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sábado, 20 de fevereiro de 2021

Da relação entre perdão e arrependimento

A propósito de perdão e arrependimento


O tema do perdão em ética é muito complexo. Primeiro, há a questão de determinar o conceito: o que se quer dizer quando se fala de perdão? Depois há a questão de saber o estatuto ético do perdão: se há um requisito ético de perdoar, e, se houver, se ele se estende a todas as pessoas, e, se for esse o caso, se tudo é perdoável. Eticamente, pode ser difícil de compreender que qualquer acto possa ser perdoado. Será que o homicídio é perdoável? Será que faz sentido perdoar alguém que roubou para comer, e perdoar da mesma maneira alguém que matou para roubar? O perdão é um assunto complexo.

Do ponto de vista cristão, antes de mais, o perdão dirige-se à pessoa, e não ao acto. Nunca é o mal que é perdoado, mas sim a pessoa. Por isso, do ponto de vista cristão, para o perdão, é irrelevante o mal praticado, se o mal é insignificante, ou extremo, se é reversível ou irreversível, etc., porque o perdão nunca perdoa o acto, mas apenas a pessoa. 

Em segundo lugar, do ponto de vista cristão, há requisitos para o perdão: a "mudança de coração", "resolução de mudança de vida", ou seja, aquilo a que chamamos conversão ou arrependimento - mas um arrependimento sincero e honesto, não apenas por palavras, porque o que está em causa nesta noção (de conversão, de arrependimento), é uma mudança de vida

O que vemos em Jesus é que, de facto, perdoa qualquer pessoa, mesmo pessoas que, no seu tempo, seriam consideradas imperdoáveis, como os cobradores de impostos e as prostitutas, ou alguns não-judeus. Jesus perdoa-os a todos, quando eles se arrependem.

Há, no entanto, um caso que cabe sublinhar. Trata-se do episódio em que lhe trouxeram uma mulher apanhada em flagrante adultério. Nesse episódio, o perdão precedeu a demonstração de arrependimento. Jesus perdoou a mulher adúltera logo à partida, dizendo-lhe que "de agora em diante não tornes a pecar". O curioso aqui é que Jesus perdoa antes mesmo da "conversão", do "arrependimento", da "mudança de coração", da "mudança de vida" - deixando apenas claro que ela não podia voltar à vida anterior. Neste episódio, Jesus inverte a relação entre "arrependimento" e "perdão": em vez de a mudança de vida da pessoa preceder o perdão, Jesus confere o perdão para que a mulher nasça para uma nova vida. Ou seja, em vez de perdoar a quem já se arrependeu, Jesus perdoou para que a pessoa se arrependesse.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

O rigor, na mensagem de Jesus

A propósito da mensagem de Jesus


«Seguiam com ele numerosas multidões; e Jesus, voltando-se para elas, disse-lhes: "Se alguém vem ter comigo e não odeia o seu pai, a sua mãe, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não consegue ser meu discípulo."» Lucas 14:26 (trad. Frederico Lourenço)


Com estas palavras, que são tão surpreendentes para nós como eram chocantes para os seus contemporâneos, Jesus certamente reduziu o número daqueles que o seguiam. E mais, acrescenta, não suceda alguém, querendo construir uma torre, depois de assentar os alicerces venha a descobrir não ser capaz de a acabar (Lucas 14:29-30). Jesus queria que aqueles que o seguiam calculassem o custo de o seguir. Talvez por isso, quando era maior a multidão que se reunia para o seguir, Jesus usava uma linguagem especialmente severa: «todo aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não consegue ser meu discípulo» (Lucas 14:33). Não é só na questão de alguém "querer" ou "não querer" ser seu discípulo que Jesus se foca, mas também nas condições necessárias para que alguém "consiga" ou "seja capaz" de ser seu discípulo. Porque antes de um homem começar a construir uma torre, deve primeiro assegurar-se de que dispõe dos meios para a acabar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Jesus e o conservadorismo supostamente "cristão"

A propósito do casamento

Na encíclica Providentissimus Deus, o Papa Leão XIII determina que nenhuma interpretação da sagrada Escritura pode tornar contraditórios entre si os diferentes relatos. Claro que esta determinação pode ser difícil de conseguir, desde logo, quando lemos os quatro evangelhos.
A infância de Jesus está quase totalmente ausente dos evangelhos. Quase tudo quanto nos é dito do percurso de Jesus ocorre já na sua maturidade. Sabemos que Jesus era filho de José, um "téktôn" (τέκτων) - termo normalmente traduzido por "carpinteiro", mas que quer dizer um "construtor", alguém que trabalha na construção civil, e que tanto pode ser um carpinteiro, como um marceneiro, ou um pedreiro. Naquela época, o filho mais velho seguia a profissão do pai e, por isso, Jesus também era um construtor. Muito menos comum naquela época é o facto de Jesus ser um solteirão, já na casa dos trinta, e sem ter casado. Isto não era nada habitual, nem era, propriamente, algo que causasse boa impressão. A não ser que Jesus tivesse aderido a alguma seita, como era o caso dos essénios, os quais prezavam o celibato e o ascetismo. Mas isto são suposições que visam apenas suavizar a gritante anormalidade da situação de Jesus chegar à idade adulta sem ter casado.
De facto, os evangelhos sinópticos mostram-nos que Jesus desaprova claramente o casamento - a bem dizer, mostram-nos que Jesus desaprova quer o casamento, quer o divórcio. As pessoas não devem casar-se, mas se o fizerem, devem fazê-lo com a intenção de se vincularem de forma indelével ao matrimónio. Se o sujeito não está certo de poder garantir esse vínculo indestrutível, então que não se case. Evidentemente, esta tese já era tão extrema na altura, como é hoje. Os próprios discípulos de Jesus ficam chocados, e remoem entre dentes que, assim, ninguém quererá casar-se. Para Jesus, e contra o que então era norma, as pessoas não devem casar-se - e, se casarem, não devem divorciar-se. Se é para se casarem mantendo a possibilidade do divórcio em aberto, então que não se casem - que, de resto, é a alternativa preferida.
Portanto, Jesus aprova, antes de mais, o celibato. Em Mateus (19:12), Jesus não só aprova o celibato, como propõe qualquer coisa como a auto-castração. Também não será necessário dizer que esta proposta extrema não era menos chocante para os do seu tempo, do que é para nós, hoje. Esta vivência extrema da castidade era tão extraordinária no tempo de Jesus, como é no século XXI. A bem dizer, muitas das propostas de Jesus são tão gritantemente contrárias à "normalidade", e à própria "tradição", no tempo Jesus como em qualquer outro tempo. Ainda assim, sabemos que os cristãos primitivos, aqueles que viveram nos primeiros dois séculos de cristianismo, interpretavam literalmente as palavras e o ideal de Jesus, revogando expressamente o ordem emitida pelo Deus do Antigo Testamento, que mandava que os homens se multiplicassem. Jesus chega ao ponto de dizer que só poderia ser seu discípulo quem odiasse a sua própria mulher, filhos e filhas (cf. Lucas 14:26) - palavras que, na época moderna, tendem a ser "suavizadas" pelas traduções. Mas, além das palavras expressas de Jesus, que eram muito importantes para os primeiros cristãos, estes apoiavam-se também na clara aprovação da castidade e da virgindade por Paulo. De facto, em Lucas (14-20), os casados auto-excluem-se do banquete celestial: "casei-me e, por isso, não posso ir". O entendimento era claro: os casados não tinham lugar no Reino de Deus. Ainda no século XVI - e, apesar de, já na Idade Média, terem ocorrido várias tentativas de suavizar esta mensagem - o Concílio de Trento reafirmará, sem margem para dúvidas, que o celibato e a virgindade são preferíveis ao casamento. É esta ideia que, de facto, está patente nos evangelhos sinópticos, e há pouco que se possa fazer para escamotear isso.
Já no Evangelho de João, Jesus aparece-nos a converter água em vinho numas bodas, de onde se pode inferir que Jesus talvez não desaprovasse totalmente o casamento. Nesse mesmo evangelho, Jesus põe-se a falar, despreocupadamente, com uma mulher que tinha passado por cinco maridos diferentes, estando a viver, sem ser casada, com um sexto. E é ainda nesse evangelho que Jesus há-de perdoar uma mulher adúltera. De notar que, no Evangelho de João, Jesus não se pronuncia sobre o divórcio.
Portanto, parece haver algumas diferenças, bem significativas, entre os evangelhos, especialmente se confrontarmos o sinópticos com o de João. De qualquer modo, a nota dominante nos quatro é o facto de a mensagem de Jesus ser dificilmente conciliável com a "normalidade", com as "instituições tradicionais", quer da sua época, quer de qualquer época. O que salta à vista é que dificilmente quem tiver uma agenda "conservadora" poderá recorrer a Jesus em seu apoio. Nem o Jesus que aprova o celibato e recomenda a auto-castração, nem o Jesus que fala com mulheres que já tiveram cinco maridos e vivem com um sexto, fora do casamento, podem ser invocados a favor de qualquer agenda "conservadora". Se há algo que Jesus não foi, nem é, é conservador nos costumes.
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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Paulo e a suposta "família cristã"

A propósito da família no cristianismo original - em particular, nas cartas de Paulo


Se o Novo Testamento estivesse ordenado por ordem cronológica da sua escrita, os primeiros textos a figurar nele seriam as cartas autênticas de Paulo (as “autênticas” porque o cânone do Novo Testamento inclui algumas cartas que reclamam a autoria paulina, mas que não podem ter sido escritas por Paulo). As epístolas paulinas (autênticas) são anteriores aos Evangelhos, e são os documentos cristãos mais antigos que possuímos hoje: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, Carta a Filémon e Carta aos Romanos – por esta ordem. Curiosamente, e segundo a crítica actual, estes são os únicos documentos do Novo Testamento que podemos efectivamente associar a uma biografia pessoal real, a saber, Paulo. Não sabemos quem escreveu qualquer dos outros 20 livros que integram o Novo Testamento (por exemplo, não sabemos quem escreveu os Evangelhos, apesar de cada um deles estar associado a um nome). Quando Paulo morreu, por volta do ano 64, mais nenhum texto cristão canónico havia sido escrito, excepto as suas sete cartas. Paulo terá escrito as cartas em questão na década de 50 (do século I). Por isso, as epístolas paulinas constituem um conjunto de documentos fundamentais para conhecermos o cristianismo dos primeiros tempos – o cristianismo tal como ele existia no tempo em que ainda estavam vivas pessoas que já estavam vivas quando Jesus estava vivo.

Há diversas diferenças entre as cartas autênticas de Paulo e as chamadas pseudo-paulinas. Algumas dessas diferenças são relativas à sexualidade e à relação entre homens e mulheres. As cartas autênticas de Paulo revelam-nos que, para ele, o estado ideal do ser humano, em relação à sexualidade, era a virgindade – ou, caso alguém se tornasse cristão já não sendo virgem, a castidade. Paulo é muito claro quanto a isto (cf. 1 Cor. 7:1-8). Portanto, para Paulo, o estado ideal do homem é a castidade, a ausência de relações sexuais – e é só para evitar o recurso à prostituição que recomenda que aqueles que não sejam capazes de cumprir tal requisito, então, se casem. É só porque está ciente da enorme dificuldade que a exigência de castidade implica, que Paulo aceita o recurso ao casamento. Ainda assim, segundo ele, é preferível que o marido se esforce por não tocar na sua mulher, apesar de casado – e a haver relações sexuais, o sexo entre marido e mulher devem ser isentos de prazer (cf. 1 Tess. 4:3-5). Quer dizer, segundo Paulo, mesmo entre marido e mulher, não deve haver sexo, e a haver sexo, deve ser sexo sem prazer. Paulo considera o prazer sexual um elemento pagão (aparentemente, desconhecendo as diversas correntes filosóficas pagãs que, mesmo antes de Sócrates, já eram adversas ao prazer sexual). Como diz Frederico Lourenço, na sua Nota Introdutória à Carta aos Romanos: para Paulo, “é a sexualidade em si que se tornou obsoleta”.

Curiosamente, os conservadores contemporâneos, por vezes, recorrem a Paulo para defenderem a noção de “família cristã”. Para os conservadores, o ponto de vista de Paulo rejeita o “politicamente correcto” e defende peremptoriamente a “família cristã” tradicional. Ora, é certo que, se há coisa que Paulo não era, é “politicamente correcto”, mas os conservadores actuais falham completamente o ponto ao recorrerem a Paulo para defenderem a suposta noção de “família cristã”. Na verdade, Paulo de modo nenhum defende a família dita cristã – nem, de resto, o próprio Jesus a defendia (cf. Mt. 22:30). Para Paulo, a relação sexual entre pessoas de sexo oposto não era muito melhor do que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo: em ambos os casos, a palavra de ordem era para evitar. Idealmente, para Paulo – tal como para Jesus – nem os homens devem ter mulheres, nem as mulheres devem ter homens. O resto, a família, a suposta “família cristã”, era apenas um expediente para evitar males ainda piores. Ou seja, Paulo só admitia o casamento (e, portanto, a constituição da família) para evitar o mal maior da “fornicação” desregrada. Paulo insiste no valor da virgindade e da castidade, e o casamento só é aceite como mal menor – mas, ainda assim, um mal.

É nas cartas pastorais (as duas epístolas a Timóteo e a epístola a Tito), pseudo-paulinas, escritas já depois da morte de Paulo, que se procura conciliar a vida cristã com o casamento e a família. São as cartas pastorais que defendem o οἶκος (oîkos – de onde veio a nossa palavra “economia”), termo este que designava a estrutura familiar, constituída por marido, mulher, filhos, outros descendentes e ascendentes, e escravos. As cartas pastorais, pseudo-paulinas, colidem directamente com o ideal paulino da castidade. Em vez da apologia da abstinência sexual, as pastorais fazem a apologia da estrutura familiar antiga. A família aparece nelas como a estrutura básica, sobre a qual a ἐκκλησία (ekklêsía – de onde provém o termo “eclésia”), a comunidade, se deveria fundar.

O οἶκος era chefiado pelo οἰκοδεσπότης (oikodespótês), o marido. O marido era, literalmente, o déspota da família, o chefe do lar. Assim, nas cartas pastorais, o autor pseudo-paulino oferece-nos uma visão do mundo impregnada de misoginia. Na sua perspectiva, a mulher só se salvará pela τεκνογονία (teknogonía), pelo acto de dar à luz uma criança (1 Tim. 2:14-15). Assim, as cartas pastorais, não só contrariam o ideal paulino da abstinência sexual, como estabelecem a ideia de que as mulheres têm na parturição de filhos a sua condição de possibilidade de salvação. O seu papel na estrutura familiar (οἶκος) e, por extensão, na comunidade (ἐκκλησία) fica restrito à sua condição biológica de procriação, estando submetida ao seu marido, enquanto chefe de família (οἰκοδεσπότης). O homem é concebido como o déspota ao qual a mulher está submetida, numa condição de silenciamento, reduzida à sua função de procriadora: “Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio. E Adão foi o primeiro a ser formado; depois Eva” (1 Tim. 2:11-13). As cartas pseudo-paulinas serviram para legitimar, durante séculos, a subalternização da mulher em relação ao homem.

Assim, a visão expressa pelo autor pseudo-paulino contraria o respeito pela mulher que Paulo manifesta nas suas cartas (autênticas). Ao procurar enquadrar na vida cristã o casamento e a estrutura familiar tradicional, o autor pseudo-paulino coloca a mulher numa posição subalterna em relação ao homem, rejeitando assim a visão de Paulo, na qual a mulher gozava de um estatuto surpreendentemente generoso.

Portanto, quando os conservadores apelam à posição de Paulo para legitimar a suposta noção de “família cristã”, na verdade, incorrem num equívoco. Ao pretenderem invocar um Paulo politicamente incorrecto pelos padrões de hoje, esquecem que Paulo era politicamente incorrecto, também, no seu próprio tempo. No seu tempo, Paulo – como Jesus já fizera – opõe-se directamente às instituições tradicionais do seu tempo. Inclusivamente, opõe-se à instituição da “família tradicional”. Se, no tempo de Paulo, Paulo defendesse a estrutura familiar tradicional, Paulo não teria sido, como foi, politicamente incorrecto no seu próprio tempo. E, ao pretenderem trazer Paulo para o debate contemporâneo, os conservadores esquecem que Paulo continua politicamente incorrecto no nosso tempo. Continua politicamente incorrecto de tal modo que não se coaduna com a posição que os conservadores pretendem derrubar, mas também continua de tal modo politicamente incorrecto que não se coaduna, sequer, com a posição dos conservadores. A posição de Paulo tanto se opunha aos conservadores do seu tempo, como aos conservadores do nosso tempo – e não se opõe menos à posição dos conservadores do nosso tempo, do que se opõe à posição dos progressistas. Parafraseando o próprio Paulo (cf. 1 Cor. 1:23): o cristianismo original era um escândalo para os do seu tempo, e é uma loucura para nós.

Ao invocarem Paulo, os conservadores dão um tiro nos próprios pés.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Da Economia e da Ética

A propósito de servir a dois senhores...

Jesus era um homem de amor. Não era de abominar coisas. Nos evangelhos, a palavra "abominação" (βδέλυγμα) raramente surge na boca de Jesus. Na verdade, para ele, só duas coisas merecem ser consideradas "abominação": a destruição do Templo, e o dinheiro. Para Jesus, o dinheiro é "elevado entre os homens", e uma "abominação diante de Deus" (Lucas 16: 13-15).


"Οὐδεὶς οἰκέτης δύναται δυσὶ κυρίοις δουλεύειν"
Nenhum servo pode servir a dois senhores. (Lucas 16: 13)


Os homens querem servir a Deus. Mas, segundo Jesus, os homens elevam o dinheiro à categoria de "Senhor", e, por isso, procuram naturalmente servir ao dinheiro. Mas, nas suas palavras, não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Os homens julgam que podem, que são capazes de conciliar as exigências destes dois senhores; mas Jesus insiste que não: os homens não são capazes de servir dois senhores, porque acabam sempre ou por odiar um e amar o outro, ou por dedicar-se a um e desprezar o outro. Não é que os homens não queiram, de facto, servir aos dois. Jesus não diz que os homens não querem servir os dois senhores. O que Jesus diz é que não são capazes de o fazer: não é uma possibilidade que lhes assista. Os homens bem querem amar a Deus ao mesmo tempo que servem ao dinheiro, mas Jesus insiste que isso é pura ilusão. Para amar um dos senhores, o servo despreza o outro; e para se dedicar a um, odeia o outro. Servir aos dois é que não pode. É por isso mesmo que o dinheiro, sendo elevado entre os homens à categoria de Senhor, aos olhos de Deus é uma abominação.


Em grego, a palavra usada para dinheiro neste contexto é "μαμωνᾶς" (mamónas). Trata-se, provavelmente, de um termo de origem aramaica, derivado do verbo "confiar" (̓aman). Portanto, "mamónas" é aquilo em que se confia, aquilo em que se deposita confiança. Em inglês: "what is trusted in". De facto, o dinheiro é dinheiro porque os homens confiam nele. O seu valor depende de um sistema fiduciário, em que as pessoas confiam que o dinheiro tem o seu valor garantido. Por isso mesmo, falamos de "moedas fiduciárias".
Portanto, os homens tornam-se servos do dinheiro porque confiam nele. Mas, é aquilo mesmo em que os homens confiam, que Jesus afirma tratar-se de uma abominação: não de uma abominação aos olhos dos homens, como é evidente, porque se esse fosse o caso, os homens não confiariam nele. Os homens não desconfiam que o dinheiro seja uma abominação e elevam-no à categoria de Senhor. É justamente isso que Jesus diz: o dinheiro é elevado à categoria de Senhor entre os homens, mas é uma abominação diante de Deus.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A paixão de Cristo

A propósito da Páscoa

Páscoa, Πάσχα (pascha) em grego. "The Pasch", em inglês.

O verbo πάσχω (paschó) significa "sofrer", "padecer" (πάσχειν, paschein, no infinitivo).
Desse verbo veio πάθος (pathos), "sofrimento", que ainda encontramos em patologia.


O termo "Páscoa" quer dizer, portanto, "paixão". A "Páscoa cristã" refere-se, assim, à "paixão", ao "sofrimento" de Cristo.

Mas a Páscoa já existia no tempo de Jesus. Jesus morreu na Páscoa. Tratava-se da festa judaica em comemoração da saída do Egipto. Em rigor eram duas festas: a Páscoa (a "Pesach"), que só durava um dia, e a festa dos pães ázimos, que durava os sete dias seguintes. Na prática, tratava-se de um período festivo ao qual os judeus chamavam, indistintamente, Páscoa ou Festa dos Pães Ázimos. Flávio Josefo, por exemplo, fala da "Festa dos Pães Ázimos, à qual chamamos Páscoa".

A Páscoa judaica, do aramaico "Pesach" - "the Passover", em inglês - celebra a "passagem" do povo hebreu do estado de escravidão, em que se encontravam no Egipto, para o estado de liberdade - ou seja: a "redenção" dos judeus. Mas para os cristãos, o termo "redenção" passou a significar a "libertação" do Homem por meio do sacrifício de Jesus Cristo.

O termo aramaico ("Pesach") refere-se directamente à "passagem" de Deus (e/ou do anjo da morte - esta parte é exegeticamente complicada) em Exodus 12:23:

«Porque Yahweh passará por toda a terra para matar os egípcios; e, quando vir as marcas de sangue sobre a travessa e sobre as duas colunas laterais, Ele PASSARÁ adiante dessa porta e não permitirá que o destruidor entre em vossas casas para vos ferir de morte».

sábado, 25 de novembro de 2017

«Amai os vossos inimigos»: uma conversão do coração

A propósito da noção de conversão cristã


«Mas eu [Jesus] vos digo, amai os vossos inimigos»
Mateus, 5: 44: ἐγὼ δὲ λέγω ὑμῖν, ἀγαπᾶτε τοὺς ἐχθροὺς ὑμῶν

Note-se que Jesus requer dos seus seguidores que amem os seus inimigos. Mas é como ἀγαπᾶν, não como φιλεῖν, que se pede que se amem os nossos inimigos. Na Septuaginta, agape é a palavra para o amor de Deus pelos homens, e dos homens por Deus. Significa qualquer coisa como "colocar em primeiro nas nossas afecções", implicando, por um lado, o acto da vontade de "colocar em primeiro" algo que, naturalmente, não se ama, e, por outro lado, a "afecção real" e a manifestação em actos dessa afecção (não apenas a intenção). Quer dizer, está em causa, não apenas uma "aspiração", ou um "desejo", por assim dizer, não consumado, ou que se tem vagamente, mas algo que efectivamente orienta a acção, não como uma mera lei que se cumpre, mas também como algo que se torna dominante "afectivamente". Ou seja, implica uma revolução disposicional no sujeito - por oposição à filia, ao amor que vem naturalmente e que atinge o sujeito, arrastando-o, ou pressionando-o a agir de determinada forma, sem que esta afecção tenha sido produzida por intervenção do sujeito sobre si mesmo.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Antes fosses ou frio ou quente

A propósito da indiferença...


Um dos momentos em que, na Bíblia, se condena a indiferença.

«Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. Antes fosses ou frio ou quente. Assim, porque és morno, e nem quente nem frio, estou quase a vomitar-te da minha boca.»
João, Revelação 3:15-16
Οἶδά σου τὰ ἔργα, ὅτι οὔτε ψυχρὸς εἶ οὔτε ζεστός. ὄφελον ψυχρὸς ἦς ἢ ζεστός. οὕτως, ὅτι χλιαρὸς εἶ, καὶ οὔτε ζεστὸς οὔτε ψυχρός, μέλλω σε ἐμέσαι ἐκ τοῦ στόματός μου.
Note-se que o texto - posto na boca de Jesus pelo autor do chamado Apocalipse - parece dizer que é preferível errar do que permanecer a salvo não tomando posição. Outros textos dos evangelhos parecem confirmar esta posição de Jesus.

domingo, 12 de julho de 2015

aquilo que é necessário para alguém ser cristão...

A propósito de ser-se cristão...

Há uma pergunta que nos podemos fazer: será que ser-se cristão pode levar um sujeito a tornar-se fundamentalista? Será que queimar humanos é cristão?

Ora, vamos por partes.


Mas parece ser esta, justamente, a questão. O que é ser cristão? É ter fé? E o que significa ter fé? Será que ter fé é aderir a um conjunto de teses? Ou é uma determinada prática? Não me parece que a fé consista na mera adopção de um determinado ideal enquanto adesão a determinados conteúdos teóricos, como se ter fé correspondesse à defesa de uma tese de doutoramento. A fé - se é fé - há-de verificar-se na expressão existencial dela, se há fé tem de haver prática do ideal, tem de haver reduplicação na existência da categoria a que o sujeito se fixa. Então, ser-se cristão há-de ser qualquer coisa como a expressão existencial de um ideal concreto, o viver de acordo com um determinado modelo que, para o cristão, parece que só pode ser o de Jesus. Não se trata, portanto, de aderir à tese de que Jesus é encarnação de um ente omnipotente que criou o universo e tal. Estas coisas talvez sejam relevantes numa tese de teologia, mas não me parecem ser aquilo que é necessário para se ser cristão.

Uma pessoa que escreve uma tese de doutoramento a defender que o mais provável é que Deus exista e tenha encarnado num sujeito que viveu há 2000 anos, mas cuja vida reflecte uma perfeita indiferença perante o modelo que Jesus é e, simultaneamente, a sua fixação aos valores do mundo, talvez não devesse ser considerada cristã.

O critério para que alguém seja cristão não pode ser o de ele se julgar cristão - a não ser se não estiver em causa, justamente, cumprir com requisitos definidos por Deus... Quer dizer, se o sujeito é cristão com certeza que não dirá que é ele próprio que define o que é ser cristão - a não ser que se esteja a pôr no lugar de Deus. Se um sujeito é cristão, então parece-me que deve ter começado por reconhecer um ideal - que não foi definido por si - e depois por ter-se fixado a tarefa de reduplicar na existência esse ideal.

Portanto, o problema principal parece-me ser, justamente, o de saber "aquilo que é necessário para alguém ser cristão" - e se reconhecemos isto então também reconhecemos que é possível que alguém julgue ser cristão sem o ser. Eu sou ateu, mas compreendo isto muito bem: se se trata de ser religioso, então é natural que o sujeito que quer ser religioso compreenda que não é ele que define aquilo em que ele se deve tornar. E então é natural que a cristandade possa andar arredada do seu próprio ideal... Não se trata aqui de um sujeito pensar que ser cristão é isto, e outro aquilo... Trata-se do facto de um sujeito ser capaz de se esquecer do seu ideal no quotidiano da existência, por muito que bata no peito ao Domingo.


Então, se se trata de cumprir com os requisitos dos quais o sujeito reconhece depender o sentido da sua vida e que reconhece não terem sido definidos por si - se se trata de reduplicar na sua existência a sua fidelidade ao exemplo de Jesus, então com certeza que aquele que mata por Jesus, e até mesmo aquele que mata César por Jesus não é cristão, visto que nada no exemplo de Jesus pode fazer pensar que alguém que mata, queima ou tortura está a reduplicar na sua existência a sua fidelidade ao exemplo de Jesus.




Parece-me, pois, evidente que não é verdade que o Cristianismo trouxe mal ao mundo, ou que levou os homens a praticar o mal.

O que me parece evidente é que os homens praticam o mal.

O facto de um sujeito dizer que mata por ser cristão não prova mais que assim o é do que alguém dizer que mata por eu lho ordenar quando é verdade que nunca lho ordenei.

O facto de ter havido pessoas que se diziam cristãs e que queimaram outras com a justificação do Cristianismo não prova que o fizeram por serem cristãs, ou que o fizeram devido ao Cristianismo, a não ser que se encontre no exemplo de Jesus um dever de matar em seu nome e em tais circunstâncias... Os homens matam, violam, etc. Esta é uma evidência. E fazem-no dizendo que o fazem em nome de muitas coisas, mas no caso do Cristianismo nós temos um exemplo, e se o sujeito acredita que a sua existência deve ser qualificada pela medida da sua fidelidade ao exemplo estabelecido por Deus, então - digamos assim - se ele é honesto, não dirá que é cristão quando está nos antípodas do modelo que Jesus deveria ser para si.

Assim, um terrorista cristão não é mais cristão do que um cristão não praticante, e este não é mais cristão do que um advogado que não cumpriu os requisitos da Ordem é advogado.

Ser-se cristão é, com certeza, ser fiel ao exemplo de Jesus - e não escrever uma tese a defender que Jesus é a encarnação do criador do mundo e vizinhanças, nem matar para defender Jesus e a sua verdade (pois o exemplo de Jesus foi que se deixou ele próprio matar pela verdade).

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Flirt na Política contemporânea

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A propósito de flirt


Claro que ficamos surpreendidos com o auto-despedimento de Varoufakis. Para nós isto é coisa de outro mundo. Nós estamos habituados aos senhores que não se demitem nunca, que assumem as suas responsabilidades dizendo em horário nobre "Assumo a responsabilidade". 

Ora, quando assumir as responsabilidades significa fazer uma declaração ao telejornal das 20h, torna-se completamente incompreensível que Varoufakis se demita mesmo tendo ganho o NÃO. É que a postura de Varoufakis parece querer dizer que ele está mais interessado em servir o ideal que é o seu, do que em servir-se de um qualquer ideal. E isto é coisa que já ninguém, em boa verdade, entende na Europa.


Houve um tempo em que homens como Sócrates ou Jesus acabavam invariavelmente condenados à morte ou simplesmente assassinados. Porque nesses tempos as pessoas não se permitiam ficar indecididamente perante certos ideais que lhes batiam fundo na alma. 

Hoje vivemos num tempo completamente diferente: as pessoas estão tão distantes do ideal que Sócrates e Jesus poderiam muito bem vir à terra que ninguém despenderia um dia de praia, ou um minuto de um jogo de futebol por eles - nem por eles, nem contra eles.

Note-se: nós temos ideais - veja-se que o panteão continua a encher-se. Nós temos ideais, mas temos ideais rastejantes e, consequentemente, temos uma consciência rastejante deles. Ou seja: somos colectivamente na existência um mercado de valores - ou, como dizia Kierkegaard - um entreposto comercial, um pau-andante.



Quanto nos choca uma Grécia - um povo de gregos que, apesar dos bancos fechados, apesar do terror da falta, vai votar NÃO? Quanto nos indigna que eles tenham coragem?


Na verdade - e é aqui que reside toda a absurda hipocrisia, toda a imundície da pseudo-política de hoje, toda a inexistência de uma consciência política - CHOCA-NOS apenas imaginariamente. O horror, o choque que os jornalistas, os comentadores, os cidadãos pretendem sentir é orvalho num verão de praia antes do começo do campeonato de futebol; toda a raiva dos pseudo-políticos é flirt; toda a indignação dos economistas é ausência de consciência.

Sou plenamente a favor de que se acabe de vez com esta parvoíce das eleições e dos referendos. Crie-se um directório de tecnocratas que decida quem deve e quando deve integrar os governos nacionais. Crie-se um directório de tecnocratas que decida os programas a levar a cabo onde, quando e porquê.
Mas acabe-se de vez com este flirt com a democracia e com os mercados. Ou bem que temos uma tecnocracia, ou bem que temos uma democracia. O flirt com as duas é que não.


Perguntemo-nos o que queremos - e que esse seja o nosso ideal - e depois assumamo-lo sem hipocrisias.

Ou bem que se quer uma mulher, ou bem que se quer a outra. Andar no flirt com as duas é que não!

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Jesus - uma mensagem inovadora

A propósito de Jesus

Como podereis vós acreditar, [vós] que tomais fama uns dos outros e a fama do deus único não procurais? [...] Então, aqueles humanos tendo visto o que ele fez disseram: "Este é verdadeiramente o profeta que está para vir ao mundo". Jesus, então, tendo compreendido que eles pretendiam vir e forçá-lo de modo a fazê-lo rei, retirou-se novamente para o monte sozinho.

João 5:44; 6:14-15
πῶς δύνασθε ὑμεῖς πιστεῦσαι, δόξαν παρὰ ἀλλήλων λαμβάνοντες, καὶ τὴν δόξαν τὴν παρὰ τοῦ μόνου Θεοῦ οὐ ζητεῖτε; [...] Οἱ οὖν ἄνθρωποι ἰδόντες ὃ ἐποίησεν σημεῖον ἔλεγον ὅτι Οὗτός ἐστιν ἀληθῶς ὁ προφήτης ὁ ἐρχόμενος εἰς τὸν κόσμον. Ἰησοῦς οὖν γνοὺς ὅτι μέλλουσιν ἔρχεσθαι καὶ ἁρπάζειν αὐτὸν ἵνα ποιήσωσιν βασιλέα, ἀνεχώρησεν πάλιν εἰς τὸ ὄρος αὐτὸς μόνος.

Disseram aqueles homens, depois de verem o que Jesus fez, que ele era verdadeiramente o profeta esperado. Aparentemente, acreditaram nele, porque viram, e porque viram reconhecem-no. Não o reconheceram pela sua mensagem, por aquilo que ele lhes disse. Não. Foi antes o êxtase do extraordinário, o êxtase dos milagres que os cativou.

Esperávamos, talvez, um Jesus agradecido, contente com o reconhecimento da multidão. Mas nada disso se passou. Jesus recolheu-se, sozinho, no monte. Descontente. Descontente porque percebera que fora o êxtase da multidão frente ao seu líder, o êxtase da multidão em rebelar-se contra os invasores Romanos - Jesus percebera que aqueles homens não o compreenderam - se é que algum o compreendeu.

Jesus falava-lhes de alhos e eles regozijavam-se na perspectiva dos bugalhos. Mas o Reino de Jesus não seria deste mundo e aqueles homens queriam um rei para este mundo. 

Este trecho do Novo Testamento é absolutamente fundamental. A frase "Este é verdadeiramente o profeta que está para vir ao mundo" parece indicar que Jesus fora bem aceite, compreendido e louvado. Contudo, essa aparência é que constitui a ilusão aqui em causa. Não, Jesus não fora compreendido. O vinho novo continuava a ser colocado em vasilhas velhas.

Aqueles homens louvavam-no e queriam fazer dele o seu Rei - mas Jesus não estava ali para ser Rei deles, não estava ali para alimentar os seus êxtases e as suas aspirações mundanas.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Deste tempo, deste mundo

A propósito deste mundo


E o senhor elogiou o feitor de injustiça pois fez sensatamente: pois os filhos deste tempo são mais sensatos do que os filhos da luz na sua própria geração.
Lucas 16:8
καὶ ἐπῄνεσεν ὁ κύριος τὸν οἰκονόμον τῆς ἀδικίας ὅτι φρονίμως ἐποίησεν· ὅτι οἱ υἱοὶ τοῦ αἰῶνος τούτου φρονιμώτεροι ὑπὲρ τοὺς υἱοὺς τοῦ φωτὸς εἰς τὴν γενεὰν τὴν ἑαυτῶν εἰσιν.

O "senhor" a que o trecho se refere não é Jesus, nem Deus, mas sim o senhor para o qual trabalha o feitor. O "feitor" - literalmente, "aquele que gere a casa", οἰκόνομος - utiliza as suas artimanhas, em seu proveito, com injustiça. O seu senhor, i.e., o seu patrão elogia-o, mas não elogia a injustiça. O feitor, de facto, enganou o patrão, mas o patrão, não se sabendo enganado, fica contente com a colecta que o feitor apresentou. Contudo, o feitor foi efectivamente esperto porque fez com que os registos coincidissem com a colecta apresentada - na verdade, os registos não foram justos: o feitor fez com que fossem feitos em seu proveito e não em proveito do seu patrão, nem em proveito do que é justo. Mas justamente pela sua esperteza o feitor acabou por ser elogiado pelo patrão enganado.
Aqueles que se preocupam com as coisas do mundo são mais espertos, mais eficazes e mais proficientes do que aqueles que se ocupam da luz - justamente porque não se preocupam com as coisas do mundo parecem descoordenados e insensatos.

Ninguém se engane a si mesmo. Se alguém julga ser sábio entre vós neste tempo, que se torne estúpido, para que venha a ser sábio.
1 Coríntios 3:18
Μηδεὶς ἑαυτὸν ἐξαπατάτω· εἴ τις δοκεῖ σοφὸς εἶναι ἐν ὑμῖν ἐν τῷ αἰῶνι τούτῳ, μωρὸς γενέσθω, ἵνα γένηται σοφός.
Mas a sabedoria do mundo é ignorância, de tal modo que para adquirir a verdadeira sabedoria é preciso ser ignorante nas coisas do mundo. A sabedoria do mundo é apenas uma ilusão em que cada um se ilude a si mesmo.



Respondendo-lhe disse o senhor: «Marta, Marta, ansiosa e afligida por tantas coisas, mas uma [apenas] é precisa. De facto, Maria escolheu a boa parte a qual não lhe será retirada.
Lucas 10:41-42
ἀποκριθεὶς δὲ εἶπεν αὐτῇ ὁ κύριος, Μάρθα Μάρθα, μεριμνᾷς καὶ θορυβάζῃ περὶ πολλά, ἑνὸς δέ ἐστιν χρεία·Μαριὰμ γὰρ τὴν ἀγαθὴν μερίδα ἐξελέξατο ἥτις οὐκ ἀφαιρεθήσεται αὐτῆς.
As pessoas ocupam-se de tantas coisas que acabam na aflicção. A imensidão de coisas que as preocupam apertam-nas, sufocam-nas. Nessas aflições gastam tempo de vida, mas gastam a vida em coisas que são deste mundo e que, portanto, pertencem ao mundo. Não podem ser levadas e uma vez que chegue a morte tudo fica no mundo mas vai-se a vida e vai-se o tempo. Assim, as pessoas gastam a vida com coisas que só servem enquanto há tempo e servem na medida do mundo. E este é o problema, porque então a morte, se só se têm coisas do mundo, reduz tudo a nada e vai-se tão nu como se chegou ao mundo - por mais riqueza, sucesso, fama ou felicidade se tenha acumulado no mundo, sendo coisas do mundo, são sempre do mundo. Na verdade, nada disso chega alguma vez a ser, verdadeiramente nosso. Na verdade, nem mesmo se conquistarmos o mundo inteiro ele nos pertence. Nada do mundo pode ser adquirido pelo humano, justamente porque é do mundo, é exterior, é outra coisa.
Ou já se nasceu com tudo o que é preciso, ou nada do que é verdadeiramente preciso pode alguma vez ser adquirido. Ou se tem adquirido desde início tudo, ou nada vale a pena. Ou tudo ou nada. Só o que desde sempre já estava adquirido não nos pode ser retirado - desde que o escolhamos e o preservemos.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Se alguém quer seguir-me, negue-se a si mesmo

A propósito de Jesus

Disse Jesus assim: "Εἴ τις θέλει ὀπίσω μου ἔρχεσθαι, ἀρνησάσθω ἑαυτὸν" ("Se alguém quer seguir-me, negue-se a si mesmo") - Lucas 9:23.


Jesus foi uma figura revolucionária porque aquilo que ele disse e fez não se enquadrava no comum, habitual e consensual. Aliás, aquilo que Jesus disse e fez não se enquadra, ainda hoje, tal como naquele tempo, no comum, no hábito, no consenso.

Habitualmente, as pessoas gostam de recorrer às palavras de Jesus, mas fazem-no para confirmar e apoiar aqueles pensamentos e aquelas ideias que julgam ser as melhores opiniões disponíveis. Ao fazerem isto não tomam verdadeira atenção às palavras para perceber o que está a ser dito. O comum dos mortais tem certas ideias feitas e parece-lhe que Jesus deve ter querido dizer aquilo que ele mesmo diria.

Mas Jesus não é um mestre qualquer. Quando pedem que Jesus os deixe seguirem-no, Jesus não se mostra entusiasta, de fácil trato, capaz de tudo para ter uma boa multidão atrás de si. Pelo contrário. A um que pede que Jesus espere enquanto ele vai enterrar o pai, Jesus diz que deixe os mortos enterrarem os mortos. A outro que pede a Jesus que espere enquanto se vai despedir da família, Jesus exige que não olhe para trás. Jesus chega ao ponto de explicar que quem o quiser seguir tem de odiar - sim, ODIAR - a família, odiar a própria alma... quem é este mestre que exige que cada um se negue a si mesmo, negue a sua mãe, a sua mulher, a sua riqueza, os costumes, até a moral, para o seguir???

De facto, o costume de enterrar os mortos é antigo. Mas Jesus não parece importar-se com esse velho costume - que pode ser considerado um preceito moral, um hábito de respeito para com o falecido, para com o familiar desaparecido. É velho o preceito de respeitar pai e mãe - mas Jesus exige que quem vai ter com ele odeie o seu próprio pai e a sua própria mãe (Lucas 14:26)...

Esta forma de falar é mais evidente em Lucas, o qual parece menos preocupado com a reputação de Jesus. Seja como for, é evidente que não devemos aproximar-nos da figura de Jesus convencidos de que estamos na posse de uma clareza de juízo, como se pudéssemos esperar que Jesus se nos dirigi-se com as mesmas ideias que nós já temos. Devemos aproximar-nos de Jesus com a mente aberta... muito aberta.




sábado, 8 de dezembro de 2012

Nietzsche

A propósito de interpretação...

Para Nietzsche cada interpretação é uma possibilidade. 

Todo o sujeito é uma perspectiva. Cada perspectiva uma interpretação - isto é, uma possibilidade. Neste sentido, há interpretações católicas, interpretações budistas, etc. Mas o fenómeno é diferente da interpretação - poderia ser interpretado de outra forma: o que é um sinal de Deus para o católico, é um acontecimento natural para o físico. 

De forma nenhuma se deve com isso pensar que há uma "verdade" a que se poderia chegar se nos livrássemos da interpretação. Porque não é disso que se trata, Nietzsche fala de "fenómenos" (aquilo que aparece), e não de "verdades", nem de "realidade" nem "númeno". 

Para Nietzsche há fenómenos e há interpretações. O que temos são fenómenos, mas nem sequer sabemos o que seria o fenómeno sem a interpretação. Ou seja, aquilo que temos de facto é uma interpretação. Falar de fenómenos não interpretados é falar de qualquer coisa que nós não sabemos o que é. O que nos aparece, aparece-nos com um sentido. Isto não é uma possibilidade, é uma condição. O que é apenas uma possibilidade é aquele sentido concreto com que as coisas nos aparecem. Os fenómenos poderiam ter outro sentido. Por exemplo, a maioria de nós teme a morte. Isso é um sentido. Para algumas pessoas a morte não é o mais temível. Para algumas não é nada temível. Alguns desejam a morte. Alguns são-lhe indiferentes. Cada um julga que o seu sentido não é apenas uma possibilidade. Aqueles que têm a morte por temível apontam para o que nela lhes mete medo. Mas isso não prova que a morte é, em si mesma, temível: mostra apenas que quem assim aponta teme isso para que aponta.

Nietzsche não apenas nega que possamos sair da nossa perspectiva para aferir o que é de facto o certo ou o errado - mas afirma também que a própria ideia de que há coisas certas e coisas erradas já é uma interpretação. Nietzsche não só nega que possamos saber o que é a Verdade - mas afirma também que a própria ideia de que há uma Verdade já é uma interpretação.

Ele tenta mostrar que não só podemos aplicar mal o nosso modelo da realidade (e enganarmo-nos), como também que pode acontecer que o nosso modelo da realidade esteja errado (e então já "certo" e "errado" serão conceitos desvitalizados, vazios, sem referente, pois que eles sempre se determinam em função do modelo ou sistema que os integra e lhes dá significado). 

Com isto o que ele quer, antes de mais, trazer à luz (e isto quer dizer "tornar fenómeno", fazer aparecer), é que o regime de sentido que habitualmente se encontra a funcionar em nós é uma possibilidade. Perceber isto é fundamental. E não é nada que o próprio Jesus não tenha tentado mostrar também. O Cristianismo é, aliás, veemente - atrevo-me a dizer mesmo que - mais veemente que Nietzsche ao chamar a atenção para isso de estarmos lançados num modo previamente dado de abertura ao mundo: mas sublinhando o carácter de possibilidade desse modo.

O que Nietzsche, tal como o Cristianismo, pretende fazer ver é que SE PODE SUSPENDER essa possibilidade.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Evangelho da Mulher de Jesus

A propósito da descoberta de um novo manuscrito...


The Gospel of Jesus's Wife: A New Coptic Gospel Papyrus



Um manuscrito antigo, datado provavelmente do século IV, coloca na boca de Jesus as palavras 
"a minha mulher",
sugerindo de forma unívoca a existência de um debate e de opiniões díspares e
concorrentes acerca do estado marital de Jesus
nos primeiros séculos de Cristianismo.


Ver o fragmento de papiro aqui.

Imagens, transcrição, tradução - aqui.

Ver artigo de discussão aqui
Inclui a transcrição e a tradução para inglês do manuscrito.


Link para
Home

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Novos testes não encontram evidências de inautenticidade.


Ver aqui.

Notícia aqui, aqui.

Artigo de King, in Harvard Theological Review - aqui.

Artigo de Malcolm Choat, in Harvard Theological Review - aqui.

Characterization of the Chemical Nature of the Black Ink in the Manuscript of The Gospel of
Jesus's Wife through Micro-Raman Spectroscopy,
in Harvard Theological Review - aqui.

Study of Two Papyrus Fragments with Fourier Transform Infrared Microspectroscopy,
in Harvard Theological Review - aqui.




terça-feira, 18 de setembro de 2012

História e estória do Jesus histórico

A propósito de presépios...


O presépio... um conjunto de imagens que os cristãos acarinham por todo o mundo. Mas o que têm essas imagens de verdade? Isto é, o que é que dessas imagens está presente no Novo Testamento?


Algumas imagens estão realmente presentes no Novo Testamento, mas para surgir a ideia da natividade de Jesus como a representamos hoje, com o burro e o boi, alargada aos reis magos, foram precisos muitos séculos e só a partir do século XIII alguém se haveria de lembrar de realizar um presépio.


Em Lc 2:7 faz-se referência a uma manjedoura, φάτνη. Envolvido em panos, o menino Jesus foi deitado in praesepio, numa manjedoura. É, portanto, desta expressão em latim, in praesepio, que provém o termo presépio em português.


Lucas menciona também pastores e anjos (Lc 2:8-20).


Por sua vez, Mateus 2:1-12 regista a vinda de magos, μάγοι. O termo grego μάγος lê-se mágos, e refere um homem sábio persa, da classe sacerdotal. Mas não há qualquer referência ao seu número nem à possibilidade de serem reis. 

A referência a três reis magos, com os nomes que vieram a ser Gaspar e Melchior, aparece na Excerpta Latina Barbari (página 51v e 52) composta entre o século V e VI. Um outro texto do século VI, A Caverna dos Tesouros (página 40b, col. 2), apresenta nomes bastante diferentes (em siríaco). Um outro tratado do século VIII, traduzido do grego para o latim, Flores ex diversis, enumera os três nomes hoje conhecidos, Melchior, Gaspar e Baltasar (ver aqui).

A imagem do boi e do burro a adorarem Jesus encontra-se num escrito talvez do século VII, a que se chama hoje Evangelho de Pseudo-Mateus (cap. XIV).

Finalmente, foi Francisco de Assis, já no século XIII, fez o primeiro presépio.












segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Jesus teve irmãos?

A propósito dos irmãos de Jesus...



Mateus 12:
46 Ἔτι αὐτοῦ λαλοῦντος τοῖς ὄχλοις ἰδοὺ ἡ μήτηρ καὶ οὶ ἀδελφοὶ αὐτοῦ εἱστήκεισαν ἔξω ζητοῦντες αὐτῷ λαλῆσαι. 47 [εἶπεν δέ τις αὐτῷ, Ἰδοὺ ἡ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἔξω ἑστήκασιν ζητοῦντές σοι λαλῆσαι.] 48 ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν τῷ λέγοντι αὐτῷ, Τίς ἐστιν ἡ μήτηρ μου καὶ τίνες εἰσιν οἱ αδελφοί μου; 49 καὶ ἐκτείνας τὴν χεῖρα αὐτοῦ ἐπὶ τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ εἶπεν, Ἰδοὺ ἡ μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 50 ὅστις γὰρ ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς αὐτός μου ἀδελφὸς καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

46 Enquanto falava às multidões, eis que a mãe e os irmãos dele estavam lá fora procurando falar-lhe. 47 [Mas alguém lhe disse: “Olha que a tua mãe, e os teus irmãos estão lá fora querendo falar-te.”] 48 Mas respondendo disse a quem lhe falou: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” 49 E, tendo estendido a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.


As referência aos irmãos de Jesus são imensas. Não é necessário enunciá-las todas. Mas antes de tentar-mos responder à questão se Jesus teve irmãos, devemos perguntar qual a razão de ser da pergunta. Perante os indícios textuais, não haveria lugar a dúvidas sobre este ponto. O número de referências que existe seria suficiente para nem fazer sentido perguntar se Jesus teve ou não irmãos. Então, por que é que esta pergunta tem lugar?

Bem, em primeiro lugar porque a ideia da virgindade de Maria se impôs ao longo dos séculos. Apesar de apenas em 1854 a virgindade de Maria ser tornada em Dogma, pela bula Ineffabilis Deus, esta ideia há muito se vinha impondo à reflexão cristã. Esta ideia, com origem na citação de Isaías 7:14, feita pelo Evangelho Segundo São Mateus 1:23, a partir da Septuaginta (ver discussão aqui), criou o problema da leitura das referências aos irmãos de Jesus. A virgindade de Maria, segundo a Igreja Católica, não foi um carácter volúvel. Não só Jesus foi concebido sem a intervenção humana masculina, como também permaneceu virgem após o nascimento. O conceito de virgindade seria qualquer coisa mais do que a mera ausência de acto sexual. A virgindade de Maria poderia ter-se perdido fisicamente após o nascimento de Jesus, tal como certas actividades poderão comprometer o hímen de uma jovem - mas segundo a noção de virgindade aplicada a Maria, também isso não aconteceu. Finalmente, segundo a mesma noção, Maria não deve ter tido qualquer filho ou filha que pudesse, antes ou depois de Jesus, ter comprometido a sua virgindade perpétua. Ou seja, quando a religião cristã afirma que Maria é a Virgem não pretende apenas afirmar que Jesus foi concebido sem cópula, mas também que nem depois de Jesus ter nascido houve outra qualquer mácula. Desta forma seria inaceitável que Maria tivesse tido outro filho, pois se o caso extraordinário de Jesus se justificara pela sua própria natureza, tornar-se-ia indefensável que Maria tivesse depois dado à luz outros filhos, também eles, sem cópula. Por isso a única tese autorizada seria a de que Maria não tivera nenhum outro filho, além de Jesus.

É neste contexto que se deve colocar a pergunta: Jesus teve irmãos? E sem esta contextualização - aqui meramente indicada - não nos seria possível respondermos à mesma.

Tendo em conta o contexto referido na reflexão cristã, colocou-se o problema da leitura dos termos irmãoἀδελφός, e irmãosἀδελφοί.

Uma das formas mais óbvias de eliminar a dificuldade e de integrar os textos na doutrina foi a leitura do termo irmão no sentido de companheiro de missão, ou se preferirmos, seguidor de Jesus Cristo. É o próprio Jesus que afirma esta postura no pequeno trecho citado acima: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.

Ora, essa leitura é descartada por uma análise descomprometida do texto (Mt 12:46-50). Jesus dirige-se àqueles que o escutam, ou àqueles que o informam de que os seus irmãos, com a sua mãe, estão a perguntar por ele. E diz que esses que estão à sua volta é que são seus irmãos, não os irmãos que o procuram lá fora. Portanto, há uma utilização claramente dupla do termo irmão, ora num sentido, ora noutro. Jesus não pode estar a utilizar, em ambos os casos, o termo no sentido de companheiros de missão, ou discípulos.

Então, tentou-se afirmar que o termo irmão, naquele tempo, tal como hoje, poderia ser usado para designar outros laços familiares. Nesta leitura pretende-se que ἀδελφός possa ser compreendido no sentido de primo. Talvez os primos de Jesus tivessem o costume de acompanhar Maria. Ora, esta leitura não parece fazer sentido porque não é clara a razão pela qual os primos de Jesus acompanhassem habitualmente a mãe de Jesus e não a própria mãe deles. Não temos qualquer indício nos textos que nos permitam fazer esta leitura. Os primos de Jesus deveriam acompanhar os seus pais, não os pais de Jesus. Por outro lado, o grego possuía um termo para designar um primo: ἀνεψιός (ver Colossenses 4:10), por isso não havia razão para utilizar tanta vez o termo irmão para designar um primo.

Uma outra leitura comum e também muito antiga parte de uma conjuntura prévia. Supõe que José, marido de Maria (mas não pai verdadeiro de Jesus), tinha filhos de uma outra mulher, da qual era viúvo. Assim, admite-se que as referências visam irmãos de Jesus, mas irmãos apenas pelo lado de José. Os defensores desta interpretação procuram justificar o uso do termo irmão, contudo, na verdade, afirmam que estes irmãos são chamados de irmãos por serem filhos de um homem ao qual não reconhecem a paternidade de Jesus. Afirmam que Jesus não é filho de José, mas que José teve filhos de outro casamento, e que os textos chamam irmãos de Jesus a estes que, afinal, não são irmãos de Jesus.

As leituras que pretendem que Jesus não teve irmãos procuram, de uma forma ou de outra, mostrar que os textos de que dispomos chamam de irmãos aqueles que não são de facto irmãos. Todavia, chegam a esta conclusão com base em crenças que não estão devidamente fundeadas nos próprios textos de que dispomos. Não temos nada que nos permita afirmar que, de uma forma geral, o termo irmão seja utilizado para designar outra coisa senão um irmão. Podemos identificar situações claras onde o termo é usado noutro sentido, como por exemplo na citação de Mateus feita acima, mas a diferença é que nestes casos há uma utilização de irmão que o próprio autor se esforça por determinar e esclarecer como distinto do conceito habitual de irmão. Todas as referências onde esta clareza não existe não suscitam qualquer dúvida sobre ser mais provável que o autor queira dizer precisamente aquilo que diz. Se para o autor fosse premente clarificar que Jesus não tinha irmãos, provavelmente não teria afirmado tantas vezes que ele os tinha - sem esclarecer que não queria afirmar que se tratavam de irmãos no sentido habitual.

O trecho de Mateus é muito claro neste aspecto. Há um sentido habitual para o termo irmão, e há outro sentido, não habitual, que Jesus lhe atribuía. Jesus pretendia que este sentido prevalecesse sobre o primeiro. Mas o autor do texto afirma sem hesitação que Jesus tem irmãos nesse sentido habitual.

















A sagrada família de Jesus



A propósito das relações entre Jesus e a sua família...



A tradição cristã delega na imagética da Sagrada Família uma importância fundamental como sinal estruturante da sociedade. Neste contexto parece que Jesus estabelecera com e na sua família laços de união fortes e simbólicos.



Contudo, os textos lançam dúvidas sobre este relacionamento. Não é claro que a família de Jesus tenha feito parte do grupo dos seus seguidores, pelo menos desde o início da sua vida pública.


Os pais de Jesus

Os pais de Jesus são conhecidos a partir das fontes. Jesus é apresentado como o filho de José (Jo 6:42, Lc 4:22: ὁ υἱὸς Ἰωσήφ), ou pelo menos assim era costume indicá-lo (Lc 3:23: ὡς ἐνομίζετο). Portanto, podemos com propriedade chamar-lhe Jesus de Nazaré, filho de José (Jo 1:45: Ἰησοῦν υἱὸν τοῦ Ἰωσὴφ τὸν ἀπὸ Ναζαρέτ), o carpinteiro (Mt 13:55: ὁ τοῦ τέκτονος υἱός).

O pai, José

José desaparece dos escritos a partir da infância de Jesus. Jesus não parece ter sido acompanhado pelo pai. Talvez tenha falecido, talvez não aprovasse as vida do filho e os evangelistas simplesmente o tivessem omitido. O certo é que nada sabemos de José depois dos doze anos de Jesus (Lc 2:41-43). Depois do episódio do desaparecimento de Jesus este foi descoberto no Templo. Os seus pais andaram três dias preocupados à sua procura. Quando a sua mãe lhe pergunta a razão para o seu desaparecimento, Jesus limita-se a dizer que obviamente estivera em casa de seu pai (Lc 2:48-49). O termo grego para pai, πατήρ, surge em Lucas 2:48, por referência a José, e no versículo seguinte, por referência a Deus.

Depois deste episódio José desaparece da história. As referências que lhe serão doravante feitas não voltam a incluí-lo em acontecimentos. Da vida pública de Jesus, José está totalmente ausente.


A mãe, Maria

Maria, pelo contrário, continua a fazer parte da história. Mas o seu envolvimento na mesma e forma como Jesus se relaciona com ela não é aquele que esperaríamos. As relações de Jesus com Maria não são pacíficas. Pelo contrário, os textos deixam-nos registos de mal-estar entre ambos. Aliás, Jesus parece ter sido confrontado com dificuldades relativas ao modo como os seus familiares acolhiam o seu comportamento público.


Jesus e a sua família durante a vida pública

Segundo São João, a vida pública de Jesus começou nas bodas de um casamento transformando água em vinho.

João 2:
1 Καὶ τῇ ἡμέρᾳ τῇ τρίτῃ γάμος ἐγένετο ἐν Κανὰ τῆς Γαλιλαίας, καὶ ἦν μήτηρ τοῦ Ἰησοῦ ἐκεῖ· 2 ἐκλήθη δὲ καὶ Ἰησοῦς καὶ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ εἰς τὸν γάμον. 3 καὶ ὑστερήσαντος οἴνου λέγει μήτηρ τοῦ Ἰησοῦ πρὸς αὐτόν, Οἶνον οὐκ ἔχουσιν. 4 [καὶλέγει αὐτῇ Ἰησοῦς, Τί ἐμοὶ καὶ σοί, γύναι; οὔπω ἥκει ὥρα μου. 5 λέγει μήτηρ αὐτοῦ τοῖς διακόνοις, Ὅτι ἂν λέγῃ ὑμῖν ποιήσατε.


1 E ao terceiro dia houve um casamento em Canã da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá. 2 Também Jesus e os seus discípulos foram convidados para o casamento. 3 E começando a faltar vinho a mãe de Jesus disse-lhe: “Não têm vinho!” 4 [E] disse-lhe Jesus: “O que é comigo e contigo, oh mulher? Ainda não chegou a minha hora.” 5 Disse a sua mãe aos servos: “Fazei do modo como ele vos disser.”


A forma como Jesus se dirige a sua mãe não parece muito simpática. Transparece a ideia de que Maria solicita a intervenção de Jesus. Não podemos saber ao certo de que género de intervenção estaria à espera. Pretendia Maria que Jesus realizasse um milagre? É isso que sugerem as suas palavras dirigidas aos servos: Ὅτι ἂν λέγῃ ὑμῖν ποιήσατε, isto é, façam como ele vos disser. Mas Jesus parece não ter apreciado a solicitação de Maria. Talvez lhe parecesse que as suas intervenções estariam destinadas a melhores fins do que salvar uma boda. Seja como for, e apesar da resposta aparentemente brusca de Jesus, Maria assume que o seu pedido será atendido.
Por outro lado devem ser feitas algumas notas. Em primeiro lugar pudemos supor que o uso da palavra mulher não expressasse agressividade, mas principalmente respeito. Trata-se de uma suposição, por mais que procuremos encontrar usos semelhantes nas escrituras (ver Jo 4:21, 19:26 e 20:15; Mt 15:28; 1 Cor 7:16). Contudo, também não temos razão para pensar que em grego esta expressão soasse tão brusca como soa em português. E, de facto, não sabemos o tom com que foi proferida.
Em segundo lugar, na verdade o grego não se encontra pontuado na sua versão original. Temos, portanto, qualquer coisa como: τι εμοι και σοι γυναι ουπω ηκει η ωρα μου. E podemos tentar mudar a sinalização: τι εμοι και σοι; γυναι ουπω ηκει η ωρα μου; Assim, poderíamos obter qualquer coisa como: o que se passa entre mim e ti? Oh mulher, ainda não chegou a minha hora? E, nestes termos teríamos o equivalente ao seguinte: mulher, por que te preocupas, não sabes que posso remediar isso? Ao que Maria corresponderia dizendo aos servos: façam o que ele disser. Mas também isto é uma forma de tentar dar a volta ao texto. Fossem os indícios noutro sentido, poderíamos admitir que a pontuação geralmente colocada deveria ser alterada. Mas a verdade é que os indícios de incompreensão, da parte da sua família em relação a Jesus, abundam.


O episódio, já referido, relatado em Lc 2:48-50 mostra-nos que havia uma incompreensão profunda desde cedo entre os seus pais, por um lado, e o comportamento e sentido de missão de Jesus.



Lucas 2:
48 καὶ ἰδόντες αὐτὸν ἐξεπλάγησαν, καὶ εἶπεν πρὸς αὐτὸν μήτηρ αὐτοῦ, Τέκνον, τί ἐποίησας ἡμῖν οὕτως; ἰδοὺ πατήρ σου κἀγὼ ὀδυνώμενοι ἐζητοῦμέν σε. 49 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτούςΤί ὅτι ἐζητεῖτέ με; οὐκ ᾔδειτε ὅτι ἐν τοῖς τοῦ πατρός μου δεῖ εἶναί με; 50 καὶ αὐτοὶ οὐ συνῆκαν τὸ ῥῆμα ὃ ἐλάλησεν αὐτοῖς.

48 E vendo-o espantaram-se, e disse-lhe a sua mãe: “Criança, por que nos fizeste isto? Vê como o teu pai e eu te procurámos sofrendo.” 49 E ele disse-lhes: “Por que me procurastes? Não sabíeis que eu deveria estar em casa do meu pai?" 50 E eles não compreenderam a expressão que ele lhes disse. 



A incompreensão textual reside nos diferentes referentes para a palavra pai. Aliás, de um modo completamente literal, o que o grego nos diz é que os pais de Jesus não juntaram o dito  (οὐ συνῆκαν τὸ ῥῆμα) que este lhes retorquíra. Não souberam juntar as peças para compreender o que estava a ser dito. É esta a confusão. Nas palavras de Jesus o termo pai nãi se referira a José, mas àquele de quem o Templo era a casa. Nas palavras de Maria o pai que andara à procura do filho fora José.

Não é necessário admitir que Jesus pressupunha um relacionamento especial com o deus do Templo. Na verdade, é perfeitamente compreensível a ideia de que o verdadeiro pai de todos é Deus, e que, estando em Sua casa, no Templo, se está justificado, por oposição à dor de José, cuja vontade é claramente menos relevante do que a vontade do Senhor do Templo. Jesus estava com Deus, e isso seria superior a qualquer exigência mundana. É desnecessário depreender daqui que Jesus se punha numa situação privilegiada perante Deus. 
Este trecho é relatado por Lucas, mas não o é por mais nenhum evangelista. Seja como for, José desaparece da história e os indícios de tensão entre Jesus e a sua família adensam-se.

Marcos 3
21 καὶ ἀκούσαντες οἱ παρ’ αὐτοῦ ἐξῆλθον κρατῆσαι αὐτόν· ἔλεγον γὰρ ὅτι ἐξέστη.

21 E tendo os seus ouvido [estas coisas] foram prendê-lo: pois diziam que estava fora de si.




Independentemente de tentarmos perceber o que foi que os seus ouviram (teriam ouvido falar  da sua doutrina, dos milagres, das curas, das situações em que entrara em conflito com os costumes e com leis, ou simplesmente do facto de, segundo Marcos, reunir multidões à sua volta?), podemos supor que algum mau-estar estava instalado entre os seus familiares. Não ficamos já a saber se estes familiares eram próximos ou afastados, mas sabemos que lhes parecia que ele estava louco.

Noutro episódio, Marcos diz que a mãe e os irmãos de Jesus procuraram falar com ele, mas que este aproveitou para não os reconhecer como seus familiares.

Marcos 2:
31 Καὶ ἔρχεται μήτηρ αὐτοῦ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ καὶ ἔξω στήκοντες ἀπέστειλαν πρὸς αὐτὸν καλοῦντες αὐτόν. 32 καὶ ἐκάθητο περὶ αὐτὸν ὄχλος, καὶ λέγουσιν αὐτῷ, Ἰδοὺ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου [καὶ αἱ ἀδελφαί σου] ἔξω ζητοῦσιν σε. 33 καὶ ἀποκριθεὶς αὐτοῖς λέγει, Τίς ἐστιν μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί [μου]; 34 καὶ περιβλεψάμενος τοὺς περὶ αὐτὸν κύκλῳ καθημένους λέγει, Ἴδε μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 35 ὃς [γὰρ] ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ θεοῦ, οὗτος ἀδελφός μου καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

31 E chegaram a sua mãe e os seus irmãos e ficando lá fora mandaram chamar por ele. 32 E a multidão estava sentada à sua volta, e dizia-lhe: “Eis que a tua mãe, e os teus irmãos [e as tuas irmãs] procuram-te lá fora”. 33 E repondendo-lhes disse: “Quem é a minha mãe e os meus irmãos?” 34 E, olhando em volta para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 35 Pois quem faça a vontade de deus, esse é o meu irmão, e irmã e mãe.”

Este episódio repete-se nos outros Evangelhos sinópticos:



Mateus 12:
46 Ἔτι αὐτοῦ λαλοῦντος τοῖς ὄχλοις ἰδοὺ μήτηρ καὶ οὶ ἀδελφοὶ αὐτοῦ εἱστήκεισαν ἔξω ζητοῦντες αὐτῷ λαλῆσαι. 47 [εἶπεν δέ τις αὐτῷ, Ἰδοὺ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἔξω ἑστήκασιν ζητοῦντές σοι λαλῆσαι.] 48 δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν τῷ λέγοντι αὐτῷ, Τίς ἐστιν μήτηρ μου καὶ τίνες εἰσιν οἱ αδελφοί μου; 49 καὶ ἐκτείνας τὴν χεῖρα αὐτοῦ ἐπὶ τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ εἶπεν, Ἰδοὺ μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 50 ὅστις γὰρ ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς αὐτός μου ἀδελφὸς καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

46 Enquanto falava às multidões, eis que a mãe e os irmãos dele estavam lá fora procurando falar-lhe. 47 [Mas alguém lhe disse: “Olha que a tua mãe e os teus irmãos estão lá fora querendo falar-te.”] 48 Mas respondendo disse a quem lhe falou: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” 49 E, tendo estendido a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos.” 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.




Lucas 8:
19 Παρεγένετο δὲ πρὸς αὐτὸν  μήτηρ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ καὶ οὐκ ἠδύναντο συντυχεῖν αὐτῷ διὰ τὸν ὄχλον. 20 ἀπηγγέλη δὲ αὐτῷ Ἡ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἑστήκασιν ἔξω ἰδεῖν θέλοντες σε. 21 ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν πρὸς αὐτούς: Μήτηρ μου καὶ ἀδελφοί μου οὗτοι εἰσιν οἱ τὸν λόγον τοῦ θεοῦ ἀκούοντες καὶ ποιοῦντες.

19 Mas vieram até ele a mãe e os irmãos dele, e não puderam juntar-se-lhe através da multidão. 20 Foi-lhe transmitido: “A tua mãe e os teus irmãos esperam lá fora querendo ver-te.” 21 Mas respondendo disse-lhes: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que escutam e fazem a palavra de deus.”



Jesus estava com aqueles que o seguiam. Neste episódio em particular, os relatos afirmam que uma multidão se reunira à sua volta. Provavelmente, este fora um dos momentos de maior publicidade fora das muralhas de Jerusalém. Nessa altura, chegam para lhe falar a sua mãe e os seus irmãos. Não sabemos ao certo se são estes os familiares a que Marcos faz referência em 3:21. De qualquer forma, Jesus não parece ter sentido especial vontade de se reunir com Maria e com os irmãos. Na verdade, Jesus aproveita para afirmar que todos os que o acompanhavam e rodeavam, cumprindo a vontade de Deus, esses mesmos é que eram seus irmãos, irmãs e mãe. 


Nas palavras de Jesus a sua própria mãe não tinha qualquer privilégio relativamente àqueles que o seguiam enquanto discípulos.


Lucas 11:
27 Ἐγένετο δὲ ἐν τῷ λέγειν αὐτὸν ταῦτα ἐπάρασά τις φωνὴν γυνὴ ἐκ τοῦ ὄχλου εἶπεν αὐτῷ, Μακαρία ἡ κοιλία ἡ βαστάσασά σε καὶ μαστοὶ οὓς ἐθήλασας. 28 αὐτὸς δὲ εἶπεν, Μενοῦν μακάριοι οἱ ἀκούοντες τὸν λόγον τοῦ θεοῦ καὶ φυλάσσοντες.

27 Mas tendo ele dito isto uma mulher, levantando a voz de entre a multidão, disse-lhe: “Feliz o útero que te carregou e os peitos em que mamaste.” 28 Mas ele disse: “Antes felizes os que escutam a palavra de deus e a guardam.”



Jesus acabara de proferir palavras sábias sobre os espíritos maus e uma mulher, de entre aqueles que o escutavam, elogiou a sua mãe por o ter trazido no útero. Imediatamente corrige as palavras da mulher. Segundo Jesus, quem é bem-aventurado não é tanto a sua mãe, mas sim aqueles que escutam e cumprem a palavra de Deus.



Todos aqueles que seguem Jesus são irmãos e entre eles não há mestres. A distinção entre eles não é feita. Há um só mestre, mas os seus discípulos são todos irmãos, não devem querer ser tratados como mestres. E Jesus diz isto claramente: "todos vós sois irmãos" (Mt 23:8: πάντες δὲ ὑμεῖς ἀδελφοί ἐστε). O sentido de irmão é diferente do sentido que a palavra tem para referir os seus irmãos que vêm com Maria e pedem para lhe falar. Aí, Jesus estava com os discípulos e os seus irmãos vinham para lhe falar - mas Jesus torna claro que, para ele, não são esses que vieram para lhe falar (provavelmente para o "prenderem" por o julgarem louco), que são os seus verdadeiros irmãos. Os seus verdadeiros irmãos já lá estavam com ele e acompanharam-no depois. Embora muitas vezes os discípulos tenham demonstrado incredulidade (e isto será motivo de uma outra exposição), apesar de tudo é a esses que ele aponta como seus irmãos - tendo o cuidado de explicar porquê: os seus irmãos são aqueles que escutam e cumprem a palavra de Deus. Não é o sangue que estabelece o verdadeiro elo de irmandade, mas a confiança.



Está feito o reparo. É inegável o afastamento de Jesus relativamente à concepção tradicional da família. Não que Jesus pense que a família não devesse ser monogâmica, nem que Jesus não considerasse importante o respeito entre os membros da família. Mas a importância das relações familiares estava para ele aquém da da relação entre aqueles que o seguem e entre estes e ele próprio. Ora, este reparo significa uma exigência de Jesus relativamente àqueles que o pretendessem seguir. E, como noutras exigências que fez, também esta é difícil e humanamente árdua.


Mateus 10
34 Μὴ νομίσητε ὅτι ἦλθον βαλεῖν εἰρήνην ἐπὶ τὴν γῆν· οὐκ ἦλθον βαλεῖν εἰρήνην ἀλλὰ μάχαιραν. 35 ἦλθον γὰρ διχάσαι ἄνθρωπον κατὰ τοῦ πατρὸς αὐτοῦ καὶ θυγατέρα κατὰ τῆς μητρὸς αὐτῆς καὶ νύμφην κατὰ τῆς πενθερᾶς αὐτῆς, 36 καὶ ἐχθροὶ τοῦ ἀνθρώπου οἱ οἰκιακοὶ αὐτοῦ. 37 φιλῶν πατέρα μητέρα ὑπὲρ ἑμὲ οὐκ ἔστιν μου ἄξιος καὶ φιλῶν υἱὸν θυγατέρα ὑπὲρ ἐμὲ οὐκ ἔστιν μου ἄξιος·

34 “Não penseis que vim pela paz na terra. Não vim trazer a paz, mas a espada. 35 Pois vim separar o humano do seu pai, e a filha da sua mãe e a noiva da sua sogra, 36 e os inimigos do humano [serão] os da sua casa. 37 Aquele que amar o pai ou a mãe sobre mim não é digno de mim, e aquele que amar o filho ou a filha sobre mim não é digno de mim.”


Disse Jesus que os inimigos do humano (ἀνθρώπου) seriam os da sua casa. Esta afirmação está em consonância com Mc 3:21. Estas palavras têm um potencial profundo e podem ser facilmente mal interpretadas, quer por quem parte de dogmas religiosos, quer por quem permaneça preso a preconceitos ateístas. Não é aqui o lugar de explorar completamente o sentido que estas palavras possam ter, mas notamos que a ideia de que a família pode constituir um impedimento à autenticidade, seja ela religiosa ou filosófica, é um motivo que se pode encontrar noutras culturas. Lembramos o mito de Narada, o mensageiro. Neste mito, Narada pede a Visnu que lhe revele a verdade, mas entretanto casa-se, adquire terras e tem filhos. Entretanto, vem a compreender que a situação familiar em que se encontrava radicava numa sensação ilusória de segurança.

Normalmente, o humano tende a avaliar a sua situação a partir da sua zona de conforto. Quanto maior for a sua zona familiar de conforto e quanto mais conforto esta lhe proporcionar, mais feliz se chama a si mesmo. Jesus, por seu lado, afirma que a casa de um homem pode ser, precisamente, o lugar onde se encontram os seus inimigos. Mas, para o humano, conseguir separar-se da sua zona de conforto, é uma tarefa difícil. Jesus sabe muito bem disso e diz com toda a clareza que não vem trazer facilidades. Pelo contrário, o que ele traz é a espada, a separação, a guerra.
Aquilo que Jesus traz é a discórdia entre os membros da família. Podemos imaginar que falava por experiência própria. Talvez a sua família tivesse representado um obstáculo ao cumprimento daquilo que entendia ser a sua missão. Um homem com espírito de missão não pode dar-se ao luxo de ficar pela sua zona de conforto. Se tem ideias próprias que representam um risco e as quer pôr em prática, é provável que tenha de enfrentar a oposição da sua família. É provável que Jesus tenha compreendido isto quando os seus o consideraram fora de si. Por isso ele exige um compromisso da parte dos seus discípulos, e este compromisso passa por se separarem daquilo que pode significar um entrave à missão que os espera.


Estas palavras parecem muito forte. E são-no. Mas Mateus é uma versão leve de Lucas:



Lucas 14:
26 Εἴ τις ἔρχεται πρός με καὶ οὐ μισεῖ τὸν πατέρα ἑαυτοῦ καὶ τὴν μητέρα καὶ τὴν γυναῖκα καὶ τὰ τέκνα καὶ τοὺς ἀδελφοὺς καὶ τὰς ἀδελφάς ἔτι τὲ καὶ τὴν ψυχὴν ἑαυτοῦ, οὐ δύναταί εἶναι μου μαθητής.

26 Se alguém vier até mim e não odiar o próprio pai e a mãe, e a mulher e os filhos, e os irmãos e as irmãs, e ainda a própria alma, não poderá ser meu discípulo.

Algumas traduções pretendem aligeirar as palavras de Lucas aproximando-as de Mateus, mas o que está em Lucas é diferente. O texto utiliza o verbo grego μισέω, o qual se encontra na composição de palavras como misógino (que tem ódio às mulheres), ou misógamo (que tem ódio ao casamento). Portanto, o texto diz claramente que, para se poder ser discípulo de Jesus, se tem de odiar o próprio pai, mulher, filhos e irmãs. É possível que Jesus estivesse a falar influenciado por alguma altercação recente com a sua própria família. Seja como for, a ideia subjacente é a de que aquele que tem família não está em condições de ser seguidor de Jesus.
Paulo, no capítulo 7 da Primeira Carta aos Coríntios faz uma exposição que poderia ser uma explicação destas palavras de Jesus. Segundo Paulo, aquele que não é casado está livre para aquilo que pertence ao Senhor, enquanto que aquele que está casado se ocupa das coisas do mundo. Enfim, se não se for capaz de resistir ao apelo da carne, então que o homem e a mulher se casem, mas o melhor é permanecerem solteiros, em celibato. 


Uma das vantagens dos textos canónicos em relação aos textos apócrifos é que os primeiros são inteligíveis. Mesmo quando sugerem acontecimentos ou nos pedem comportamentos que nos parecem impossíveis ou inexplicáveis, na maior parte dos casos podemos dizer e descrever claramente o que nos está a ser dito ou pedido pelos textos. Claro que há partes mais abertas à discussão, mas regra geral os textos canónicos são inteligíveis. Ou, pelo menos, dão-nos uma ideia por onde começar, embora possamos não perceber bem como chegar a cumprir o que nos é pedido, ou não entender bem que significado pode ter o acto concreto que é sugerido. Neste caso, podemos facilmente perceber o que é que Jesus está a pedir. A exigência é clara: aquele que queira ser discípulo de Jesus deve separar-se da sua família. Não há aqui nenhum apelo ao desrespeito entre filhos e pais. A questão é outra: a fidelidade total a um compromisso com Jesus, com a palavra de Deus. E neste contexto a família representa um desvio.



Entre os seguidores de Jesus todos são irmãos entre si. Este é o vínculo que deve vigorar. Os irmãos de carne, irmãos desde que nasceram, irmãos em sua casa, devem quebrar esse vínculo e encararem-se como irmãos no discipulado. Não interessa se duas pessoas são pai e filho: como discípulos são irmãos entre si e irmãos igualmente com todos os outros discípulos. Irmãos em igual irmandade. Não há predilectos, nem preferências. Claro que em Jo 19:26 se fala de um discípulo que Jesus amava (ἠγάπα), mas essa seria outra discussão.



Mas não basta um despego aos próprios familiares. Aliás, este despego é insuficiente se o pretendente a ser discípulo não odeia a própria alma (τὴν ψυχὴν ἑαυτοῦ). Seguir Jesus significa deixar para trás os elos anteriores que uniam a pessoa à sua família e abdicar dos seus interesses pessoais. Ora, previsivelmente, esta entrega total à missão de seguir Jesus atrairá a antipatia e os juízos recriminadores da própria família. Aquele que deixa o seu lar e os seus para abraçar um destino revolucionário, diferente das expectativas normalmente instituídas, com certeza que nem sempre é bem compreendido, e na maioria das vezes enfrenta a resistência daqueles que lhe são mais próximos. Compreende-se que Jesus afirme que vem trazer a espada, a separação, a guerra entre familiares.



Ao contrário do que pudesse parecer, a divergência entre Jesus e os seus não foi um episódio sem lastro que rapidamente tenha resultado num entendimento mútuo. Pelo contrário, parece ter sido algo que perdurou. Pelo menos, o mal-estar instalado ter-se-á verificado em outras ocasiões. Podemos supor que nem todas elas foram eliminadas. Aliás, a permanência de alguns exemplos claros de desconfiança entre as partes é suficiente para supormos que possa ter sido mais abrangente do que aquilo que ficou registado. À partida existiria interesse entre os que relatavam os acontecimentos da vida de Jesus em omitirem desentendimentos deste com a sua família, bem como para omitirem a falte de crédito que os seus lhe confiavam.


João 7:
2 ἦν δὲ ἐγγὺς ἑορτὴ τῶν Ἰουδαίων σκηνοπηγία. 3 εἶπον οὖν πρὸς αὐτὸν οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ, Μετάβηθι ἐντεῦθεν καὶ ὕπαγε εἰς τὴν Ἰουδαίαν, ἵνα καὶ οἱ μαθηταί σου θεωρήσουσιν σοῦ τὰ ἔργα ποιεῖς· 4 οὐδεὶς γάρ τι ἐν κρυπτῷ ποιεῖ καὶ ζητεῖ αὐτὸς ἐν παρρησίᾳ εἶναι. εἰ ταῦτα ποιεῖς, φανέρωσον σεαυτὸν τῷ κόσμῳ. 5 οὐδὲ γὰρ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ ἐπίστευον εἰς αὐτόν.

2 Mas estava perto a festa dos Judeus dos Tabernáculos. 3 Então os seus irmãos disseram-lhe: “Parte daqui e vai para a Judeia, para que os teus discípulos possam ver de ti as obras que fazes. 4 Pois ninguém que procure tornar-se a si mesmo conhecido faz as coisas em segredo. Se fazes isto, torna-te a ti mesmo visível ao mundo.” 5 Pois nem os seus irmãos confiavam nele.



Estas palavras mereceriam análises que não iremos fazer. Por exemplo, será que os discípulos de Jesus estavam já na Judeia, em Jerusalém, separados de Jesus e dos seus irmãos? Porque, de facto, os irmãos dizem-lhe que é lá, na Judeia, que poderá mostrar aos discípulos aquilo que faz. Em grego, μαθητής, discípulo, é aquele que aprende, um aprendiz. Será, então, que os seus aprendizes não o seguiam neste momento? Sendo como for, quem registou estas palavras dos irmãos de Jesus achou que não deveria omitir que nem os seus irmãos confiavam nele. O verbo que aqui vertemos para confiar pode ser entendido como acreditar, dar crédito, depositar fé. O evangelista comenta por sua iniciativa as palavras que registou dizendo-nos que nem os irmãos de Jesus davam crédito às suas obras. Daqui depreende que não eram apenas os seus irmãos que, de alguma forma, duvidavam de Jesus. Outros duvidavam também (ver Jo 6:61 - os discípulos de Jesus mostravam-se muitas vezes reticentes perante as palavras deste), e parece que os seus discípulos já nem o acompanham. Podemos supor que as dúvidas entre os discípulos se adensavam e que talvez tivesse havido algum tipo de separação recente. Neste sentido, os irmãos de Jesus parecem sugerir que este fosse para um local mais público mostrar a todos, de forma bem manifesta, a sua obra. Contudo, estas palavras, segundo João,  eram algo irónicas como se dissessem: com o devido respeito, tanta gente duvida de ti (até mesmo os teus discípulos), mas se realmente és capaz daquilo que afirmas ser capaz, então demonstra-o bem à frente de todos, num local bem visível, ou então deixa-te destas andanças e não nos envergonhes mais



Por outro lado, aparentemente, a dúvida recaía sobretudo sobre as suas obras. Talvez os seus irmãos duvidassem de que Jesus fizesse realmente as obras que se dizia que ele fazia. Temos indícios de que Jesus era mais bem sucedido em terras onde fosse desconhecido.


Marcos 6:

1 Καὶ ἐξῆλθεν ἐκεῖθεν καὶ ἔρχεται εἰς τὴν πατρίδα αὐτοῦ, καὶ ἀκολουθοῦσιν αὐτῷ οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ. 2 καὶ γενομένου σαββάτου ἤρξατο διδάσκειν ἐν τῇ συναγωγῇ, καὶ πολλοὶ ἀκούοντες ἐξεπλήσσοντο λέγοντες, Πόθεν τοὐτῳ ταῦτα, καὶ τίς ἡ σοφία ἡ δοθεῖσα τοὐτῳ, καὶ αἱ δυνάμεις τοιαῦται διὰ τῶν χειρῶν αὐτοῦ γινόμεναι; 3 οὐκ οὗτος ἐστιν ὁ τέκτων, ὁ υἱὸς τῆς Μαρίας καὶ ἀδελφὸς Ἰακώβου καὶ Ἰωσῆτος καὶ Ἰούδα καὶ Σίμωνος; καὶ οὐκ εἰσὶν αἱ ἀδελφαὶ αὐτοῦ ὧδε πρὸς ἡμᾶς; καὶ ἐσκανδαλίζοντο ἐν αὐτῷ. 4 καὶ ἔλεγεν αὐτοῖς ὁ Ἰησοῦς ὅτι Οὐκ ἔστιν προφήτης ἄτιμος εἰ μὴ ἐν τῇ πατρίδι αὐτοῦ καὶ ἐν τοῖς συγγενεῦσιν αὐτοῦ καὶ ἐν τῇ οἰκίᾳ αὐτοῦ. 5 καὶ οὐκ ἐδύνατο ἐκεῖ ποιῆσαι οὐδεμίαν δύναμιν, εἰ μὴ ὀλίγοις ἀρρώστοις ἐπιθεὶς τὰς χεῖρας ἐθεράπευσεν. 6 καὶ ἐθαύμασεν διὰ τὴν ἀπιστίαν αὐτῶν. Καὶ περιῆγεν τὰς κώμας κύκλῳ διδάσκων.

1 E saiu dali e foi para a sua terra, e os seus discípulos seguiram-no. 2 E à chegada do Sábado começou a ensinar na sinagoga, e muitos, ouvindo-o, espantavam-se dizendo: “De onde lhe vêm estas coisas, e por quem lhe foi dada a sabedoria, e tais poderes que faz acontecer através das suas mãos? 3 Não é este o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, e José, e Judas e Simão? E não estão as suas irmãs aqui connosco?" E ofendiam-no. 4 E disse-lhes Jesus: “Um profeta não é desonrado se não na sua terra e entre os seus familiares e em sua casa.” 5 E não foi capaz de ali fazer qualquer poder, apenas curou alguns doentes deitando as mãos sobre eles. 6 E admirou-se com a falta de confiança deles. E foi ensinar para uma aldeia das redondezas.




Segundo Marcos, aqueles que o escutavam pareciam espantar-se pela sabedoria que Jesus manifestava. O texto refere ainda as coisas que fazia com as suas mãos. Contudo, podemos supor que Jesus não fizera muitos milagres ali, como logo reconhece o próprio Marcos: "não foi capaz de ali fazer qualquer poder". O grego diz claramente que Jesus não foi capaznão teve poder (οὐκ ἐδύνατο). É certo que curou alguns doentes - talvez seja a essas curas que as pessoas que escutavam Jesus na sinagoga se referem quando mencionam os "poderes que faz acontecer através das suas mãos". 



Segundo Marcos, Jesus ficou admirado com a falta de confiança daquelas pessoas. O mesmo episódio é relatado por Mateus 13:53-58. No entanto, para Mateus foi devido à falta de confiança dos Nazarenos que Jesus não fez milagres.


Mateus 13:
58 καὶ οὐκ ἐποίησεν ἐκεῖ δυνάμεις πολλὰς διὰ τὴν ἀπιστίαν αὐτῶν.

58 E não fez ali muitos poderes devido à falta de confiança deles.



Marcos e Mateus dizem que as pessoas da terra de Jesus tinham dúvidas quanto a Jesus, sobretudo porque resistem à ideia de que alguém cuja família conhecem tenha os poderes que ouvem dizer que ele tem. É essa a razão apontada por Marcos e por Mateus para a desconfiança dos Nazarenos. E Mateus explica que, devido a essa desconfiança, Jesus não fez ali milagres (ou, pelo menos, fez poucos). 



Marcos é um texto bastante preocupado em testemunhar os milagres de Jesus. Por isso é significativo que admita que Jesus não os fez em Nazaré. Diz ele que apenas curou alguns enfermos, o que é diferente de operar milagres propriamente ditos. Por seu lado, Mateus está mais preocupado em legitimar Jesus, quer enquanto Cristo, quer nas suas acções. Por isso Mateus não poderia deixar de esclarecer a razão pela qual Jesus não fez milagres na sua terra, apesar de os ter feito longe dali. Podemos supor que Jesus não sentisse apelo em fazer maravilhas quando exigiam que o fizesse para acreditar nele. Talvez Jesus preferisse fazer milagres com aqueles que o acreditassem, e não tanto para que acreditassem nele.Também não se mostrou claramente satisfeito quando a sua mãe lhe deu a entender que deveria fazer alguma coisa relativamente à falta de vinho num casamento. 



Seja como for, Lucas 4:14-30 relata o mesmo evento mas com mais pormenores. De acordo com Lucas, Jesus regressou à Galileia, a Nazaré e, como de costume, pôs-se a ler as Escrituras. Começa a ler Isaías (o texto citado por Jesus segue a tradução da Septuaginta). O trecho citado, que bem poderia ter saído originalmente da boca de Jesus, é o seguinte:


Lucas 4:
18 Πνεῦμα κυρίου ἐπ’ ἐμὲ οὗ εἵνεκεν ἔχρισεν με εὐαγγελίσασθαι πτωχοῖς, ἀπέσταλκεν με, κηρύξαι αἰχμαλώτοις ἄφεσιν καὶ τυφλοῖς ἀνάβλεψιν, ἀποστεῖλαι τεθραυσμένους ἐν ἀφέσει, 19 κηρύξαι ἐνιαυτὸν κυρίου δεκτόν.

18 O Espírito do senhor está sobre mim porque me ungiu para anunciar as boas novas aos pobres, enviou-me a proclamar aos prisioneiros a libertação e a dar aos cegos a visão, a deixar os oprimidos em liberdade, 19 a proclamar o ano aceitável do senhor.

Este trecho de Isaías tem tudo que ver com Jesus, sobretudo tem tudo que ver com o que veio a compreender-se por Cristianismo. Termos caros a esta religião surgem aqui. Evangelho, εὐαγγέλιον, que se lê euangélion (depois de passar ao latim, o -u-, υ, transformou-se em -v-), significa boa nova, isto é, boa notícia. E apóstolo, ἀπόστολος, que se lê apóstolos, significa enviadoembaixador, ou mesmo mensageiro
Além disso, o trecho de Isaías faz um conjunto de anúncios em favor dos socialmente mais fracos e oprimidos - que é também o horizonte de actuação de Jesus. Parece que Jesus estava de facto a falar de si mesmo e não simplesmente a ler um texto das escrituras.


O facto não terá passado despercebido. Segundo este evangelista, Jesus afirmou que tudo aquilo que acabara de citar estava a acontecer. Então, as pessoas que o escutavam davam testemunho a seu favor. Que é que significa isto? O verbo grego é μαρτυρέω, e significa dar testemunho a favor, ser testemunha favorável a alguém. Lucas deve ter pretendido registar que as pessoas assentiam, aceitavam, confirmavam as palavras de Jesus. Como é costume nas assembleias em que, depois de um deputado falar, os da mesma bancada dizem "apoiado". Mas Lucas, diz também que as pessoas ficaram admiradas por aquelas palavras de graça (χάριτος) serem proferidas pelo filho de José. Portanto, não é certo que o sentimento de admiração tenha sido favorável a Jesus. Pelo contrário, parece que se admiraram de que o filho de José ousasse dizer, ou pretender saber tais coisas. Podemos supor que, tendo já ouvido falar do que Jesus fizera por outros lados, os nazarenos percebessem imediatamente que Jesus falava de si próprio. Isso pode ter parecido uma afronta demasiado grande para poder ser cometida por alguém que lhes era, ou fora tão próximo.


E é neste contexto que Lucas coloca a referência à dificuldade que os profetas têm em serem bem-vindos na sua própria terra.

23 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτοὺς, Πάντως ἐρεῖτε μοι τὴν παραβολὴν ταύτην· Ἰατρέ, θεράπευσον σεαυτόν· ὅσα ἠκούσαμεν γενόμενα εἰς τὴν Καφαρναοὺμ ποίησον καὶ ὧδε ἐν τῇ πατρίδι σου. 24 εἶπεν δὲ, Ἀμὴν λέγω ὑμῖν ὅτι οὐδεὶς προφήτης δεκτός ἐστιν ἐν τῇ πατρίδι αὐτοῦ.

23 E disse-lhes: “Certamente me falareis desta parábola: ‘Médico, cura-te a ti mesmo: tudo quanto ouvimos ter acontecido em Cafarnaum faz também aqui na tua terra’”. 24 Mas ele disse: “Em verdade vos digo que nenhum profeta é bem-vindo na sua terra.”


A inserção deste trecho aqui, por Lucas, parece descontextualizada num primeiro olhar. Afinal, tudo o que havia sido comentado pelas pessoas que o ouviam era que ele era filho de José. Contudo, Jesus imediatamente se justifica pelo facto de não fazer milagres em Nazaré. Mas ninguém falara em milagres.
Segundo Lucas, Jesus refere outros profetas, Elias e Eliseu, como exemplos de quem fez obra longe de casa. Claramente, Lucas está preocupado em explicar por que é que Jesus não fez milagres em casa, apesar de os ter feito longe de Nazaré.
As pessoas que escutavam Jesus enquanto este referia Elias e Eliseu ficaram descontentes com o que ouviram, levaram-no para fora da cidade e tentaram atirá-lo do monte abaixo. Mas Jesus limitou-se a passar entre aqueles que o levaram e foi-se embora. Este é o relato de Lucas. Portanto, este evangelista conta o episódio de Marcos e Mateus, mas com mais pormenores. Contudo, os pormenores que tem permite-nos supor que não fica tudo dito.


Enfim, tentando ler os três evangelhos sinópticos em conjunto podemos admitir que Jesus teve dificuldades em adquirir a confiança das pessoas da sua própria terra. Há aspectos que não analisamos porque não estão directamente relacionados com o nosso tema aqui, como por exemplo a relação entre o provérbio referido por Jesus, "Médico, cura-te a ti próprio", e a ausência de milagres em casa. Mas estamos em condições de perceber que a desconfiança estava relacionada com o facto de Jesus não realizar milagres ali, em Nazaré. Marcos nota que Jesus ficou muito admirado com a falta de confiança daquelas pessoas, e Mateus explica que Jesus só não fez milagres porque não houve confiança. Podemos supor que as pessoas com quem Jesus fora criado apresentassem relutância em aceitar a palavra de Jesus e em confiar no que ouviam dizer dele. Menos predispostas a acreditar, psicologicamente estariam numa situação em que lhes seria mais difícil de ver milagres. Se existe uma predisposição psicológica favorável, um crente facilmente pode ver um milagre. Os evangelistas tratam de dar a sua própria explicação para essa ausência de milagres. E Lucas coloca o próprio Jesus a justificar-se.  É provável que estes relatos estejam fundeados naquilo que de facto ocorreu. Aqueles que registaram estes episódios estariam interessados em não ter que explicar esta ausência. O facto de ter chegado até nós este registo indicia que provavelmente é verdadeiro. Ou seja, é provável que tenha de facto existido uma desconfiança acentuada por parte dos nazarenos em relação à pessoa de Jesus e ao seu comportamento. Podemos supor que quem se dirigisse a Nazaré e questionasse aquelas pessoas que viram Jesus ser criado, não obtivesse da sua parte mais do que um relato insípido sobre uma infância normal e uma convivência nunca sobressaltada por milagres ou curas de leprosos.



É legítimo admitir que Jesus desde o início da sua actividade pública teve dificuldade em se relacionar com os seus, seja com a sua mãe, seja com os seus irmãos, seja com os da sua terra. O seu envolvimento no templo, nas leituras e talvez mesmo os seus comentários e interpretações da lei e das escrituras deve ter criado alguma indisposição que se foi paulatinamente agravando.  Tendo saído da sua terra e ido para Cafarnaum, e outros locais, ensinar, curar doentes e realizar milagres, é provável que alguma desta actividade se tenha tornado conhecida em Cafarnaum (note-se que não pretendemos com isto afirmar que Jesus fez de facto milagres). A dado momento, a sua mãe e os seus irmãos julgam necessário procurá-lo, talvez com a ideia de o chamarem à razão, pois tornara-se evidente para eles que estava fora de si. Parece ter havido, a certa altura, algum mal estar sério. Aparentemente, Jesus não os recebe nem os reconhece como autênticos familiares. Os seus verdadeiros irmãos são os seus discípulos. Talvez mais tarde (note-se que segundo Marcos e Mateus, primeiro aconteceu o episódio de a família o procurar, e depois, mais tarde, volta a Nazaré - segundo Lucas, é o inverso, isto é, primeiro voltou a Nazaré, depois, mais tarde, acontece o episódio de a família o procurar) tenha decido voltar à sua terra, mas também então não conseguiu ser bem recebido pelos nazarenos. Provavelmente porque os ensinamentos de Jesus lhes parecessem demasiado revolucionários ou fora do comum e exigissem, por isso, um sinal mais substancial de que Deus o apoiava. Quando Jesus não realizou os milagres que esperavam como sinal, poderão ter pensado que estavam perante um falso profeta ou um charlatão.



Os familiares de Jesus não se mostram contentes com a sua actuação pública, provavelmente porque não acreditavam na sua missão, nas suas palavras ou no que se dizia acerca dele. Por outro lado, temos indícios de que alguma espécie de reconciliação, em maior ou menor grau, mais tarde ou mais cedo, acabou por ocorrer. 

Perto da morte de Jesus, já depois da sua condenação, parece que a sua mãe o acompanhava. 

Marcos 16
Καὶ διαγενομένου τοὺ σαββάτου Μαρία  Μαγδαληνὴ καὶ Μαρία  [τοῦἸακώβου καὶ Σαλώμη ἠγόρασαν ἀρώματα ἵνα ἐλθοῦσαι ἀλείψωσιν αὐτόν.

1 E tendo passado o Sábado, Maria Magdalena e Maria a mãe de Tiago e Salomé compraram perfumes para que fossem ungi-lo. 


Este trecho refere três mulheres: Maria de Magdala; Maria, mãe de Tiago; Salomé. A identificação que por vezes se faz de Tiago (Menor) com Tiago, irmão de Jesus, coloca a hipótese de aqui se fazer referência à mãe de Jesus.


Na nossa opinião, os relatores não teriam nenhuma razão para, ao registarem as notícias sobre Jesus, mencionarem a sua mãe ligando-a a um outro filho, e não a Jesus. Por vezes tenta-se ver aqui uma referência a Maria, mãe de Jesus, com a justificação de que o nome Tiago se refere a um irmão de Jesus, e logo depois se diz que esse irmão não é verdadeiro irmão, mas sim um primo, ou talvez um meio-irmão de Jesus, filho de José, mas não filho de Maria, de modo a garantir a virgindade desta. Ora, tentaremos apenas encontrar referências explícitas à presença de Maria, mãe de Jesus - referências que não estejam dependentes de outras teses e teorias que não podem ser comprovadas textualmente. E essas referências existem, ainda que sejam escassas.

João 19:
25 εἱστήκεισαν δὲ παρὰ τῷ σταυρῷ τοῦ Ἰησοῦ ἡ μήτηρ αὐτοῦ καὶ ἡ ἀδελφὴ τῆς μητρὸς αὐτοῦ, Μαρία ἡ τοῦ Κλωπᾶ καὶ Μαρίαμ ἡ Μαγδαληνή. 26 Ἰησοῦς οὖν ἰδὼν τὴν μητέρα καὶ τὸν μαθητὴν παρεστῶτα ὃν ἠγάπα, λέγει τῇ μητρί, Γύναι, ἴδε ὁ υἱός σου. 27 εἶτα λέγει τῷ μαθητῇ, Ἴδε ἡ μήτηρ σου. καὶ ἀπ’ ἐκείνης τῆς ὥρας ἔλαβεν ὁ μαθητὴς αὐτὴν εἰς τὰ ἴδια.

25 Mas estavam junto à cruz de Jesus a sua mãe, e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria, a Madalena. 26 Então Jesus, vendo a mãe e a seu lado o discípulo que amava, disse à mãe: “Mulher, olha o teu filho.” 27 A seguir disse ao discípulo: “Olha a tua mãe.” E desde essa hora o discípulo tomou-a para si próprio.


Portanto, segundo João, a mãe de Jesus estava junto dele pouco antes da sua morte. Podemos supor que qualquer divergência que se tivesse instaurado entre eles se diluísse perante a condenação à morte de Jesus. Não sabemos se a reconciliação antecedeu a sua prisão.


De qualquer modo, após a morte de Jesus a sua mãe parece ter desempenhado um papel no movimento cristão dos primeiros anos. Logo depois da morte de Jesus, Maria é incluída no grupo.

Actos 1
14 οὗτοι πάντες ἦσαν προσκαρτεροῦντες ὁμοθυμαδὸν τῇ προσευχῇ σὺν γυναιξὶν καὶ Μαριὰμ τῇ μητρὶ τοῦ Ἰησοῦ καὶ σὺν τοῖς ἀδελφοῖς αὐτοῦ.

14 Todos esses perseveraram de comum acordo na oração com as mulheres e com Maria, a mãe de Jesus, e com os seus irmãos.

Maria, a mãe de Jesus, comungava com os que acreditavam. O grupo parece ter sido muito unido e conviver familiarmente, repartindo o que os seus membros tinham. Jesus subordinara a lógica familiar à da missão. Mas Maria parece ter integrado o seu movimento, pelo menos depois da sua morte. Contudo, não deixa de ser curioso que, tendo Jesus ressuscitado aparecido a tanta gente, conforme nos indicam as fontes, nenhum relato afirme que apareceu a sua mãe.

Podemos também admitir que, pelo menos, parte dos seus familiares se reconciliaram com Jesus ou com o seu movimento, se não antes, talvez depois da sua morte. Neste sentido há diversas hipóteses em aberto. O próprio Clopas, cuja esposa é mencionada em Jo 19:25 pode ter sido um dos familiares de Jesus a integrar o movimento. A tradição atribui a Carta segundo Judas ao irmão de Jesus com o mesmo nome. Mas o indício mais claro e que nos parece mais consistente é o caso de Tiago, irmão de Jesus (Gl 1:19), referido por Paulo como um daqueles a quem o ressuscitado apareceu ( 1 Cor 15:7). Podemos supor que essa experiência possa estar na base da sua adesão ao movimento.

Portanto, a família de Jesus deve ter sido surpreendida pelo seu comportamento e, provavelmente, pelas suas palavras. Contudo, essa perplexidade parece ter sido superada, mesmo que isso tivesse acontecido apenas depois da sua morte. De qualquer modo, a família de Jesus parece envolvida no movimento cristão inicial que começou a crescer depois da sua morte. É provável que a morte de Jesus, bem como a persistência do movimento dos seus seguidores e a difusão da sua mensagem, os relatos do seu aparecimento posterior, ou experiências pessoais com o ressuscitado tenham sido mais do que suficientes para vergarem os seus familiares àquilo que muitos outros já aceitavam como evidências. Também não deve ser descurado que a ligação familiar a Jesus deveria trazer consigo um lugar de destaque na hierarquia do movimento - de resto, Tiago parece ter pertencido à liderança tripartida do mesmo em Jerusalém.