domingo, 29 de janeiro de 2017

Pedras e troncos

A propósito de humanos

Um rei inglês dizia que o problema da Escócia era haver nela muitos escoceses.

Ora, o problema da humanidade é, do ponto de vista formal, justamente o oposto: é haver nela poucos humanos.

O Padre António Vieira dizia que havia homens-pedra, homens-tronco e homens-homem. E a humanidade está cheia de pedras e troncos.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Quem tem de mudar primeiro: a sociedade, ou o indivíduo?

A propósito de indivíduo e sociedade

O que é preciso é mudar o enquadramento. Para mudar o enquadramento requer-se a acção do indivíduo que, portanto, tem de mudar ele mesmo antes que possa mudar o que quer que seja. Mas para que o indivíduo se mude e adquira elevação da consciência é preciso que o enquadramento mude. Ora, o enquadramento, se ele muda, tem de ser em virtude da acção consciente do indivíduo. Mas para haver acção consciente do indivíduo, este tem de começar por mudar...

Humm... círculo vicioso, este. A subjectividade requer uma prestação da ordem externa, a ordem externa requer a prestação da subjectividade. Este é o facto. A interpretação disto depende. uns são fofos, outros são rudes. O que se sabe é que nada muda se tudo permanece o mesmo - but, then again, isto é, precisamente, a mesma tautologia...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Milagre ou Natureza?

A propósito de milagres?




Um tubarão fêmea reproduziu-se mesmo sem fertilização. Há espécies de animais que se reproduzem de forma assexuada - por exemplo, por clonagem. Mas este foi o primeiro caso registado de troca natural de tipo de reprodução (da sexuada para assexuada) entre os tubarões. E o terceiro registado entre todas as espécies de vertebrados.
Se não contabilizaram o caso da Virgem Maria, então já são quatro.

Ver artigo: http://www.nature.com/articles/srep40537

Como poderemos reconhecer um milagre?

O facto de ser extraordinário?

Só poderemos reconhecer o milagre a partir de um ponto de vista que coloca a possibilidade de haver milagres. Só podemos aceitar que algo é milagre se confiarmos que isso é um milagre.

Por mais extraordinário, ou por mais banal que seja um acontecimento, se olhamos para ele como milagre ou como fenómeno natural, depende do nosso ponto de vista.

A Virgem Maria poderia, de facto, ter dado à luz Jesus sem ter fertilização - como aconteceu com este tubarão fêmea.

Qualquer coisa que aconteça, mesmo que seja o mais extraordinário, posso sempre considerá-lo como natural. Mesmo se ainda não o sei explicar.

E qualquer coisa banal pode ser considerada um milagre, mesmo que haja muitas outras explicações para ele.

Medo e Perigo

A propósito de medo e perigo...


Estudos sobre psicopatas revelam que os psicopatas sentem medo, mas não reconhecem o perigo. Portanto, a estrutura do medo não está na dependência de objectos. Isto é interessante, porque é, justamente, o que Aristóteles dizia.
Segundo Aristóteles, o medo é independente da situação que o faz eclodir. Ou seja, um leão mete medo, mas mete medo porque há em nós uma estrutura que faz dele algo que mete medo. Mas, justamente porque é uma estrutura dada à partida no humano, independentemente, portanto, de qualquer que venha a ser o caso no mundo, pode acontecer que se tenha medo sem causa aparente. Quer dizer, é perfeitamente possível que eu tenha medo sem conseguir encontrar a causa dele - sem que haja um objecto concreto que mete medo. Como se sabe, este é o pior dos medos, o medo que não está limitado por um objecto pode crescer infinitamente, abocanhar o mundo inteiro e ainda lhe sobrar barriga para nos engolir a nós mesmos.
E a ciência - tantas vezes disposta a ridicularizar Aristóteles - descobre agora que o medo é uma coisa, e o perigo outra. Um sujeito pode ter medo sem que isso implique a identificação de um perigo. E, no caso dos psicopatas, não se encontra nada perigoso, de modo que tudo parece fácil. Um psicopata é capaz de fazer tudo, nada lhe mete medo, ultrapassa tudo, abdica de tudo pelo seu querer único, sacrifica tudo pelo seu amor.
Ao psicopata nada mete medo, por isso mesmo não precisa de coragem. Como Aristóteles dizia: ter coragem não é não ter medo, ter coragem é resistir ao perigo, sentir medo do que mete medo e resistir-lhe. Mas quando nada nos mete medo e o mundo está desprovido de perigos não precisamos de coragem para nada.
E, no entanto, até o psicopata sente medo.

Pessoas más podem ser bons profissionais e podem ser mais felizes do que as boas pessoas

A propósito de ilusões...

Uma má pessoa pode ser, simultaneamente, um excelente profissional.
Uma má pessoa pode ser, simultaneamente, feliz.

Uma má pessoa terá mais facilidade em percorrer o caminho que a levará a tornar-se num bom profissional.
Uma má pessoa encontrará menos dificuldades em alcançar aquilo que a fará feliz.

A ideia de que uma pessoa má nunca pode ser um bom profissional é como a ideia de que uma vida moralmente má nunca pode ser boa de viver, ou a de que uma má pessoa não pode ser feliz... ou seja, são uma perfeita parvoíce, uma mentira, uma ilusão perniciosa... Estas ideias contradizem a razão e a experiência, e só por um enorme desejo de auto-engano pode o senso-comum dizer tal coisa.

Sobre isso, ouçamos Frankfurt:
«It is possible, I am sorry to reveal, that immoral lives may be good to live. […] Unless a person cares about being moral, or about something that depends on being moral, being moral will not make his life better for him.» 
E, MUITO IMPORTANTE: «It will not be reasonable for him to do what he is morally obliged to so, or to care that his conduct fails to meet the requirements of the moral law.»


Aliás, o próprio Kant diz exactamente a mesma coisa, em vários sítios - a única diferença é que ele pensa que todos os seres humanos se preocupam com a moralidade. Basicamente, para Kant um psicopata não é humano. Mas já Kant assumia: um ser em que não houvesse móbil ético jamais poderia ter qualquer consciência moral - e, por isso, o mal moral não lhe causaria qualquer repulsa.
ERGO, um sujeito pode ser uma besta e ser feliz. Arendt vai ainda mais longe e afirma que só uma pessoa realmente má pode ser completamente feliz, porque a sua consciência não a incomodará.

Como é evidente, uma pessoa má, não só pode ser um bom profissional, como estará em melhor condições para ser um bom profissional, visto que não será distraído dos seus fins subjectivos pelos requisitos da lei moral.
Por isso mesmo, onde há mais psicopatas é entre os profissionais de topo e nas cadeias...

«Proportion of psychopath corporate executives 'similar to prison population'»

«Até 3,9% dos executivos de empresas podem ser psicopatas, [...]. Uma taxa de psicopatia 4 vezes maior do que na população em geral.»

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A morte e o melhor do humano

A propósito do bem do humano...

«ouve primeiro o que a sabedoria popular grega diz [...]: "Estirpe miserável e efémera, filhos do acaso e da fadiga, porque me obrigas a dizer-te o que para ti é mais proveitoso não ouvir? O melhor é para ti totalmente inatingível: não haver nascido, não ser, 'nada' ser. Mas a segunda coisa melhor para ti é morrer em breve"»
in Nietzsche, O Nascimento da Tragédia
Segundo esta "sabedoria antiga":
-1) o melhor de tudo é "não haver nascido";
-2) visto que nasceste, o melhor é, para ti, "morrer em breve";
-3) mas o melhor seria não saberes isto.
Portanto, há ironia aqui, pois a verdadeira ordem dos bens é:
1º: o melhor para um humano é não saber qual é verdadeiramente o melhor para o humano;
2º: uma vez que me obrigas a revelar qual é o melhor para o humano, o melhor seria não haveres nascido;
3º: uma vez que já estás aqui, o melhor para ti é morreres em breve.
Portanto, o melhor é sempre inatingível.
É inatingível antes de saberes o que é verdadeiramente o melhor porque, como não sabes o que é o melhor, afadigas-te para adquirir aquilo que é irrelevante.
É inatingível quando já sabes o que é o melhor, porque o melhor seria não o saberes.
O melhor é inatingível a partir do momento em que colocas a questão, visto que isso significa que já nasceste, e o melhor seria não teres nascido.
Portanto, de qualquer modo, tens de te contentar com sucedâneos.

Confrontar com...

«vê o rumor que desde há muito percorre a boca dos homens. ‘Qual?’, perguntou. E ele respondeu: ‘Que não ter nascido é o melhor de tudo e que estar morto é melhor do que viver.’»
Aristóteles, Fragmentos dos Diálogos e Obras Exortativas, p. 88

...

---perspectivas-sobre-a-morte---

A propósito de morte...




«Quíron retirou-se para a gruta e aí desejou morrer, mas não podia, porque era imortal»
Apolodoro

«o maior desespero é a desesperança de não poder morrer»
Kierkegaard



«As mais grandiosas mortes cabem aos mais grandiosos destinos»
Heráclito

«o melhor seria, de facto, nunca nascer e, caso tal acontecesse, morrer o quanto antes»
 Sófocles

Uma forma de vida - UMA só

A propósito de Sócrates...


Sócrates descobriu que nem todas as formas de vida que o humano pode assumir convêm ao humano: «uma vida não examinada não é merecedora de ser vivida por um humano» («ὁ δὲ ἀνεξέταστος βίος οὐ βιωτὸς ἀνθρώπῳ»).

E, na mesma penada, o maior bem do humano: «a cada dia produzir sentidos sobre a excelência» («ἑκάστης ἡμέρας περὶ ἀρετῆς τοὺς λόγους ποιεῖσθαι»).


Com isto, numa frase, abarcou a eternidade.

domingo, 15 de janeiro de 2017

A vida, se há seriedade nela, é um aut-aut

A propósito de aut-aut




«o homem experimentado na vida mantém-se longe do "ou isto/ ou aquilo" abstracto e agarra-se ao concreto»
Hegel, Lesser Logic, 32; 8:98-99 - 80; 81:72

Segundo Kierkegaard, o que torna a vida concreta é o "ou isto/ ou aquilo" que a prende à inevitabilidade de ter de decidir.


E como poderíamos viver se não houvesse na vida um aut-aut???

Um artigo meu sobre o estádio religioso em Kierkegaard

A propósito de ESTÁDIO RELIGIOSO, em KIERKEGAARD



 "Da indiscernibilidade entre religioso e demoníaco, segundo Kierkegaard"

[...]
Neste artigo, a partir de um trecho dos Estádios no Caminho da Vida, defende-se que a esfera religiosa e a esfera demoníaca são formalmente indistinguíveis. [...]
«every individuality who solely by himself has a relation to the idea without any middle term (here is the silence toward all others) is demonic; if the idea is God, then the individual is religious; if the idea is that of evil, then he is in the stricter sense demonic.» Kierkegaard
[...]



In:
APEIRON - Revista Filosófica dos Alunos da Universidade do Minho: Nr. 9 - Filosofia, Religião e Ateísmo
APEIRON - Student Journal of Philosophy (Portugal): Philosophy, Religion and Atheism, Volume 9

ISBN: 1542528801







(ISBN-10: 1-5425-2880-1 / 1542528801)

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Dever e Querer - a cisão da vontade

A propósito do hiato entre dever e querer.


Qual é o verdadeiro problema da moralidade?

Bem, em princípio, o decisivo da moralidade é que o sujeito faça coincidir o seu querer com o dever. Este é o problema. Porque, se é preciso o sujeito fazer coincidir o querer com o dever, como é que ele pode querê-lo?
Assim, o mais natural é que o sujeito queira que o dever coincida com o seu querer. E, para isso, tem os infindáveis recursos da razão. Por intermédio da razão, o sujeito pode chegar a convencer-se que o seu dever tem de expressar aquilo que é mais vantajoso.
Como se percebe, isto é o inverso do que inicialmente se apresentava à consciência... porque se começa por haver uma questão de "dever", então teve de começar por um "dever" contrário ao que se queria fazer...
Enfim: sempre que nos parece que o nosso dever coincide com o nosso querer é preciso parar para pensar se não será o nosso querer a fazer das suas magias!
Tudo isto depende, naturalmente, da noção de "dever" que se tenha: como é evidente, se o sujeito pensa que "dever" significa "aquilo que eu quero fazer", então a noção de dever é inútil. A noção de dever serve, justamente, para expressar um hiato entre aquilo que imediatamente queremos fazer e aquilo que achamos que deveríamos fazer. Se na noção de dever não estiver incluído este hiato, então elimine-se a palavra.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Capaz de deveres

A propósito do humano enquanto "ente capaz de deveres".

Um dos princípios éticos decisivos é que uma acção só pode constituir um dever no caso de o sujeito ser capaz de realizá-la. Como é evidente, do princípio de que "ser capaz de" é condição necessária do dever não se segue que seja condição suficiente. Porque, se "ser capaz de fazer x" fosse condição suficiente para que "x seja meu dever", então o dever seria completamente arbitrário - isto é, corresponderia à negação da própria noção de dever. Pois, bastaria que um sujeito fosse capaz de matar outro para que isso pudesse ser seu dever.


Kierkegaard discute, em vários momentos, este princípio. O princípio, por um lado, é intuitivo: o dever tem de corresponder a algo que possa ser formulado como obrigação - ou seja, como algo a que eu sou obrigado. Eu não posso ser obrigado a fazer algo que está fora das minhas possibilidades efectivas. Assim, aquilo que não sou capaz de fazer não pode constituir um dever para mim.
Por outro lado, o princípio parece contra-intuitivo. Suponha-se que me emprestam dinheiro e quando chega o momento de pagar a dívida "não sou capaz de a pagar". Significa isso que o meu dever de pagar esta dívida não existe? Não parece ser esse o caso. O que falta aqui?

Como uma ideia nova se converte numa ideia velha?

A propósito de ideias novas...


A hipocrisia do género humano segundo Kierkegaard


A hipocrisia, segundo Kierkegaard, não é apenas uma tendência inata à estrutura do indivíduo humano, mas também qualquer coisa que se pode verificar em termos históricos.


A dada altura surge no mundo uma ideia nova. Como ideia nova ela deve entusiasmar as pessoas que se apressam a colocá-la em circulação. Justamente, em circulação, diz Kierkegaard, como acontece com o dinheiro. Posto a circular passa de mão em mão, ao fim de algum tempo o seu significado inverte-se completamente.


Por exemplo, o Cristianismo, segundo Kierkegaard, introduziu no mundo a ideia de pecado, uma ideia nova que eleva o humano na medida em que lhe dá um requisito mais alto. Mas a ideia, posta a circular, sofre o efeito das mais variadas transacções, de modo que, ao fim de alguns séculos, como que por efeito de inflacção (que é o processo histórico da desvalorização de um critério de medida...), o seu significado inverte-se completamente.
A ideia do pecado correspondia a uma ideia nova, pois o homem já sabia que podia errar, falhar, mentir e cometer crimes - mas não sabia ainda que podia pecar. Com a noção de pecado introduz-se uma categorização completamente nova, uma medida completamente outra. Mas esta noção, posta a circular, foi sofrendo pequenas mutações até que, finalmente, significa o oposto - exactamente o oposto - do que significava na origem.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Qual o critério da existência?

A propósito de critérios...


É fácil de refutar o relativismo cultural. Mas a refutação do relativismo cultural não refuta o relativismo. Apenas exige um relativismo mais lato. No limite, o relativismo diz apenas: a validade de qualquer coisa depende da medida adoptada, seja esta qual ela for, pois não pode haver uma medida para a adopção de uma medida. Assim, se um sujeito tem como medida Deus, evidentemente, a guerra vai ter um valor determinado sempre em referência a Deus. Um sujeito que tenha como critério a felicidade dos homens pesará a guerra relativamente à felicidade dos homens. Evidentemente, se quiser fragilizar o valor da religião indicando que gera guerra só pode ter sucesso se aquele a quem se dirige não tiver como critério de pesagem Deus. Se o sujeito tiver como critério Deus limitar-se-á a dizer que tudo tem de ser pesado na balança de Deus.
Este relativismo mais geral é a tese de que todos os critérios que podemos ter para pesar o valor das coisas são legítimos, e que não há critério para decidir entre critérios. E este relativismo não parece poder ser refutado senão assumindo previamente um critério. Ou seja: tendo já um critério - de modo que, na verdade, não se refuta o relativismo.
A dificuldade está nisto: que critério pode haver para decidir entre critérios? A razão? Bem: mas qual o critério que permite dizer que a razão é um critério melhor? A própria razão? A experiência? A vida? Seja qual for o critério, o problema é sempre o mesmo: nunca se refuta a tese do relativismo de que o valor de uma coisa depende do critério com que ela é medida.
Kierkegaard: a única refutação do relativismo é existencial: se tudo é igualmente válido, então tudo é igualmente irrelevante.

O critério da opinião



A propósito de critérios


Há um chavão do senso-comum de que não há alegria sem tristeza, bem sem mal, verdade sem mentira, etc.

O problema filosófico aqui em causa é, evidentemente, o do critério. Com isto, o senso-comum, afirma que o critério para se saber de um dos pólos é a existência do outro pólo. Só se sabe o que é a doença por referência ao estado saudável. Assim, toda a escala valorativa não seria mais do que um jogo de contraste.

Claro que este assunto é complexo. O senso-comum limita-se a repetir algo que lhe soa bem e parece imediatamente evidente. Não está ciente, nem daquilo que está por detrás disto - o que fundamenta esta posição filosófica - nem está ciente das suas consequências - daquilo que significa levar esta posição às suas últimas consequências.

Levar uma posição às suas últimas consequências parece o melhor método para julgar a legitimidade de uma posição excluir as demais (quando, evidentemente, não se tem acesso directo à coisa ela mesma).

Porque levar uma tese ou teoria às suas últimas consequências significa: vamos ver o que significa realmente esta tese, vamos ver o que significaria se ela fosse verdadeira.

Este critério é muito importante. A razão pela qual nós temos todos tantas opiniões e tão diferentes entre si é que não temos de pagar o preço de as termos. Se houvesse um deus que, antes de um sujeito abrir a boca, lhe dissesse: "cuidado com a boca, cuidado com aquilo que afirmares: terás de viver o resto da tua vida num mundo em que isso é uma lei da natureza" - se houvesse um deus destes, que nos forçasse a suportar o peso da honestidade, penso que teríamos todos muito menos opiniões. Na verdade, penso que teríamos mesmo muito poucas e que aquelas que tivéssemos ainda coragem de ter seriam muito pouco diferentes umas das outras.


O senso-comum diz que não há positivo sem negativo.

A tradição filosófica, no entanto, diz o inverso: a verdade é o critério da falsidade; o bem é o critério do mal. Só há mal, porque há bem. Razão pela qual Santo Agostinho dizia que a verdade é a medida dela mesma e do seu contrário.

Aparentemente, o senso comum diz o contrário da tradição filosófica, mas a verdade é que o senso-comum limita-se a repetir algo que pertence a essa mesma tradição. Simplesmente, o senso-comum, ao repetir, corrompe.

O que a tradição percebeu, e muito bem, é que, do ponto de vista da consciência, é o negativo a condição de possibilidade da consciência do positivo. Por exemplo, a consciência da felicidade só se constitui pela consciência de um estado de infelicidade, porque a consciência da felicidade tem de começar pela tensão para a adquirir, caso contrário é apenas um pensamento vazio. Ou seja, por paradoxal que pareça, a consciência da felicidade começa por ser consciência da sua ausência - não há outra hipótese. E isto repete-se na consciência moral: a consciência moral tem de começar pela aversão relativamente à transgressão.

Ora, evidentemente, nada disto significa que é a infelicidade o critério da felicidade, ou que é o mal o critério do bem. Pelo contrário: o bem é que é o critério do mal. Paradoxalmente, do ponto de vista da consciência - isto é, do sujeito - a consciência moral, a constituir-se, tem de começar como consciência da ausência do Bem!!! Não há outra hipótese - como, aliás, Sócrates demonstrou muito bem e toda a tradição tem repetido desde então.

Conhece-te a ti mesmo

A propósito da noção de que um sujeito vai viajar pelo mundo para se descobrir a si mesmo

Em alguns textos, Kierkegaard ironiza com aqueles que se querem descobrir a si mesmos e acham ser necessário viajar pelos continentes do mundo para o fazer. Ironiza que um sujeito julgue ser necessário descobrir o mundo todo, e ainda descobrir um novo continente, para se descobrir a si mesmo.
Já os pensadores gregos insistiam, um após outro, que o afã de conhecer o mundo era inútil a quem não se conhecesse a si mesmo, de modo que o sujeito teria de se descobrir primeiro a si mesmo para poder, depois, conhecer o mundo.
Vemos, portanto, que pelo menos há mais de 2000 mil anos esta ilusão permanece: a de que um sujeito pode descobrir-se a si mesmo mediante o mundo. Mas um sujeito só pode descobrir-se a si mesmo mediante o mundo se primeiro se tornar idêntico ao mundo. O equívoco é que, nesse caso, o resultado não é que ele se descobre a si mesmo, mas sim que se torna mundo.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Mundo do Trabalho e Mobilização Total

A propósito do Mundo do Trabalho

Num mundo completamente configurado pela mobilização total a única atitude individual ainda aceite é participar e servir: para uma tal ordem, o homem deve ou dominar a mobilização total do mundo ou conformar-se com a ordem estabelecida e engrossar as vagas da mobilização. A consequência da mobilização total do mundo é o cancelamento das alternativas e a formatação do humano.
Contudo, aquilo que define o universal humano - o sujeito humano - é, precisamente, a capacidade de se diferenciar em relação ao mundo. De modo que, num mundo em que a mobilização alastra e que põe como destino a mobilização global, resta ao homem, na medida em que queira permanecer humano, não dominar o processo, mas sim diferenciar-se em relação à mobilização.

Entretanto, continua a ser verdade o que sempre foi verdade em todos os tempos: há poucos indivíduos singulares e talvez seja verdade que nunca os houve ou haverá; a condição imediata do homem é a de espécime.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Kierkegaard e o pecado original

A propósito da noção de pecado original em Kierkegaard...


Kierkegaard tem uma concepção de "pecado original" bastante peculiar.

Em rigor, não nega a noção de "pecado original". É um equívoco dizer que Kierkegaard nega o pecado original.

O problema é posto n'O Conceito de Angústia. O ponto é que, ainda que um sujeito considere que foi gerado por via do pecado, «só pode sentir-se em aflição [sørg] quando ele mesmo trouxe o pecado ao mundo».

O sujeito não pode ter pecado em virtude da acção de outro, mas apenas em virtude da sua própria acção - caso contrário, a noção de pecado é um equívoco porque se torna uma questão estética: o pecado não pode ser apenas o facto de o sujeito se sentir mal por algo, nem pode ser apenas o facto de um desejar ou fazer o que é proibido. Por isso mesmo, há diferença entre desejo, crime e pecado.
Então como pode haver pecado original se o sujeito não pode ser pecador antes de ele mesmo pecar no mundo?
Aqui entra a consciência. 

A consciência parece pressupor-se a si mesma e o pecado parece pressupor-se sempre a si mesmo - porque o pecado é uma forma de consciência, evidentemente. 

Isto verifica-se, também, na consciência moral, daí o problema do mal original: o fundamento do mal tem de já ser mal, caso contrário, não há qualquer mal em sentido moral. Se o mal não resulta de uma consciência do mal e de uma decisão consciente, então não é mal. 

Portanto, o fundamento subjectivo do mal tem de ser algo que já resultou de uma decisão e que, por isso, já é mal - o mal radical. No limite, a consciência pressupõe-se sempre a si mesma: a consciência do pecado tem de surgir pelo pecado; mas, então, para que este pecado seja pecado, tinha já de haver consciência de pecado, caso contrário, o sujeito teria pecado por ter feito algo que não sabia que era pecado. Tal como o mal moral é mal em virtude de o sujeito saber que era mal e, depois, tê-lo escolhido. Se assim não for, estamos ao nível estético - não ético (do mal), nem religioso (do pecado).

pecado original no mesmo sentido em que há mal radical / originário - exactamente no sentido que Kant dá à expressão n'A Religião nos limites da simples razão.

Uma ferramenta de trabalho muito útil para quem trabalha em Kierkegaard


Elektronisk version:
"http://www.sks.dk/forside/skr.asp"


Versão electrónica 1.6
2011

Feminismo ou igualdade?

A propósito de feminismo...


Quando falamos de situações concretas, como o acesso a uma posição numa empresa, é evidente que as condições de partida devem ser idênticas. 

Mas o problema em torno do "feminismo vs machismo", ou do "machismo vs igualitarismo" é mais complexo - penso eu - porque não inclui apenas requisitos desse tipo, mas também injunções gerais. Ao contrário do que alguns filósofos populares dizem, o feminismo nunca se caracterizou por defender a superioridade da mulher, mas sim por defender a igualdade. As feministas mais radicais exigiam igualdade absoluta, por isso queimavam "soutiens" na rua: os homens não usam. 

Ou seja, o feminismo não é uma apenas uma teoria sobre condições de trabalho, ordenados, etc., mas sobre normas sociais, o estatuto da noção de "género", etc. Essencialmente, o feminismo acredita que, naturalmente, não há géneros, que o género é uma instituição social. Que não há razão nenhuma para serem as mulheres a cuidar dos filhos, para as mulheres vestirem saias, etc. Ou seja, o feminismo puro e duro defende o desaparecimento do "género mulher" (não, como é óbvio, o desaparecimento das fêmeas, porque isso extinguiria a espécie). Isto é bastante claro em muitas autoras, não só europeias, mas também americanas, mais ou menos recentes, de várias correntes, desde as heideggerianas, às marxistas...

Ora, Nietzsche tinha um problema com isto porque discordava, justamente, do desaparecimento do "género mulher". 
Em primeiro lugar, a decisão de eliminar um dos géneros tem de ser fundamentada. Em segundo lugar, a preferência pelo "género homem" (paradoxalmente, é isso que o feminismo faz: prefere o "género homem") tem de ser justificada de tal modo que exclua a legitimidade das outras alternativas, incluindo, naturalmente, a hipótese de não eliminar nenhum dos géneros e apenas introduzir modificações (alterando hábitos, rotinas, padrões de julgamento, educação, etc.). Por exemplo, pode-se introduzir modificações no género, que é aquilo que a sociedade tem feito, porque hoje as mulheres já podem vestir calças, cortar o cabelo curto, etc.

Nietzsche achava que eliminar o "género mulher" era amputar o género humano. Por princípio, desconfiava de tudo aquilo que torna igual, que faz dos humanos simples exemplares da espécie. De facto, Nietzsche mais rapidamente aceitaria que o género humano precisa de ser superado, do que que o "género mulher" precisa de ser eliminado.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

A felicidade dos homens

A propósito do dever de sermos felizes...

Dizer: "nós temos a obrigação de procurar a felicidade" é como dizer à água que ela tem a obrigação de correr sempre para baixo. É como dizer ao ar quente que ele deve subir "para cima". Se a obrigação do humano é procurar a felicidade, então não há qualquer obrigação.

Tal como aquele que diz não haver liberdade pode ser surpreendido por alguém que lhe dê com um pau e, então, ter de ouvir deste que lhe deu com o pau porque não poderia ter feito outra coisa, também aquele que crê que a obrigação dos homens é serem felizes pode ser surpreendido por alguém cuja felicidade consista em pôr-lhe os intestinos a apanhar sol! Evidentemente, o bom do senhor poderia apenas dizer-lhe: "bem, despedaçar-te faz de mim um homem mais feliz".

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Post-truth, Nova ignorância, e Opinismo/Achismo

A propósito da Quadratura do Círculo 29 Dezembro 2016


De facto, o fenómeno da "nova ignorância" não é um fenómeno novo. Já escrevi aqui, no facebook, sobre o assunto. Os fenómenos de pós-verdade, que tanto se têm discutido graças a Trump, não muito antigos.
De resto, parece ser isso que está em causa em algumas descrições antigas da "doxa" (opinião).

Como é evidente, a opinião distingue-se da ignorância. A ignorância consiste em não ter assegurados os requisitos do conhecimento. Na verdade, já é uma tarefa hercúlea perceber quais são os requisitos do conhecimento - o que significa que é difícil perceber o que é o conhecimento, pois sem que os requisitos estejam reunidos, a coisa permanece incompleta. Assim, por maioria de razão, é muito difícil assegurar os requisitos do conhecimento, em primeiro lugar porque não sabemos bem quais são, em segundo lugar porque é difícil cumpri-los.
Portanto, a condição imediata e mais comum parece ser a da ignorância, da qual só com dificuldade se sai. Contudo, isto não prejudica o carácter da verdade, nem o estatuto do conhecimento. De facto, eu posso ser ignorante sem errar, pois basta que suspenda o julgamento sobre as coisas que não sei. De igual modo, posso instaurar processos de averiguação e de investigação acerca daquilo que desconheço. Assim, a ignorância, por si mesma, não diminui a dignidade da verdade, nem o estatuto do conhecimento, pois não tolhe a petição de cumprimento dos requisitos deste, nem anula a tensão para isso. Por estas duas excelentes razões, pode encontrar-se na ignorância uma espécie de esclarecimento - a famosa douta ignorância que sabe que não sabe e, por isso, está permanentemente em tensão para adquirir conhecimento.

A opinião, pelo seu lado, tem efeitos muito mais devastadores. Por várias razões, mas a primeira das quais é que aquele que tem uma opinião também não assegurou os requisitos do conhecimento, mas ao contrário do ignorante, contenta-se com a opinião. Quer dizer, quando se tem uma opinião mantém-se essa opinião, justamente, porque se lhe atribui validade. Se alguém diz ter uma opinião é porque a considera válida. Caso contrário, abandoná-la-ia. O problema é que a validade da opinião - a razão pela qual é opinião, e não conhecimento - é que aquilo que a está a validar é exclusivamente o facto de ser a opinião do sujeito. Nada mais, nada menos. E a razão pela qual este modo de validação é insuficiente é que ele não exclui a validade de nenhuma opinião. Ou seja, a validade da opinião que se tem não exclui a validade de todas as outras opiniões possíveis.
Evidentemente, isto corresponde à falência completa da dignidade da verdade e da intenção de conhecer. É isso mesmo que se diz quando se afirma que "é a minha opinião e pronto". Com isto sugere-se, justamente, que cada sujeito pode ter a opinião que for e, por isso mesmo, qualquer que ela seja é válida. Ora, os gregos presumiam, precisamente, o inverso: que a razão pela qual a opinião não está dotada de validade é que se pode ter qualquer uma.

A pós-verdade e aquilo a que Pacheco Perreira chama nova ignorância corresponde a esta forma de opinião: à opinião daqueles que acham que, justamente porque se pode ter a opinião que calha, qualquer opinião é válida - e isto inverte completamente o que está em causa na noção de douta ignorância, pois esta coloca o requisito de anular a arbitrariedade da opinião colocando sobre esta o ónus de excluir a validade de todas as alternativas.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Viver para trabalhar ou trabalhar para viver - a treta é a mesma

A propósito de trabalhar para viver...

Diz-se, muitas vezes, que o senso-comum vive para trabalhar. Isto é um equívoco.

O senso-comum é: não se quer apenas viver para trabalhar, quer-se, isso sim, trabalhar para viver. Que alguém, por via das circunstâncias, esgote a vida a trabalhar é outra questão, pois daqui não resulta que aquele que vive para trabalhar pense que o sentido da vida é trabalhar. De facto, um sujeito pode precisar de trabalhar para garantir certas comodidades e um sujeito pode querer garantir tantas comodidades que precisa de gastar o tempo todo a trabalhar, mas daqui não resulta que o sujeito queira viver para trabalhar. Pelo contrário, ele trabalha para viver, o problema é que aquilo que para ele é viver exige que ele gaste muito tempo a trabalhar. Pode até acontecer que um sujeito tenha de gastar todo o tempo apenas para adquirir as condições de sobrevivência, mas daqui não resulta que ele queira apenas sobreviver, acontece sim que o tempo que gasta a sobreviver o impede de ter tempo para também viver.

A tese do senso-comum é que se trabalha para viver e não que se vive para trabalhar.

A tese dos patrões é que é que os trabalhadores vivem para trabalhar. Os patrões mais empreendedores, mais dedicados, mais honestos chegam mesmo a acreditar que o sentido da vida é trabalhar - que a forma de garantir o sentido da vida é trabalhar nela.
Não interessa aqui discutir a tese dos empreendedores, porque esta tese não é a tese do senso-comum: a tese do senso-comum é "eu não vivo para trabalhar, eu trabalho para viver".
O problema desta tese é que ela pressupõe como adquirido aquilo que julga ultrapassar. Pressupõe como adquirido que há um sentido em viver - por isso mesmo, trabalha para viver. Levanta-se de manhã na pressuposição de que é preciso trabalhar para viver porque pressupõe que a vida está dotada de algum sentido, que faz sentido viver por alguma coisa que valida a necessidade de trabalhar para isso.
Portanto, o senso-comum julga que aquilo que há a fazer na vida não é apenas garantir as condições da vida, mas fazer algo nela para além dessas condições. O problema é que, deste modo, saltou, justamente, o problema de adquirir as condições da vida. Saltou, justamente, o problema do sentido, porque este esteve deste o início pressuposto.
É esta pressuposição que faz desta perspectiva uma perspectiva do senso-comum, vulgar e aparentemente compreendida por "todos", porque, de facto, todos percebemos que não queremos apenas sobreviver.
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