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quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A Capuchinho Vermelho

A propósito das estórias de antigamente


Regra geral, as versões dos Grimm são bem mais sangrentas e cruas do que as versões actuais insossas e sem espírito. Mas a história da Capuchinho Vermelho contada pelos Grimm já é uma versão muito "politicamente correcta" da mesma. Nas versões mais antigas não havia lenhador. Na verdade, a Capuchinho Vermelho nem sequer usava um capuchinho vermelho... O Lobo Mau matava a avó, não a engolia ainda viva. Mais: o Lobo, depois de matar a avó, tirava-lhe o sangue para uma jarra e cortava-a às fatias. Quando a Capuchinho chegava, o Lobo dava-lhe o sangue e a carne da avó a comer, como se de vinho e carne vulgar se tratasse. Depois desse episódio canibalesco, o Lobo pedia à Capuchinho que se deitasse nua com ele. As perguntas eram bem diferentes, nada de "porque tens olhos tão grandes?"... À medida que a Capuchinho se despia, ia perguntando o que fazer com a peça de roupa despida e o Lobo mandava que a jogasse na fogueira. Além disso, a Capuchinho apenas observava que a avó era bastante "peluda", com "ombros largos", em tiradas com suposto teor sexual, até que, finalmente, notava os "grandes dentes" da avó. Depois desta última observação, com a Capuchinho já nua, o Lobo comia-a e pronto. Não havia lenhador - tópico acrescentado pelos Grimm - para salvar ninguém. A história acabava mesmo assim com a avó comida e bebida pela neta, e a neta comida pelo Lobo, uma verdadeira lição de vida sem lenhadores míticos ou salvamentos mágicos.

domingo, 28 de julho de 2013

Apontamentos para uma leitura dos três porquinhos

A propósito de segurança e insegurança...


Na visão do mundo que podemos chamar de Utilidade cada actividade é para-algo, inserida numa cadeia de para-quês que, em última análise, é em-função do humano. Isto serve para aquilo, que por sua vez serve para aqueloutro, que por sua vez serve para... em que esta remissão sempre se dá em-função de uma possibilidade do humano. De algum modo, o humano busca abrigo e protecção nas coisas do mundo. Não é que primeiramente aí ocorram coisas e depois o homem nelas busque abrigo - o humano já sempre está vinculado a si mesmo, num cuidado consigo, de tal modo que as coisas já sempre vêm ao seu encontro determinadas pelo mor-de-si do humano. E a explicitação desta estrutura do mundo parece fixá-la com mais vigor: o homem percebe que o mundo inteiro está aí para o satisfazer, que as coisas servem para ser usadas - como é evidente. O mundo inteiro é o seu quintal. Mesmo quando percebe que o seu quintal deve ser cuidado, esta postura ecológica mais não é do que uma versão da mesma dialéctica...
Na Utilidade, o humano encontra-se a si mesmo no interior da cadeia, como um momento dela, habitando uma cadeia de regulações completamente determinadas. O humano abriga-se e protege-se nas coisas justamente porque já não está em condições de percorrer nenhum caminho sério, nem de correr qualquer risco para sequer considerar o único perigo que efectivamente sempre corre. O humano sente-se seguro e feliz, sente-se tão mais seguro e tão mais feliz, ou inseguro e infeliz, tão mais inseguro e infeliz quanto permanece cego para o verdadeiro perigo. Sente-se seguro sem saber relativamente a quê deveria sentir-se seguro - e não seguir muito mais "útil" sentir-se inseguro para que pudesse procurar em que se abrigar? Sente-se inseguro sem saber relativamente a quê deveria sentir-se seguro - e não seria muito mais "útil" estar seguro de que a segurança relativamente à qual se sente inseguro não é de facto nenhuma segurança? Mas sentindo-se seguro confia no que jamais lhe foi abrigo, sentindo-se inseguro procura segurar-se no que nunca poderia abrigá-lo. Como aquele porquinho que se sente seguro na casota de palha - como esse mesmo porquinho que, não tendo chegado a tempo a casa e, suspeitando vagamente de que o lobo mau ronda, se sentisse inseguro e desabrigado: não porque tenha percebido o risco que de facto corre, mas porque se imagina seguro e abrigado na sua casa de palha.