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sábado, 17 de março de 2018

Sobre a obrigação incondicional da existência futura da humanidade e o dever de reprodução


A propósito do dever de reprodução



Margaret Atwood, O Conto Da Aia

A humanidade atravessa uma das maiores crises da sua história: deixou de ser capaz de se reproduzir. Ou mais correctamente: as mulheres deixaram de ser capazes de procriar. Pelo menos, uma parte delas. Uma grande parte delas. A maior parte delas.
A maior parte das mulheres tornou-se infértil. Só uma pequena percentagem das mulheres ainda é capaz de se reproduzir.
Correspondentemente, surge um regime pragmático, prudencial, que rapidamente se apropria das mulheres férteis e as transforma em máquinas reprodutoras.

Hans Jonas, no livro O princípio da responsabilidade, defende que a existência não é um direito, mas sim um dever - um dever que inclui o dever de reprodução, pois a existência futura da humanidade é uma obrigação incondicional.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Um problema de ética: a extinção da humanidade...

A propósito do imperativo moral de que existam homens no futuro...


Imagine a seguinte situação:

1. A humanidade foi conquistada por uma espécie alienígena bastante inteligente;

2. Essa espécie precisa de grandes quantidades de energia e por isso toma controlo de todas as que existem na Terra. Além disso, tem um regime alimentar muito restrito, o que lhes torna muito difícil encontrar fontes de alimento. Contudo, os seus líderes ficam extasiados quando compreendem que o corpo humano é uma iguaria.

3. Os seres humanos são transformados num tipo particular de servos: têm de prestar servidão, a trabalhar em minas e centrais eléctricas, entre os 5 e os 18 anos, altura em que se convertem em "happy meals".

4. Pouco depois de os alienígenas terem tomado controlo, uma resistência humana ainda consegue operar, mas os seus líderes sabem que não têm muito tempo: no máximo, resta-lhes uma semana até que os conquistadores consigam rastrear toda a crosta terrestre, identificando, no processo, todas as bolsas de resistência.

5. Os líderes da resistência decidem reunir-se para decidir o que fazer. VOCÊ é um dos líderes.

6. Um ex-cientista excêntrico revela, na reunião, que possui um gás altamente mortal, muito eficaz, em quantidade suficiente para matar, de forma indolor, todos os humanos que existem. Existe também um plano para dissipar esse gás pelo Planeta, a partir das bolsas de resistência ainda activas.

7. A votação decorre líder a líder e você é o último a pronunciar-se. Quando chega a sua vez, a votação está empatada. Metade pensa que se deve extinguir a humanidade do que viver de forma tão indigna - alguns referiram-se a filósofos importantes, como Sócrates, para defenderem que nem todas as formas de viver são humanamente aceitáveis. Outra metade pensa que não se deve extinguir a humanidade, mesmo nesta situação limite - também houve quem referisse filósofos muito importantes, como Hans Jonas, para defender que é um imperativo que continue a haver homens no futuro, sobretudo porque não se pode saber o que o futuro reserva.

8. Você tem de votar. O seu voto será decisivo: extingue-se ou não a humanidade? Seja como for, para que os outros aceitem o seu voto, terá de lhes apresentar uma boa justificação. (Nota: lembre-se que não decidir significa deixar que a situação descrita em 3. ocorra - por isso, não decidir será, também, por força das circunstância, uma decisão.)