segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O que é mais decisivo em Jesus: ser deus ou ser pobre?

A propósito de deus, que se fez homem...


A ideia de que deus ter vindo à terra pobre é decisivo é um desentendimento - independentemente de ele ter vindo ou não. Se deus se fez homem, então aí está o decisivo, mas que ele tenha nascido num estábulo entre bosta ou num palheiro entre palha, tenha vivido como um servo ou como um escravo, ou que tivesse vindo como César, Imperador ou Generalíssimo - esta distinção é vazia e insignificante se deus de facto se fez homem. Porque se essa distinção - entre Imperador e escravo - tem alguma importância, não a tem, com certeza, perante o deus que se fez homem - se ele se fez homem - ou então ser imperador seria para deus mais do que ser escravo, e ao fazer-se escravo estaria, talvez, a sacrificar-se e com isso, de facto, deus não seria deus e seria irrelevante o fazer-se homem ou pedra - mas se deus se fez homem, então que ele tenha sido escravo ou imperador apenas pode saltar à vista dos homens que avaliam esteticamente as circunstâncias e as distinções. Se deus se fez homem, então o decisivo nesse homem é ter sido deus feito homem, e o decisivo de deus é ter-se feito homem - e não o ter sido pobre, como se ser pobre fosse uma distinção perante deus, como se perante deus - e justamente porque se fez homem - não tivesse o imperador e o escravo, cada um por si, de estar simplesmente como homem.

o natal, as imagens e os doces, o natal, a ofensa e a loucura

A propósito de concepções do Cristianismo...


Quando se conta a uma criança sobre o Cristianismo e ela não é violentada num sentido figurativo, a criança apropria tudo o que é simpático, infantil, agradável e celestial. Irá viver juntamente com o pequeno menino Jesus e com os anjos e os três reis magos; vê a estrela na noite escura, viaja ao longo do caminho, e agora está no estábulo, maravilha das maravilhas, e vê sempre o céu aberto; com toda a intimidade da imaginação, a criança suspira por estas imagens - e agora não nos esqueçamos dos doces nem de todas as outras coisas esplêndidas que se fazem nesta ocasião. Acima de tudo, não sejamos velhos patifes mentindo sobre a infância, afectando o seu entusiasmo exagerado e traindo a infância da sua realidade. Ter-se-ia de ser alguém que não servisse para nada para não se ser capaz de achar a infância tocante, encantadora e abençoada. [...] Mas, por outro lado, certamente que é um guia cego quem de alguma maneira, qualquer que ela seja, pretenda que esta é a concepção decisiva do Cristianismo que é uma ofensa para os Judeus e uma loucura para os Gregos.

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 521

O "como" e o "que"

A propósito de opiniões...

"Porque as pessoas no nosso tempo e na Cristandade do nosso tempo não parecem estar adequadamente cientes da dialéctica do aprofundamento íntimo ou cientes de que o "como" do indivíduo é uma expressão igualmente exacta e mais decisiva para o que ele tem do que o "que" para o qual ele apela, surgem por estes dias as mais estranhas e, se estamos para aí virados e temos tempo para isso, as mais ridículas confusões [...]."

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 533

Quando é que sabemos que somos humanos?

A propósito de humanos...

"Hoje em dia tornamo-nos […] um ser humano imitando outros. Que alguém é humano é conhecido não a partir do seu próprio caso mas por inferência: alguém é como os outros, logo é um humano. […] Deus sabe se algum de nós é humano!"

Kierkegaard, Journals, X, 1 A 666

O que é ter uma opinião?

A propósito de opiniões que se têm - ou que cada um acredita que tem...

O que é ter uma opinião? Se há coisa que toda a gente parece ter é opinião. É o artigo mais barato do mercado. E, simultaneamente, o que há mais são opiniões pré-fabricadas.

"Um homem declara alto e a bom som e com solenidade: Esta é a minha opinião. [...] o bom homem concentrou-se em berrá-la para fora em vez de a ter interiormente. O honorável cavalheiro pode estar certo quanto ao ter esta opinião na medida em que ele se faz acreditar a si mesmo, com todo o seu poder e energia, que a tem. Ele pode fazer de tudo pela sua opinião no seu papel como um moço de recados; pode arriscar a sua vida por ela; em tempos verdadeiramente confusos pode até ir tão longe ao ponto de perder a sua vida pela sua opinião* - agora estou alegremente bem seguro de que o homem tem de ter tido a opinião."

Nota de Kierkegaard: "Em tempos tumultuosos, quando o Governo tem de defender a sua sobrevivência por meio da sentença de morte, não seria inconcebível que um homem pudesse ser executado por uma opinião que ele presumivelmente tinha no sentido legal e civil, mas não no sentido intelectual."

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 535-6

sábado, 28 de dezembro de 2013

A igualdade perante o paradoxo...

A propósito de paradoxo...

Um desentendimento comum é o de que um paradoxo é um caso para pessoas inteligentes. Mas é justamente o contrário: perante um paradoxo o mais inteligente dos homens está ao mesmo nível que o menos inteligente. Porque compreender um paradoxo não é reduzí-lo a uma forma abstracta, lógica e linear de tal modo que se converta num não-paradoxo: isto seria exactamente o contrário de compreender o paradoxo porque o resultado da compreensão não reteria aquilo que, precisamente, se pretendia compreender, a saber, o paradoxo. Se o paradoxo é explicado de tal modo que se tem um não-paradoxo, então ou não se tratava senão de um paradoxo aparente, ou a compreensão não é senão aparente - mas se o paradoxo ou a compreensão são aparentes, então não há compreensão do paradoxo a notar. Portanto, o muito inteligente e o pouco inteligente estão precisamente no mesmo ponto no que toca ao paradoxal, a não ser que o mais inteligente se encontre de facto em maiores dificuldades na medida em que o seu afã de compreender produza a ocasião para ceder à tentação de converter o paradoxal numa explicação linear e assim se afaste definitivamente da possibilidade de compreender o paradoxo enquanto paradoxal.

Pode cada indivíduo salvar-se a si mesmo - ou está dependente de outra coisa?


A propósito de Cristianismo, em Kierkegaard...



O ponto é que cada ser humano deve ser igualmente capaz de ser si mesmo, consciente de si e existir autenticamente. Eticamente, tal habilidade é pressuposta - embora não possa ser qualquer coisa de que a pessoa ética se ocupa, pois o ético não precisa de aceitação ou confirmação externa para fazer o que a sua consciência dita. Religiosamente, o mais alto é comum a todos os humanos e cada indivíduo está sujeito ao mesmo rigor não sendo um favorecido em relação a outro, nem por qualquer acidente externo nem por qualquer talento. Se identificamos dificuldades acrescidas devido a aspectos circunstanciais, resultantes do contexto ou das capacidades do indivíduo, isso apenas significa que não se percebeu ainda qual é, de facto, a tarefa.

O problema, portanto, não surge na ética, nem na religiosidade - o problema surge no Cristianismo - enquanto pertencente à esfera do religioso, mas enquanto esfera própria da fé e do paradoxo. Embora o Cristianismo - não enquanto doutrina, mas sim enquanto "modo" em que se vive - se caracterize por apresentar-se, justamente, como o mais alto que a todos é comum - e que exige a todos o mesmo rigor, de tal modo que nem o rico, nem o mais inteligente estão em vantagem perante o pobre ou o menos inteligente, nem mesmo um homem que nasceu num país cristão e foi baptizado é mais facilmente cristão do que alguém que nasceu pagão e veio a encontrar o Cristianismo - embora a dificuldade seja igualmente árdua para cada indivíduo, na verdade surge como toda uma nova esfera, diferente mesmo do religioso não cristão, que é a imposição da condição pelo deus que veio a ser no tempo. E esta nova esfera - que se caracteriza por esta doação da condição pelo deus - cria, de facto, uma clivagem circunstancial - que não se verifica na religiosidade anterior, nem na ética... e assim, este problema não pode deixar de interessar ao filósofo - embora o cristão propriamente dito não lhe possa prestar qualquer atenção (e se lha presta já revela que não é um cristão - tal como o filósofo que a discute já mostra assim que não é cristão) e o problema é, pois, este:

"A felicidade vinculada a uma condição histórica exclui todos os que estão fora da condição, e entre estes está a quantidade imensa de todos aqueles que estão excluídos através, não de uma falta própria, mas pela circunstância acidental de o Cristianismo não lhes ter sido ainda proclamado.”
Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 508

“Uma vez que a relação com esse evento histórico (o deus no tempo) condiciona a consciência do pecado [a consciência mais viva de si], não poderia ter existido consciência do pecado durante todo o tempo anterior a esse evento histórico [o que implica que não poderia ter existido a forma mais definida e especificadora de consciência de si mesmo].”

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 509

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A compreensão do paradoxo...

A propósito de Paradoxo...

Um desentendimento comum é o de que um paradoxo é um caso para pessoas inteligentes. Mas é justamente o contrário: perante um paradoxo o mais inteligente dos homens está ao mesmo nível que o menos inteligente. Porque compreender um paradoxo não é reduzí-lo a uma forma abstracta, lógica e linear de tal modo que se converta num não-paradoxo: isto seria exactamente o contrário de compreender o paradoxo porque o resultado da compreensão não reteria aquilo que, precisamente, se pretendia compreender, a saber, o paradoxo. Se o paradoxo é explicado de tal modo que se tem um não-paradoxo, então ou não se tratava senão de um paradoxo aparente, ou a compreensão não é senão aparente - mas se o paradoxo ou a compreensão são aparentes, então não há compreensão do paradoxo a notar. Portanto, o muito inteligente e o pouco inteligente estão precisamente no mesmo ponto no que toca ao paradoxal, a não ser que o mais inteligente se encontre de facto em maiores dificuldades na medida em que o seu afã de compreender produza a ocasião para ceder à tentação de converter o paradoxal numa explicação linear e assim se afaste definitivamente da possibilidade de compreender o paradoxo enquanto paradoxal.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Sofrimento existencial

A propósito de sofrimento...

O humano está na temporalidade e na temporalidade não pode levar uma vida eterna. Na terra não pode viver uma felicidade eterna. A existência é sofrimento, mas não dor ou ausência de prazer: o sofrimento existencial não tem que ver com a dor, mas permanece mesmo que todas as dores estejam ausentes. A existência é sofrimento - se a vida do humano está na temporalidade ela está fragmentada, ela tem de estar misturada com a diversão e, na diversão, ele está distraído - está ausente, tão mais ausente quanto mais diversão estiver presente na sua vida. É na diversão - e não na dificuldade da vida - que se manifesta a inautenticidade. O homem feliz é, portanto, uma forma de inconsciência. Na existência, na medida em que há felicidade, aí há inautenticidade à mistura - a vida é sofrimento, e não sofrer é o reflexo da distracção.

(Cfr. Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 427)

Para que serve a ética em tempos de crise?

A propósito de «Para que serve a ética em tempos de crise?»


CONCURSO DE ENSAIO «PARA QUE SERVE A ÉTICA EM TEMPOS DE CRISE?»




Vencedor: Luís Filipe Fernandes Mendes

Cita-se a seguir o anúncio formal:

«

Anúncio formal do resultado do Concurso de Ensaio «Para que serve a ética em tempos de crise?»

por Filosofia na Católica

Ao abrigo do n.º1 do Artigo 5º do Regulamento do Concurso de Ensaio «Para que serve a ética em tempos de crise?», o Júri atribui o Prémio, por unanimidade, ao ensaio apresentado por
Luís Filipe Fernandes Mendes.
Atribuem-se ainda, também por unanimidade, menções honrosas aos ensaios apresentados por:
Nuno Miguel Gonçalves Ribeiro
Paulo Pereira de Carvalho
Laura Ravéra
David Santos
José António Rodrigues do Carmo
Luísa Borges
O prémio é entregue no início do ano lectivo de 2013-2014, no Campus de Lisboa da UCP, em data a anunciar.
O Júri
Mafalda Afonso
Mendo Henriques
Américo Pereira
Cecília Tomás
»

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O sofrimento continua enquanto se vive

A propósito da ilusão da felicidade e do fim do sofrimento

Procurar a Deus para sair do sofrimento é um desentendimento. O desentendimento é o seguinte: supor que o sofrimento é acidental, que, por isso, pode estar ou pode acabar, que agora nos oprime mas que, com a ajuda de Deus, seremos libertados dele pouco a pouco ou talvez abruptamente, por um qualquer milagre, seremos lançados na felicidade.
Mas o sujeito que assim pretende tornar-se feliz torna-se feliz como? Será que se torna feliz pela relação que tem com Deus? Mas, então, permanece no sofrimento. Ou será que quer dizer que quando recebe uma rica herança, quando a doença passar, quando o filho se curar ou as dores forem apaziguadas - numa palavra - será que quando o seu sofrimento for eliminado o sujeito se torna feliz porque o sofrimento foi aliviado? Porque se o sujeito se torna feliz porque o sofrimento foi aliviado então não foi na relação com Deus que o sujeito se tornou feliz e toda a sua gratitude é uma expressão estética. Religiosamente - quando o religioso é plenamente compreendido - tudo o que é exterior é, qualitativamente, o acaso, a sorte ou o azar, o que ética-religiosamente é nada. Religiosamente, sabe só Deus se uma doença é um castigo ou uma benesse, se a riqueza é um castigo ou uma benesse, se a saúde é um castigo ou uma benesse - poderia mesmo acontecer que um sujeito ofendesse a Deus e Deus o castigasse - para que a sua perdição fosse maior - justamente com aquilo que, do ponto de vista do mundo, é grande e apreciado: riquezas, carros, mulheres, uma carreira e muitos filhos. E então seria verdadeiramente essa a sua perdição se ele, mergulhado na sua felicidade, julgasse por intermédio dela beneficiar da graça divina quando era a sua perdição que estava a ser derramada sobre ele.

As esferas do ético e do religioso - Kierkegaard

A propósito de ético e religioso em Kierkegaard...

Eticamente, o homem sabe que nada mais lhe pode ser pedido além da sua decisão - pedir mais ou pedir menos não é humano nem preservará o humano. Porque o homem, se queremos que seja humano, não pode ser impedido de escolher o mal ou forçado a escolher o bem - o que seria pedir de mais - nem pode deixar de lhe ser exigido que escolha o bem ou que resista ao mal - o que seria pedir de menos. Eticamente, a decisão é tudo - e esteticamente é tão só nada, e é este nada que é, justamente, o mais difícil precisamente porque é nada esteticamente. Mas este mais difícil é o decisivo e nada mais pode ser exigido à consciência ética e nada mais pode ser exigido ao humano senão que ele se decida.

Religiosamente, nunca o homem pode dizer que há suficiência, religiosamente nunca há um basta, e o religioso que diz que faz quanto pode ou que já suporta tudo quanto pode ou que não tem mais forças para mais - não só não expressa o religioso como tenta a Deus, porque só Deus pode saber o que é exigido (se exige alguma coisa), e o homem não sabe melhor aquilo que é capaz de suportar ou de fazer do que sabe quantos cabelos tem na cabeça (se os tem). E assim o religioso supera o ético, mas supera-o preservando-o, supera-o elevando-o - e, no entanto, o religioso não é uma variação do ético, nem o ético uma introdução ao religioso, mas o religioso é toda uma nova esfera.

O religioso em Kierkegaard e a ironia em Sócrates

A propósito de religioso - e ironia...




O discurso religioso retrocede para o estético sempre que agradece a Deus a fortuna que o mundo lhe dá. Dizer-se que se está com Deus e que isso tem dado frutos é uma expressão estética: que se esteja bem casado ou que a carreira floresça são determinações estéticas e, religiosamente, é indiferente. Agradecer a Deus a riqueza ou a saúde - e nisto é indiferente querer tanto que não passar fome seja pouco, ou querer tão pouco que baste a saúde - é uma expressão estética que ilude se pretende ser religiosa. Porque se se agradece a riqueza ou a saúde por que se agradece a Deus? Será porque só Deus sabe se é para nós um bem a saúde ou a riqueza, ou porque sabemos nós o que para nós é um bem? Será que agradecemos a Deus porque só Deus nos interessa ou agradecemos-lhe porque nos foi útil ao dar-nos saúde ou riqueza? Será que realmente estamos na relação com Deus e no resto por acidente, ou será que estamos essencialmente no mundo e queremos de Deus o que dá jeito no mundo?
Na Grécia Antiga havia uns senhores que andavam de ilha em ilha levando pessoas e uma vez uma jovem foi buscar junto ao mar pelo seu futuro esposo. Encontrou lá a Sócrates a quem perguntou por ele. Sócrates, como só ele o poderia fazer seriamente, disse então que o navegador não sabia realmente o que fazia. A jovem, admirada, perguntou por que dizia ele isso - ao que Sócrates respondeu, como só ele o poderia fazer ironicamente, que o navegador não sabia o que fazia porque não sabia, quando levava homens de ilha em ilha e os descarregava em terra e lhes pedia as moedas, se não teria sido melhor deixá-los morrer em mar, pois que, na verdade, não podia o navegador saber se pior destino não os acolheria a nova ilha ou a cidade que os esperava... A jovem, na sua ingenuidade, ou talvez porque a fama de Sócrates precedesse a Sócrates, riu. Pois, que deveria ela fazer se não rir singelamente da ironia de Sócrates: dizendo a verdade como se fosse uma piada!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ética e religião nos dias de hoje...

A propósito de,


Kierkegaard considerava que a Igreja do seu tempo se tinha transformado numa espécie de teatro ou de hotel que fazia os possíveis para atrair clientes. Ora, de facto esta mentalidade permanece ainda hoje - de tal modo que já quase ninguém tem escrúpulos de dizer que a Igreja (qualquer uma delas) deve adaptar-se aos tempos, ir ao encontro das pessoas... Este afã de atrair clientes tem feito autênticas operações plásticas à ideia de salvação e ao caminho da salvação... É verdade que o evangelho diz que a porta da salvação é estreita e o caminho que leva lá difícil - mas quase já ninguém se lembra de tais incómodas palavras! Hoje o discurso religioso - não só dos padres, mas também de qualquer crente bem intencionado que nos pretenda chamar para a luz - embeleza de tal forma o caminho da salvação, o discurso das virtudes da fé que, a páginas tantas, uma pessoa já não sabe bem qual dos caminhos oferece maior tentação: se o caminho recto, se o caminho incorrecto... A fé e a virtude são de tal modo adornadas que parece impossível que o Diabo consiga arranjar coisa mais bela e doce, e parece quase impossível que alguém chegue alguma vez a pecar se o caminho da verdade é tão tentador!

O mesmo acontece com a ética, segundo Kierkegaard... o discurso que hoje se apresenta como ético reveste-se de uma sagacidade cuja máxima é: ne quid nimis. "Nada em excesso" em ordem a poder ainda obter mais... A isto chama Johannes Climacus: a doutrina da prudência - segundo a qual o eudemonista se torna estúpido, não porque - como a antiga ética estupidamente supunha - prefira o caminho do prazer em vez do caminho da virtude, mas porque não escolhe o caminho que, prudentemente, lhe traria mais prazer...

(cf. Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 403-404)

sábado, 14 de dezembro de 2013

Ética e psicopatas formais

A propósito de psicopatas...

Agora o exercício deve ser o inverso. Imagine-se um sujeito cuja vida é a expressão de uma decisão. Uma decisão que depois toma novamente de cada vez, de tal modo que a sua vida é sucessivamente escolhida - e, deste modo, não é um desenvolvimento automático da sua essência. Este indivíduo não é o desenvolvimento automático da sua própria essência. A sua vida é expressão da sua decisão.

Se imaginarmos um indivíduo destes cuja decisão seja, por exemplo, dedicar-se a ajudar os outros, que diferença existe entre este indivíduo e o psicopata que faz justamente o mesmo enquanto expressão do desenvolvimento da sua essência, que é o desejo totalitário de ajudar os outros? Qual é a diferença entre o indivíduo-decisão e o psicopata? Bem, as suas essências podem ser a mesma, podem ambos ter o mesmo desejo totalitário – mas, ainda assim, ambos são formalmente diferentes. O decisivo aqui é justamente que, enquanto exteriormente podem corresponder ao mesmo, interiormente a diferença é fundamental – e a diferença é tão fundamental que, perante ela, o psicopata e o diletante são o mesmo: ambos são uma variante do desenvolvimento de uma essência. Quer dizer: formalmente, o psicopata e o diletante são reduzidos ao mesmo substracto quando comparados com o indivíduo-decisão.

Psicopatas formais e ética

A propósito de psicopatas...


Tomemos a seguinte definição de psicopata: alguém que sabe o que o faz feliz e que se preocupa apenas com a obtenção disso (isto envolve, conforme os diferentes níveis de consciência disso, o esforço para obter isso, o esforço para a manutenção disso, o esforço para obter isso sem destruir as possibilidades de continuar a obter, etc, etc, etc - os níveis são progressivamente prudentes).
Dentro desta definição podemos pensar e observar no mundo pessoas que são psicopatas - e outras que o não são. Essas que o não são, chamemos-lhe esquizofrénicas existenciais, porque tendem a ter muitos fins, várias ocupações, e a embrenharem-se em existências mais ou menos diletantes, mas sendo sempre variações diletantes. Deixemos os esquizofrénicos existenciais e foquemo-nos nos psicopatas.
Os psicopatas existenciais podem ser muito diferentes, e cada época histórica parece favorecer mais uns ou outros, de tal modo que o psicopata que no século XII era um herói, hoje poderia ser um assassino, e aquele que hoje é um herói, não teria ficado na história no século X - e o inverso também é verdade: um herói do século IV a.C., hoje seria um sem-abrigo. É deliberadamente que não me estou a ocupar de dar exemplo concretos - mas qualquer um com o secundário feito pode muito bem encontrá-los na sua memória ou nos manuais. O decisivo aqui é que os psicopatas são aplaudidos, encarcerados ou ignorados conforme o tempo em que vivem - não conforme à sua psicopatia.
Então, há também psicopatas que têm um desejo totalitário de ajudar os outros. Se este desejo é considerado mórbido ou virtuoso, isso deve ser deixado aos psiquiatras ou aos padres - por agora preocupemo-nos com este facto decisivo: não há nenhuma diferença formal entre o psicopata que mata por prazer e aquele que dá abrigo aos pobres por prazer. Não há nenhuma diferença forma - repita-se porque isto é difícil de apreender.
Depois há um tipo formalmente estranho de psicopatia - aquele que tem o desejo totalitário de ser ignorado, isolado, só. Este psicopata é formalmente o mesmo que os outros: sim, é o mesmo. Mas não deixa de ser estranho - porque, formalmente, só pode ser o que é se, e apenas se, não acontecer com ele que o seu tempo lhe dê fama. Assim, se acontecer que um momento histórico ache por bem aplaudir o eremita, o eremita será transformado num fenómeno, e a essencialidade do ser fenómeno está no aparecer, enquanto a essência do eremita está no não aparecer. Mas, formalmente, o psicopata eremita é um psicopata, e o ser eremita é o que no ser-se psicopata é acidental - embora, para o sujeito, seja o ser eremita que é essencial. Mas o psicopata eremita é tão psicopata como os psicopatas que podem manter a sua essência mesmo quando se tornam fenómenos públicos - não há nenhuma diferença formal, há apenas uma curiosidade formal, mas esta curiosidade está essencialmente ligada à essência do sujeito, e não à forma psicopata: o que essencialmente distingue o psicopata assassino do psicopata eremita é que um é assassino e o outro eremita - mas ambos são psicopatas - e, por isso, o facto de o assassino poder ser aplaudido numa época não muda nada formalmente, embora o eremita, ao ser aplaudido, seja contraditado na sua essência - o que significa apenas que o eremita não vai gostar de ser aplaudido, vai rejeitar o aplauso, vai ser arrogante, vai fugir dos jornalistas, e pode até acontecer que estes movimentos o tornem ainda mais famoso e ainda mais heróico aos olhos dos seus contemporâneos...
O decisivo aqui é apenas uma coisa: temos uma forma apenas, a forma psicopata, o resto não é decisivo quanto à forma. Para apontar uma diferença formal precisamos de, por exemplo, descrever outra forma, por exemplo, a forma diletante. Assim, a diferença entre aquele psicopata que está preso e aquele que está nos tops da publicidade é uma diferença acidentalmente histórica, tal como a diferença entre o psicopata assassino e o psicopata bem-feitor é apenas uma diferença acidentalmente subjectiva. Na medida em que ambos desenvolvem apenas a sua vinculação a si mesmos, devemos dizer que, eticamente, nenhum deles põe nada de valor - enquanto ambos desenvolvem um talento, a única coisa a debater aqui é se estamos perante uma a-moralidade ou uma i-moralidade...
O problema, então, é o seguinte: a que forma corresponde o ético??? (Nota bene: nenhuma das anteriores)

Mandela é uma possibilidade humana - para cada humano

A propósito de admiração

O espectáculo a que se tem votado a morte de Mandela é uma aparência. É uma ilusão.
Tem-se realçado severamente a excepcionalidade de Mandela, e isso é admiração e a admiração é imaginação. As pessoas imaginam que entenderam Mandela que existiu e fez isto ou aquilo, cumpriu este ou aquele feito espectacular, se comportou desta ou daquela maneira excepcional, e é aqui que reside a ilusão: no imaginar que tudo isso são factos históricos que caracterizaram um grande homem que nos suscita admiração - e esta admiração é que é ilusão. A pessoa de Mandela é transformada numa excepção que se admira por ter sido um grande homem, e que aquilo que ele fez o fez porque era excepcional, um homem como os outros não são: um homem como Eu não posso ser - e é aqui que reside a ilusão. A admiração é a ilusão pela qual Eu me isento de ser como ele foi, porque o "como" dele já foi petrificado na realidade dele como marca da distância dele a mim: eu não faria o mesmo, mas está tudo bem porque, afinal, ele era um grande homem e eu sou insignificante. Que Mandela é um homem excepcional, que portanto ser um homem excepcional não está ao alcance de todos, que seguir a própria consciência está reservado apenas a uns seres humanos que volta e meia surgem no Planeta, eis a ilusão, eis a aparência, eis a auto-ilusão, a desculpa que dou a mim mesmo para não ser nada como ele.
Na admiração de Mandela cada um isenta-se, cada um aplaude - mas não concebe realmente a realidade ética de Mandela como uma possibilidade sua. A consciência de Mandela deveria ser excepcional, ele deveria ser um ente diferente dos demais, qualquer coisa que não era deste mundo - e ouvimos de facto as pessoas dizerem coisas como estas... Tal como o procurador que acusou Mandela lhe disse que se sentia mal com o seu trabalho por ter de o acusar: mas Mandela, para fazer o que fez, teve que arriscar tudo - o procurador admirava aquele ser que estava à sua frente, à sua mercê, esse ser excepcional que arriscara a vida, que estava em risco de perder a vida por ser capaz de seguir a sua consciência, e o procurador sentia admiração por esse ser tão excepcional com o qual, evidentemente, não se poderia comparar... arriscar como Mandela arriscara não era, para o procurador, evidentemente, uma possibilidade...
A admiração que podemos ter por Mandela, por Sócrates, por Jesus - esta admiração é justamente a ilusão, porque enquanto admiramos pessoas que viveram e existiram nas suas possibilidades, mas as admiramos justamente enquanto pessoas reais, não concebemos que a realidade dessas pessoas seja uma possibilidade nossa, precisamente porque as consideramos excepcionais. As vidas reais das pessoas reais que admiramos enquanto tendo sido sujeitos históricos dignos de admiração não são concebidas como possibilidades nossas, porque não temos a seriedade necessária para levar a sério as suas vidas na medida em que são pessoas históricas e reais. Mas só quando as suas vidas são concebidas como possibilidades nossas, isto é, só quando não deixamos adormecer a nossa consciência na ilusão de que a realidade dessas pessoas se deveu a qualquer coisa de excepcional nelas, a algum talento, a alguma diferença, talvez uma alma mais robusta, um espírito mais musculado - só quando se desfaz a ilusão de que connosco não se trata de seguir a nossa consciência tal como eles seguiram - só então entendemos que essas vivas não são factos, mas sim possibilidades existenciais, possibilidades autênticas que também nós - essencialmente nós temos disponíveis. Cada um está apto a ser ético - o ponto decisivo não está nas diferenças. Transformar o sujeito ético num facto histórico e seguir explicando as suas acções psicológica, biológica, biograficamente - é uma ilusão...

Outra ilusão - embora de tipo diferente - é a de tomar o sucesso de Mandela como prova de sua grandiosidade moral. O seu sucesso não prova nada - e não tivesse ele alcançado sucesso, tivesse ele morrido antes de ser reconhecido, tivesse ele sido esquecido, isto seria indiferente, isto seria acaso. É uma imoralidade julgar que a história julga eticamente ou que a moralidade será sancionada historicamente.

Outra ilusão é julgar que o talento de Mandela para conquistar as pessoas é prova de alguma coisa... já deveríamos saber que as pessoas com talento para conquistar outras são da mais diversa espécie. Mesmo que toda uma geração, toda uma época se renda a uma personalidade, ainda assim nada é posto eticamente - e o inverso mantém-se válido, a saber, que mesmo que uma pessoa não convença ninguém pode estar certa, pode ser justamente a única que age eticamente. Ignorar este facto é imoral e com certeza não é ético.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Sofrimento e consciência de si em Kierkegaard

A propósito de sofrimento...



Para Kierkegaard o sofrimento é próprio da consciência de si. O sofrimento não é próprio da autenticidade como qualquer coisa que deve ser vencida e superada - mas pela sua continuidade perpétua. A autenticidade é sofrimento contínuo e que tem, para ser realmente autenticidade, de ser escolhido. Aquilo que é considerado o mais natural, o mais simples e, por isso, uma perda de tempo, é justamente o mais difícil, aquilo acerca do qual cada um mais se engana a si mesmo: a saber, o ser autenticamente um humano. Para se ter a ideia do que isto significa tem que se colocar uma mão sobre uma placa ardente, sentir a dor e, depois, não tirar a mão - não pensar noutra coisa, não recorrer aos treinos psicológicos que permitem que certos tropas especiais suportem as dores, não. O sofrimento deve aqui ser entendido como aquilo que o sujeito deve querer manter, não porque ele se tenha tornado qualquer coisa agradável, não porque se tem um gosto por sofrer - o que ainda é um engano, uma ilusão, um ainda não ter percebido o que é o sofrimento. E depois é preciso ainda perceber que não se está, de facto, a falar de sofrimento físico, mas do sofrimento da interioridade. Então temos aí uma pequena ideia de que, de facto, não é fácil ser-se um humano na plena consciência de si como sujeito individual existente.
(Cf. Johannes Climacus, Anti-Climacus e discursos edificantes)

Dizia Johannes Climacus no Postscriptum que, se devesse ficar famoso por alguma coisa, que o ficasse por não compreender as exigências do seu tempo. No seu tempo as pessoas queriam tornar tudo mais fácil e cómodo, ou ter tudo comodamente facilitado. No seu tempo era assim.

domingo, 8 de dezembro de 2013

O indivíduo e a manada - Uma sugestão compreensiva

A propósito da equivocidade da História e da Relatividade dos padrões culturais...

O estudo das culturas humanas transmite uma ideia ilusória do que significa ser humano. Primeiro observam-se diferentes povos para registar diferentes culturas. Depois, supõe-se que o humano é exclusivamente isso, essencialmente a cultura em que habita. A ilusão está na ideia que o homem vem a ser humano, que ser humano tem que ver com o processo de integração cultural no qual os indivíduos interiorizam padrões culturais e se tornam membros de uma comunidade, pensando de forma semelhante, pelo menos estatisticamente unificados. Assim, diz-se que o homem tem de tornar-se humano, como se tratasse de tratar os homens em manada, uma manada de cabras, uma manada de ovelhas, uma manada de vacas - e assim cada povo seria uma manada diferente, mas cada uma seria uma manada. A ilusão está em que, de facto, o homem deve tornar-se humano, ser humano não está, de modo algum, adquirido à partida. Que o homem deve tornar-se humano é uma constatação excelente que, no entanto, aqui desvia completamente o olhar, não porque ela esteja errada, mas justamente porque ela está certa. Ao observarem-se os povos para identificar as diferentes "formas de vida" aquilo que justamente fica ignorado, esquecido, é o aspecto individual da pessoa humana, e pode acontecer que seja precisamente na existência da pessoa individual que resida a essência do humano. Então, se já se esqueceu o indivíduo, de facto pode-se estudar este povo que sacrificava crianças aos milhares, aquele que consumia homens, outro ainda que matava os idosos - e em todos estes registos o que fica por registar ou, de qualquer forma, por receber atenção, é aquele indivíduo isolado, sofredor, corajoso que, a despeito daquilo que se passa ao lado de si, daquilo que todos à sua volta comemoravam, recusava, justamente, isso que os estudiosos dizem ser aquilo que faz um humano, a cultura que em manada tanto mata recém-nascidos como louva os direitos humanos. Se numa nota de rodapé um antropólogo faz notar os intrincados modos de uma cultura para castigar aqueles que recusavam participar nos procedimentos de massa desse povo - imediatamente a seguir esquece que esses procedimentos comprovam que havia quem recusava o ritual quando pretende desculpar as pessoas desse povo absolvendo o povo como um todo. Que interessante seria a investigação cuidada e demorada daqueles indivíduos que, em cada cultura, recusaram esses padrões, esses comportamentos aceites em manada! Que interessante seria registar não só o padrão, mas também o indivíduo que apesar da tendência para interiorizar padrões culturais, julgou pela sua consciência... aquele indivíduo que recusou o sacrifício de crianças a Tlaloc, ou aquele que poupou a vida de um inimigo em vez de o cozinhar... Não será também interessante que alguns que por nascerem num povo canibal seriam referidos como canibais também tenham sido capazes de recusarem ser canibais - e que alguns que tendo nascido numa época de caça às bruxas acabaram por ser caçados justamente porque defenderam as "bruxas"? Não será também interessante reparar que em todos esses tempos e povos houve aqueles indivíduos que não participaram ou até se rebelaram contra aquilo que se considera ser o "essencial" desses povos ou desses tempos? E em todos esses tempos e povos houve uma imensa maioria que se comporta como onda, de facto escurecendo e esbatendo, não esta ou aquela minoria com que o historiador também tanto gosta de se ocupar - mas este ou aquele indivíduo que, isolado, provavelmente com medo, talvez indeciso, foi ele mesmo, só, sem manada!


Cfr. Kierkegaard's Concluding Unscientific Postscript to Philosophical Fragments, ed. & transl. Hong & Hong, pp. 214-215:

"Será que o ser humano se tornou agora qualquer coisa diferente do que era antigamente, não é a condição a mesma: ser um ser individual existente, e não é o existir o essencial enquanto se é na existência?"

Não é mais fácil para o indivíduo existente actualmente ser autenticamente si mesmo do que era para o asteca, o grego, o homem da idade média - e se nesse tempo "o terror era sofrer ofensas físicas, o terror nos nossos dias é que não há terror", tudo parece tão fácil, e porque parece tão fácil ser-se indivíduo, ninguém perde realmente tempo a ocupar-se disso.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Mandela v/s Cavaco, dignidade e indignidade humana

A propósito das condolências de Cavaco em relação à morte de Mandela... ou quando um homem deveria saber ficar calado por ser tão estúpido que qualquer coisa que diga só pode soar a asneira...

Já é uma completa falta de respeito para com Mandela que os nossos governantes se pronunciem sobre ele e sobre a sua actuação ao longo da vida. E é uma falta de respeito porque os nossos governantes representam o oposto de Mandela, isto é, representam não a ditadura de direito e de facto, mas sim representam aquela postura muito mais ignominiosa de quem sempre está do lado dos interesses do momento e que, portanto, tanto é indiferente à dignidade humana como colabora com as piores atrocidades: são assim os nossos governantes.

Mas pior é Cavaco Silva. Este senhor que hoje, para prova de que a factualidade histórica dá visibilidade e sucesso segundo o acaso de forma absolutamente indiferente, este senhor que hoje é o Presidente de Portugal para prova de que os portugueses sabem esquecer mesmo as coisas que são mais importantes, este senhor que hoje envia mensagem de condolências pela morte de Mandela, para prova de que não tem esqueleto moral, foi justamente aquele que, no momento em que a maioria da diplomacia mundial se alinhava do lado de Mandela quando ele precisava e era altura de lhe dar apoio, esteve do outro lado, do lado dos fracos, sem coragem, sempre com um olho nos interesses do momento e nos interesses de amanhã, e que não têm escrúpulos em mostrar com as suas acções que não têm uma consciência, ou que, se a têm, a mantêm domada. Este senhor, Cavaco Silva, que por um acaso obtuso ocupa a presidência, este senhor é muito pior e da sua boca sair um murmúrio bajulador da memória de Mandela é um muito maior insulto àquilo que Mandela representa. Porque quando Cavaco permaneceu do outro lado quando Mandela mais precisava, já o mundo estava a perceber que Mandela representava o lado de onde mandava a consciência que se estivesse - e ainda assim Cavaco foi casmurro, apegado aos interesses, os seus ou os de Portugal, os desse momento, ou os do futuro desse momento - não interessa: em nome de interesses, Cavaco preferiu estar do outro lado, objectivamente contra Mandela e contra as crianças vítimas daquele regime indigno do apartheid. Resistiu na sua persistente teimosia a favor dos interesses, dos benefícios, das vantagens - tal como hoje continua desse lado, e esse lado é decididamente o outro lado, o lado que ao longo da História sempre esteve presente para esmagar, aprisionar, torturar e matar homens como Mandela...

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Kierkegaard, citações



Todo o conhecimento essencial diz respeito à existência, ou, apenas o conhecimento cujo relacionamento com a existência é essencial é conhecimento essencial. [...] Assim, só o conhecimento ético [...] é conhecimento essencial. Mas todo o conhecimento ético [...] é essencialmente um relacionar-se com o existir daquele que conhece.
[...]

* [...] o que está a discutir-se aqui é a verdade essencial, ou, a verdade que está relacionada essencialmente com a existência [...]

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 165-167

Kierkegaard, citações



o que é desenvolvido nestas páginas não representa qualquer interesse para aqueles que têm mentes simples, e que, sentindo o fardo da vida de outra forma, Deus quer preservar na sua louvável simplicidade, a simplicidade que não sente necessidade de outro tipo de compreensão, ou, na medida em que essa necessidade é sentida, tende a tornar-se apenas um suspiro sobre a miséria da vida, o suspiro que encontra conforto no pensamento de que a felicidade da vida não consiste em ser uma pessoa de conhecimento. Por outro lado, de facto interessa àquele que pensa que tem o talento e a oportunidade para investigações mais profundas, e pertence-lhe de tal maneira que o impede de virar as mãos sem pensar para a História do Mundo antes de ter em mente que ser um ser humano existente é uma tarefa tão extenuante e, ainda assim, tão natural para cada ser humano que uma pessoa naturalmente a escolhe primeiro e, provavelmente, nela encontra o suficiente com que se ocupar durante uma vida.

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 141

Kierkegaard, citações


A dificuldade de uma questão manifesta-se precisamente quando é posta na sua simplicidade, [...].

Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 143

Kierkegaard, citações







A verdade objectiva não é suficiente para determinar se aquele que a diz é são, pelo contrário, ela pode justamente mostrar que ele é louco embora aquilo que ele diz seja inteiramente verdadeiro e, em particular, objectivamente verdadeiro.



Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 162

Kierkegaard, citações





quando tudo se conjuga para tornar tudo mais fácil de todas as maneiras resta apenas um perigo, nomeadamente, o perigo de que a facilidade se torne tão grande que tudo se torne demasiado fácil.



Kierkegaard, Postscriptum Conclusivo Não-científico, VII, 155

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Leituras de Kierkegaard

A propósito de consciência...

A consciência ética protesta contra toda a objectivação - ela apela ao sujeito, na sua interioridade mais própria, reclamando que cuide de si mesmo com a maior seriedade. A consciência ética intima o indivíduo na sua mais profunda intimidade, e é nesta profundidade que se encontra o direito mais radical do indivíduo de acolher-se a si mesmo - a consciência é uma intimação da subjectividade: objectivamente, ela é nada de nada. Mas mesmo que esteja presente num único humano de entre todos os espécimes de Homo Sapiens Sapiens, então ela está apenas nele, como sempre esteve apenas no indivíduo, e é nessa consciência única, irredutível e sem abstracção possível que a humanidade se conserva acima de toda a história mundial, de toda a explicação sistemática, e de toda a interiorização dos costumes.
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