonas levantou-se e dirigiu-se para Nínive, conforme disse o Senhor. Mas Nínive era uma grande cidade, por Deus, como três dias de caminho. 4 Jonas entrou na cidade durante um dia e ia proclamando: “Passando três dias Nínive será destruída.” 5 Os homens de Nínive, dos grandes aos pequenos, confiaram em Deus, proclamaram jejum e vestiram sacos. 6 E a palavra chegou ao Rei de Nínive: levantou-se do seu trono e despiu a sua vestimenta, pôs um saco e sentou-se nas brasas. 7 Em Nínive foi proclamado, pelo Rei e pelos seus magistrados, o seguinte: “Que os homens e os animais, os bois e o gado não provem nada, nem se alimentem, nem bebam água.” 8 E os homens e os animais vestiram sacos e clamaram bastante a Deus. Cada um retrocedeu do seu caminho de corrupção e de injustiça dizendo: 9 “Quem sabe se Deus muda de pensamento e retrocede do seu impulso de ira e assim não tenhamos de ser destruídos?” 10 E Deus viu as suas obras, pois retrocederam dos seus caminhos de corrupção, e mudou de pensamento sobre o castigo, que dissera que lhes faria, e não fez.


Jonas 4:
1 Jonas ficou muito triste e confuso. 2 E então pediu ao Senhor: “Oh Senhor, não foi isto que eu disse quando ainda estava na minha terra? Por isso fiz por fugir para Thársis, pois que sabia que tu és compassivo e misericordioso, paciente e cheio de compaixão e mudas de pensamento sobre os castigos. 3 Agora, oh Rei Senhor, tira-me a minha alma de mim, pois é melhor para mim morrer do que viver.” 4 O Senhor perguntou a Jonas: “Estás muito entristecido?” 5 Mas Jonas saiu da cidade e sentou-se virado para ela. Ali fez para si próprio uma tenda e ficou sentado debaixo dela, na sombra, até que dali pudesse ver o que seria da cidade. 6 Então o Senhor Deus fez surgir uma abobreira, e esta cresceu por cima da cabeça de Jonas, deixando-lhe a cabeça à sombra para o proteger de males: e Jonas ficou muito contente com a abobreira. 7 Na manhã seguinte, Deus mandou um verme que feriu a abobreira e a secou. 8 E aconteceu que ao mesmo tempo que o sol raiou Deus também mandou um vento quente que queimava e o sol feriu a cabeça de Jonas. Ele desfaleceu, desistiu da sua alma e disse: “Melhor para mim é morrer do que viver.” 9 Então, Deus disse a Jonas: “Estás tu tão entristecido por uma abobreira?” E respondeu Jonas: “Eu estou triste de morte.” 10 E disse o Senhor: “Tu tiveste pena por uma abobreira, pela qual não te esforçaste, nem sequer criaste, a qual veio a ser durante a noite e durante a noite foi destruída. 11 E eu não deverei poupar Nínive, a grande cidade, na qual lidam mais de doze miríades de humanos, os quais não conhecem a sua mão direita ou a sua mão esquerda, e muitos animais?”





Texto em grego, edição Rahlfs-Hanhart, editio altera


Jonas 1
1 Καὶ ἐγένετο λόγος κυρίου πρὸς Ιωναν τὸν τοῦ Αμαθι λέγων 2 Ἀνάστηθι καὶ πορεύθητι εἰς Νινευη τὴν πόλιν τὴν μεγάλην καὶ κήρυξον ἐν αὐτῇ, ὅτι ἀνέβη ἡ κραυγὴ τῆς κακίας αὐτῆς πρός με. 3 καὶ ἀνέστη Ιωνας τοῦ φυγεῖν εἰς Θαρσις ἐκ προσώπου κυρίου καὶ κατέβη εἰς Ιοππην καὶ εὗρεν πλοῖον βαδίζον εἰς Θαρσις καὶ ἔδωκεν τὸ ναῦλον αὐτοῦ καὶ ἐνέβη εἰς αὐτὸ τοῦ πλεῦσαι μετ’ αὐτῶν εἰς Θαρσις ἐκ προσώπου κυρίου. 4 καὶ κύριος ἐξήγειρεν πνεῦμα εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ ἐγένετο κλύδων μέγας ἐν τῇ θαλάσσῃ, καὶ τὸ πλοῖον ἐκινδύνευεν συντριβῆναι. 5 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ναυτικοὶ καὶ ἀνεβόων ἕκαστος πρὸς τὸν θεὸν αὐτῶν καὶ ἐκβολὴν ἐποιήσαντο τῶν σκευῶν τῶν ἐν τῷ πλοίῳ εἰς τὴν θάλασσαν τοῦ κουφισθῆναι ἀπ’ αὐτῶν· Ιωνας δὲ κατέβη εἰς τὴν κοίλην τοῦ πλοίου καὶ ἐκάθευδεν καὶ ἔρρεγχεν. 6 καὶ προσῆλθεν πρὸς αὐτὸν ὁ πρωρεὺς καὶ εἶπεν αὐτῷ Τί σὺ ῥέγχεις; ἀνάστα καὶ ἐπικαλοῦ τὸν θεόν σου, ὅπως διασώσῃ ὁ θεὸς ἡμᾶς καὶ μὴ ἀπολώμεθα. 7 καὶ εἶπεν ἕκαστος πρὸς τὸν πλησίον αὐτοῦ Δεῦτε βάλωμεν κλήρους καὶ ἐπιγνῶμεν τίνος ἕνεκεν ἡ κακία αὕτη ἐστὶν ἐν ἡμῖν. καὶ ἔβαλον κλήρους, καὶ ἔπεσεν ὁ κλῆρος ἐπὶ Ιωναν. 8 καὶ εἶπον πρὸς αὐτόν Ἀπάγγειλον ἡμῖν τίνος ἕνεκεν ἡ κακία αὕτη ἐστὶν ἐν ἡμῖν. τίς σου ἡ ἐργασία ἐστίν; καὶ πόθεν ἔρχῃ, καὶ ἐκ ποίας χώρας καὶ ἐκ ποίου λαοῦ εἶ σύ; 9 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτούς Δοῦλος κυρίου ἐγώ εἰμι καὶ τὸν κύριον θεὸν τοῦ οὐρανοῦ ἐγὼ σέβομαι, ὃς ἐποίησεν τὴν θάλασσαν καὶ τὴν ξηράν. 10 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ἄνδρες φόβον μέγαν καὶ εἶπαν πρὸς αὐτόν Τί τοῦτο ἐποίησας; διότι ἔγνωσαν οἱ ἄνδρες ὅτι ἐκ προσώπου κυρίου ἦν φεύγων, ὅτι ἀπήγγειλεν αὐτοῖς. 11 καὶ εἶπαν πρὸς αὐτόν Τί σοι ποιήσωμεν καὶ κοπάσει ἡ θάλασσα ἀφ’ ἡμῶν; ὅτι ἡ θάλασσα ἐπορεύετο καὶ ἐξήγειρεν μᾶλλον κλύδωνα. 12 καὶ εἶπεν Ιωνας πρὸς αὐτούς Ἄρατέ με καὶ ἐμβάλετέ με εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ κοπάσει ἡ θάλασσα ἀφ’ ὑμῶν· διότι ἔγνωκα ἐγὼ ὅτι δι’ ἐμὲ ὁ κλύδων ὁ μέγας οὗτος ἐφ’ ὑμᾶς ἐστιν. 13 καὶ παρεβιάζοντο οἱ ἄνδρες τοῦ ἐπιστρέψαι πρὸς τὴν γῆν καὶ οὐκ ἠδύναντο, ὅτι ἡ θάλασσα ἐπορεύετο καὶ ἐξηγείρετο μᾶλλον ἐπ’ αὐτούς. 14 καὶ ἀνεβόησαν πρὸς κύριον καὶ εἶπαν Μηδαμῶς, κύριε, μὴ ἀπολώμεθα ἕνεκεν τῆς ψυχῆς τοῦ ἀνθρώπου τούτου, καὶ μὴ δῷς ἐφ’ ἡμᾶς αἷμα δίκαιον, ὅτι σύ, κύριε, ὃν τρόπον ἐβούλου πεποίηκας. 15 καὶ ἔλαβον τὸν Ιωναν καὶ ἐξέβαλον αὐτὸν εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ ἔστη ἡ θάλασσα ἐκ τοῦ σάλου αὐτῆς. 16 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ἄνδρες φόβῳ μεγάλῳ τὸν κύριον καὶ ἔθυσαν θυσίαν τῷ κυρίῳ καὶ εὔξαντο εὐχάς.


Jonas 2
1 Καὶ προσέταξεν κύριος κήτει μεγάλῳ καταπιεῖν τὸν Ιωναν· καὶ ἦν Ιωνας ἐν τῇ κοιλίᾳ τοῦ κήτους τρεῖς ἡμέρας καὶ τρεῖς νύκτας. 2 καὶ προσηύξατο Ιωνας πρὸς κύριον τὸν θεὸν αὐτοῦ ἐκ τῆς κοιλίας τοῦ κήτους 3 καὶ εἶπεν Ἐβόησα ἐν θλίψει μου πρὸς κύριον τὸν θεόν μου, καὶ εἰσήκουσέν μου· ἐκ κοιλίας ᾅδου κραυγῆς μου ἤκουσας φωνῆς μου. 4 ἀπέρριψάς με εἰς βάθη καρδίας θαλάσσης, καὶ ποταμοί με ἐκύκλωσαν· πάντες οἱ μετεωρισμοί σου καὶ τὰ κύματά σου ἐπ’ ἐμὲ διῆλθον. 5 καὶ ἐγὼ εἶπα Ἀπῶσμαι ἐξ ὀφθαλμῶν σου· ἆρα προσθήσω τοῦ ἐπιβλέψαι πρὸς τὸν ναὸν τὸν ἅγιόν σου; 6 περιεχύθη ὕδωρ μοι ἕως ψυχῆς, ἄβυσσος ἐκύκλωσέν με ἐσχάτη, ἔδυ ἡ κεφαλή μου εἰς σχισμὰς ὀρέων. 7 κατέβην εἰς γῆν, ἧς οἱ μοχλοὶ αὐτῆς κάτοχοι αἰώνιοι, καὶ ἀναβήτω φθορὰ ζωῆς μου, κύριε ὁ θεός μου. 8 ἐν τῷ ἐκλείπειν ἀπ’ ἐμοῦ τὴν ψυχήν μου τοῦ κυρίου ἐμνήσθην, καὶ ἔλθοι πρὸς σὲ ἡ προσευχή μου εἰς ναὸν ἅγιόν σου. 9 φυλασσόμενοι μάταια καὶ ψευδῆ ἔλεος αὐτῶν ἐγκατέλιπον. 10 ἐγὼ δὲ μετὰ φωνῆς αἰνέσεως καὶ ἐξομολογήσεως θύσω σοι· ὅσα ηὐξάμην, ἀποδώσω σοι σωτηρίου τῷ κυρίῳ. 11 καὶ προσετάγη τῷ κήτει, καὶ ἐξέβαλεν τὸν Ιωναν ἐπὶ τὴν ξηράν.


Jonas 3
1 Καὶ ἐγένετο λόγος κυρίου πρὸς Ιωναν ἐκ δευτέρου λέγων 2 Ἀνάστηθι καὶ πορεύθητι εἰς Νινευη τὴν πόλιν τὴν μεγάλην καὶ κήρυξον ἐν αὐτῇ κατὰ τὸ κήρυγμα τὸ ἔμπροσθεν, ὃ ἐγὼ ἐλάλησα πρὸς σέ. 3 καὶ ἀνέστη Ιωνας καὶ ἐπορεύθη εἰς Νινευη, καθὼς ἐλάλησεν κύριος· ἡ δὲ Νινευη ἦν πόλις μεγάλη τῷ θεῷ ὡσεὶ πορείας ὁδοῦ ἡμερῶν τριῶν. 4 καὶ ἤρξατο Ιωνας τοῦ εἰσελθεῖν εἰς τὴν πόλιν ὡσεὶ πορείαν ἡμέρας μιᾶς καὶ ἐκήρυξεν καὶ εἶπεν Ἔτι τρεῖς ἡμέραι καὶ Νινευη καταστραφήσεται. 5 καὶ ἐνεπίστευσαν οἱ ἄνδρες Νινευη τῷ θεῷ καὶ ἐκήρυξαν νηστείαν καὶ ἐνεδύσαντο σάκκους ἀπὸ μεγάλου αὐτῶν ἕως μικροῦ αὐτῶν. 6 καὶ ἤγγισεν ὁ λόγος πρὸς τὸν βασιλέα τῆς Νινευη, καὶ ἐξανέστη ἀπὸ τοῦ θρόνου αὐτοῦ καὶ περιείλατο τὴν στολὴν αὐτοῦ ἀφ’ ἑαυτοῦ καὶ περιεβάλετο σάκκον καὶ ἐκάθισεν ἐπὶ σποδοῦ. 7 καὶ ἐκηρύχθη καὶ ἐρρέθη ἐν τῇ Νινευη παρὰ τοῦ βασιλέως καὶ παρὰ τῶν μεγιστάνων αὐτοῦ λέγων Οἱ ἄνθρωποι καὶ τὰ κτήνη καὶ οἱ βόες καὶ τὰ πρόβατα μὴ γευσάσθωσαν μηδὲν μηδὲ νεμέσθωσαν μηδὲ ὕδωρ πιέτωσαν. 8 καὶ περιεβάλοντο σάκκους οἱ ἄνθρωποι καὶ τὰ κτήνη, καὶ ἀνεβόησαν πρὸς τὸν θεὸν ἐκτενῶς· καὶ ἀπέστρεψαν ἕκαστος ἀπὸ τῆς ὁδοῦ αὐτοῦ τῆς πονηρᾶς καὶ ἀπὸ τῆς ἀδικίας τῆς ἐν χερσὶν αὐτῶν λέγοντες 9 Τίς οἶδεν εἰ μετανοήσει ὁ θεὸς καὶ ἀποστρέψει ἐξ ὀργῆς θυμοῦ αὐτοῦ καὶ οὐ μὴ ἀπολώμεθα; 10 καὶ εἶδεν ὁ θεὸς τὰ ἔργα αὐτῶν, ὅτι ἀπέστρεψαν ἀπὸ τῶν ὁδῶν αὐτῶν τῶν πονηρῶν, καὶ μετενόησεν ὁ θεὸς ἐπὶ τῇ κακίᾳ, ᾗ ἐλάλησεν τοῦ ποιῆσαι αὐτοῖς, καὶ οὐκ ἐποίησεν.


Jonas 4:
1 Καὶ ἐλυπήθη Ιωνας λύπην μεγάλην καὶ συνεχύθη. 2 καὶ προσεύξατο πρὸς κύριον καὶ εἶπεν Ὦ κύριε, οὐχ οὗτοι οἱ λόγοι μου ἔτι ὄντος μου ἐν τῇ γῇ μου; διὰ τοῦτο προέφθασα τοῦ φυγεῖν εἰς Θαρσις, διότι ἔγνων ὅτι σὺ ἐλεήμων καὶ οἰκτίρμων, μακρόθυμος καὶ πολυέλεος καὶ μετανοῶν ἐπὶ ταῖς κακίαις. 3 καὶ νῦν, δέσποτα κύριε, λαβὲ τὴν ψυχήν μου ἀπ’ ἐμοῦ, ὅτι καλὸν τὸ ἀποθανεῖν με ἢ ζῆν με. 4 καὶ εἶπεν κύριος πρὸς Ιωναν Εἰ σφόδρα λελύπησαι σύ; 5 καὶ ἐξῆλθεν Ιωνας ἐκ τῆς πόλεως καὶ ἐκάθισεν ἀπέναντι τῆς πόλεως· καὶ ἐποίησεν ἑαυτῷ ἐκεῖ σκηνὴν καὶ ἐκάθητο ὑποκάτω αὐτῆς ἐν σκιᾷ, ἕως οὗ ἀπίδῃ τί ἔσται τῇ πόλει. 6 καὶ προσέταξεν κύριος ὁ θεὸς κολοκύνθῃ, καὶ ἀνέβη ὑπὲρ κεφαλῆς τοῦ Ιωνα τοῦ εἶναι σκιὰν ὑπεράνω τῆς κεφαλῆς αὐτοῦ τοῦ σκιάζειν αὐτῷ ἀπὸ τῶν κακῶν αὐτοῦ· καὶ ἐχάρη Ιωνας ἐπὶ τῇ κολοκύνθῃ χαρὰν μεγάλην. 7 καὶ προσέταξεν ὁ θεὸς σκώληκι ἑωθινῇ τῇ ἐπαύριον, καὶ ἐπάταξεν τὴν κολόκυνθαν, καὶ ἀπεξηράνθη. 8 καὶ ἐγένετο ἅμα τῷ ἀνατεῖλαι τὸν ἥλιον καὶ προσέταξεν ὁ θεὸς πνεύματι καύσωνος συγκαίοντι καὶ ἐπάταξεν ὁ ἥλιος ἐπὶ τὴν κεφαλὴν Ιωνα· καὶ ὠλιγοψύχησεν καὶ ἀπελέγετο τὴν ψυχὴν αὐτοῦ καὶ εἶπεν Καλόν μοι ἀποθανεῖν με ἢ ζῆν. 9 καὶ εἶπεν ὁ θεὸς πρὸς Ιωναν Εἰ σφόδρα λελύπησαι σὺ ἐπὶ τῇ κολοκύνθῃ; καὶ εἶπεν Σφόδρα λελύπημαι ἐγὼ ἕως θανάτου. 10 καὶ εἶπεν κύριος Σὺ ἐφείσω ὑπὲρ τῆς κολοκύνθης, ὑπὲρ ἧς οὐκ ἐκακοπάθησας ἐπ’ αὐτὴν καὶ οὐκ ἐξέθρεψας αὐτήν, ἣ ἐγενήθη ὑπὸ νύκτα καὶ ὑπὸ νύκτα ἀπώλετο. 11 ἐγὼ δὲ οὐ φείσομαι ὑπὲρ Νινευη τῆς πόλεως τῆς μεγάλης, ἐν ᾗ κατοικοῦσιν πλείους ἢ δώδεκα μυριάδες ἀνθρώπων, οἵτινες οὐκ ἔγνωσαν δεξιὰν αὐτῶν ἢ ἀριστερὰν αὐτῶν, καὶ κτήνη πολλά;


terça-feira, 18 de setembro de 2012

História e estória do Jesus histórico

A propósito de presépios...


O presépio... um conjunto de imagens que os cristãos acarinham por todo o mundo. Mas o que têm essas imagens de verdade? Isto é, o que é que dessas imagens está presente no Novo Testamento?


Algumas imagens estão realmente presentes no Novo Testamento, mas para surgir a ideia da natividade de Jesus como a representamos hoje, com o burro e o boi, alargada aos reis magos, foram precisos muitos séculos e só a partir do século XIII alguém se haveria de lembrar de realizar um presépio.


Em Lc 2:7 faz-se referência a uma manjedoura, φάτνη. Envolvido em panos, o menino Jesus foi deitado in praesepio, numa manjedoura. É, portanto, desta expressão em latim, in praesepio, que provém o termo presépio em português.


Lucas menciona também pastores e anjos (Lc 2:8-20).


Por sua vez, Mateus 2:1-12 regista a vinda de magos, μάγοι. O termo grego μάγος lê-se mágos, e refere um homem sábio persa, da classe sacerdotal. Mas não há qualquer referência ao seu número nem à possibilidade de serem reis. 

A referência a três reis magos, com os nomes que vieram a ser Gaspar e Melchior, aparece na Excerpta Latina Barbari (página 51v e 52) composta entre o século V e VI. Um outro texto do século VI, A Caverna dos Tesouros (página 40b, col. 2), apresenta nomes bastante diferentes (em siríaco). Um outro tratado do século VIII, traduzido do grego para o latim, Flores ex diversis, enumera os três nomes hoje conhecidos, Melchior, Gaspar e Baltasar (ver aqui).

A imagem do boi e do burro a adorarem Jesus encontra-se num escrito talvez do século VII, a que se chama hoje Evangelho de Pseudo-Mateus (cap. XIV).

Finalmente, foi Francisco de Assis, já no século XIII, fez o primeiro presépio.












segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Jesus teve irmãos?

A propósito dos irmãos de Jesus...



Mateus 12:
46 Ἔτι αὐτοῦ λαλοῦντος τοῖς ὄχλοις ἰδοὺ ἡ μήτηρ καὶ οὶ ἀδελφοὶ αὐτοῦ εἱστήκεισαν ἔξω ζητοῦντες αὐτῷ λαλῆσαι. 47 [εἶπεν δέ τις αὐτῷ, Ἰδοὺ ἡ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἔξω ἑστήκασιν ζητοῦντές σοι λαλῆσαι.] 48 ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν τῷ λέγοντι αὐτῷ, Τίς ἐστιν ἡ μήτηρ μου καὶ τίνες εἰσιν οἱ αδελφοί μου; 49 καὶ ἐκτείνας τὴν χεῖρα αὐτοῦ ἐπὶ τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ εἶπεν, Ἰδοὺ ἡ μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 50 ὅστις γὰρ ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς αὐτός μου ἀδελφὸς καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

46 Enquanto falava às multidões, eis que a mãe e os irmãos dele estavam lá fora procurando falar-lhe. 47 [Mas alguém lhe disse: “Olha que a tua mãe, e os teus irmãos estão lá fora querendo falar-te.”] 48 Mas respondendo disse a quem lhe falou: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” 49 E, tendo estendido a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.


As referência aos irmãos de Jesus são imensas. Não é necessário enunciá-las todas. Mas antes de tentar-mos responder à questão se Jesus teve irmãos, devemos perguntar qual a razão de ser da pergunta. Perante os indícios textuais, não haveria lugar a dúvidas sobre este ponto. O número de referências que existe seria suficiente para nem fazer sentido perguntar se Jesus teve ou não irmãos. Então, por que é que esta pergunta tem lugar?

Bem, em primeiro lugar porque a ideia da virgindade de Maria se impôs ao longo dos séculos. Apesar de apenas em 1854 a virgindade de Maria ser tornada em Dogma, pela bula Ineffabilis Deus, esta ideia há muito se vinha impondo à reflexão cristã. Esta ideia, com origem na citação de Isaías 7:14, feita pelo Evangelho Segundo São Mateus 1:23, a partir da Septuaginta (ver discussão aqui), criou o problema da leitura das referências aos irmãos de Jesus. A virgindade de Maria, segundo a Igreja Católica, não foi um carácter volúvel. Não só Jesus foi concebido sem a intervenção humana masculina, como também permaneceu virgem após o nascimento. O conceito de virgindade seria qualquer coisa mais do que a mera ausência de acto sexual. A virgindade de Maria poderia ter-se perdido fisicamente após o nascimento de Jesus, tal como certas actividades poderão comprometer o hímen de uma jovem - mas segundo a noção de virgindade aplicada a Maria, também isso não aconteceu. Finalmente, segundo a mesma noção, Maria não deve ter tido qualquer filho ou filha que pudesse, antes ou depois de Jesus, ter comprometido a sua virgindade perpétua. Ou seja, quando a religião cristã afirma que Maria é a Virgem não pretende apenas afirmar que Jesus foi concebido sem cópula, mas também que nem depois de Jesus ter nascido houve outra qualquer mácula. Desta forma seria inaceitável que Maria tivesse tido outro filho, pois se o caso extraordinário de Jesus se justificara pela sua própria natureza, tornar-se-ia indefensável que Maria tivesse depois dado à luz outros filhos, também eles, sem cópula. Por isso a única tese autorizada seria a de que Maria não tivera nenhum outro filho, além de Jesus.

É neste contexto que se deve colocar a pergunta: Jesus teve irmãos? E sem esta contextualização - aqui meramente indicada - não nos seria possível respondermos à mesma.

Tendo em conta o contexto referido na reflexão cristã, colocou-se o problema da leitura dos termos irmãoἀδελφός, e irmãosἀδελφοί.

Uma das formas mais óbvias de eliminar a dificuldade e de integrar os textos na doutrina foi a leitura do termo irmão no sentido de companheiro de missão, ou se preferirmos, seguidor de Jesus Cristo. É o próprio Jesus que afirma esta postura no pequeno trecho citado acima: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.

Ora, essa leitura é descartada por uma análise descomprometida do texto (Mt 12:46-50). Jesus dirige-se àqueles que o escutam, ou àqueles que o informam de que os seus irmãos, com a sua mãe, estão a perguntar por ele. E diz que esses que estão à sua volta é que são seus irmãos, não os irmãos que o procuram lá fora. Portanto, há uma utilização claramente dupla do termo irmão, ora num sentido, ora noutro. Jesus não pode estar a utilizar, em ambos os casos, o termo no sentido de companheiros de missão, ou discípulos.

Então, tentou-se afirmar que o termo irmão, naquele tempo, tal como hoje, poderia ser usado para designar outros laços familiares. Nesta leitura pretende-se que ἀδελφός possa ser compreendido no sentido de primo. Talvez os primos de Jesus tivessem o costume de acompanhar Maria. Ora, esta leitura não parece fazer sentido porque não é clara a razão pela qual os primos de Jesus acompanhassem habitualmente a mãe de Jesus e não a própria mãe deles. Não temos qualquer indício nos textos que nos permitam fazer esta leitura. Os primos de Jesus deveriam acompanhar os seus pais, não os pais de Jesus. Por outro lado, o grego possuía um termo para designar um primo: ἀνεψιός (ver Colossenses 4:10), por isso não havia razão para utilizar tanta vez o termo irmão para designar um primo.

Uma outra leitura comum e também muito antiga parte de uma conjuntura prévia. Supõe que José, marido de Maria (mas não pai verdadeiro de Jesus), tinha filhos de uma outra mulher, da qual era viúvo. Assim, admite-se que as referências visam irmãos de Jesus, mas irmãos apenas pelo lado de José. Os defensores desta interpretação procuram justificar o uso do termo irmão, contudo, na verdade, afirmam que estes irmãos são chamados de irmãos por serem filhos de um homem ao qual não reconhecem a paternidade de Jesus. Afirmam que Jesus não é filho de José, mas que José teve filhos de outro casamento, e que os textos chamam irmãos de Jesus a estes que, afinal, não são irmãos de Jesus.

As leituras que pretendem que Jesus não teve irmãos procuram, de uma forma ou de outra, mostrar que os textos de que dispomos chamam de irmãos aqueles que não são de facto irmãos. Todavia, chegam a esta conclusão com base em crenças que não estão devidamente fundeadas nos próprios textos de que dispomos. Não temos nada que nos permita afirmar que, de uma forma geral, o termo irmão seja utilizado para designar outra coisa senão um irmão. Podemos identificar situações claras onde o termo é usado noutro sentido, como por exemplo na citação de Mateus feita acima, mas a diferença é que nestes casos há uma utilização de irmão que o próprio autor se esforça por determinar e esclarecer como distinto do conceito habitual de irmão. Todas as referências onde esta clareza não existe não suscitam qualquer dúvida sobre ser mais provável que o autor queira dizer precisamente aquilo que diz. Se para o autor fosse premente clarificar que Jesus não tinha irmãos, provavelmente não teria afirmado tantas vezes que ele os tinha - sem esclarecer que não queria afirmar que se tratavam de irmãos no sentido habitual.

O trecho de Mateus é muito claro neste aspecto. Há um sentido habitual para o termo irmão, e há outro sentido, não habitual, que Jesus lhe atribuía. Jesus pretendia que este sentido prevalecesse sobre o primeiro. Mas o autor do texto afirma sem hesitação que Jesus tem irmãos nesse sentido habitual.

















A sagrada família de Jesus



A propósito das relações entre Jesus e a sua família...



A tradição cristã delega na imagética da Sagrada Família uma importância fundamental como sinal estruturante da sociedade. Neste contexto parece que Jesus estabelecera com e na sua família laços de união fortes e simbólicos.



Contudo, os textos lançam dúvidas sobre este relacionamento. Não é claro que a família de Jesus tenha feito parte do grupo dos seus seguidores, pelo menos desde o início da sua vida pública.


Os pais de Jesus

Os pais de Jesus são conhecidos a partir das fontes. Jesus é apresentado como o filho de José (Jo 6:42, Lc 4:22: ὁ υἱὸς Ἰωσήφ), ou pelo menos assim era costume indicá-lo (Lc 3:23: ὡς ἐνομίζετο). Portanto, podemos com propriedade chamar-lhe Jesus de Nazaré, filho de José (Jo 1:45: Ἰησοῦν υἱὸν τοῦ Ἰωσὴφ τὸν ἀπὸ Ναζαρέτ), o carpinteiro (Mt 13:55: ὁ τοῦ τέκτονος υἱός).

O pai, José

José desaparece dos escritos a partir da infância de Jesus. Jesus não parece ter sido acompanhado pelo pai. Talvez tenha falecido, talvez não aprovasse as vida do filho e os evangelistas simplesmente o tivessem omitido. O certo é que nada sabemos de José depois dos doze anos de Jesus (Lc 2:41-43). Depois do episódio do desaparecimento de Jesus este foi descoberto no Templo. Os seus pais andaram três dias preocupados à sua procura. Quando a sua mãe lhe pergunta a razão para o seu desaparecimento, Jesus limita-se a dizer que obviamente estivera em casa de seu pai (Lc 2:48-49). O termo grego para pai, πατήρ, surge em Lucas 2:48, por referência a José, e no versículo seguinte, por referência a Deus.

Depois deste episódio José desaparece da história. As referências que lhe serão doravante feitas não voltam a incluí-lo em acontecimentos. Da vida pública de Jesus, José está totalmente ausente.


A mãe, Maria

Maria, pelo contrário, continua a fazer parte da história. Mas o seu envolvimento na mesma e forma como Jesus se relaciona com ela não é aquele que esperaríamos. As relações de Jesus com Maria não são pacíficas. Pelo contrário, os textos deixam-nos registos de mal-estar entre ambos. Aliás, Jesus parece ter sido confrontado com dificuldades relativas ao modo como os seus familiares acolhiam o seu comportamento público.


Jesus e a sua família durante a vida pública

Segundo São João, a vida pública de Jesus começou nas bodas de um casamento transformando água em vinho.

João 2:
1 Καὶ τῇ ἡμέρᾳ τῇ τρίτῃ γάμος ἐγένετο ἐν Κανὰ τῆς Γαλιλαίας, καὶ ἦν μήτηρ τοῦ Ἰησοῦ ἐκεῖ· 2 ἐκλήθη δὲ καὶ Ἰησοῦς καὶ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ εἰς τὸν γάμον. 3 καὶ ὑστερήσαντος οἴνου λέγει μήτηρ τοῦ Ἰησοῦ πρὸς αὐτόν, Οἶνον οὐκ ἔχουσιν. 4 [καὶλέγει αὐτῇ Ἰησοῦς, Τί ἐμοὶ καὶ σοί, γύναι; οὔπω ἥκει ὥρα μου. 5 λέγει μήτηρ αὐτοῦ τοῖς διακόνοις, Ὅτι ἂν λέγῃ ὑμῖν ποιήσατε.


1 E ao terceiro dia houve um casamento em Canã da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá. 2 Também Jesus e os seus discípulos foram convidados para o casamento. 3 E começando a faltar vinho a mãe de Jesus disse-lhe: “Não têm vinho!” 4 [E] disse-lhe Jesus: “O que é comigo e contigo, oh mulher? Ainda não chegou a minha hora.” 5 Disse a sua mãe aos servos: “Fazei do modo como ele vos disser.”


A forma como Jesus se dirige a sua mãe não parece muito simpática. Transparece a ideia de que Maria solicita a intervenção de Jesus. Não podemos saber ao certo de que género de intervenção estaria à espera. Pretendia Maria que Jesus realizasse um milagre? É isso que sugerem as suas palavras dirigidas aos servos: Ὅτι ἂν λέγῃ ὑμῖν ποιήσατε, isto é, façam como ele vos disser. Mas Jesus parece não ter apreciado a solicitação de Maria. Talvez lhe parecesse que as suas intervenções estariam destinadas a melhores fins do que salvar uma boda. Seja como for, e apesar da resposta aparentemente brusca de Jesus, Maria assume que o seu pedido será atendido.
Por outro lado devem ser feitas algumas notas. Em primeiro lugar pudemos supor que o uso da palavra mulher não expressasse agressividade, mas principalmente respeito. Trata-se de uma suposição, por mais que procuremos encontrar usos semelhantes nas escrituras (ver Jo 4:21, 19:26 e 20:15; Mt 15:28; 1 Cor 7:16). Contudo, também não temos razão para pensar que em grego esta expressão soasse tão brusca como soa em português. E, de facto, não sabemos o tom com que foi proferida.
Em segundo lugar, na verdade o grego não se encontra pontuado na sua versão original. Temos, portanto, qualquer coisa como: τι εμοι και σοι γυναι ουπω ηκει η ωρα μου. E podemos tentar mudar a sinalização: τι εμοι και σοι; γυναι ουπω ηκει η ωρα μου; Assim, poderíamos obter qualquer coisa como: o que se passa entre mim e ti? Oh mulher, ainda não chegou a minha hora? E, nestes termos teríamos o equivalente ao seguinte: mulher, por que te preocupas, não sabes que posso remediar isso? Ao que Maria corresponderia dizendo aos servos: façam o que ele disser. Mas também isto é uma forma de tentar dar a volta ao texto. Fossem os indícios noutro sentido, poderíamos admitir que a pontuação geralmente colocada deveria ser alterada. Mas a verdade é que os indícios de incompreensão, da parte da sua família em relação a Jesus, abundam.


O episódio, já referido, relatado em Lc 2:48-50 mostra-nos que havia uma incompreensão profunda desde cedo entre os seus pais, por um lado, e o comportamento e sentido de missão de Jesus.



Lucas 2:
48 καὶ ἰδόντες αὐτὸν ἐξεπλάγησαν, καὶ εἶπεν πρὸς αὐτὸν μήτηρ αὐτοῦ, Τέκνον, τί ἐποίησας ἡμῖν οὕτως; ἰδοὺ πατήρ σου κἀγὼ ὀδυνώμενοι ἐζητοῦμέν σε. 49 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτούςΤί ὅτι ἐζητεῖτέ με; οὐκ ᾔδειτε ὅτι ἐν τοῖς τοῦ πατρός μου δεῖ εἶναί με; 50 καὶ αὐτοὶ οὐ συνῆκαν τὸ ῥῆμα ὃ ἐλάλησεν αὐτοῖς.

48 E vendo-o espantaram-se, e disse-lhe a sua mãe: “Criança, por que nos fizeste isto? Vê como o teu pai e eu te procurámos sofrendo.” 49 E ele disse-lhes: “Por que me procurastes? Não sabíeis que eu deveria estar em casa do meu pai?" 50 E eles não compreenderam a expressão que ele lhes disse. 



A incompreensão textual reside nos diferentes referentes para a palavra pai. Aliás, de um modo completamente literal, o que o grego nos diz é que os pais de Jesus não juntaram o dito  (οὐ συνῆκαν τὸ ῥῆμα) que este lhes retorquíra. Não souberam juntar as peças para compreender o que estava a ser dito. É esta a confusão. Nas palavras de Jesus o termo pai nãi se referira a José, mas àquele de quem o Templo era a casa. Nas palavras de Maria o pai que andara à procura do filho fora José.

Não é necessário admitir que Jesus pressupunha um relacionamento especial com o deus do Templo. Na verdade, é perfeitamente compreensível a ideia de que o verdadeiro pai de todos é Deus, e que, estando em Sua casa, no Templo, se está justificado, por oposição à dor de José, cuja vontade é claramente menos relevante do que a vontade do Senhor do Templo. Jesus estava com Deus, e isso seria superior a qualquer exigência mundana. É desnecessário depreender daqui que Jesus se punha numa situação privilegiada perante Deus. 
Este trecho é relatado por Lucas, mas não o é por mais nenhum evangelista. Seja como for, José desaparece da história e os indícios de tensão entre Jesus e a sua família adensam-se.

Marcos 3
21 καὶ ἀκούσαντες οἱ παρ’ αὐτοῦ ἐξῆλθον κρατῆσαι αὐτόν· ἔλεγον γὰρ ὅτι ἐξέστη.

21 E tendo os seus ouvido [estas coisas] foram prendê-lo: pois diziam que estava fora de si.




Independentemente de tentarmos perceber o que foi que os seus ouviram (teriam ouvido falar  da sua doutrina, dos milagres, das curas, das situações em que entrara em conflito com os costumes e com leis, ou simplesmente do facto de, segundo Marcos, reunir multidões à sua volta?), podemos supor que algum mau-estar estava instalado entre os seus familiares. Não ficamos já a saber se estes familiares eram próximos ou afastados, mas sabemos que lhes parecia que ele estava louco.

Noutro episódio, Marcos diz que a mãe e os irmãos de Jesus procuraram falar com ele, mas que este aproveitou para não os reconhecer como seus familiares.

Marcos 2:
31 Καὶ ἔρχεται μήτηρ αὐτοῦ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ καὶ ἔξω στήκοντες ἀπέστειλαν πρὸς αὐτὸν καλοῦντες αὐτόν. 32 καὶ ἐκάθητο περὶ αὐτὸν ὄχλος, καὶ λέγουσιν αὐτῷ, Ἰδοὺ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου [καὶ αἱ ἀδελφαί σου] ἔξω ζητοῦσιν σε. 33 καὶ ἀποκριθεὶς αὐτοῖς λέγει, Τίς ἐστιν μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί [μου]; 34 καὶ περιβλεψάμενος τοὺς περὶ αὐτὸν κύκλῳ καθημένους λέγει, Ἴδε μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 35 ὃς [γὰρ] ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ θεοῦ, οὗτος ἀδελφός μου καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

31 E chegaram a sua mãe e os seus irmãos e ficando lá fora mandaram chamar por ele. 32 E a multidão estava sentada à sua volta, e dizia-lhe: “Eis que a tua mãe, e os teus irmãos [e as tuas irmãs] procuram-te lá fora”. 33 E repondendo-lhes disse: “Quem é a minha mãe e os meus irmãos?” 34 E, olhando em volta para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 35 Pois quem faça a vontade de deus, esse é o meu irmão, e irmã e mãe.”

Este episódio repete-se nos outros Evangelhos sinópticos:



Mateus 12:
46 Ἔτι αὐτοῦ λαλοῦντος τοῖς ὄχλοις ἰδοὺ μήτηρ καὶ οὶ ἀδελφοὶ αὐτοῦ εἱστήκεισαν ἔξω ζητοῦντες αὐτῷ λαλῆσαι. 47 [εἶπεν δέ τις αὐτῷ, Ἰδοὺ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἔξω ἑστήκασιν ζητοῦντές σοι λαλῆσαι.] 48 δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν τῷ λέγοντι αὐτῷ, Τίς ἐστιν μήτηρ μου καὶ τίνες εἰσιν οἱ αδελφοί μου; 49 καὶ ἐκτείνας τὴν χεῖρα αὐτοῦ ἐπὶ τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ εἶπεν, Ἰδοὺ μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 50 ὅστις γὰρ ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς αὐτός μου ἀδελφὸς καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

46 Enquanto falava às multidões, eis que a mãe e os irmãos dele estavam lá fora procurando falar-lhe. 47 [Mas alguém lhe disse: “Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora querendo falar-te.”] 48 Mas respondendo disse a quem lhe falou: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” 49 E, tendo estendido a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos.” 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.




Lucas 8:
19 Παρεγένετο δὲ πρὸς αὐτὸν  μήτηρ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ καὶ οὐκ ἠδύναντο συντυχεῖν αὐτῷ διὰ τὸν ὄχλον. 20 ἀπηγγέλη δὲ αὐτῷ Ἡ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἑστήκασιν ἔξω ἰδεῖν θέλοντες σε. 21 ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν πρὸς αὐτούς: Μήτηρ μου καὶ ἀδελφοί μου οὗτοι εἰσιν οἱ τὸν λόγον τοῦ θεοῦ ἀκούοντες καὶ ποιοῦντες.

19 Mas vieram até ele a mãe e os irmãos dele, e não puderam juntar-se-lhe através da multidão. 20 Foi-lhe transmitido: “A tua mãe e os teus irmãos esperam lá fora querendo ver-te.” 21 Mas respondendo disse-lhes: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam e fazem a palavra de deus.”



Jesus estava com aqueles que o seguiam. Neste episódio em particular, os relatos afirmam que uma multidão se reunira à sua volta. Provavelmente, este fora um dos momentos de maior publicidade fora das muralhas de Jerusalém. Nessa altura, chegam para lhe falar a sua mãe e os seus irmãos. Não sabemos ao certo se são estes os familiares a que Marcos faz referência em 3:21. De qualquer forma, Jesus não parece ter sentido especial vontade de se reunir com Maria e com os irmãos. Na verdade, Jesus aproveita para afirmar que todos os que o acompanhavam e rodeavam, cumprindo a vontade de Deus, esses mesmos é que eram seus irmãos, irmãs e mãe. 


Nas palavras de Jesus a sua própria mãe não tinha qualquer privilégio relativamente àqueles que o seguiam enquanto discípulos.


Lucas 11:
27 Ἐγένετο δὲ ἐν τῷ λέγειν αὐτὸν ταῦτα ἐπάρασά τις φωνὴν γυνὴ ἐκ τοῦ ὄχλου εἶπεν αὐτῷ, Μακαρία ἡ κοιλία ἡ βαστάσασά σε καὶ μαστοὶ οὓς ἐθήλασας. 28 αὐτὸς δὲ εἶπεν, Μενοῦν μακάριοι οἱ ἀκούοντες τὸν λόγον τοῦ θεοῦ καὶ φυλάσσοντες.

27 Mas tendo ele dito isto uma mulher, levantando a voz de entre a multidão, disse-lhe: “Feliz o útero que te carregou e os peitos em que mamaste.” 28 Mas ele disse: “Antes felizes os que escutam a palavra de deus e a guardam.”



Jesus acabara de proferir palavras sábias sobre os espíritos maus e uma mulher, de entre aqueles que o escutavam, elogiou a sua mãe por o ter trazido no útero. Imediatamente corrige as palavras da mulher. Segundo Jesus, quem é bem-aventurado não é tanto a sua mãe, mas sim aqueles que escutam e cumprem a palavra de Deus.



Todos aqueles que seguem Jesus são irmãos e entre eles não há mestres. A distinção entre eles não é feita. Há um só mestre, mas os seus discípulos são todos irmãos, não devem querer ser tratados como mestres. E Jesus diz isto claramente: "todos vós sois irmãos" (Mt 23:8: πάντες δὲ ὑμεῖς ἀδελφοί ἐστε). O sentido de irmão é diferente do sentido que a palavra tem para referir os seus irmãos que vêm com Maria e pedem para lhe falar. Aí, Jesus estava com os discípulos e os seus irmãos vinham para lhe falar - mas Jesus torna claro que, para ele, não são esses que vieram para lhe falar (provavelmente para o "prenderem" por o julgarem louco), que são os seus verdadeiros irmãos. Os seus verdadeiros irmãos já lá estavam com ele e acompanharam-no depois. Embora muitas vezes os discípulos tenham demonstrado incredulidade (e isto será motivo de uma outra exposição), apesar de tudo é a esses que ele aponta como seus irmãos - tendo o cuidado de explicar porquê: os seus irmãos são aqueles que escutam e cumprem a palavra de Deus. Não é o sangue que estabelece o verdadeiro elo de irmandade, mas a confiança.



Está feito o reparo. É inegável o afastamento de Jesus relativamente à concepção tradicional da família. Não que Jesus pense que a família não devesse ser monogâmica, nem que Jesus não considerasse importante o respeito entre os membros da família. Mas a importância das relações familiares estava para ele aquém da da relação entre aqueles que o seguem e entre estes e ele próprio. Ora, este reparo significa uma exigência de Jesus relativamente àqueles que o pretendessem seguir. E, como noutras exigências que fez, também esta é difícil e humanamente árdua.


Mateus 10
34 Μὴ νομίσητε ὅτι ἦλθον βαλεῖν εἰρήνην ἐπὶ τὴν γῆν· οὐκ ἦλθον βαλεῖν εἰρήνην ἀλλὰ μάχαιραν. 35 ἦλθον γὰρ διχάσαι ἄνθρωπον κατὰ τοῦ πατρὸς αὐτοῦ καὶ θυγατέρα κατὰ τῆς μητρὸς αὐτῆς καὶ νύμφην κατὰ τῆς πενθερᾶς αὐτῆς, 36 καὶ ἐχθροὶ τοῦ ἀνθρώπου οἱ οἰκιακοὶ αὐτοῦ. 37 φιλῶν πατέρα μητέρα ὑπὲρ ἑμὲ οὐκ ἔστιν μου ἄξιος καὶ φιλῶν υἱὸν θυγατέρα ὑπὲρ ἐμὲ οὐκ ἔστιν μου ἄξιος·

34 “Não penseis que vim pela paz na terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. 35 Pois vim separar o humano do seu pai, e a filha da sua mãe e a noiva da sua sogra, 36 e os inimigos do humano [serão] os da sua casa. 37 Aquele que amar o pai ou a mãe sobre mim não é digno de mim, e aquele que amar o filho ou a filha sobre mim não é digno de mim.”


Disse Jesus que os inimigos do humano (ἀνθρώπου) seriam os da sua casa. Esta afirmação está em consonância com Mc 3:21. Estas palavras têm um potencial profundo e podem ser facilmente mal interpretadas, quer por quem parte de dogmas religiosos, quer por quem permaneça preso a preconceitos ateístas. Não é aqui o lugar de explorar completamente o sentido que estas palavras possam ter, mas notamos que a ideia de que a família pode constituir um impedimento à autenticidade, seja ela religiosa ou filosófica, é um motivo que se pode encontrar noutras culturas. Lembramos o mito de Narada, o mensageiro. Neste mito, Narada pede a Visnu que lhe revele a verdade, mas entretanto casa-se, adquire terras e tem filhos. Entretanto, vem a compreender que a situação familiar em que se encontrava radicava numa sensação ilusória de segurança.

Normalmente, o humano tende a avaliar a sua situação a partir da sua zona de conforto. Quanto maior for a sua zona familiar de conforto e quanto mais conforto esta lhe proporcionar, mais feliz se chama a si mesmo. Jesus, por seu lado, afirma que a casa de um homem pode ser, precisamente, o lugar onde se encontram os seus inimigos. Mas, para o humano, conseguir separar-se da sua zona de conforto, é uma tarefa difícil. Jesus sabe muito bem disso e diz com toda a clareza que não vem trazer facilidades. Pelo contrário, o que ele traz é a espada, a separação, a guerra.
Aquilo que Jesus traz é a discórdia entre os membros da família. Podemos imaginar que falava por experiência própria. Talvez a sua família tivesse representado um obstáculo ao cumprimento daquilo que entendia ser a sua missão. Um homem com espírito de missão não pode dar-se ao luxo de ficar pela sua zona de conforto. Se tem ideias próprias que representam um risco e as quer pôr em prática, é provável que tenha de enfrentar a oposição da sua família. É provável que Jesus tenha compreendido isto quando os seus o consideraram fora de si. Por isso ele exige um compromisso da parte dos seus discípulos, e este compromisso passa por se separarem daquilo que pode significar um entrave à missão que os espera.


Estas palavras parecem muito forte. E são-no. Mas Mateus é uma versão leve de Lucas:



Lucas 14:
26 Εἴ τις ἔρχεται πρός με καὶ οὐ μισεῖ τὸν πατέρα ἑαυτοῦ καὶ τὴν μητέρα καὶ τὴν γυναῖκα καὶ τὰ τέκνα καὶ τοὺς ἀδελφοὺς καὶ τὰς ἀδελφάς ἔτι τὲ καὶ τὴν ψυχὴν ἑαυτοῦ, οὐ δύναταί εἶναι μου μαθητής.

26 Se alguém vier até mim e não odiar o próprio pai e a mãe, e a mulher e os filhos, e os irmãos e as irmãs, e ainda a própria alma, não poderá ser meu discípulo.

Algumas traduções pretendem aligeirar as palavras de Lucas aproximando-as de Mateus, mas o que está em Lucas é diferente. O texto utiliza o verbo grego μισέω, o qual se encontra na composição de palavras como misógino (que tem ódio às mulheres), ou misógamo (que tem ódio ao casamento). Portanto, o texto diz claramente que, para se poder ser discípulo de Jesus, se tem de odiar o próprio pai, mulher, filhos e irmãs. É possível que Jesus estivesse a falar influenciado por alguma altercação recente com a sua própria família. Seja como for, a ideia subjacente é a de que aquele que tem família não está em condições de ser seguidor de Jesus.
Paulo, no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios faz uma exposição que poderia ser uma explicação destas palavras de Jesus. Segundo Paulo, aquele que não é casado está livre para aquilo que pertence ao Senhor, enquanto que aquele que está casado se ocupa das coisas do mundo. Enfim, se não se for capaz de resistir ao apelo da carne, então que o homem e a mulher se casem, mas o melhor é permanecerem solteiros, em celibato. 


Uma das vantagens dos textos canónicos em relação aos textos apócrifos é que os primeiros são inteligíveis. Mesmo quando sugerem acontecimentos ou nos pedem comportamentos que nos parecem impossíveis ou inexplicáveis, na maior parte dos casos podemos dizer e descrever claramente o que nos está a ser dito ou pedido pelos textos. Claro que há partes mais abertas à discussão, mas regra geral os textos canónicos são inteligíveis. Ou, pelo menos, dão-nos uma ideia por onde começar, embora possamos não perceber bem como chegar a cumprir o que nos é pedido, ou não entender bem que significado pode ter o acto concreto que é sugerido. Neste caso, podemos facilmente perceber o que é que Jesus está a pedir. A exigência é clara: aquele que queira ser discípulo de Jesus deve separar-se da sua família. Não há aqui nenhum apelo ao desrespeito entre filhos e pais. A questão é outra: a fidelidade total a um compromisso com Jesus, com a palavra de Deus. E neste contexto a família representa um desvio.



Entre os seguidores de Jesus todos são irmãos entre si. Este é o vínculo que deve vigorar. Os irmãos de carne, irmãos desde que nasceram, irmãos em sua casa, devem quebrar esse vínculo e encararem-se como irmãos no discipulado. Não interessa se duas pessoas são pai e filho: como discípulos são irmãos entre si e irmãos igualmente com todos os outros discípulos. Irmãos em igual irmandade. Não há predilectos, nem preferências. Claro que em Jo 19:26 se fala de um discípulo que Jesus amava (ἠγάπα), mas essa seria outra discussão.



Mas não basta um despego aos próprios familiares. Aliás, este despego é insuficiente se o pretendente a ser discípulo não odeia a própria alma (τὴν ψυχὴν ἑαυτοῦ). Seguir Jesus significa deixar para trás os elos anteriores que uniam a pessoa à sua família e abdicar dos seus interesses pessoais. Ora, previsivelmente, esta entrega total à missão de seguir Jesus atrairá a antipatia e os juízos recriminadores da própria família. Aquele que deixa o seu lar e os seus para abraçar um destino revolucionário, diferente das expectativas normalmente instituídas, com certeza que nem sempre é bem compreendido, e na maioria das vezes enfrenta a resistência daqueles que lhe são mais próximos. Compreende-se que Jesus afirme que vem trazer a espada, a separação, a guerra entre familiares.



Ao contrário do que pudesse parecer, a divergência entre Jesus e os seus não foi um episódio sem lastro que rapidamente tenha resultado num entendimento mútuo. Pelo contrário, parece ter sido algo que perdurou. Pelo menos, o mal-estar instalado ter-se-á verificado em outras ocasiões. Podemos supor que nem todas elas foram eliminadas. Aliás, a permanência de alguns exemplos claros de desconfiança entre as partes é suficiente para supormos que possa ter sido mais abrangente do que aquilo que ficou registado. À partida existiria interesse entre os que relatavam os acontecimentos da vida de Jesus em omitirem desentendimentos deste com a sua família, bem como para omitirem a falte de crédito que os seus lhe confiavam.


João 7:
2 ἦν δὲ ἐγγὺς ἑορτὴ τῶν Ἰουδαίων σκηνοπηγία. 3 εἶπον οὖν πρὸς αὐτὸν οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ, Μετάβηθι ἐντεῦθεν καὶ ὕπαγε εἰς τὴν Ἰουδαίαν, ἵνα καὶ οἱ μαθηταί σου θεωρήσουσιν σοῦ τὰ ἔργα ποιεῖς· 4 οὐδεὶς γάρ τι ἐν κρυπτῷ ποιεῖ καὶ ζητεῖ αὐτὸς ἐν παρρησίᾳ εἶναι. εἰ ταῦτα ποιεῖς, φανέρωσον σεαυτὸν τῷ κόσμῳ. 5 οὐδὲ γὰρ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ ἐπίστευον εἰς αὐτόν.

2 Mas estava perto a festa dos Judeus dos Tabernáculos. 3 Então os seus irmãos disseram-lhe: “Parte daqui e vai para a Judeia, para que os teus discípulos possam ver de ti as obras que fazes. 4 Pois ninguém que procure tornar-se a si mesmo conhecido faz as coisas em segredo. Se fazes isto, torna-te a ti mesmo visível ao mundo.” 5 Pois nem os seus irmãos confiavam nele.



Estas palavras mereceriam análises que não iremos fazer. Por exemplo, será que os discípulos de Jesus estavam já na Judeia, em Jerusalém, separados de Jesus e dos seus irmãos? Porque, de facto, os irmãos dizem-lhe que é lá, na Judeia, que poderá mostrar aos discípulos aquilo que faz. Em grego, μαθητής, discípulo, é aquele que aprende, um aprendiz. Será, então, que os seus aprendizes não o seguiam neste momento? Sendo como for, quem registou estas palavras dos irmãos de Jesus achou que não deveria omitir que nem os seus irmãos confiavam nele. O verbo que aqui vertemos para confiar pode ser entendido como acreditar, dar crédito, depositar fé. O evangelista comenta por sua iniciativa as palavras que registou dizendo-nos que nem os irmãos de Jesus davam crédito às suas obras. Daqui depreende que não eram apenas os seus irmãos que, de alguma forma, duvidavam de Jesus. Outros duvidavam também (ver Jo 6:61 - os discípulos de Jesus mostravam-se muitas vezes reticentes perante as palavras deste), e parece que os seus discípulos já nem o acompanham. Podemos supor que as dúvidas entre os discípulos se adensavam e que talvez tivesse havido algum tipo de separação recente. Neste sentido, os irmãos de Jesus parecem sugerir que este fosse para um local mais público mostrar a todos, de forma bem manifesta, a sua obra. Contudo, estas palavras, segundo João,  eram algo irónicas como se dissessem: com o devido respeito, tanta gente duvida de ti (até mesmo os teus discípulos), mas se realmente és capaz daquilo que afirmas ser capaz, então demonstra-o bem à frente de todos, num local bem visível, ou então deixa-te destas andanças e não nos envergonhes mais



Por outro lado, aparentemente, a dúvida recaía sobretudo sobre as suas obras. Talvez os seus irmãos duvidassem de que Jesus fizesse realmente as obras que se dizia que ele fazia. Temos indícios de que Jesus era mais bem sucedido em terras onde fosse desconhecido.


Marcos 6:

1 Καὶ ἐξῆλθεν ἐκεῖθεν καὶ ἔρχεται εἰς τὴν πατρίδα αὐτοῦ, καὶ ἀκολουθοῦσιν αὐτῷ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ. 2 καὶ γενομένου σαββάτου ἤρξατο διδάσκειν ἐν τῇ συναγωγῇ, καὶ πολλοὶ ἀκούοντες ἐξεπλήσσοντο λέγοντες, Πόθεν τοὐτῳ ταῦτα, καὶ τίς ἡ σοφία ἡ δοθεῖσα τοὐτῳ, καὶ αἱ δυνάμεις τοιαῦται διὰ τῶν χειρῶν αὐτοῦ γινόμεναι; 3 οὐκ οὗτος ἐστιν ὁ τέκτων, ὁ υἱὸς τῆς Μαρίας καὶ ἀδελφὸς Ἰακώβου καὶ Ἰωσῆτος καὶ Ἰούδα καὶ Σίμωνος; καὶ οὐκ εἰσὶν αἱ ἀδελφαὶ αὐτοῦ ὧδε πρὸς ἡμᾶς; καὶ ἐσκανδαλίζοντο ἐν αὐτῷ. 4 καὶ ἔλεγεν αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς ὅτι Οὐκ ἔστιν προφήτης ἄτιμος εἰ μὴ ἐν τῇ πατρίδι αὐτοῦ καὶ ἐν τοῖς συγγενεῦσιν αὐτοῦ καὶ ἐν τῇ οἰκίᾳ αὐτοῦ. 5 καὶ οὐκ ἐδύνατο ἐκεῖ ποιῆσαι οὐδεμίαν δύναμιν, εἰ μὴ ὀλίγοις ἀρρώστοις ἐπιθεὶς τὰς χεῖρας ἐθεράπευσεν. 6 καὶ ἐθαύμασεν διὰ τὴν ἀπιστίαν αὐτῶν. Καὶ περιῆγεν τὰς κώμας κύκλῳ διδάσκων.

1 E saiu dali e foi para a sua terra, e os seus discípulos seguiram-no. 2 E à chegada do Sábado começou a ensinar na sinagoga, e muitos, ouvindo-o, espantavam-se dizendo: “De onde lhe vêm estas coisas, e por quem lhe foi dada a sabedoria, e tais poderes que faz acontecer através das suas mãos? 3 Não é este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, e José, e Judas e Simão? E não estão as suas irmãs aqui connosco?" E ofendiam-no. 4 E disse-lhes Jesus: “Um profeta não é desonrado se não na sua terra e entre os seus familiares e em sua casa.” 5 E não foi capaz de ali fazer qualquer poder, apenas curou alguns doentes deitando as mãos sobre eles. 6 E admirou-se com a falta de confiança deles. E foi ensinar para uma aldeia das redondezas.




Segundo Marcos, aqueles que o escutavam pareciam espantar-se pela sabedoria que Jesus manifestava. O texto refere ainda as coisas que fazia com as suas mãos. Contudo, podemos supor que Jesus não fizera muitos milagres ali, como logo reconhece o próprio Marcos: "não foi capaz de ali fazer qualquer poder". O grego diz claramente que Jesus não foi capaznão teve poder (οὐκ ἐδύνατο). É certo que curou alguns doentes - talvez seja a essas curas que as pessoas que escutavam Jesus na sinagoga se referem quando mencionam os "poderes que faz acontecer através das suas mãos". 



Segundo Marcos, Jesus ficou admirado com a falta de confiança daquelas pessoas. O mesmo episódio é relatado por Mateus 13:53-58. No entanto, para Mateus foi devido à falta de confiança dos Nazarenos que Jesus não fez milagres.


Mateus 13:
58 καὶ οὐκ ἐποίησεν ἐκεῖ δυνάμεις πολλὰς διὰ τὴν ἀπιστίαν αὐτῶν.

58 E não fez ali muitos poderes devido à falta de confiança deles.



Marcos e Mateus dizem que as pessoas da terra de Jesus tinham dúvidas quanto a Jesus, sobretudo porque resistem à ideia de que alguém cuja família conhecem tenha os poderes que ouvem dizer que ele tem. É essa a razão apontada por Marcos e por Mateus para a desconfiança dos Nazarenos. E Mateus explica que, devido a essa desconfiança, Jesus não fez ali milagres (ou, pelo menos, fez poucos). 



Marcos é um texto bastante preocupado em testemunhar os milagres de Jesus. Por isso é significativo que admita que Jesus não os fez em Nazaré. Diz ele que apenas curou alguns enfermos, o que é diferente de operar milagres propriamente ditos. Por seu lado, Mateus está mais preocupado em legitimar Jesus, quer enquanto Cristo, quer nas suas acções. Por isso Mateus não poderia deixar de esclarecer a razão pela qual Jesus não fez milagres na sua terra, apesar de os ter feito longe dali. Podemos supor que Jesus não sentisse apelo em fazer maravilhas quando exigiam que o fizesse para acreditar nele. Talvez Jesus preferisse fazer milagres com aqueles que o acreditassem, e não tanto para que acreditassem nele.Também não se mostrou claramente satisfeito quando a sua mãe lhe deu a entender que deveria fazer alguma coisa relativamente à falta de vinho num casamento. 



Seja como for, Lucas 4:14-30 relata o mesmo evento mas com mais pormenores. De acordo com Lucas, Jesus regressou à Galileia, a Nazaré e, como de costume, pôs-se a ler as Escrituras. Começa a ler Isaías (o texto citado por Jesus segue a tradução da Septuaginta). O trecho citado, que bem poderia ter saído originalmente da boca de Jesus, é o seguinte:


Lucas 4:
18 Πνεῦμα κυρίου ἐπ’ ἐμὲ οὗ εἵνεκεν ἔχρισεν με εὐαγγελίσασθαι πτωχοῖς, ἀπέσταλκεν με, κηρύξαι αἰχμαλώτοις ἄφεσιν καὶ τυφλοῖς ἀνάβλεψιν, ἀποστεῖλαι τεθραυσμένους ἐν ἀφέσει, 19 κηρύξαι ἐνιαυτὸν κυρίου δεκτόν.

18 O Espírito do senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar as boas novas aos pobres, enviou-me a proclamar aos prisioneiros a libertação e a dar aos cegos a visão, a deixar os oprimidos em liberdade, 19 a proclamar o ano aceitável do senhor.

Este trecho de Isaías tem tudo que ver com Jesus, sobretudo tem tudo que ver com o que veio a compreender-se por Cristianismo. Termos caros a esta religião surgem aqui. Evangelho, εὐαγγέλιον, que se lê euangélion (depois de passar ao latim, o -u-, υ, transformou-se em -v-), significa boa nova, isto é, boa notícia. E apóstolo, ἀπόστολος, que se lê apóstolos, significa enviadoembaixador, ou mesmo mensageiro
Além disso, o trecho de Isaías faz um conjunto de anúncios em favor dos socialmente mais fracos e oprimidos - que é também o horizonte de actuação de Jesus. Parece que Jesus estava de facto a falar de si mesmo e não simplesmente a ler um texto das escrituras.


O facto não terá passado despercebido. Segundo este evangelista, Jesus afirmou que tudo aquilo que acabara de citar estava a acontecer. Então, as pessoas que o escutavam davam testemunho a seu favor. Que é que significa isto? O verbo grego é μαρτυρέω, e significa dar testemunho a favor, ser testemunha favorável a alguém. Lucas deve ter pretendido registar que as pessoas assentiam, aceitavam, confirmavam as palavras de Jesus. Como é costume nas assembleias em que, depois de um deputado falar, os da mesma bancada dizem "apoiado". Mas Lucas, diz também que as pessoas ficaram admiradas por aquelas palavras de graça (χάριτος) serem proferidas pelo filho de José. Portanto, não é certo que o sentimento de admiração tenha sido favorável a Jesus. Pelo contrário, parece que se admiraram de que o filho de José ousasse dizer, ou pretender saber tais coisas. Podemos supor que, tendo já ouvido falar do que Jesus fizera por outros lados, os nazarenos percebessem imediatamente que Jesus falava de si próprio. Isso pode ter parecido uma afronta demasiado grande para poder ser cometida por alguém que lhes era, ou fora tão próximo.


E é neste contexto que Lucas coloca a referência à dificuldade que os profetas têm em serem bem-vindos na sua própria terra.

23 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτοὺς, Πάντως ἐρεῖτε μοι τὴν παραβολὴν ταύτην· Ἰατρέ, θεράπευσον σεαυτόν· ὅσα ἠκούσαμεν γενόμενα εἰς τὴν Καφαρναοὺμ ποίησον καὶ ὧδε ἐν τῇ πατρίδι σου. 24 εἶπεν δὲ, Ἀμὴν λέγω ὑμῖν ὅτι οὐδεὶς προφήτης δεκτός ἐστιν ἐν τῇ πατρίδι αὐτοῦ.

23 E disse-lhes: “Certamente me falareis desta parábola: ‘Médico, cura-te a ti mesmo: tudo quanto ouvimos ter acontecido em Cafarnaum faz também aqui na tua terra’”. 24 Mas ele disse: “Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem-vindo na sua terra.”


A inserção deste trecho aqui, por Lucas, parece descontextualizada num primeiro olhar. Afinal, tudo o que havia sido comentado pelas pessoas que o ouviam era que ele era filho de José. Contudo, Jesus imediatamente se justifica pelo facto de não fazer milagres em Nazaré. Mas ninguém falara em milagres.
Segundo Lucas, Jesus refere outros profetas, Elias e Eliseu, como exemplos de quem fez obra longe de casa. Claramente, Lucas está preocupado em explicar por que é que Jesus não fez milagres em casa, apesar de os ter feito longe de Nazaré.
As pessoas que escutavam Jesus enquanto este referia Elias e Eliseu ficaram descontentes com o que ouviram, levaram-no para fora da cidade e tentaram atirá-lo do monte abaixo. Mas Jesus limitou-se a passar entre aqueles que o levaram e foi-se embora. Este é o relato de Lucas. Portanto, este evangelista conta o episódio de Marcos e Mateus, mas com mais pormenores. Contudo, os pormenores que tem permite-nos supor que não fica tudo dito.


Enfim, tentando ler os três evangelhos sinópticos em conjunto podemos admitir que Jesus teve dificuldades em adquirir a confiança das pessoas da sua própria terra. Há aspectos que não analisamos porque não estão directamente relacionados com o nosso tema aqui, como por exemplo a relação entre o provérbio referido por Jesus, "Médico, cura-te a ti próprio", e a ausência de milagres em casa. Mas estamos em condições de perceber que a desconfiança estava relacionada com o facto de Jesus não realizar milagres ali, em Nazaré. Marcos nota que Jesus ficou muito admirado com a falta de confiança daquelas pessoas, e Mateus explica que Jesus só não fez milagres porque não houve confiança. Podemos supor que as pessoas com quem Jesus fora criado apresentassem relutância em aceitar a palavra de Jesus e em confiar no que ouviam dizer dele. Menos predispostas a acreditar, psicologicamente estariam numa situação em que lhes seria mais difícil de ver milagres. Se existe uma predisposição psicológica favorável, um crente facilmente pode ver um milagre. Os evangelistas tratam de dar a sua própria explicação para essa ausência de milagres. E Lucas coloca o próprio Jesus a justificar-se.  É provável que estes relatos estejam fundeados naquilo que de facto ocorreu. Aqueles que registaram estes episódios estariam interessados em não ter que explicar esta ausência. O facto de ter chegado até nós este registo indicia que provavelmente é verdadeiro. Ou seja, é provável que tenha de facto existido uma desconfiança acentuada por parte dos nazarenos em relação à pessoa de Jesus e ao seu comportamento. Podemos supor que quem se dirigisse a Nazaré e questionasse aquelas pessoas que viram Jesus ser criado, não obtivesse da sua parte mais do que um relato insípido sobre uma infância normal e uma convivência nunca sobressaltada por milagres ou curas de leprosos.



É legítimo admitir que Jesus desde o início da sua actividade pública teve dificuldade em se relacionar com os seus, seja com a sua mãe, seja com os seus irmãos, seja com os da sua terra. O seu envolvimento no templo, nas leituras e talvez mesmo os seus comentários e interpretações da lei e das escrituras deve ter criado alguma indisposição que se foi paulatinamente agravando.  Tendo saído da sua terra e ido para Cafarnaum, e outros locais, ensinar, curar doentes e realizar milagres, é provável que alguma desta actividade se tenha tornado conhecida em Cafarnaum (note-se que não pretendemos com isto afirmar que Jesus fez de facto milagres). A dado momento, a sua mãe e os seus irmãos julgam necessário procurá-lo, talvez com a ideia de o chamarem à razão, pois tornara-se evidente para eles que estava fora de si. Parece ter havido, a certa altura, algum mal estar sério. Aparentemente, Jesus não os recebe nem os reconhece como autênticos familiares. Os seus verdadeiros irmãos são os seus discípulos. Talvez mais tarde (note-se que segundo Marcos e Mateus, primeiro aconteceu o episódio de a família o procurar, e depois, mais tarde, volta a Nazaré - segundo Lucas, é o inverso, isto é, primeiro voltou a Nazaré, depois, mais tarde, acontece o episódio de a família o procurar) tenha decido voltar à sua terra, mas também então não conseguiu ser bem recebido pelos nazarenos. Provavelmente porque os ensinamentos de Jesus lhes parecessem demasiado revolucionários ou fora do comum e exigissem, por isso, um sinal mais substancial de que Deus o apoiava. Quando Jesus não realizou os milagres que esperavam como sinal, poderão ter pensado que estavam perante um falso profeta ou um charlatão.



Os familiares de Jesus não se mostram contentes com a sua actuação pública, provavelmente porque não acreditavam na sua missão, nas suas palavras ou no que se dizia acerca dele. Por outro lado, temos indícios de que alguma espécie de reconciliação, em maior ou menor grau, mais tarde ou mais cedo, acabou por ocorrer. 

Perto da morte de Jesus, já depois da sua condenação, parece que a sua mãe o acompanhava. 

Marcos 16
Καὶ διαγενομένου τοὺ σαββάτου Μαρία  Μαγδαληνὴ καὶ Μαρία  [τοῦἸακώβου καὶ Σαλώμη ἠγόρασαν ἀρώματα ἵνα ἐλθοῦσαι ἀλείψωσιν αὐτόν.

1 E tendo passado o Sábado, Maria Magdalena e Maria a mãe de Tiago e Salomé compraram perfumes para que fossem ungi-lo. 


Este trecho refere três mulheres: Maria de Magdala; Maria, mãe de Tiago; Salomé. A identificação que por vezes se faz de Tiago (Menor) com Tiago, irmão de Jesus, coloca a hipótese de aqui se fazer referência à mãe de Jesus.


Na nossa opinião, os relatores não teriam nenhuma razão para, ao registarem as notícias sobre Jesus, mencionarem a sua mãe ligando-a a um outro filho, e não a Jesus. Por vezes tenta-se ver aqui uma referência a Maria, mãe de Jesus, com a justificação de que o nome Tiago se refere a um irmão de Jesus, e logo depois se diz que esse irmão não é verdadeiro irmão, mas sim um primo, ou talvez um meio-irmão de Jesus, filho de José, mas não filho de Maria, de modo a garantir a virgindade desta. Ora, tentaremos apenas encontrar referências explícitas à presença de Maria, mãe de Jesus - referências que não estejam dependentes de outras teses e teorias que não podem ser comprovadas textualmente. E essas referências existem, ainda que sejam escassas.

João 19:
25 εἱστήκεισαν δὲ παρὰ τῷ σταυρῷ τοῦ Ἰησοῦ ἡ μήτηρ αὐτοῦ καὶ ἡ ἀδελφὴ τῆς μητρὸς αὐτοῦ, Μαρία ἡ τοῦ Κλωπᾶ καὶ Μαρίαμ ἡ Μαγδαληνή. 26 Ἰησοῦς οὖν ἰδὼν τὴν μητέρα καὶ τὸν μαθητὴν παρεστῶτα ὃν ἠγάπα, λέγει τῇ μητρί, Γύναι, ἴδε ὁ υἱός σου. 27 εἶτα λέγει τῷ μαθητῇ, Ἴδε ἡ μήτηρ σου. καὶ ἀπ’ ἐκείνης τῆς ὥρας ἔλαβεν ὁ μαθητὴς αὐτὴν εἰς τὰ ἴδια.

25 Mas estavam junto à cruz de Jesus a sua mãe, e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria, a Madalena. 26 Então Jesus, vendo a mãe e a seu lado o discípulo que amava, disse à mãe: “Mulher, olha o teu filho.” 27 A seguir disse ao discípulo: “Olha a tua mãe.” E desde essa hora o discípulo tomou-a para si próprio.


Portanto, segundo João, a mãe de Jesus estava junto dele pouco antes da sua morte. Podemos supor que qualquer divergência que se tivesse instaurado entre eles se diluísse perante a condenação à morte de Jesus. Não sabemos se a reconciliação antecedeu a sua prisão.


De qualquer modo, após a morte de Jesus a sua mãe parece ter desempenhado um papel no movimento cristão dos primeiros anos. Logo depois da morte de Jesus, Maria é incluída no grupo.

Actos 1
14 οὗτοι πάντες ἦσαν προσκαρτεροῦντες ὁμοθυμαδὸν τῇ προσευχῇ σὺν γυναιξὶν καὶ Μαριὰμ τῇ μητρὶ τοῦ Ἰησοῦ καὶ σὺν τοῖς ἀδελφοῖς αὐτοῦ.

14 Todos esses perseveraram de comum acordo na oração com as mulheres e com Maria, a mãe de Jesus, e com os seus irmãos.

Maria, a mãe de Jesus, comungava com os que acreditavam. O grupo parece ter sido muito unido e conviver familiarmente, repartindo o que os seus membros tinham. Jesus subordinara a lógica familiar à da missão. Mas Maria parece ter integrado o seu movimento, pelo menos depois da sua morte. Contudo, não deixa de ser curioso que, tendo Jesus ressuscitado aparecido a tanta gente, conforme nos indicam as fontes, nenhum relato afirme que apareceu a sua mãe.

Podemos também admitir que, pelo menos, parte dos seus familiares se reconciliaram com Jesus ou com o seu movimento, se não antes, talvez depois da sua morte. Neste sentido há diversas hipóteses em aberto. O próprio Clopas, cuja esposa é mencionada em Jo 19:25 pode ter sido um dos familiares de Jesus a integrar o movimento. A tradição atribui a Carta segundo Judas ao irmão de Jesus com o mesmo nome. Mas o indício mais claro e que nos parece mais consistente é o caso de Tiago, irmão de Jesus (Gl 1:19), referido por Paulo como um daqueles a quem o ressuscitado apareceu ( 1 Cor 15:7). Podemos supor que essa experiência possa estar na base da sua adesão ao movimento.

Portanto, a família de Jesus deve ter sido surpreendida pelo seu comportamento e, provavelmente, pelas suas palavras. Contudo, essa perplexidade parece ter sido superada, mesmo que isso tivesse acontecido apenas depois da sua morte. De qualquer modo, a família de Jesus parece envolvida no movimento cristão inicial que começou a crescer depois da sua morte. É provável que a morte de Jesus, bem como a persistência do movimento dos seus seguidores e a difusão da sua mensagem, os relatos do seu aparecimento posterior, ou experiências pessoais com o ressuscitado tenham sido mais do que suficientes para vergarem os seus familiares àquilo que muitos outros já aceitavam como evidências. Também não deve ser descurado que a ligação familiar a Jesus deveria trazer consigo um lugar de destaque na hierarquia do movimento - de resto, Tiago parece ter pertencido à liderança tripartida do mesmo em Jerusalém.