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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Isaías 2:22

A propósito de Humano


Em grego, na Septuaginta (edição de Luciano e outras, embora com algumas diferenças - a propósito ver    Vetus testamentum graecumcum variis lectionibus, Tomo IV)


Isaías 2:22

Παυσασθε υμιν απο του ανθρωπου ο αναπνοη εν μυκτηρι αυτου οτι εν τινι ελογισθη αυτος

Deixai o humano, cujo fôlego está no seu nariz, pois em que é que ele conta?

Podemos traduzir de forma menos literal:

Deixai o humano, esse orgulhoso, pois que é que ele vale?


O texto em hebraico חדלו לכם מן־האדם אשר נשמה באפו כי־במה נחשב הוא׃, é traduzido normalmente no mesmo sentido:

Deixai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar? 
(João Ferreira de Almeida)

Mas a Bíblia da Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), de 1993, verte assim:

Deixem, pois, de confiar no homem! Ele não é mais do que um sopro. Que valor tem ele, então?



Parece haver de facto uma comparação entre o humano e o sopro, na fugacidade de cada inspiração e expiração.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Comentário a Jonas (Septuaginta)

Ver tradução aqui
A propósito de Jonas, do Antigo Testamento



Comentário:

O livro de Jonas não é puramente original. Em 2 Reis 14:25 (na Septuaginta a referência é 4 Reis 14:25) é mencionado um profeta, chamado Jonas, filho de Amitai. O profeta teria anunciado que o Rei Jeroboão iria reunificar o território de Israel. Em Jeremias 51:34, Jerusalém queixa-se que foi devorada por Nabucodonosor e depois cuspida. Portanto, quer o profeta Jonas, quer a ideia de um monstro engolir uma pessoa, já estavam nas escrituras. Por curiosidade, a Septuaginta compara o rei babilónico a um dragão (δράκων, traduzindo תַּנִּין, tannin, monstro marinho, figura mitológica que personificava o caos original).
O verso de 2 Reis deixa-nos perceber que Jonas é um profeta, um servo do Senhor, mas também um nacionalista, um israelita convicto. Por outro lado, o texto de Jeremias é uma espécie de imprecação de Jerusalém contra a Babilónia, que a havia submetido e deportado a sua população. Ambos os textos encontram repercursão no livro de Jonas, quer na estória em si (o monstro marinho), quer na personalidade de Jonas (claramente avesso ao povo de Nínive, capital da Assíria, a qual submetera o reino israelita de Efraim e cercara a própria Jerusalém).
O livro começa com Deus a interpelar Jonas, dando-lhe uma mensagem. Jonas deveria dirigir-se para Nínive e anunciar que Deus tinha conhecimento da sua perversão. A mensagem é mais clara do que parece. Deus estava, através de Jonas, a anunciar um castigo pelos crimes de Nínive. Na mente de um hebreu estariam bem presentes os crimes em causa. O texto não nos diz claramente que perversão estaria a merecer um castigo eminente, mas, para um hebreu, a Assíria era um inimigo tradicional e seria de supor que esperasse que um tipo qualquer de calamidade se abatesse sobre Nínive.
Curiosamente, Jonas não aceita imediatamente a ordem de Deus. Podemos imaginar que um hebreu desejasse estar em qualquer parte, menos em Nínive. Jonas procura, então, fugir da presença de Deus. Contudo, descobre que essa fuga é impossível. Embarcado, a caminho de Thársis, o barco em que segue fica envolvido numa tempestade. Uma tempestade que Deus acordou. É de notar que todos os marinheiros, gentios, ficam tomados de medo e começam a rogar, cada um aos seus deuses, pedindo para serem salvos. Enquanto isso, Jonas dorme profundamente no interior do navio. Este relato provoca uma sensação de estranheza porque seria de esperar que Jonas não estivesse de consciência tranquila. Se fugia de Deus, então deveria encontrar-se em profunda angústia. Todavia, parece perfeitamente em acordo consigo próprio para poder dormir profundamente no porão de um navio que atravessa uma tempestade.
O capitão do navio estranhou o comportamento de Jonas, e provavelmente também os restantes marinheiros que quiseram saber a razão daquela tempestade. É importante notar que os marinheiros mantêm sempre uma atitude de confiança na capacidade de Deus para lhes preservar a vida. Mesmo quando Jonas lhes conta que está a fugir a uma ordem de Deus, não caiem em desespero e confiam plenamente que Deus poderá não os destruir. Aliás, os marinheiros demonstram um profundo respeito por Deus, pelo Deus de Jonas, que apesar de lhes ter enviado uma tempestade só porque transportam o profeta, não deixa de ser considerado capaz de perdão. Os homens do navio preocupam-se, evidentemente, com a própria morte, mas também com a vida de Jonas. Expressam de forma vincada que não desejam ser responsáveis pela sua morte. Este aspecto é muito revelador, porque seria de esperar que quisessem imediatamente executar aquela que pareceria ser a vontade de Deus: castigar Jonas, talvez matá-lo. Mas, ao contrário disso, pedem a Deus que não os torne em danos colaterais (“não deixes que sejamos destruídos por causa da alma deste homem”), nem faça deles os carrascos de Jonas. Antes de o lançarem ao mar, seguindo a sua própria recomendação, procuram levar o barco para perto de terra e é a tempestade que não o permite.
Uma vez Jonas no mar, Deus envia um monstro marinho (κῆτος, de onde derivou cetácio) que engole Jonas, preservando-o no seu interior. Agora sim, Jonas angustia-se e dirige-se a Deus.

“Clamei, na minha angústia, ao Senhor meu Deus, e ele escutou-me: da barriga do Hades ouviste o clamor da minha voz. Atiraste-me para as profundezas do coração do mar e as correntes devolveram-me. Todas as tuas ondas e as tuas vagas me atravessaram… Fui afastado dos teus olhos. Irei ainda olhar para o teu templo sagrado? A água rodeia-me até à alma, o abismo rodeia-me ao limite, a minha cabeça afundou-se nas fendas dos montes. Desci à terra, cujas grades são pedras tumulares eternas, e levantaste a minha vida da destruição, Oh Senhor, meu Deus. Estando a morrer a minha alma em mim lembrei-me do Senhor, e cheguem até ti as minhas preces no teu santo templo. Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão. Mas eu, através da voz de adoração e gratidão, sacrifico a ti: quanto prometi, te darei, Senhor da Salvação.”

Jonas confessa a sua angústia recorrendo a imagens profundamente significativas: o interior do monstro é comparado ao Hades, o mundo dos mortos. Jonas sente a morte sobre si. E confessa que foi preciso encontrar-se naquela situação para se lembrar de Deus: “Estando a morrer a minha alma em mim lembrei-me do Senhor”. Declara que tudo o que promete irá cumprir e clama pelo “Senhor da Salvação”. Jonas não se limita a solicitar um salvamento. A forma como o faz é afirmando que Deus é um deus de salvação. Jonas proclama que Deus escuta as suas preces e pede para voltar à presença do Senhor. E assim o peixe cospe o profeta para terra e este vai para Nínive.

Também muito curioso é o que sucede quando Jonas começa a pregar em Nínive. Tal como acontecera com os marinheiros que se converteram prontamente, também todos os habitantes de Nínive, Rei incluído, se arrependem do seu comportamento. O comportamento de perversão e, aparentemente, de iniquidade (ἀπὸ τῆς ὁδοῦ αὐτοῦ τῆς πονηρᾶς καὶ ἀπὸ τῆς ἀδικίας τῆς ἐν χερσὶν αὐτῶν) é o alvo da ira do Senhor. Seja qual for a iniquidade específica de que os assírios estavam a ser acusados, remediado o mal, foram imediatamente perdoados. O Senhor muda o seu pensamento, muda a sua compreensão, retrocede, arrepende-se – enfim, resolve não aplicar o castigo previamente decidido. O aviso foi suficiente. Não chegou a existir o castigo para o qual o aviso remetia.

Há um aspecto que habitualmente escapa às análises do livro de Jonas. Na realidade, em nenhum lugar do escrito se encontram palavras de Deus afirmando qual seria o castigo. Deus ordena a Jonas que informe os habitantes de Nínive de que as suas perversões tinham chegado ao seu conhecimento. Nesta ordem está implícito um castigo, mas este nunca é dito. É Jonas que, atravessando a cidade, proclama que esta será destruída em três dias. Isto é suficiente para que todos se arrependam e mudem de comportamento. Mas a destruição da cidade nunca chega.

Jonas não fica agradecido pelo perdão concedido. Não lhe agrada que o castigo que anunciou não tenha vindo. Ele desejava ver a destruição de Nínive – e sentou-se à espera que tal sucedesse. Então, Deus faz surgir uma planta para proteger Jonas do sol (apesar dele já ter feito uma tenda). E a verdade é que Jonas se afeiçoou à planta. No entanto, Deus fez com que secasse tão rapidamente como surgira e Jonas ficou triste de morte. É significativo que Jonas tenha tido esta reacção demasiado sensível a um acontecimento tão banal como o secar de uma planta. O texto está a sugerir que Jonas se deixava atingir por acontecimentos que não tinham a importância que ele lhes atribuía. Talvez Jonas tivesse a tendência para exagerar as coisas. Mas há uma pergunta que se impõe e que o texto faz. Como pode ser correcto que Jonas se emocione tão facilmente com a morte de uma planta, mas aceite pacificamente e defenda mesmo tão arreigadamente a morte de milhares de pessoas que levam as suas vidas em Nínive? Pelo menos parte delas sem habilidade para distinguir o bem do mal (“não conhecem a sua mão direita ou a sua mão esquerda” – pode tratar-se de uma referência às crianças, ou a afirmação de que os gentios em geral não distinguem o bem do mal, mas que em qualquer dos casos, quem não possui essa habilidade, não merece ser condenado). Há ainda os animais que, desconsiderados na quase totalidade da Bíblia, neste escrito assumem um lugar. A pergunta é retórica e não se esperaria que Jonas respondesse. Mas a mensagem é clara: a compreensão de Jonas estava claramente enviesada se preferia a vida de uma planta à vida de milhares de humanos (incluindo crianças) e animais.
A leitura desta parte final é discutível, mas parece estar a afirmar que as crianças e os animais de Nínive são razão suficiente para poupar a cidade a uma calamidade.

O livro de Jonas não deve ser lido como se se tratasse de um manual de História. Parece-nos claramente alegórico, metafórico. É muito pouco provável que Jonas tenha sido engolido por um peixe ou por uma baleia, que uma planta tenha crescido numa noite, enfim, que tenha de facto existido o Jonas desta estória. Contudo, podemos tentar colocar a estória numa perspectiva mais realista, ou melhor, mais próxima daquilo que poderemos aceitar como passível de acontecido, tendo em conta o paradigma que hoje partilhamos. Enfim, não seria estranho admitir que os judeus do período de elaboração deste texto (séc. VI a. C. - ver mais abaixo) se sentissem revoltados pela postura da Assíria no passado. O sentimento de que a Assíria fora responsável por um conjunto de iniquidades cometidas contra Israel deveria estar enraizado. Neste contexto, seria normal surgirem interrogações sobre a aparente apatia de Deus. Como vimos, Jeremias descreve a ira do Senhor para com a Babilónia, outra cidade agressora. E o Senhor tinha por hábito castigar outros povos que se metessem no caminho dos judeus. Seria estranho, então, para um judeu com sentimentos de vingança que nada se passasse, que nenhuma vingança divina caísse sobre Nínive, que não tivesse sido destruída (claro que, entretanto, a Babilónia e o Império Persa também haviam submetido a Assíria, mas isso não faria desaparecer o rancor acumulado, sobretudo porque a própria Jerusalém havia sido submetida também). É possível que, a certa altura, este sentimento pudesse ter criado inconvenientes e podemos imaginar que impossibilitassem o desenvolvimento de relações mais amistosas entre os dois povos. Neste contexto, não seria estranho imaginar o desenvolvimento de uma opinião diferente, que procurasse reconciliar os povos. Alguém que defendesse este tipo de abordagem reconciliatória poderia muito bem ter desenvolvido a figura de Jonas como representativo dos judeus que desejavam a vingança. Tal como Jonas, esses judeus haviam desejavam que Nínive fosse castigada, mas não estiveram preocupados em levar até Nínive a mensagem do Senhor, e por isso era expectável que Nínive tivesse permanecido na sua conduta reprovável. Jonas fugiu e talvez alguém quisesse com isso dizer que também Israel, de algum modo, fugiu à sua responsabilidade para com a mensagem de Deus.
O autor talvez pretendesse dizer que Deus nunca dissera que Nínive deveria ser castigada desta ou daquela forma. Foi Jonas que, ao entrar pela cidade adentro foi proferindo o seu anúncio de destruição (por outro lado, não é incomum que, na Bíblia, os profetas anunciem palavras que não vimos serem proferidas por Deus, por isso não podemos simplesmente assumir que nesses casos os profetas dizem palavras exclusivamente da sua própria responsabilidade – mas a verdade é que Deus não declarou nada sobre o castigo a aplicar). Deus dissera apenas que sabia das maldades cometidas por Nínive. Da mesma forma, o autor deste texto pode estar a insinuar que os judeus que desejavam uma calamidade em Nínive estavam a fazer julgamentos pela própria cabeça, e que não era Deus que tinha proferido um castigo. Mas, ainda que assim fosse, talvez Deus tivesse simplesmente perdoado o passado de Nínive quando se tornou evidente que o seu comportamento mudara para melhor. O escriba poderia estar a afirmar a sua opinião sobre o assunto dizendo que Nínive já não era a cidade perversa de outrora e que deveria ser perdoada.

Jonas criticava veementemente aqueles que adoravam outros deuses ou ídolos, e acreditava que não mereciam compaixão (“Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão”). Jonas esquecia-se de que ele próprio já desobedecera flagrantemente a uma ordem directa de Deus. Tentara fugir e acabou no interior de um monstro marinho. Mas Deus perdoara-o. Por sua vez, Jonas escusava-se a perdoar Nínive agora, mesmo depois de toda a cidade se ter convertido. Talvez alguns judeus também se tivessem esquecido de todos os relatos que, nas escrituras, recordam que momentos houve em que o próprio povo escolhido pelo Senhor virou as costas a Deus, adorou bezerros de ouro ou deixou corromper os costumes.
Jonas era um servo do Senhor, prometera cumprir todas as promessas e parecia exigir que Deus cumprisse a suposta promessa de castigar Nínive. O livro lembra que todos os habitantes de Nínive são, também, filhos de Deus. Jonas preocupou-se profundamente quando morreu uma planta que estivera a seu lado um único dia. Essa planta não era filha nem criação de Jonas, contudo ele afeiçoara-se-lhe. Seria de esperar que Deus, pai de toda a criação, se condoesse dos seus filhos, humanos e não humanos, que viviam na grande cidade. Através deste exemplo, o autor estava a alertar para aquilo que hoje podemos chamar “parcialidade”. Na verdade, o ponto de vista de Jonas não era capaz de alcançar um horizonte mais abrangente do que o da sua lida mais imediata com as coisas que estavam junto de si. A perda de uma planta infligira-lhe um sofrimento de morte, mas exigia a morte de milhares de pessoas.
Ora, é possível que estes argumentos não convencessem toda a gente, ou mesmo que não convencessem a maioria. Por isso, o final do texto apresenta ainda outro argumento. Jonas, e provavelmente alguns judeus da altura em que o texto foi escrito, não toma em consideração que na cidade estão milhares de crianças inocentes e vidas animais que nenhuma culpa têm. Sugere-se que a justiça exigida por Jonas não poderia ser considerada divina pela injustiça que acarretaria.

O texto termina com uma questão e não desenvolve mais os argumentos delineados por ela. Na verdade, este seria um tema quente, polémico. As escrituras estão cheias de casos em que a culpa simplesmente se transfere de pais para filhos, sem que estes tenham a possibilidade de se livrar do castigo. Os animais também são desconsiderados, tratados como meros instrumentos económicos ou religiosos/sacrificiais. A ideia de castigo predomina em muitos livros do Antigo Testamento, mas também a ideia de que o humano não sabe que castigo o espera. Algumas cidades foram destruídas por Deus a favor dos judeus, mas a paciência do Senhor era apregoada de profeta a profeta. Esta dicotomia entre castigo e perdão pode sintetizar-se nos versículos 6-7, capítulo 34, do Êxodo:

“Tendo o Senhor passado perante Moisés, proclamou: «Yhvh, Yhvh, Deus compadecido e compassivo, paciente e cheio de compaixão e verdade; que usa de compaixão com milhares; que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado; que de nenhuma maneira deixará sem castigo o culpado; que castiga a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos até à terceira e quarta geração.»”

Chamamos a atenção para o facto de os termos sublinhados neste trecho surgirem em Jonas 4:2. Podemos ver que o trecho parece confuso. Deus afirma-se a si mesmo como paciente e compassivo, diz que perdoa os pecados e as iniquidades, mas logo declara que não deixará de castigar os culpados. Diz mesmo que castigará nos filhos, até à quarta geração, a iniquidade dos pais. Portanto, o autor do livro de Jonas teria dificuldade em acrescentar fosse o que fosse à pergunta que formula. Não mais poderia fazer do que dar a entender, como de facto deu, que Deus perdoaria em tanto que houvesse verdadeiro arrependimento, isto é: que se abandonasse os maus caminhos e se seguisse a palavra do Senhor.

Ao dar a entender que os assírios também são filhos de Deus, com direito a serem perdoados no momento em que se tornar evidente (aos olhos de Deus) que arrepiaram no caminho do pecado, o escriba produz um texto cuja mensagem pode, na verdade, aplicar-se a todo e qualquer povo e não só aos habitantes de Nínive. Não sabemos ao certo se quando menciona aqueles que não distinguem o bem do mal se refere às crianças, ou àqueles que ainda não receberam a palavra de Deus. Se entendermos neste último sentido aquelas palavras, então o seu autor devia estar a pensar que os judeus tinham o dever de ir até Nínive (e até todas as cidades do mundo), não com o coração cheio de ira, mas com o coração cheio de compaixão, para lhes comunicar as palavras do Senhor e os fazer arrepender. De qualquer modo, este texto traz-nos uma mensagem profunda, universal, mas ao mesmo tempo sem obliterar as fraquezas humanas que tantas vezes colocam entraves ao convívio entre povos.

Finalmente, devemos notar que os peritos colocam, habitualmente, a elaboração do livro de Jonas na época pós-exílio. Isto é, depois da vitória do Império Persa sobre o Babilónico, quando os judeus foram autorizados a regressar à Palestina. Lembre-se que a Babilónia havia deportado os judeus. Foi Ciro que permitiu o regresso dos hebreus à sua terra. Quando os exilados chegaram à Palestina devem ter encontrado os hebreus que ali haviam ficado a viver conjuntamente com pessoas de outros povos, também dominados pelos persas, e antes pelos babilónios. O Império Persa incluía então povos que tinham sido inimigos durante muito tempo, nomeadamente, os assírios e os hebreus. Nínive e Jerusalém pertenciam agora à mesma unidade política, um Império que se mostrara amigo dos hebreus. Os líderes religiosos hebreus devem ter sido pressionados para amenizar os sentimentos dos judeus face aos assírios. Os persas estariam interessados em ver os seus súbditos a darem-se bem uns com os outros. Talvez houvesse casamentos entre pessoas de diferentes proveniências e talvez nem todos vissem com bons olhos que alguém viesse de Nínive casar-se com um hebreu em Jerusalém. O livro de Jonas seria mais do que bem vindo pelas autoridades.

Seja como for, no século VI a.C., alguns hebreus pensavam que Nínive deveria ser perdoada. E que se Deus havia demorado na ira e afinal evitado o castigo de destruição final da cidade, então deveriam existir muito boas razões para tal. Esses hebreus deverão ter estado na origem deste texto sobre esse servo de Deus que preferia a morte a viver para ver Nínive perdoada: Jonas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tradução de Jonas, segundo a Septuaginta


VER COMENTÁRIO AQUI
Tradução de Jonas, da Septuaginta, para português:


Jonas 1
1 A palavra do Senhor foi até Jonas, filho de Amitai, dizendo: 2 “Levanta-te e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama nela que subiu até mim o grito da sua perversão. 3 Mas Jonas levantou-se para fugir, da presença do Senhor, para Thársis. Foi para Joppa e encontrou um barco que ia para Thársis, pagou a sua passagem e entrou nele para navegar até Thársis, fugindo da presença do Senhor. 4 Mas o Senhor acordou um vento no mar e surgiu uma grande tempestade, e o barco ficou em perigo de se destruir. 5 Os nautas tiveram medo, cada um clamou ao seu deus e atiraram ao mar as mercadorias que havia no barco de modo a aliviarem-no. Mas Jonas descera ao porão e, deitado, dormia e ressonava. 6 O capitão do barco foi até ele e disse-lhe: “Por que ressonas? Levanta-te e chama o teu deus, assim talvez nos salve e não nos destrua.” 7 E cada um dizia ao seu próximo: “Vamos tirar sortes e saber por conta de quem este mal está em nós.” Tiraram sortes, e a sorte calhou a Jonas. 8 Disseram-lhe então: “Conta-nos por que está este mal em nós. Qual é o teu trabalho? E de onde vens: de que região e de que povo és tu?” 9 E ele respondeu-lhes: “Eu sou um servo do Senhor e tenho estado a desafiar o Senhor Deus do céu, que fez o mar e a terra firme.” 10 Os homens tiveram muito medo e disseram-lhe: “Por que fizeste isso?” Sabiam que ele estava a fugir da presença do Senhor, pois ele próprio lhes contara. 11 E perguntaram-lhe: “Que devemos fazer que acalme o mar para nós?” Pois o mar ondulava e erguia-se tempestuosamente. 12 E Jonas respondeu-lhes: “Agarrem-me e atirem-me ao mar, e isso o acalmará para vós, pois eu sei que é por mim que esta grande tempestade vos aflige.” 13 Então os homens esforçaram-se para se aproximarem da terra, mas não estavam a conseguir, pois o mar estava bravo e abatia-se tempestuosamente sobre eles. 14 E rogavam e pediam ao Senhor: “Não permitas, Senhor, não deixes que sejamos destruídos por causa da alma deste homem, e não deites sobre nós sangue inocente, pois, tu, Senhor, fizeste como quiseste.” 15 E agarraram Jonas e atiraram-no ao mar, e a tempestade acalmou. 16 Os homens ficaram com muito temor ao Senhor, ofereceram-lhe um sacrifício e fizeram votos.


Jonas 2
1 Então o Senhor mandou um grande monstro marinho engolir Jonas. Assim, Jonas esteve na barriga do monstro três dias e três noites. 2 Na barriga do monstro rezou ao Senhor seu Deus 3 e disse: “Clamei, na minha angústia, ao Senhor meu Deus, e ele escutou-me: da barriga do Hades ouviste o clamor da minha voz. 4 Atiraste-me para as profundezas do coração do mar e as correntes devolveram-me. Todas as tuas ondas e as tuas vagas me atravessaram. 5 Fui afastado dos teus olhos. Voltarei ainda a olhar para o teu templo sagrado? 6 A água rodeia-me até à alma, o abismo circunda-me no limite, a minha cabeça afundou-se nas fendas dos montes. 7 Desci à terra, cujas grades são pedras tumulares eternas, mas tu levantaste a minha vida da destruição, oh Senhor, meu Deus. 8 Estando a minha alma a morrer em mim lembrei-me do Senhor: que cheguem até ti, no teu santo templo, as minhas preces. 9 Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão. 10 Mas eu, através da voz de adoração e gratidão, sacrifico a ti: quanto prometi, te darei, Senhor da Salvação.” 11 E [o Senhor] ordenou ao monstro que expelisse Jonas para terra firme.




Jonas 3
1 Então a palavra do Senhor chegou até Jonas, pela segunda vez, dizendo: 2 “Levanta-te e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama nela de acordo com o que te disse antes.” 3 E Jonas levantou-se e dirigiu-se para Nínive, conforme disse o Senhor. Mas Nínive era uma grande cidade, por Deus, como três dias de caminho. 4 Jonas entrou na cidade durante um dia e ia proclamando: “Passando três dias Nínive será destruída.” 5 Os homens de Nínive, dos grandes aos pequenos, confiaram em Deus, proclamaram jejum e vestiram sacos. 6 E a palavra chegou ao Rei de Nínive: levantou-se do seu trono e despiu a sua vestimenta, pôs um saco e sentou-se nas brasas. 7 Em Nínive foi proclamado, pelo Rei e pelos seus magistrados, o seguinte: “Que os homens e os animais, os bois e o gado não provem nada, nem se alimentem, nem bebam água.” 8 E os homens e os animais vestiram sacos e clamaram bastante a Deus. Cada um retrocedeu do seu caminho de corrupção e de injustiça dizendo: 9 “Quem sabe se Deus muda de pensamento e retrocede do seu impulso de ira e assim não tenhamos de ser destruídos?” 10 E Deus viu as suas obras, pois retrocederam dos seus caminhos de corrupção, e mudou de pensamento sobre o castigo, que dissera que lhes faria, e não fez.


Jonas 4:
1 Jonas ficou muito triste e confuso. 2 E então pediu ao Senhor: “Oh Senhor, não foi isto que eu disse quando ainda estava na minha terra? Por isso fiz por fugir para Thársis, pois que sabia que tu és compassivo e misericordioso, paciente e cheio de compaixão e mudas de pensamento sobre os castigos. 3 Agora, oh Rei Senhor, tira-me a minha alma de mim, pois é melhor para mim morrer do que viver.” 4 O Senhor perguntou a Jonas: “Estás muito entristecido?” 5 Mas Jonas saiu da cidade e sentou-se virado para ela. Ali fez para si próprio uma tenda e ficou sentado debaixo dela, na sombra, até que dali pudesse ver o que seria da cidade. 6 Então o Senhor Deus fez surgir uma abobreira, e esta cresceu por cima da cabeça de Jonas, deixando-lhe a cabeça à sombra para o proteger de males: e Jonas ficou muito contente com a abobreira. 7 Na manhã seguinte, Deus mandou um verme que feriu a abobreira e a secou. 8 E aconteceu que ao mesmo tempo que o sol raiou Deus também mandou um vento quente que queimava e o sol feriu a cabeça de Jonas. Ele desfaleceu, desistiu da sua alma e disse: “Melhor para mim é morrer do que viver.” 9 Então, Deus disse a Jonas: “Estás tu tão entristecido por uma abobreira?” E respondeu Jonas: “Eu estou triste de morte.” 10 E disse o Senhor: “Tu tiveste pena por uma abobreira, pela qual não te esforçaste, nem sequer criaste, a qual veio a ser durante a noite e durante a noite foi destruída. 11 E eu não deverei poupar Nínive, a grande cidade, na qual lidam mais de doze miríades de humanos, os quais não conhecem a sua mão direita ou a sua mão esquerda, e muitos animais?”





Texto em grego, edição Rahlfs-Hanhart, editio altera


Jonas 1
1 Καὶ ἐγένετο λόγος κυρίου πρὸς Ιωναν τὸν τοῦ Αμαθι λέγων 2 Ἀνάστηθι καὶ πορεύθητι εἰς Νινευη τὴν πόλιν τὴν μεγάλην καὶ κήρυξον ἐν αὐτῇ, ὅτι ἀνέβη ἡ κραυγὴ τῆς κακίας αὐτῆς πρός με. 3 καὶ ἀνέστη Ιωνας τοῦ φυγεῖν εἰς Θαρσις ἐκ προσώπου κυρίου καὶ κατέβη εἰς Ιοππην καὶ εὗρεν πλοῖον βαδίζον εἰς Θαρσις καὶ ἔδωκεν τὸ ναῦλον αὐτοῦ καὶ ἐνέβη εἰς αὐτὸ τοῦ πλεῦσαι μετ’ αὐτῶν εἰς Θαρσις ἐκ προσώπου κυρίου. 4 καὶ κύριος ἐξήγειρεν πνεῦμα εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ ἐγένετο κλύδων μέγας ἐν τῇ θαλάσσῃ, καὶ τὸ πλοῖον ἐκινδύνευεν συντριβῆναι. 5 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ναυτικοὶ καὶ ἀνεβόων ἕκαστος πρὸς τὸν θεὸν αὐτῶν καὶ ἐκβολὴν ἐποιήσαντο τῶν σκευῶν τῶν ἐν τῷ πλοίῳ εἰς τὴν θάλασσαν τοῦ κουφισθῆναι ἀπ’ αὐτῶν· Ιωνας δὲ κατέβη εἰς τὴν κοίλην τοῦ πλοίου καὶ ἐκάθευδεν καὶ ἔρρεγχεν. 6 καὶ προσῆλθεν πρὸς αὐτὸν ὁ πρωρεὺς καὶ εἶπεν αὐτῷ Τί σὺ ῥέγχεις; ἀνάστα καὶ ἐπικαλοῦ τὸν θεόν σου, ὅπως διασώσῃ ὁ θεὸς ἡμᾶς καὶ μὴ ἀπολώμεθα. 7 καὶ εἶπεν ἕκαστος πρὸς τὸν πλησίον αὐτοῦ Δεῦτε βάλωμεν κλήρους καὶ ἐπιγνῶμεν τίνος ἕνεκεν ἡ κακία αὕτη ἐστὶν ἐν ἡμῖν. καὶ ἔβαλον κλήρους, καὶ ἔπεσεν ὁ κλῆρος ἐπὶ Ιωναν. 8 καὶ εἶπον πρὸς αὐτόν Ἀπάγγειλον ἡμῖν τίνος ἕνεκεν ἡ κακία αὕτη ἐστὶν ἐν ἡμῖν. τίς σου ἡ ἐργασία ἐστίν; καὶ πόθεν ἔρχῃ, καὶ ἐκ ποίας χώρας καὶ ἐκ ποίου λαοῦ εἶ σύ; 9 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτούς Δοῦλος κυρίου ἐγώ εἰμι καὶ τὸν κύριον θεὸν τοῦ οὐρανοῦ ἐγὼ σέβομαι, ὃς ἐποίησεν τὴν θάλασσαν καὶ τὴν ξηράν. 10 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ἄνδρες φόβον μέγαν καὶ εἶπαν πρὸς αὐτόν Τί τοῦτο ἐποίησας; διότι ἔγνωσαν οἱ ἄνδρες ὅτι ἐκ προσώπου κυρίου ἦν φεύγων, ὅτι ἀπήγγειλεν αὐτοῖς. 11 καὶ εἶπαν πρὸς αὐτόν Τί σοι ποιήσωμεν καὶ κοπάσει ἡ θάλασσα ἀφ’ ἡμῶν; ὅτι ἡ θάλασσα ἐπορεύετο καὶ ἐξήγειρεν μᾶλλον κλύδωνα. 12 καὶ εἶπεν Ιωνας πρὸς αὐτούς Ἄρατέ με καὶ ἐμβάλετέ με εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ κοπάσει ἡ θάλασσα ἀφ’ ὑμῶν· διότι ἔγνωκα ἐγὼ ὅτι δι’ ἐμὲ ὁ κλύδων ὁ μέγας οὗτος ἐφ’ ὑμᾶς ἐστιν. 13 καὶ παρεβιάζοντο οἱ ἄνδρες τοῦ ἐπιστρέψαι πρὸς τὴν γῆν καὶ οὐκ ἠδύναντο, ὅτι ἡ θάλασσα ἐπορεύετο καὶ ἐξηγείρετο μᾶλλον ἐπ’ αὐτούς. 14 καὶ ἀνεβόησαν πρὸς κύριον καὶ εἶπαν Μηδαμῶς, κύριε, μὴ ἀπολώμεθα ἕνεκεν τῆς ψυχῆς τοῦ ἀνθρώπου τούτου, καὶ μὴ δῷς ἐφ’ ἡμᾶς αἷμα δίκαιον, ὅτι σύ, κύριε, ὃν τρόπον ἐβούλου πεποίηκας. 15 καὶ ἔλαβον τὸν Ιωναν καὶ ἐξέβαλον αὐτὸν εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ ἔστη ἡ θάλασσα ἐκ τοῦ σάλου αὐτῆς. 16 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ἄνδρες φόβῳ μεγάλῳ τὸν κύριον καὶ ἔθυσαν θυσίαν τῷ κυρίῳ καὶ εὔξαντο εὐχάς.


Jonas 2
1 Καὶ προσέταξεν κύριος κήτει μεγάλῳ καταπιεῖν τὸν Ιωναν· καὶ ἦν Ιωνας ἐν τῇ κοιλίᾳ τοῦ κήτους τρεῖς ἡμέρας καὶ τρεῖς νύκτας. 2 καὶ προσηύξατο Ιωνας πρὸς κύριον τὸν θεὸν αὐτοῦ ἐκ τῆς κοιλίας τοῦ κήτους 3 καὶ εἶπεν Ἐβόησα ἐν θλίψει μου πρὸς κύριον τὸν θεόν μου, καὶ εἰσήκουσέν μου· ἐκ κοιλίας ᾅδου κραυγῆς μου ἤκουσας φωνῆς μου. 4 ἀπέρριψάς με εἰς βάθη καρδίας θαλάσσης, καὶ ποταμοί με ἐκύκλωσαν· πάντες οἱ μετεωρισμοί σου καὶ τὰ κύματά σου ἐπ’ ἐμὲ διῆλθον. 5 καὶ ἐγὼ εἶπα Ἀπῶσμαι ἐξ ὀφθαλμῶν σου· ἆρα προσθήσω τοῦ ἐπιβλέψαι πρὸς τὸν ναὸν τὸν ἅγιόν σου; 6 περιεχύθη ὕδωρ μοι ἕως ψυχῆς, ἄβυσσος ἐκύκλωσέν με ἐσχάτη, ἔδυ ἡ κεφαλή μου εἰς σχισμὰς ὀρέων. 7 κατέβην εἰς γῆν, ἧς οἱ μοχλοὶ αὐτῆς κάτοχοι αἰώνιοι, καὶ ἀναβήτω φθορὰ ζωῆς μου, κύριε ὁ θεός μου. 8 ἐν τῷ ἐκλείπειν ἀπ’ ἐμοῦ τὴν ψυχήν μου τοῦ κυρίου ἐμνήσθην, καὶ ἔλθοι πρὸς σὲ ἡ προσευχή μου εἰς ναὸν ἅγιόν σου. 9 φυλασσόμενοι μάταια καὶ ψευδῆ ἔλεος αὐτῶν ἐγκατέλιπον. 10 ἐγὼ δὲ μετὰ φωνῆς αἰνέσεως καὶ ἐξομολογήσεως θύσω σοι· ὅσα ηὐξάμην, ἀποδώσω σοι σωτηρίου τῷ κυρίῳ. 11 καὶ προσετάγη τῷ κήτει, καὶ ἐξέβαλεν τὸν Ιωναν ἐπὶ τὴν ξηράν.


Jonas 3
1 Καὶ ἐγένετο λόγος κυρίου πρὸς Ιωναν ἐκ δευτέρου λέγων 2 Ἀνάστηθι καὶ πορεύθητι εἰς Νινευη τὴν πόλιν τὴν μεγάλην καὶ κήρυξον ἐν αὐτῇ κατὰ τὸ κήρυγμα τὸ ἔμπροσθεν, ὃ ἐγὼ ἐλάλησα πρὸς σέ. 3 καὶ ἀνέστη Ιωνας καὶ ἐπορεύθη εἰς Νινευη, καθὼς ἐλάλησεν κύριος· ἡ δὲ Νινευη ἦν πόλις μεγάλη τῷ θεῷ ὡσεὶ πορείας ὁδοῦ ἡμερῶν τριῶν. 4 καὶ ἤρξατο Ιωνας τοῦ εἰσελθεῖν εἰς τὴν πόλιν ὡσεὶ πορείαν ἡμέρας μιᾶς καὶ ἐκήρυξεν καὶ εἶπεν Ἔτι τρεῖς ἡμέραι καὶ Νινευη καταστραφήσεται. 5 καὶ ἐνεπίστευσαν οἱ ἄνδρες Νινευη τῷ θεῷ καὶ ἐκήρυξαν νηστείαν καὶ ἐνεδύσαντο σάκκους ἀπὸ μεγάλου αὐτῶν ἕως μικροῦ αὐτῶν. 6 καὶ ἤγγισεν ὁ λόγος πρὸς τὸν βασιλέα τῆς Νινευη, καὶ ἐξανέστη ἀπὸ τοῦ θρόνου αὐτοῦ καὶ περιείλατο τὴν στολὴν αὐτοῦ ἀφ’ ἑαυτοῦ καὶ περιεβάλετο σάκκον καὶ ἐκάθισεν ἐπὶ σποδοῦ. 7 καὶ ἐκηρύχθη καὶ ἐρρέθη ἐν τῇ Νινευη παρὰ τοῦ βασιλέως καὶ παρὰ τῶν μεγιστάνων αὐτοῦ λέγων Οἱ ἄνθρωποι καὶ τὰ κτήνη καὶ οἱ βόες καὶ τὰ πρόβατα μὴ γευσάσθωσαν μηδὲν μηδὲ νεμέσθωσαν μηδὲ ὕδωρ πιέτωσαν. 8 καὶ περιεβάλοντο σάκκους οἱ ἄνθρωποι καὶ τὰ κτήνη, καὶ ἀνεβόησαν πρὸς τὸν θεὸν ἐκτενῶς· καὶ ἀπέστρεψαν ἕκαστος ἀπὸ τῆς ὁδοῦ αὐτοῦ τῆς πονηρᾶς καὶ ἀπὸ τῆς ἀδικίας τῆς ἐν χερσὶν αὐτῶν λέγοντες 9 Τίς οἶδεν εἰ μετανοήσει ὁ θεὸς καὶ ἀποστρέψει ἐξ ὀργῆς θυμοῦ αὐτοῦ καὶ οὐ μὴ ἀπολώμεθα; 10 καὶ εἶδεν ὁ θεὸς τὰ ἔργα αὐτῶν, ὅτι ἀπέστρεψαν ἀπὸ τῶν ὁδῶν αὐτῶν τῶν πονηρῶν, καὶ μετενόησεν ὁ θεὸς ἐπὶ τῇ κακίᾳ, ᾗ ἐλάλησεν τοῦ ποιῆσαι αὐτοῖς, καὶ οὐκ ἐποίησεν.


Jonas 4:
1 Καὶ ἐλυπήθη Ιωνας λύπην μεγάλην καὶ συνεχύθη. 2 καὶ προσεύξατο πρὸς κύριον καὶ εἶπεν Ὦ κύριε, οὐχ οὗτοι οἱ λόγοι μου ἔτι ὄντος μου ἐν τῇ γῇ μου; διὰ τοῦτο προέφθασα τοῦ φυγεῖν εἰς Θαρσις, διότι ἔγνων ὅτι σὺ ἐλεήμων καὶ οἰκτίρμων, μακρόθυμος καὶ πολυέλεος καὶ μετανοῶν ἐπὶ ταῖς κακίαις. 3 καὶ νῦν, δέσποτα κύριε, λαβὲ τὴν ψυχήν μου ἀπ’ ἐμοῦ, ὅτι καλὸν τὸ ἀποθανεῖν με ἢ ζῆν με. 4 καὶ εἶπεν κύριος πρὸς Ιωναν Εἰ σφόδρα λελύπησαι σύ; 5 καὶ ἐξῆλθεν Ιωνας ἐκ τῆς πόλεως καὶ ἐκάθισεν ἀπέναντι τῆς πόλεως· καὶ ἐποίησεν ἑαυτῷ ἐκεῖ σκηνὴν καὶ ἐκάθητο ὑποκάτω αὐτῆς ἐν σκιᾷ, ἕως οὗ ἀπίδῃ τί ἔσται τῇ πόλει. 6 καὶ προσέταξεν κύριος ὁ θεὸς κολοκύνθῃ, καὶ ἀνέβη ὑπὲρ κεφαλῆς τοῦ Ιωνα τοῦ εἶναι σκιὰν ὑπεράνω τῆς κεφαλῆς αὐτοῦ τοῦ σκιάζειν αὐτῷ ἀπὸ τῶν κακῶν αὐτοῦ· καὶ ἐχάρη Ιωνας ἐπὶ τῇ κολοκύνθῃ χαρὰν μεγάλην. 7 καὶ προσέταξεν ὁ θεὸς σκώληκι ἑωθινῇ τῇ ἐπαύριον, καὶ ἐπάταξεν τὴν κολόκυνθαν, καὶ ἀπεξηράνθη. 8 καὶ ἐγένετο ἅμα τῷ ἀνατεῖλαι τὸν ἥλιον καὶ προσέταξεν ὁ θεὸς πνεύματι καύσωνος συγκαίοντι καὶ ἐπάταξεν ὁ ἥλιος ἐπὶ τὴν κεφαλὴν Ιωνα· καὶ ὠλιγοψύχησεν καὶ ἀπελέγετο τὴν ψυχὴν αὐτοῦ καὶ εἶπεν Καλόν μοι ἀποθανεῖν με ἢ ζῆν. 9 καὶ εἶπεν ὁ θεὸς πρὸς Ιωναν Εἰ σφόδρα λελύπησαι σὺ ἐπὶ τῇ κολοκύνθῃ; καὶ εἶπεν Σφόδρα λελύπημαι ἐγὼ ἕως θανάτου. 10 καὶ εἶπεν κύριος Σὺ ἐφείσω ὑπὲρ τῆς κολοκύνθης, ὑπὲρ ἧς οὐκ ἐκακοπάθησας ἐπ’ αὐτὴν καὶ οὐκ ἐξέθρεψας αὐτήν, ἣ ἐγενήθη ὑπὸ νύκτα καὶ ὑπὸ νύκτα ἀπώλετο. 11 ἐγὼ δὲ οὐ φείσομαι ὑπὲρ Νινευη τῆς πόλεως τῆς μεγάλης, ἐν ᾗ κατοικοῦσιν πλείους ἢ δώδεκα μυριάδες ἀνθρώπων, οἵτινες οὐκ ἔγνωσαν δεξιὰν αὐτῶν ἢ ἀριστερὰν αὐτῶν, καὶ κτήνη πολλά;


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quem morreu antes de Cristo pôde salvar-se??? O que diz o Catolicismo? Anotações

A propósito de salvação e outros assuntos...




Ver a partir do ponto 781 até ao 810. Apenas se salva quem pertence à Igreja, e a Igreja é o corpo de Cristo. Apenas com Cristo as portas do Reino dos céus se abriram e a chave foi confiada a Pedro, aos seus sucessores. Aliás, só pela fé e pelo Baptismo se entra no Povo de Deus (ver, por exemplo, ponto 804).

O ponto 1281 parece contradizer o indício anterior: “1281. Os que sofrem a morte por causa da fé, os catecúmenos e todos aqueles que, sob o impulso da graça, sem conhecerem a Igreja, procuram sinceramente a Deus e se esforçam por cumprir a sua vontade, podem salvar-se, mesmo sem terem recebido o Baptismo (89).” Este ponto parece contradizer todos os outros em que se diz claramente que a Igreja é necessária à salvação. Sobretudo parece esquecer que a vontade de Deus, tal como a concebe a cultura judaico-cristã de matriz greco-latina, não está presente noutras culturas. Os habitantes de Esparta e os Dobu, na Nova Guiné, acreditavam que roubar era moralmente correcto. O povo a que se chama esquimó (o Inuit) deixava os idosos morrer de fome. Na África Oriental os bebés deficientes eram atirados aos hipopótamos. Sempre que morria um membro da tribo Kwakiutl, os familiares do falecido julgavam ser seu dever sair em busca de membros de outras tribos para os matar: não por serem responsáveis, simplesmente acreditavam que se lhes morria alguém na família, tinham o dever de matar outras pessoas de outras tribos. Na Índia, sempre que morria alguém casado, as suas mulheres eram queimadas. Nas ilhas Fidji era dever moral dos filhos matar os pais quando estes envelheciam e ficavam dementes ou incapacitados fisicamente, porque acreditavam que quem morria ficava para toda a eternidade como estivesse no momento da morte: se morresse demente ficaria demente para sempre. Os povos mesoamericanos acreditavam que, para honrar os deuses, deveriam sacrificar humanos. Na Gronelândia, quando o pai adoecia enterravam-se os filhos vivos. As práticas relativas ao sacrifício de humanos eram comuns na pré-história, e mesmo na Hélade há vestígios da sua ocorrência (ver Tratado da História das Religiões, Mircea Eliade, ed. Asa, 5ª ed., pág.s 426 e 449-450).

Também em Rom 2:14-15 se fala daqueles que não são Judeus mas que fazem o que a Lei manda segundo a natureza (φύσει). Mas como se sabe, para o crente a lei não basta. Aliás, os cristãos já não estão sujeitos à lei (Rom 3:19-21). Ver também Rom 2:12: ὅσοι γὰρ ἀνόμως ἥμαρτον, ἀνόμως καὶ πολοῦνται, καὶ ὅσοι ἐν νόμῳ ἥμαρτον, διὰ νόμου κριθήσονται· (“Certamente quantos sem lei falharam, sem lei também serão mortos, e quantos na lei falharam, através da lei serão julgados.”). A tradução oficial deste passo diz: quicumque enim sine lege peccaverunt sine lege et peribunt et quicumque in lege peccaverunt per legem iudicabuntur (Pois todos os que pecaram sem lei também sem lei perecerão, e quantos pecaram na lei serão julgados pela lei). As traduções modernas vertem para: “Todos os que pecam sem conhecer a Lei de Moisés perdem-se sem serem julgados por essa lei. Mas todos os que pecam, apesar de a conhecerem, serão condenados pela mesma lei.” (trad. Capuchinos, ed. de 1993). Mas, quer o grego, quer o latim, quer a tradução moderna não esclarece nada: o que significa ser morto ou morrer sem lei? O que significa perder-se sem ser julgado?

Aliás, o que é lei quando não há a Lei? Está na natureza do humano, nos seus corações. Mas a Lei é a Lei de Moisés a qual apenas se consuma plenamente em Cristo (Rom 7).
Segundo a Bíblia sem a Lei não há pecado. No capítulo 7 de Rom, verso 7 em diante, Paulo tem uma das passagens mais largamente comentada em Filosofia. Aí Paulo concede que não haveria pecado sem lei, reconhece que ao saber de uma proibição, essa mesma proibição espicaça o desejo de a quebrar e sugere que a Lei cria no humano ocasião para pecar contra a mesma Lei. É que saber da Lei redobra a força do pecado. Rom 7:8: χωρὶς γὰρ νόμου ἁμαρτία νεκρά. (“certamente separado da lei a falta está morta”, isto é, sem lei não há pecado). 7:7: Τί οὖν ἐροῦμεν; νόμος ἁμαρτία; μὴ γένοιτο· ἀλλὰ τὴν ἁμαρτίαν οὐκ ἔγνων εἰ μὴ διὰ νόμου τὴν τε γὰρ πιθυμίαν οὐκ ᾔδειν εἰ μὴ νόμος ἔλεγεν οὐκ πιθυμήσεις. (“Então que diremos? A lei é falta? Não é o caso. Mas a falta eu não conheceria se não através da lei – e certamente não teria conhecido o desejo se a lei não tivesse dito não desejarás.”)

Mas, afinal, quem nasceu antes de Cristo pode ou não ser salvo? Esta discussão estava viva e Paulo não poderia deixar de fora os Patriarcas da tradição. Ver Rom 4:1-12. É neste passo, que não transcrevo por ser longo, que Paulo mais parece aceitar que os Patriarcas antes de Jesus foram aceites por Deus. Mas não pelas obras que fizera (Rom 4: 2). Não são as obras de Abraão que o salvam, pelo contrário, se fossem as suas obras a salvarem-no isso poderia levá-lo ao pecado do orgulho, afastando-o de Deus. O que o salvou foi ter acreditado em Deus (Rom 4:3).

Em Rom 5: 12-20 Paulo fala dos períodos da humanidade: de Adão a Moisés, de Moisés a Jesus, depois de Jesus… Aí se diz algo também muito complexo e aparentemente contraditório com outras passagens: ἄχρι γὰρ νόμου ἁμαρτία ἦν ἐν κόσμῳ, ἁμαρτία δὲ οὐκ ἐλλογεῖται μὴ ὄντος νόμου (“certamente, desde antes da lei a falha era no mundo, mas a falha não era imputada não havendo lei”). E a morte reinou de Adão a Moisés mesmo sobre aqueles que não pecaram como Adão (ἀλλἐβασίλευσεν θάνατος π Ἀδὰμ μέχρι Μωϋσέως καὶ π τοὺς μὴ ἁμαρτήσαντας π τῷ ὁμοιώματι τῆς παραβάσεως Ἀδάμ). Portanto, o pecado afinal existe sem Lei, mas não é tido em consideração. Contudo, a morte dominou o humano após o pecado de Adão. Por causa da falta de Adão todo o género humano foi condenado (versos 17-18). Com a chegada da Lei o pecado ainda aumentou (verso 20). Mas como Deus é bom, ofereceu Jesus Cristo por nós para nos conduzir à vida eterna (verso 21). Ver Catecismo ponto 518: “Toda a vida de Cristo é mistério de recapitulação. Tudo o que Jesus fez, disse e sofreu tinha por fim restabelecer o homem decaído na sua vocação originária: «Quando Ele encarnou e Se fez homem, recapitulou em Si a longa história dos homens e proporcionou-nos, em síntese, a salvação, de tal forma que aquilo que havíamos perdido em Adão – isto é, sermos imagem e semelhança de Deus – o recuperássemos em Cristo Jesus» (199). «Aliás, foi por isso que Cristo passou por todas as idades da vida, restituindo assim a todos os homens a comunhão com Deus» (200).”
Note-se que desde Adão os homens haviam perdido o serem imagem e semelhança de Deus.

Depois, no capítulo 6, Paulo descreve como é a morte e a ressurreição de Cristo e o nosso baptismo que nos salvam.

O ponto 1281 afirma que alguns homens se podem salvar sem Baptismo e sem “conhecerem a Igreja”, mas isto é contradito imensas vezes. Ver, por exemplo, ponto 1992 e seguintes: “A justificação é concedida pelo Baptismo, sacramento da fé.” A justificação é a remissão dos pecados e a santificação do homem interior (ver ponto 2019).

Continuando. Só com Cristo se deu a reconciliação após o pecado original. A expiação ocorre com a morte de Cristo, e é a sua ressurreição que possibilita a salvação. Ver pontos 648-678. O acesso à salvação não deriva da natureza humana, mas sim exclusivamente da graça divina consumada na ressurreição.

Vejamos o ponto “654. Existe um duplo aspecto no mistério pascal: pela sua morte, Cristo liberta-nos do pecado; pela sua ressurreição, abre-nos o acesso a uma nova vida. Esta é, antes de mais, a justificação, que nos repõe na graça de Deus (582), «para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos [...], também nós vivamos uma vida nova» (Rm 6, 4). Esta consiste na vitória sobre a morte do pecado e na nova participação na graça (583); realiza a adopção filial, porque os homens tornam-se irmãos de Cristo, como o próprio Jesus chama aos discípulos depois da ressurreição: «Ide anunciar aos meus irmãos» (Mt 28, 10) (584). Irmãos, não por natureza, mas por dom da graça, porque esta filiação adoptiva proporciona uma participação real na vida do Filho, plenamente revelada na sua ressurreição.

655. Finalmente, a ressurreição de Cristo – e o próprio Cristo Ressuscitado – é princípio e fonte da nossa ressurreição futura: «Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram [...]. Do mesmo modo que em Adão todos morreram, assim também em Cristo serão todos restituídos à vida» (1 Cor 15, 20-22). Na expectativa de que isto se realize, Cristo Ressuscitado vive no coração dos seus fiéis. […]”

Note-se que O Cristo é o Verbo feito homem, mas Cristo e Verbo não são a mesma coisa. Ver, por exemplo, pontos 990-1015. O Verbo fez-se carne (isto é, humano) para redimir a carne. Faço aqui lembrar que a Ressurreição significa que será do corpo e da alma. O humano que virá a ressuscitar será carne. Podemos ver isso no ponto 990:

“990A palavra «carne» designa o homem na sua condição de fraqueza e mortalidade (560) «Ressurreição da carne» significa que, depois da morte, não haverá somente a vida da alma imortal, mas também os nossos «corpos mortais» (Rm 8, 11) retomarão a vida.”

O ponto 990 é confuso: a carne é mortal, mas depois da morte haverá carne, isto é, “corpos mortais”. A Ressurreição é da carne.

“1015. «Caro salutis est cardo – A carne é o fulcro da salvação» (601). Nós cremos em Deus, que é o Criador da carne; cremos no Verbo que Se fez carne para remir a carne; cremos na ressurreição da carne, acabamento da criação e da redenção da carne.

Ratzinger comenta estes aspectos em Jesus de Nazaré – Da Entrada em Jerusalém até à Ressurreição: pág. 192, “a nossa moralidade pessoal não basta para venerar de modo justo a Deus […]. Mas o Filho feito carne carrega em Si todos nós e, assim, dá aquilo que nós, sozinhos, não podemos dar”; “a ressurreição é o ponto decisivo. Que Jesus tenha existido só no passado ou, pelo contrário, exista também no presente depende da ressurreição.” Ou seja, Jesus não é o Verbo, mas sim o Verbo encarnado. Jesus morreu e ressuscitou, subiu aos céus em corpo. E é este Cristo que é o princípio do Reino de Deus e do Povo Cristão. Pág. 199: “Na ressurreição de Jesus, foi alcançada uma nova possibilidade de ser homem, uma possibilidade que interessa a todos e abre um futuro, um novo género de futuro para os homens.”

Jesus morreu pelos nossos pecados. Ver 1 Cor 15: 3: ὅτι Χριστὸς πέθανεν πὲρ τῶν ἁμαρτιῶν ἡμῶν κατὰ τὰς γραφάς (literalmente: “que Cristo morreu pelas falhas de nós conforme os escritos” // mais literariamente: “que Cristo morreu pelas nossas faltas conforme as escrituras). Isto é qualquer coisa que remonta aos anos 30 e que depois viria a ser registado nos Evangelhos. Ver Jo 14:6: λέγει αὐτῷ [] Ἰησοῦς, ἐγώ εἰμι ὁδὸς καὶ ἀλήθεια καὶ ζωή· οὐδεὶς ἔρχεται πρὸς τὸν πατέρα εἰ μὴ δι' ἐμοῦ. (“disse-lhe Jesus: eu sou o caminho e a verdade e a vida. Ninguém irá até [ἔρχεται πρός] ao pai se não através de mim [δι' ἐμοῦ]”). Ver Catecismo, ponto 1953: “A lei moral encontra em Cristo a sua plenitude e unidade. Jesus Cristo é, em pessoa, o caminho da perfeição. Ele é o fim da lei, porque só Ele ensina e confere a justiça de Deus: «O fim da Lei é Cristo, para a justificação de todo o crente» (Rm 10, 4).”
Ver Act 4:12: καὶ οὐκ ἔστιν ἐν ἄλλῳ οὐδενὶ σωτηρία οὐδὲ γὰρ ὄνομά ἐστιν ἕτερον π τὸν οὐρανὸν τὸ δεδομένον ἐν ἀνθρώποις ἐν δεῖ σωθῆναι ἡμᾶς. (“e não há em nenhum outro a salvação, nem mesmo há outro nome sob o sol, que tenha sido dado entre os humanos, no qual devamos ser salvos”).

Jesus não é um de entre outros caminhos válidos, ele é O único. Também não acontece que esteja aí no mundo um caminho adequado ao humano, e Jesus seja apenas um sinal, apenas um mapa. Não. Jesus É o caminho. Não há caminho sem ele.

Mas não nego que existam textos dúbios. Ver Act 17:30: τοὺς μὲν οὖν χρόνους τῆς ἀγνοίας περιδὼν θεὸς, τὰ νῦν παραγγέλλει τοῖς ἀνθρώποις πάντας πανταχοῦ μετανοεῖν,[…]. (“então, Deus, olhando por cima dos tempos de ignorância, agora manda que todos os humanos por todo o lado mudem” – este verso é muito discutível porque não é claro o que se quer dizer por περιδών, do verbo εἶδον, olhar/ver, e que à letra é olhar por cima, isto é, como no inglês, overlook – ora, isto tanto pode ser indicativo de que Deus não deu importância aos tempos de ignorância, permitindo que todos se salvassem, como pode significar precisamente o contrário, que antes não foi dada possibilidade de salvação; note-se que μετανοεῖν é mudar de pensamento, alterar a forma de compreensão, sendo que o substantivo correspondente, μετάνοια, foi tradicionalmente traduzido por paenitentia, isto é, penitência. As bíblias modernas acham por bem traduzir por arrependimento, o que é, obviamente, estupidez; devo dizer ainda que o termo que traduzo por ignorância, ἄγνοια, quer dizer à letra sem compreensão; assim, o que o grego está literalmente a dizer é: o deus supervisionando os tempos de falta de compreensão, agora manda a todos os humanos por todo o lado que alterem o seu modo de compreender). Não é, no entanto, claro que com isto se esteja a dizer que todos os que viveram antes de Jesus, em tempos de ignorância, estão salvos automaticamente. Aliás, não é claro de todo o que significa este verso, a não ser que houve um tempo sem compreensão adequada das coisas, e que agora é tempo de adquirir uma compreensão (adequada).
Esta discussão, e também o facto de que ela se verificou desde os primeiros tempos do cristianismo, encontra-se bem representada em Rom 3. Todo este capítulo é fantástico e recomendo a sua leitura. Sobretudo os versículos 23-26. Sobre isto e sobre o facto de haver discussão entre os primeiros cristãos sobre a possibilidade de salvação dos seus entes queridos que morreram antes de Jesus ver A Evolução de Deus, de Robert Wright, pag. 357 em diante.

Claro que há passagens em que Cristo aparece antes de Cristo. Cristo, não o Verbo! Ver 1 Cor 10: 4: καὶ πάντες τὸ αὐτὸ πνευματικὸν πιον πόμα· πινον γὰρ ἐκ πνευματικῆς ἀκολουθούσης πέτρας, πέτρα δὲ ἦν Χριστός. (“e todos tomaram da mesma bebida espiritual: beberam de facto da pedra espiritual que os seguia, mas a pedra era o Cristo”). Paulo está aqui a falar dos antepassados dos judeus e da passagem do Mar Vermelho, ou seja, acontecimentos muitos séculos anteriores a Jesus.

Portanto, as escrituras parecem convergir, salvo raríssimas excepções duvidosas, neste ponto: apenas Cristo salva.

E nem sempre se sabe muito bem como procede nesse salvamento. Ver Rom 9:15-16: τῷ Μωϋσεῖ γὰρ λέγει· ἐλεήσω ὃν ἂν ἐλεῶ καὶ οἰκτιρήσω ὃν ἂν οἰκτίρω. ἄρα οὖν οὐ τοῦ θέλοντος οὐδὲ τοῦ τρέχοντος ἀλλὰ τοῦ ἐλεῶντος θεοῦ. (“Portanto, [Deus] disse a Moisés: serei misericordioso com quem eu for misericordioso e serei compassivo com quem eu for compassivo. Logo, não [depende] daquele que quer nem daquele que corre, mas de deus que é compassivo”, ou seja, Deus será misericordioso e compassivo com quem bem entender, logo, não depende do que se queira nem do que se faça, mas de Deus).

Aos cristãos do início da era cristã interessava saber se os seus entes já mortos ainda se poderiam salvar. E é isso que é discutido nos textos. Por outro lado, o que perguntamos é se, para a Religião Católica, esse salvamento é possível. Não perguntamos segundo as escrituras, o que implicaria a nossa interpretação pessoal desses escritos, mas sim segundo a Religião Católica.

A ideia perpassa toda a história da Igreja: apesar de o humano ter sido criado para a imortalidade, apenas a morte e ressurreição de Jesus cria a possibilidade autêntica do ser homem permitindo-lhe encontrar o seu lugar próprio e imortalidade em comunhão com Deus. Ver, por exemplo, Tertuliano, De resurrectione mortuorum, 51, 3: “confiai, carne e sangue! Graças a Cristo adquiristes um lugar no Céu e no Reino de Deus”.

Então, segundo o catolicismo os homens que viveram antes de Cristo podem salvar-se? Se sim, isso aconteceu apenas aos Patriarcas da tradição judaica, ou também outros homens se puderam salvar? E podem salvar-se os homens que viveram sem ouvirem falar de Cristo, nem da Lei de Moisés, nem da tradição de Abraão?

Segundo o Catolicismo (ver as citações do Catecismo que fiz), só através de Cristo há salvação. Não enquanto Verbo, mas enquanto Jesus. Ver Cidade de Deus, de Santo Agostinho, vol. II, livro IX, cap. XV: “o acesso ao bem único” só é possível mediante “o Verbo incriado”, no entanto, “não é enquanto Verbo que ele é mediador, […]. Ele é mediador enquanto homem.”

Ver Catecismo, ponto 1258: “A Igreja não conhece outro meio senão o Baptismo para garantir a entrada na bem-aventurança eterna.”

Mas há algumas excepções feitas ao ponto.

A excepção de quem morre pela fé. Ponto 1258: “Desde sempre, a Igreja tem a firme convicção de que aqueles que sofrem a morte por causa da fé, sem terem recebido o Baptismo, são baptizados pela sua morte por Cristo e com Cristo. Este Baptismo de sangue, tal como o desejo do Baptismo ou Baptismo de desejo, produz os frutos do Baptismo, apesar de não ser sacramento.” Ver  Cidade de Deus, Vol. I, livro XIII, cap. VII.

A excepção de quem anda a fazer a via do baptismo mas morre antes de o consumar. Ponto 1259: “Para os catecúmenos que morrem antes do Baptismo, o seu desejo explícito de o receber, unido ao arrependimento dos seus pecados e à caridade, garante-lhes a salvação, que não puderam receber pelo sacramento.”

A excepção de quem vive como supõe ser a vontade de Deus. 1260: “Todo o homem que, na ignorância do Evangelho de Cristo e da sua Igreja, procura a verdade e faz a vontade de Deus conforme o conhecimento que dela tem, pode salvar-se. Podemos supor que tais pessoas teriam desejado explicitamente o Baptismo se dele tivessem conhecido a necessidade.” Ver Cidade de Deus, Vol. I, livro X, cap. XXV. Os Profetas que, no tempo da Lei ou mesmo antes da Lei (de Moisés), antes de verem a Cristo esperavam Cristo, salvaram-se no ministério (sacramentum) de Cristo e na fé. Claro que, como já referido, não é claro que em todos os povos exista um entendimento semelhante ao cristão sobre o que seja vontade de Deus.

A excepção dos recém-nascidos. 1261: “Quanto às crianças que morrem sem  Baptismo, a Igreja não pode senão confiá-las à misericórdia de Deus.” Este ponto deriva dos esforços de João Paulo II para “reabilitar” a salvação das almas dos recém-nascidos. Na Internet há imensa bibliografia sobre o assunto (limbus puerorum). A tradição tendeu a supor que as crianças não baptizadas iriam para o limbo. A discussão teológica está em saber se o pecado original condena o nado-morto ou não. Ver, por exemplo, http://www.catholicculture.org/culture/library/view.cfm?id=7529&CFID=6920012&CFTOKEN=53774096 e Essays in Apologetics, Volume II: Arguments Directed to Non-Catholics (eBook): “Description: In October of 2004, Pope John Paul II assigned to the International Theological Commission the task of studying the question of the possibility for salvation of unbaptized infants, including the commonly-held theological concept of Limbo, and previous teachings of the Church on this subject.”
Segundo a tradição popular os nados-mortos transformar-se-iam em anjos. Obviamente, nada de oficial existe neste sentido.


Ora, nos primeiros anos da cristandade era difícil aceitar que os homens que eram o símbolo da religião judaica não fossem salvos, quando foram eles os fundadores daquilo que os primeiros cristãos ainda assumiam como sendo a sua própria religião. Como poderiam Abraão, Noé e Moisés ter-se perdido se foram eles os chamados por Deus para propagar a Sua vontade?

A juntar a essas dúvidas, os relatos dos últimos dias de Jesus na terra deixavam dúvidas, sobretudo após os acrescentos que incluíam a ressurreição (os relatos da ressurreição não constam nos manuscritos mais antigos, como é aceite pelos próprios Capuchinhos em nota à tradução de Marcos, de 1993, e por todos os estudiosos[1]). Em Lc 23:43 (ver também Mt 27:32-44; Mc 15:21-32; Jo 19:17-27) pode ler-se: καὶ εἶπεν αὐτῷ· ἀμήν σοι λέγω, σήμερον μετἐμοῦ ἔσῃ ἐν τῷ παραδείσῳ. (“E [Jesus] disse-lhe: em verdade [μήν, amén] te digo, hoje comigo estarás no paraíso [παράδεισος, paradeisos].” Jesus diz ao criminoso que está crucificado com ele que estarão juntos no paraíso naquele mesmo dia. Mas, em Jo 30:17 (ver também Mt 28:8-10; Mc 16:9-11) lê-se: λέγει αὐτῇ Ἰησοῦς· μή μου πτου, οὔπω γὰρ ἀναβέβηκα πρὸς τὸν πατέρα· (“disse-lhe Jesus: não me toques, pois ainda não ascendi até ao pai”). Ou seja, após a ressurreição Jesus afirma que ainda não subiu até ao pai, o que é entendido como não tendo subido ao Céu. No entanto, Jesus dissera antes da própria morte que naquele mesmo dia estaria com o criminoso num lugar a que dá o nome de παράδεισος (termo de origem persa que significava jardim fechado, parque, lugar de prazer e deleite). Estas passagens são todas muito difíceis de interpretar. O que é “hoje”? O que é “paraíso”? O que é “subir até ao pai”? De qualquer modo, ficou a ideia de que poderia existir mais do que um lugar onde os justos poderiam residir. Ficou também a ideia de que aquele que morre antes da ressurreição de Cristo não vai para o lugar que Jesus refere na expressão “até ao pai”. Isto é, em resumo passa a ideia de que o lugar para onde vai o criminoso, ainda que seja um lugar destinado aos justo, não é o mesmo lugar para onde Cristo se encaminhará após a ressurreição e onde o Pai está presente.

Depois há a passagem também muito difícil de Lc 16:19-31. Há aqui um Lázaro e um rico que morrem. Lázaro vai para junto de Abraão e o rico vai para o Ἅιδης, Hades. No Hades (ἐν τῷ ᾅδῃ) consegue ver Abraão e Lázaro… Aparentemente estão todos no mesmo lugar, mas uns não podem chegar aos outros devido à grandeza da distância (μάκροθεν) que os separa. Mas Abraão e Lázaro parecem estar bem e descontraídos enquanto o rico se mostra desagradado com a sua sorte. Parece que o rico está num lugar de sofrimento e Lázaro num lugar apreciável.

Há ainda 1 Ped 3:19 que afirma que Jesus foi pregar aos espíritos sob custódia, isto é, presos (καὶ τοῖς ἐν φυλακῇ πνεύμασιν πορευθεὶς ἐκήρυξεν). Estes espíritos, diz-se no verso 20, eram por vezes desobedientes no tempo de Noé, tempos em que Deus esperava na sua grandeza de coração (μακροθυμία, paciência – literalmente: longo-desejo). Estranho é isto: foi Jesus pregar aos espíritos do tempo de Noé? Noé é anterior à Lei. É o tempo em que Deus era paciente… tudo isto é estranho. Sobretudo o facto de Jesus ir pregar aos mortos!

Ora bem, os teólogos, como por exemplo, Pearlman, acreditam que Jesus foi libertar os Santos do Antigo Testamento. Não só os Profetas que, por já esperarem Cristo, se salvariam, mas também todos os Patriarcas.

Estas ideias parecem-nos estranhas (a mim parecem), mas a verdade é que isto pertence à fé desde o Concílio de Trento (ver Decretum de iustificatione) e está no Catecismo oficial:
“512. Relativamente à vida de Cristo, o Símbolo da Fé apenas fala dos mistérios da Encarnação (conceição e nascimento) e da Páscoa (paixão, crucifixão, morte, sepultura, descida à mansão dos mortos, ressurreição, ascensão).”

O Credo Pequeno, Símbolo da Fé dos Apóstolos, diz, de facto: “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia”.

632. As frequentes afirmações do Novo Testamento, segundo as quais Jesus «ressuscitou de entre os mortos» (1 Cor 15, 20) (528), pressupõem que, anteriormente à ressurreição, Ele tenha estado na mansão dos mortos (529), este o sentido primeiro dado pela pregação apostólica à descida de Jesus à mansão dos mortos: Jesus conheceu a morte, como todos os homens, e foi ter com eles à morada dos mortos. Porém, desceu lá como salvador proclamando a Boa-Nova aos espíritos que ali estavam prisioneiros (530).
633. A morada dos mortos, a que Cristo morto desceu, é chamada pela Escritura os infernos, Sheol ou Hades (531), porque aqueles que aí se encontravam estavam privados da visão de Deus (532). Tal era o caso de todos os mortos, maus ou justos, enquanto esperavam o Redentor (533), o que não quer dizer que a sua sorte fosse idêntica, como Jesus mostra na parábola do pobre Lázaro, recebido no «seio de Abraão» (534). «Foram precisamente essas almas santas, que esperavam o seu libertador no seio de Abraão, que Jesus Cristo libertou quando desceu à mansão dos mortos» (535). Jesus não desceu à mansão dos mortos para de lá libertar os condenados (536), nem para abolir o inferno da condenação (537), mas para libertar os justos que O tinham precedido (538).
634. «A Boa-Nova foi igualmente anunciada aos mortos...» (1 Pe 4, 6). A descida à mansão dos mortos é o cumprimento, até à plenitude, do anúncio evangélico da salvação. É a última fase da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta no seu significado real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, porque todos aqueles que se salvaram se tornaram participantes da redenção.”

Como se vê, ninguém antes de Jesus pudera ser salvo. Mesmo aqueles que podem ser chamados justos e que eram almas santas, estavam aí, no Hades, no mesmo sítio onde estavam os maus. E foi Jesus que lá os foi resgatar.

Ou seja, ninguém foi para o céu antes de Jesus nascer. Ver ainda a Divina Comédia, de Dante, que retrata este aspecto no Canto IV.

A este local chamou-se pela tradição Limbo dos Patriarcas (limbus patrum), precisamente porque era o limbo em que estavam os Patriarcas do Judaísmo.


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Outros pontos do Catecismo que me suscitam interesse


Note-se o ponto 553:
553. Jesus confiou a Pedro uma autoridade específica: «Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que desligares na terra será desligado nos céus» (Mt 16, 19). 
Por Pedro entende-se o Papa, como seu sucessor. Pedro é “o único a quem confiou explicitamente as chaves do Reino”. No entanto, ao longo da história o Papa decidiu abrir as portas do céu em nome de favores políticos ou económicos. É legítimo perguntar: se o Papa detém explicitamente as chaves do Reino de Deus, e se tudo o que ele faz na terra é reconhecido nos céus, isso significa que todos esses actos que envergonham hoje a Igreja foram respeitados no Reino dos céus? Se assim é, então de facto venderam-se lugares no céu.

O MAGISTÉRIO DA IGREJA
85. «O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo (51), isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.

Note-se que por “em comunhão” entende-se aqueles que não foram excomungados pelo sucessor de Pedro. Isto é, o ponto 85 não significa que o Papa deve interpretar em conjunto com os Bispos, mas sim que a interpretação de um Bispo em particular apenas é “válida” se esse Bispo estiver em comunhão com o Papa.

OS DOGMAS DA FÉ
88. O Magistério da Igreja faz pleno uso da autoridade que recebeu de Cristo quando define dogmas, isto é, quando propõe, dum modo que obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, verdades contidas na Revelação divina ou quando propõe, de modo definitivo, verdades que tenham com elas um nexo necessário.

Quando o Papa (“Magistério da Igreja”) define um dogma a adesão é obrigatória. A não adesão a um dogma de fé, definido pelo Papa como tal, significa que não se é parte do povo cristão, e tem efeitos de excomunhão caso se venha a comprovar. O Dogma da infalibilidade pontifícia é declarado em 1870 no concílio Vaticano I. Ver também a Constituição Dogmática Lumen gentium, cap. III, 18: “Este sagrado Concílio propõe de novo, para ser firmemente acreditada por todos os fiéis, esta doutrina sobre a instituição perpétua, alcance e natureza do sagrado primado do Pontífice romano e do seu magistério infalível […]”.

Os pontos 192 a 196 definem o Símbolo dos Apóstolos (conhecido como credo pequeno) como resumo fundamental da fé e o Símbolo de Niceia-Constantinopla (Credo de Niceia-Constantinopla) como complementar. Por outro lado, diz que os restantes Símbolos, isto é, credos elaborados ao longo da História, não estão ultrapassados: “Nenhum dos símbolos dos diferentes períodos da vida da Igreja pode ser considerado ultrapassado ou inútil.” Apesar de tudo, é o de Niceia-Constantinopla que apresenta mais conteúdo e é mais objecto de discussão entre teólogos de diferentes Igrejas.


266. «Fides autem catholica haec est, ut unum Deum in Trinitate, et Trinitatem in unitate veneremur, neque confundentes personas, neque substantiam sepa-raptes; alia enim est persona Patris, alia Filii, alia Spiritus Sancti: sed Patris et Filii et Spiritus Sancti una est divinitas, aequalis gloria, coaeterna majestas (88) – A fé católica é esta: venerarmos um só Deus na Trindade e a Trindade na unidade, sem confudir as Pessoas nem dividir a substância: porque uma é a Pessoa do Pai, outra a do Filho, outra a do Espírito Santo; mas do Pai e do Filho e do Espírito Santo é só uma a divindade, igual a glória e coeterna a majestade».
267Inseparáveis no que são, as pessoas divinas são também inseparáveis no que fazem. Mas, na operação divina única, cada uma manifesta o que Lhe é próprio na Trindade, sobretudo nas missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo.


Agora especial atenção para o seguinte ponto. Aqui diz-se para que é que o mundo foi criado.
319Deus criou o mundo para manifestar e comunicar a sua glória. Que as criaturas partilhem da sua verdade, da sua bondade e da sua beleza – eis a glória, para a qual Deus as criou.

O mundo foi criado para “glória” de Deus. Depois esclarece-se convenientemente que glória significa partilhar a verdade, a bondade e a beleza de Deus. Mas, então, e o Mal?

324. A permissão divina do mal físico e do mal moral é um mistério, que Deus esclarece por seu Filho Jesus Cristo, morto e ressuscitado para vencer o mal. A fé dá-nos a certeza de que Deus não permitiria o mal, se do próprio mal não fizesse sair o bem, por caminhos que só na vida eterna conheceremos plenamente.

Ou seja: não sabemos explicar o mal, nem o físico nem o moral, excepto pela assumpção de que “na vida eterna” viremos a ser esclarecidos. Mas, mais à frente, diz-se: “338. Nada existe que não deva a sua existência a Deus Criador”. Nada existe, nem sequer o mal, que não deva a sua existência a Deus.

328. A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura é tão claro como a unanimidade da Tradição.

510Maria permaneceu «Virgem ao conceber o seu Filho, Virgem ao dá-Lo à luz, Virgem grávida, Virgem fecunda, Virgem perpétua» (183); com todo o seu ser; ela é a «serva do Senhor» (Lc 1, 38).

Note-se que Maria é considerada virgem mesmo depois de dar à luz e para sempre, apesar dos irmãos que Jesus teve. É importante porque para os Judeus, como para todos os povos antigos, a virgindade tinha que ver com o rompimento do hímen. O que era estranho em Maria não era tanto a imaculada concepção, mas sim que tivesse permanecido virgem mesmo depois de dar à luz. A virgindade de Maria foi defendida, pelo menos, desde Santo Agostinho (ver a nota 183 ao ponto 510 do Catecismo, bem como a De sancta virginitate). No entanto, apenas em 1854 foi tornado dogma, a 8 de Dezembro, pela bula Ineffabilis Deus (portanto, antes da própria definição da infalibilidade pontifícia em 1870). E em 1950, já recorrendo à infalibilidade, o Papa Pio XII proclama a Assumpção da Virgem em corpo e alma ao céu – o que é algo diferente da simples virgindade. Ver A renovação da teologia e do culto marianos, Sylvie Barnay, In História do Cristianismo, dir. Alain Corbin. O concílio Vaticano II reafirma e reforça o dogma da virgindade de Maria (ver constituição dogmática Lumen Gentium).
A virgindade de Maria aparece nas escrituras, mas é, provavelmente, uma ideia derivada de um erro de tradução. É que nos tempos de Jesus as escrituras eram lidas não no original hebraico nem no aramaico corrente, mas sobretudo em grego, segundo a tradução dos Setenta (Septuaginta). Aqui, na Septuaginta, a palavra hebraica העלמה, ha'almah, a jovem, é vertida para  παρθένος, a virgem. Era esta a versão conhecida por Marcos, Mateus, Lucas, João, Paulo, até mesmo Santo Agostinho séculos depois lia o grego e não o hebraico. Comparar a respeito disto Isaías 7:14, Mateus 1:23 e Lucas 1:24. Discuto isto em http://discutirfilosofiaonline.blogspot.pt/2012/04/virgem-ou-jovem-isaias-147.html. Como se pode ver se se fizer a comparação, Mateus está claramente a citar Isaías a partir do texto da Septuaginta, e este texto que anuncia Emmanuel afirma, na tradução grega, que este nasceria de uma virgem. Mas o que está no original não é uma virgem, mas uma jovem mulher.


Proponho ainda a leitura do Manual das Indulgências. Está na Net e publicado em vários idiomas.




[1] Os manuscritos dos evangelhos mais antigos são relativos a São Marcos e só apresentam o texto até 16:8. Os versos 9-20 não existem nos testemunhos mais antigos (ver The Greek New Testament, fourth revisited edition, para confirmar todos os manuscritos que possuem e não possuem esses versos, bem como a datação dos mesmos – os manuscritos de Eusebius, Epiphanius, Hesychius (?) e Jerónimo, que já apresentam esta parte, são já de Padres da Igreja e estamos a falar de qualquer coisa como do século IV). Os relatos mais antigos da ressurreição não estão nos textos sobre Jesus (Evangelhos e Actos dos Apóstolos), mas sim em Paulo (ver 1 Cor 15:3-8). Os historiadores consideram, regra geral, que a ressurreição não faz parte da vida histórica de Jesus (ver, por exemplo, A verdadeira História de Jesus, Sanders, ed. notícias, 4ª ed (2004), p. 343 e seg.; A Vida de Jesus, Ernest Renan, Vida Editores, p. 250; Jesus de Nazaré, Joachim Gnilka, Ed. Presença, 1ª ed., p. 302). Teologicamente, a ressurreição é fundamental e não pode ser posta em dúvida.