sexta-feira, 24 de julho de 2015

Imperativo Categórico e suas aporias

A propósito de Imperativo Categórico e suas aporias...



Portanto, quando normalmente se acusa Kant de ter transformado o Dever numa coisa fria e sem sentimento não se percebeu nada do que ele diz. Pelo contrário: o Dever é uma paixão, um interesse, um amor incondicional.

O problema é que Kant não conseguiu demonstrar que a razão possa produzir qualquer coisa como um Dever, um constrangimento a agir. Ou seja, mesmo que seja verdade que a razão produz regras objectivas (e isto também não é imediatamente claro, nem parece que Kant o tenha demonstrado) - mas, mesmo que a razão produza regras objectivas, Kant não conseguiu de modo nenhum mostrar que a razão possa, por si mesma, dar-lhes a forma de constrangimento...


Como ele próprio admite, aquilo que não se consegue explicar é como pode uma regra racional tornar-se prática, como pode algo objectivo tornar-se subjectivo, como pode a razão compelir a agir, como pode a actividade racional produzir interesse por si mesma... tal como também não se consegue perceber como é que um sujeito pode - porque a experiência mostra que ele o pode - preterir um imperativo categórico e preferir um imperativo apenas condicional, quando o imperativo categórico é aquilo que é representado como objectivamente válido. Em resumo: não se consegue perceber como é que pode surgir tal coisa como o Dever - e depois também não se percebe de modo nenhum como é possível ao sujeito não cumprir o seu próprio Dever sem se suicidar a seguir...

Dever e Amor, em Kant

A propósito de amor e dever...


Outra ideia absurda é a de que, para Kant, a ética é destituída de amor... Esta ideia só pode existir na cabeça de quem não perceba que há formas de amor para além do "amor patológico" e do "amor prático" - que são formas de amor que Kant exclui por não poderem constituir, devido à sua própria forma (condicional), um dever. Ou seja: também no Dever há amor - mas tem de ser incondicional. "Incondicional" no sentido de Kant - e não no sentido em que qualquer sujeito pode gabar-se de supostamente amar incondicionalmente o seu filho.


Ou seja, o facto de alguém dizer que ama incondicionalmente o seu filho não prova nada. Ver-se-ia até que ponto ele o ama incondicionalmente se, de repente, tudo aquilo que imediatamente o liga ao seu filho - na forma de "amor patológico" (inclinação imediata) - desaparecesse... Ou seja, o amor é incondicional quando, evidentemente, se dirige até mesmo ao sujeito desconhecido, até mesmo ao inimigo - e não apenas sob a condição de ser o "meu filho" que eu amo na condição de ter um "sentimento imediato" por ele...

Kant e o desejo

A propósito do interesse ético...



Segundo Kant - e contra todas as wikipédias e manuais que, com certeza, não o leram - a acção envolve sempre um "fim" e um "desejo" por esse fim, e envolve ainda uma representação do "fim" acompanhada do "sentimento de prazer", sendo que se há "desprazer", então não há desejo, mas sim aversão.
O ponto de Kant é que esta apresentação formal da acção pode desformalizar-se de muitas maneiras. Assim, não há apenas desejos "empíricos" ou "inclinações", ou seja, segundo Kant, não há apenas uma origem para os nossos desejos e não compreender isto é não perceber o que ele está a dizer, de modo que tudo o que ele diz passa a parecer abstracto. 
Assumir que todos os desejos são inclinações é negar desde início todo o esforço de Kant para sustentar a ética na razão.


O decisivo é compreender que, segundo Kant, há um interesse meramente racional: os desejos podem resultar exclusivamente da actividade da razão pura, de modo que esta constrange por si mesma o indivíduo, produzindo formas imperativas. Assim, a razão pura torna-se prática.




Distintas confusões daquilo que Kant diz acerca do dever prejudicam a compreensão vulgar da sua teoria ética. Uma das mais divulgadas - apesar de Kant se lhe opor explicitamente por diversas ocasiões - é a ideia ridícula de que, para Kant, uma acção autenticamente ética não pode ser acompanhada nem de sentimento, nem de desejo... Pelo contrário, Kant desunha-se para mostrar que toda a acção envolve a representação de um "fim" e de um "interesse" por esse fim, de modo que aquilo que é característico da acção ética é que há um interesse por um fim específico, que é o próprio Dever. Ou seja, Kant esforça-se ao máximo por mostrar que, em termos éticos, a categoria "Dever" é tudo quanto deve ser desejado.


"Um imperativo é uma regra prática pela qual uma acção em si mesma contingente é tornada necessária. Um imperativo difere de uma lei prática em que uma lei efectivamente representa uma acção como necessária, mas não considera se essa acção já é inerente por força de uma necessidade interna ao sujeito agente (como num ser santo) ou se é contingente (como no ser humano), pois quando ocorre o primeiro desses casos não há imperativo. Por conseguinte, um imperativo é uma regra cuja representação torna necessária uma acção que é subjectivamente contingente e assim representa o sujeito como aquele que tem de ser constrangido (compelido) a conformar-se à regra. Um imperativo é categórico quando representa uma acção como objectivamente necessária [...] através da mera representação dessa própria acção (sua forma)".

Kant, Metafísica dos Costumes

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Cristãos honestos



A propósito de cristãos honestos...




"Os ateus insultarem um deus no qual não acreditam é amadorismo; é preciso um crente religioso para fazer o trabalho bem feito e insultar um deus que ele pensa ser real."
"a única coisa que garantidamente é comum a todas as religiões é a inevitabilidade de desfigurarem a imagem de Deus em palavras e acções"

Malcolm Heath, Eccumenical Paradoxes







"a piedade do homem é pura blasfémia contra Deus e o maior pecado que o homem comete. Assim, as maneiras agora em voga no mundo - as formas que o mundo considera como adoração a Deus e como piedade - são piores aos olhos de Deus do que qualquer outro pecado"

Lutero, The Catholic Epistles




A religião "é a necessidade humana na qual o poder do pecado exercido sobre o homem está claramente demonstrado"

Karl Barth, [commentary on] The Epistle to the Romans




"a religião é falta de fé; a religião é uma preocupação - de facto, temos mesmo de dizer que é a preocupação - dos homens sem fé" ... "[digo isto] não apenas para os membros das outras religiões, mas sim, antes de mais, para nós mesmos enquanto membros da religião cristã"

Karl Barth, On Religion: The Revelation of God as the Sublimation [Aufhebung] of Religion

Ética e Sittlichkeit

A propósito de ética e superação...

Segundo Kierkegaard há duas imposturas - entre outras - que devem ser ultrapassadas quando se trata de ética.

1) A ideia de que o ético corresponde aos costumes, aos hábitos e às leis de uma certa comunidade ou de um determinado povo (a Sittlichkeit de Hegel). 

2) A ideia mais geral de que a ética consiste num conjunto de regras (Kant)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Actualizar a religião aos tempos...

A propósito da diferença infinita entre temporal e eterno...


Quando se diz que o catolicismo tem de se adaptar ao mundo de hoje o crucial é colocar os pontos nos is: ou bem que se acredita que o catolicismo é uma Religião e está de acordo com o dever para com Deus; ou bem que não. Eu não acredito: mas que um católico peça que a sua religião se actualize é uma profunda contradição! Agora, se um católico faz notar que neste e naquele ponto a "instituição católica" não está a reflectir aquilo que está nos evangelhos - então tem todo o direito de o dizer. Pelo contrário, aquele que quer que o catolicismo se actualize tem uma impressão tão fraca da sua próprio religião que a confunde com um jornal!

O critério de decisão é o Bem

A propósito de critério...




Normalmente, é assim que um sujeito se relaciona com as categorias ético-religiosas:

"eu quero o Bem, ou quero Deus, mas também quero ser eu a decidir o que é o Bem e o que é o Deus!"

E, contudo, das duas uma: ou não se quer saber de ética nem de Deus para nada, e então não há qualquer questão de prioridade; ou se quer o Bem e se acredita em Deus, e então a prioridade é a preocupação com o Bem e na relação a Deus.

Se há uma preocupação sincera com uma determinação (seja a do Bem, seja a de Deus, seja a de outra qualquer), então o decisivo é que essa determinação é o critério, a medida, a fonte de validação e eu não tenho poder para decidir sobre o que a medida é... Isto é tão evidente que até o mais iletrado dos homens o sabe, pois jamais lhe passará pela cabeça pesar a sua vaca senão por uma medida fixa.

Ser católico ou ser papagaio!

A propósito de prioridades...




Das duas uma: ou não se acredita em Deus, e então não há qualquer questão de prioridade; ou se acredita em Deus, e então a prioridade é a relação a Deus.

Pensar-se-ia que isto é evidente... Mas não é: pelo contrário, é absolutamente comum ouvir alguém que se diz católico dizer que "não tem tempo para ser praticante", que "não tem tempo para ir à missa", que volta e meia "cumpre quando arranja um tempinho entre tantas tarefas"...

E, contudo, das duas uma: ou se é efectivamente crente, e então é a relação com o divino que configura a sua existência; ou então dizer-se católico tem o mesmo significado para si que têm as palavras ditas por um papagaio para o próprio papagaio.


Ou se serve um senhor, ou se serve o outro. Os dois é que não dá.

Se há um Deus, então há um Deus

A propósito da prioridade da relação a Deus...



Eu entendo que alguém me diga que não acredita em Deus, ou que alguém me diga que acredita em Deus.

Mas que alguém me diga que Deus existe e, de seguida, negue a prioridade da relação a Deus - isso é uma contradição.

Das duas uma: ou não se acredita em Deus, e então não há qualquer questão de prioridade; ou se acredita em Deus, e então a prioridade é a relação a Deus.

Abraão (e Isaac)

A propósito da Akedah...


Os cananeus sacrificavam crianças.
Os judeus sacrificavam cordeiros.

Se o deus de Abraão tivesse ordenado a um cananeu que sacrificasse o seu filho, que sacrifício seria esse?

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Nietzsche e Kierkegaard - e a morte dos valores

A propósito de cadáveres.

Um dos erros espantosamente comuns nas análises e comentários a Nietzsche é supor que ele nega a existência de valores. 


A atitude que nega a existência de valores é aquilo a que ele chama Niilismo, mas esta negação é aquilo que teme acima de tudo. Nietzsche nega, sim, o valor daqueles ideais que não estão em condições de preservar um sujeito do Niilismo.


Portanto, Nietzsche também não é niilista. O que ele diz é que há ideais a que damos valor que, na verdade, não têm valor. Ou seja, nós tendemos a usar como valor algo que apenas aparentemente é valor. Por isso, é preciso mostrar que aquilo a que normalmente chamamos valor não passa de uma construção aparente de valor. É isso que Nietzsche faz. Ora, como normalmente nós pensamos que essas coisas são valores, e Nietzsche nos mostra que não são, tendemos a pensar que Nietzsche está a dizer que não há valores - mas, na verdade, ele está apenas a dizer que aquilo que nós julgamos serem valores não são.




Assim, Nietzsche é, de facto, um destruidor de valores - no sentido em que Jeremias era o profeta da destruição de Jerusalém: o que Nietzsche pretende é salvar a capacidade do humano para avaliar, julgar e valorizar. Para isso é necessário destruir os falsos valores.


Nietzsche mostra, livro atrás de livro, que nós estamos num estado de indiferença tal que já nenhum valor nos causa impressão, nenhum valor nos diz nada. Ainda falamos desses valores que outrora foram importantes, mas falamos deles da mesma forma que os papagaios: já nada significam para nós. Não há ligação íntima entre aquilo de que falamos e o modo como nos sentimos - e há ainda menos ligação entre aquilo que pensamos e aquilo que somos.


Esta crítica foi também feita por Kierkegaard. Segundo Kierkegaard, continuamos a falar de valores que surgiram em determinadas épocas e em certas sociedades, mas já não há qualquer nexo espiritual que lhe doe validade. Nas suas palavras, é como se tivéssemos à nossa frente um cadáver, um corpo sem alma, mas esperássemos dele que ainda se movimentasse e cumprisse as funções de um vivente.


Há um conjunto de determinações éticas que foram evidentes durante séculos, que estruturaram e deram forma ao mundo ao longo de centenas de anos - mas das quais só retemos os nomes, as palavras, de modo que já não fazem parte da evidência vital que temos hoje... Embora nós continuemos a usar os termos antigos, a evidência vital de outros tempos é apenas simbólica, oca, vazia, morta - de modo que já só se move por inércia.


As semelhanças na expressão de Nietzsche e Kierkegaard são imensas. 


Ambos teimam em que mantemos casmurramente uma linguagem supostamente ética, supostamente valorativa, mas de tal modo que já nenhuma categoria ética lhe corresponde: mantemos uma tradição morta: já não temos a visão-de-vida, as preocupações, os interesses ou as paixões que deram vida à terminologia ética que ainda usamos.


Os dois anteciparam aquilo que Anscombe e MacIntyre também vieram a dizer... 


Mas Anscombe e MacIntyre parecem ter chegado atrasados, não porque pretendem ter descoberto algo que já foi dito, de forma mais clara e veemente, um século antes, mas sim porque a situação já é diferente... Nietzsche e Kierkegaard tinham razão ao descreverem uma situação que existia no seu tempo, e talvez há séculos, mas entretanto foi ultrapassada (e já parecia ultrapassada em 1968 - vide Modern Moral Philosophy)...


O que se passa hoje já não é apenas a vigência de determinações como sendo doadoras de sentido mas que já não doam efectivamente sentido - o que se passa hoje é que essas determinações foram absolutamente abandonadas e se aderiu ao seu contrário

A nossa situação de hoje já não é aquela a que Kierkegaard e Nietzsche faziam referência, mas sim uma intensificação dela: a evidência vital que durante séculos configurou o mundo e que, durante outros tantos séculos, se manteve simbolicamente como um cadáver, já está definitivamente enterrada, foi abandonada definitivamente e adoptou-se a evidência contrária.

Nietzsche e "O Cristão"

A propósito da categoria nietzscheana de o cristão...

Como se sabe, Nietzsche passou o tempo a escrever contra uma criatura a que chamava o cristão. Acontece, porém, que é preciso atentar a que categoria Nietzsche se está a referir. O que pretende ele dizer quando fala de o cristão?

Quando Nietzsche se refere ao cristão, normalmente, refere-se a um determinado tipo de humano que não põe em acto aquilo que diz ser.

Ou seja, para Nietzsche, o oposto de ser cristão significa exercer uma prática continuada de um determinado juízo de valor.


Assim, o que Nietzsche está a dizer é que aqueles sujeitos que normalmente se dizem cristãos não são autenticamente cristãos. Não são autenticamente coisa nenhuma: são uma ilusão para si mesmos pois, na medida em que se julgam já cristãos, não só não fazem por vir a ser cristãos, como não fazem por vir a ser autenticamente o que quer que seja. Só é autêntico aquele em que o juízo de valor se torne acto. E o cristão é aquele que fala, discursa, dá sermões ou reza missas, mas não é cristão.

O cristão de Nietzsche é aquele que não é quem pensa ser; pensa ser algo que não é; julga-se a si mesmo em conformidade a um ideal do qual não tem nada.


Neste sentido, Nietzsche não difere de Kierkegaard: assim como Kierkegaard distingue entre a Cristandade e o Cristianismo, Nietzsche distingue entre o cristão e o cristão autêntico.


a palavra «cristianismo» já é um equívoco: no fundo, houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz. [...] É falso até ao absurdo ver numa dada «crença», porventura a crença na redenção por Cristo, o distintivo do cristão: somente a prática cristã, uma vida tal como a viveu aquele que morreu na cruz, é que é cristianismo... Ainda hoje, uma vida semelhante é possível, para certas pessoas até é necessária: o cristianismo autêntico, originário, será possível em todas as épocas. Não um crer, mas um fazer, ...

Nietzsche, O Anticristo, §39

terça-feira, 14 de julho de 2015

A Democracia Totalitarista

A propósito de,

Zippelius, no Teoria Geral do Estado, refere que o estilo burocrático pode muito bem transformar uma democracia (formal) num Estado totalitário, semelhante a um aparelho que dirige e controla tudo e todos os sectores. Nós estamos a ver a emergência de uma confederação formal que se torna numa federação de facto, semelhante a um aparelho técnico que, a coberto de supostos ditames técnicos e legais, impõe uma determinada ideologia, uma determinada visão de como deve ser o mundo, e a impõe a Estados eles mesmos já transformados em aparelhos burocráticos e técnicos, nos quais o regime pluralista está cativo dos aparelhos dos partidos... Quem já teve oportunidade de estudar o funcionamento do Estado Nazi não pode deixar de reconhecer nisto uma nazificação da União Europeia. Uma nazificação que parte de um "hardcore" tipo directório soviético... Se qualquer dia começarem a exterminar os inválidos e deficientes, ou a criar regimes de escravatura para os "inúteis", desempregados e associais, eu não me admiraria nada.

Sobre o suposto "acordo" da Grécia e da UE, a 13-07-2015

A propósito de "acordo"

Acordo? Qual acordo? Os gregos - os antigos - tinham um vocabulário expressivo, e na sua vastidão encontra-se este verbo: συμφράζομαι (synfrázomai). Um verbo interessantíssimo porque vem do termo φρήν (frén), ainda hoje compondo vários termos em várias línguas, como é o caso de "FREnético". A palavra φρήν designava o órgão da respiração, mas num sentido originário, como quando ainda hoje dizemos que "faltou-me o ar quando ele disse aquilo", ou que a "atmosfera ficou irrespirável quando ele entrou na sala". Normalmente, traduz-se por "coração", porque nós hoje associamos ao coração esta função disposicional... O prefixo "συμ-", ainda hoje usado em palavras como "SINergia" ou "SINtonia", significa "em conjunto", "com". Ora, συμφράζομαι significa "tomar conselho com", "tomar parte em conjunto com", "considerar em conjunto"; "conjugar esforços"; mas também "dizer em conjunto", "condizer". Quer dizer, para os gregos - antigos - chegar a acordo, concordar, envolve o coração, uma relação de sinergia em que os sujeitos se envolvem de coração, respirando em conjunto, em sintonia. Da mesma forma, o termo "a-cordo" vem do latim, da palavra "cor", que significa "coração".

Não. Não houve qualquer acordo. Os líderes europeus já não sabem o que significa ter coração. Por isso, não podem saber o que significa "acordo", não podem compreender qual era o "projecto europeu".

segunda-feira, 13 de julho de 2015

despojar-se da maneira habitual de pensar



"suplico ao leitor para se exercitar, primeiramente, em despojar-se de uma parte da sua maneira habitual de pensar. De outro modo, o problema [...], será, para ele, nulo e não resolvido - e, coisa curiosa, justamente porque já o resolveu há muito"

Kierkegaard, Dois Pequenos Tratados Ético-Religiosos

domingo, 12 de julho de 2015

aquilo que é necessário para alguém ser cristão...

A propósito de ser-se cristão...

Há uma pergunta que nos podemos fazer: será que ser-se cristão pode levar um sujeito a tornar-se fundamentalista? Será que queimar humanos é cristão?

Ora, vamos por partes.


Mas parece ser esta, justamente, a questão. O que é ser cristão? É ter fé? E o que significa ter fé? Será que ter fé é aderir a um conjunto de teses? Ou é uma determinada prática? Não me parece que a fé consista na mera adopção de um determinado ideal enquanto adesão a determinados conteúdos teóricos, como se ter fé correspondesse à defesa de uma tese de doutoramento. A fé - se é fé - há-de verificar-se na expressão existencial dela, se há fé tem de haver prática do ideal, tem de haver reduplicação na existência da categoria a que o sujeito se fixa. Então, ser-se cristão há-de ser qualquer coisa como a expressão existencial de um ideal concreto, o viver de acordo com um determinado modelo que, para o cristão, parece que só pode ser o de Jesus. Não se trata, portanto, de aderir à tese de que Jesus é encarnação de um ente omnipotente que criou o universo e tal. Estas coisas talvez sejam relevantes numa tese de teologia, mas não me parecem ser aquilo que é necessário para se ser cristão.

Uma pessoa que escreve uma tese de doutoramento a defender que o mais provável é que Deus exista e tenha encarnado num sujeito que viveu há 2000 anos, mas cuja vida reflecte uma perfeita indiferença perante o modelo que Jesus é e, simultaneamente, a sua fixação aos valores do mundo, talvez não devesse ser considerada cristã.

O critério para que alguém seja cristão não pode ser o de ele se julgar cristão - a não ser se não estiver em causa, justamente, cumprir com requisitos definidos por Deus... Quer dizer, se o sujeito é cristão com certeza que não dirá que é ele próprio que define o que é ser cristão - a não ser que se esteja a pôr no lugar de Deus. Se um sujeito é cristão, então parece-me que deve ter começado por reconhecer um ideal - que não foi definido por si - e depois por ter-se fixado a tarefa de reduplicar na existência esse ideal.

Portanto, o problema principal parece-me ser, justamente, o de saber "aquilo que é necessário para alguém ser cristão" - e se reconhecemos isto então também reconhecemos que é possível que alguém julgue ser cristão sem o ser. Eu sou ateu, mas compreendo isto muito bem: se se trata de ser religioso, então é natural que o sujeito que quer ser religioso compreenda que não é ele que define aquilo em que ele se deve tornar. E então é natural que a cristandade possa andar arredada do seu próprio ideal... Não se trata aqui de um sujeito pensar que ser cristão é isto, e outro aquilo... Trata-se do facto de um sujeito ser capaz de se esquecer do seu ideal no quotidiano da existência, por muito que bata no peito ao Domingo.


Então, se se trata de cumprir com os requisitos dos quais o sujeito reconhece depender o sentido da sua vida e que reconhece não terem sido definidos por si - se se trata de reduplicar na sua existência a sua fidelidade ao exemplo de Jesus, então com certeza que aquele que mata por Jesus, e até mesmo aquele que mata César por Jesus não é cristão, visto que nada no exemplo de Jesus pode fazer pensar que alguém que mata, queima ou tortura está a reduplicar na sua existência a sua fidelidade ao exemplo de Jesus.




Parece-me, pois, evidente que não é verdade que o Cristianismo trouxe mal ao mundo, ou que levou os homens a praticar o mal.

O que me parece evidente é que os homens praticam o mal.

O facto de um sujeito dizer que mata por ser cristão não prova mais que assim o é do que alguém dizer que mata por eu lho ordenar quando é verdade que nunca lho ordenei.

O facto de ter havido pessoas que se diziam cristãs e que queimaram outras com a justificação do Cristianismo não prova que o fizeram por serem cristãs, ou que o fizeram devido ao Cristianismo, a não ser que se encontre no exemplo de Jesus um dever de matar em seu nome e em tais circunstâncias... Os homens matam, violam, etc. Esta é uma evidência. E fazem-no dizendo que o fazem em nome de muitas coisas, mas no caso do Cristianismo nós temos um exemplo, e se o sujeito acredita que a sua existência deve ser qualificada pela medida da sua fidelidade ao exemplo estabelecido por Deus, então - digamos assim - se ele é honesto, não dirá que é cristão quando está nos antípodas do modelo que Jesus deveria ser para si.

Assim, um terrorista cristão não é mais cristão do que um cristão não praticante, e este não é mais cristão do que um advogado que não cumpriu os requisitos da Ordem é advogado.

Ser-se cristão é, com certeza, ser fiel ao exemplo de Jesus - e não escrever uma tese a defender que Jesus é a encarnação do criador do mundo e vizinhanças, nem matar para defender Jesus e a sua verdade (pois o exemplo de Jesus foi que se deixou ele próprio matar pela verdade).

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Kierkegaard e Nietzsche

A propósito de multidão e indivíduo...

Segundo Nietzsche, as massas devem conformar-se à moralidade enquanto conjunto de normas instituídas - apenas alguns indivíduos conseguem guiar-se pelas leis da própria subjectividade. Kierkegaard concorda. Mas o ponto de Kierkegaard é que todos os indivíduos são capazes de se tornar indivíduos - enquanto Nietzsche parece convencido que só alguns são realmente capazes de não ser multidão. 


Ou seja, quer Kierkegaard quer Nietzsche concordam que a maioria da gente é multidão e que só raramente surgem indivíduos realmente singulares. Mas Nietzsche pensa que isto é assim porque tem e deve ser assim. Já Kierkegaard esforça-se por mostrar que qualquer um pode vir a ser um indivíduo. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Referendo e Impressão de Si

A propósito de impressão de si... no referendo de 05-07-2015, na Grécia

Tudo depende da impressão que um indivíduo, ou um povo, tem de si. O Grego mostrou que tem uma impressão forte de si, uma impressão "nós valemos mais do que os cifrões". Ora, a maior parte dos povos da Europa parece ter uma impressão bem mais pequena de si, pois acha-se bem menos importante que os bancos, os cifrões, etc. Na Europa tem-se uma grande impressão das férias, das praias, do sol, do futebol, dos bancos e até mesmo do gado - mas tem-se uma impressão tão insignificante de si...

O Flirt na Política contemporânea

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A propósito de flirt


Claro que ficamos surpreendidos com o auto-despedimento de Varoufakis. Para nós isto é coisa de outro mundo. Nós estamos habituados aos senhores que não se demitem nunca, que assumem as suas responsabilidades dizendo em horário nobre "Assumo a responsabilidade". 

Ora, quando assumir as responsabilidades significa fazer uma declaração ao telejornal das 20h, torna-se completamente incompreensível que Varoufakis se demita mesmo tendo ganho o NÃO. É que a postura de Varoufakis parece querer dizer que ele está mais interessado em servir o ideal que é o seu, do que em servir-se de um qualquer ideal. E isto é coisa que já ninguém, em boa verdade, entende na Europa.


Houve um tempo em que homens como Sócrates ou Jesus acabavam invariavelmente condenados à morte ou simplesmente assassinados. Porque nesses tempos as pessoas não se permitiam ficar indecididamente perante certos ideais que lhes batiam fundo na alma. 

Hoje vivemos num tempo completamente diferente: as pessoas estão tão distantes do ideal que Sócrates e Jesus poderiam muito bem vir à terra que ninguém despenderia um dia de praia, ou um minuto de um jogo de futebol por eles - nem por eles, nem contra eles.

Note-se: nós temos ideais - veja-se que o panteão continua a encher-se. Nós temos ideais, mas temos ideais rastejantes e, consequentemente, temos uma consciência rastejante deles. Ou seja: somos colectivamente na existência um mercado de valores - ou, como dizia Kierkegaard - um entreposto comercial, um pau-andante.



Quanto nos choca uma Grécia - um povo de gregos que, apesar dos bancos fechados, apesar do terror da falta, vai votar NÃO? Quanto nos indigna que eles tenham coragem?


Na verdade - e é aqui que reside toda a absurda hipocrisia, toda a imundície da pseudo-política de hoje, toda a inexistência de uma consciência política - CHOCA-NOS apenas imaginariamente. O horror, o choque que os jornalistas, os comentadores, os cidadãos pretendem sentir é orvalho num verão de praia antes do começo do campeonato de futebol; toda a raiva dos pseudo-políticos é flirt; toda a indignação dos economistas é ausência de consciência.

Sou plenamente a favor de que se acabe de vez com esta parvoíce das eleições e dos referendos. Crie-se um directório de tecnocratas que decida quem deve e quando deve integrar os governos nacionais. Crie-se um directório de tecnocratas que decida os programas a levar a cabo onde, quando e porquê.
Mas acabe-se de vez com este flirt com a democracia e com os mercados. Ou bem que temos uma tecnocracia, ou bem que temos uma democracia. O flirt com as duas é que não.


Perguntemo-nos o que queremos - e que esse seja o nosso ideal - e depois assumamo-lo sem hipocrisias.

Ou bem que se quer uma mulher, ou bem que se quer a outra. Andar no flirt com as duas é que não!

Ou pão e circo e palhaços OU o espírito grego

A propósito do Referendo grego de 05-06-2015



Os gregos assumiram colectivamente um papel que há muito se perdeu na Europa. E fazem muito bem, pois que foram eles que o inventaram: o papel da Política.

Há muito que na Europa não há nem Política nem políticos, mas apenas pão e circo e palhaços.

Ninguém sabe o que isto vai dar - mas sabemos, se somos honestos, que os Gregos fizeram aquilo que nos competia a todos fazer. Sabemos, se somos honestos, que não há verdadeiramente uma Democracia contra 18... Sabemos, se somos honestos, que há agora uma vontade popular - contra 18 governos-zombie de 18 povos-zombie numa Europa-zombie.

Os Gregos - e o seu papel na Europa

A propósito do Referendo Grego de 05-07-2015



Ouve-se e lê-se há uns tempos para cá um chavão que se pretende iluminado e que afirma que os gregos de hoje são uma sombra de uma sombra dos gregos gigantes do passado.

Quando ouço este chavão insisto sempre que não é assim. Pelo contrário: tal como o Sócrates da Hélade antiga foi gigante e foi condenado à morte pelos seus contemporâneos, devemos estar preparados para aceitar a possibilidade de sermos nós que somos demasiado pequenos para perceber a grandiosidade dos gregos de hoje.

Sobre o REFERENDO Grego - um momento da História Europeia

A propósito de "peixe e cana de pesca"...





Os Gregos estão a mostrar algo que está muito além da mera dicotomia "dar peixe/dar cana de pesca". É toda uma visão de como deve ser a Europa, de como a Europa deve ser para com os seus estados-membros... É toda uma concepção sobre os ideais que servem ao projecto Europeu - uma concepção que nega absolutamente que "primeiro os negócios, depois a política", que nega absolutamente que "aquilo que não admite excepções" seja a lei da finança...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Utilitarismo e Nazismo

A propósito de Utilitarismo

"Os pressupostos nazis são exclusivamente utilitaristas. O nazismo é um modo de utilitarismo, uma espécie de utilitarismo intensificado. 

O nazi é um utilitarista, a única diferença é que o nazi é honesto. O utilitarismo é nazismo em potência - está sempre na possibilidade de se tornar nazismo na medida em que seja honesto com os seus próprios pressupostos. A única coisa que impede um utilitarista de ser completamente nazi é a tendência humana para a hipocrisia."



É possível rebater esta crítica ao Utilitarismo?

O dinheiro como medida do humano

A propósito do artigo de Habermas

A "dissolução da política na conformidade com os mercados" (Habermas) da Europa, o "primeiro os negócios, depois a política" de Paulo Portas - são apenas aspectos de algo radicalmente impresso na contemporaneidade: o desaparecimento da ética. A completa e absoluta dissolução do humano na economia. Hoje, se há princípios, são os da economia; se há consciência, é uma preocupação económica; se há valores, são os monetários; se há uma medida do humano é o seu sucesso financeiro.
Um sujeito mede-se pelos seus cifrões.
A dissolução da ética nos negócios acarreta como consequência a dissolução da política nos mercados.


Houve tempos em que se dizia que "uma vida não examinada não serve ao humano". Mas hoje o homem comeu do fruto do conhecimento e descobriu que "uma vida sem lucros não merece ser vivida". A validade do sentido da vida é comensurável com o dinheiro que se tem e movimenta.
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