A propósito da VERDADE
A verdade está nos pormenores. Em certo sentido, é verdade.
Há dias o Paulo Portas disse numa visita a uma qualquer feira de empresários que "Primeiro os negócios, depois a política".
Aqui está a grande ideologia que não se vê como ideologia:
"PRIMEIRO OS NEGÓCIOS, depois o resto.
Outro dia disse o Cavaco que "há coisas que não admitem excepção". E depois concretizou: essas coisas "são as regras económicas".
Pois, o que não admite excepção, o que realmente é a coisa principal é os negócios, a economia.
Repare-se: há quem diz que o principal é o humano, e a lei feita para o servir. Há quem diz que aquilo que não admite excepção são os nossos deveres éticos, e o respeito pela humanidade de cada humano.
Hoje não: a dignidade de cada um enquanto humano, os deveres éticos de cada um, o humano, a ética, a política - tudo isto é um "depois", algo "secundário", que "logo se vê", no qual pensa "mais tarde". O principal, o Absoluto que não admite excepção, com o qual não se brinca, cujo nome nem se pode pronunciar sem esboçar uma cara de sério é o quê?
OS NEGÓCIOS
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sábado, 20 de junho de 2015
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Uma pessoa é um número?
A propósito das perspectivas de Nuno Crato e Passos Coelho
Ora bem, Portugal é o país que está melhor, embora os portugueses estejam pior... e o erro do MEC só afectou 2% dos professores.
Estas declarações distanciadas no tempo são, afinal, expressão do mesmo tipo de pensamento: aquele que reduz as pessoas aos números e às percentagens. Para este governo as famílias não interessam, a saúde mental e a estabilidade emocional das pessoas são negligenciáveis.
Há uma grave problema de perspectiva quando pessoas são tratadas como meras percentagens.
Tudo vai bem porque o erro afectou apenas 2%. Tu que estás no fundo aguenta porque és apenas uma pequena parte desses insignificantes 2%.
Mas o que dizer dos 2% que estão no topo da pirâmide socio-económica? Será que o Passos sabe ser tão bom em estatística quando se trata de lidar com esses 2%?
Ora bem, Portugal é o país que está melhor, embora os portugueses estejam pior... e o erro do MEC só afectou 2% dos professores.
Estas declarações distanciadas no tempo são, afinal, expressão do mesmo tipo de pensamento: aquele que reduz as pessoas aos números e às percentagens. Para este governo as famílias não interessam, a saúde mental e a estabilidade emocional das pessoas são negligenciáveis.
Há uma grave problema de perspectiva quando pessoas são tratadas como meras percentagens.
Tudo vai bem porque o erro afectou apenas 2%. Tu que estás no fundo aguenta porque és apenas uma pequena parte desses insignificantes 2%.
Mas o que dizer dos 2% que estão no topo da pirâmide socio-económica? Será que o Passos sabe ser tão bom em estatística quando se trata de lidar com esses 2%?
segunda-feira, 26 de maio de 2014
Comentário aos Resultados das Europeias de 25-05-2014, em Portugal
A propósito de Eleições Europeias - Portugal, 25-05-2014
1º.
É verdade que, em números absolutos, o PS ganhou, com 31,45%. Mas a coisa começa a ser cómica: o Seguro teve de se desunhar para fazer notar que o PS ganhou. Repetiu-o tantas vezes que até os mais distraídos começaram a desconfiar de que talvez, afinal, o PS tenha sido o verdadeiro derrotado do dia...
O PS começa a configurar um paradoxo interessante. Desde há milénios que se sabe que se pode ir ganhando batalha atrás de batalha até à derrota final... Mas o PS de Seguro tem mostrado que é possível ganhar e ser o derrotado! E isto é qualquer coisa!
2º
É verdade. O grande vencedor da noite - à falta de melhor - foi Marinho e Pinto. Em 2009 o MPT teve 0.66% e agora teve 7,15%. E é absolutamente interessante a forma como os jornalistas - já nem falo de zombies como o Marques Mendes - se deleitaram a vilipendiar e a menosprezar o resultado, a posição e as ideias de Marinho e Pinto. Os jornalistas mostram-se, cada vez mais, como uma força de bloqueio, severamente conservadores, adversos a qualquer ideia com mais espessura do que o dedo de testa que eles não chegam a ter. Eu nem votei, nem votaria, nem me revejo na candidatura de Marinho e Pinto - mas a forma como se tentou, ontem, e se tentará hoje e amanhã, converter a vitória de Marinho e Pinto num resultado fruto de populismo é uma tentativa absolutamente ignorante, ignóbil e estúpida... e, curiosamente, são os jornalistas os seus principais mentores.
3º
O Bloco de Esquerda tem de deixar, de uma vez por todas, de clamar vitória quando perde - tem de deixar de reclamar vitórias que não se obtiveram à sua custa, etc... A direita não perdeu graças aos votos que o BE teve. Por outro lado, os comentadores e fazedores de opinião do bloco central, PS-PSD-CDS, continuam com a ideia de que o BE deve "abrir-se", deve ir ao encontro deles, das suas ideias, das suas posturas, ser como eles, etc... É curioso, o bloco central acha muito bem que os outros partidos existam, desde que eles sejam como ele. Vamos lá a ver se nos entendemos: o facto de haver uma maioria PS-PSD-CDS não mostra que este "centro" esteja certo, esteja bem, etc. Não mostra, sequer, que a maioria da população esteja a seu favor... Porquê: porque a maioria das pessoa não está, de todo, interessada em política, em eleições, em votar, etc...
4º
Alguém sugeriu que se fizesse um sorteio de um carro para ver se as pessoas vão votar... Mas isso não daria em nada, como é evidente. Mas se, por outro lado, se oferecesse a todos quanto fossem votar um bilhete para um jogo de futebol do Benfica, do Porto ou do Sporting, à escolha, tenho a certeza absoluta que a abstenção praticamente desapareceria e, de repente, toda agente acharia muito produtivo ir votar.
É verdade que há algo na abstenção que tem que ver com um distanciamento entre políticos e povo... Mas é uma falácia reduzir a abstenção a isto. Aliás, só quem ainda não foi ver o histórico de eleições nas democracias em geral (desde que não se seja legalmente obrigado a votar, porque há países em que isso acontece), ainda não teve ocasião de perceber que a abstenção é o fenómeno mais assíduo da Democracia. Parece que em Portugal a coisa se agrava, e se agrava sobretudo nas Europeias... Mas isso não invalida esta hipótese: as pessoas não votam porque não há interesse, há abstenção porque as pessoas se estão nas tintas. Falam contra o Governo porque falar é fácil, mas estão noutra - literalmente noutra: estão no futebol, por exemplo. A coisa é por demais evidente: há consciência futebolística em Portugal.
Dito isto, é também evidente que um certo comportamento dos políticos tem afastado ainda mais as pessoas. Mas não é só o facto de os políticos falarem uma linguagem incompreensível, ou de mentirem, etc... Tudo isso poderia, justamente, fazer com que as pessoas fossem votar: para penalizar os mentirosos, para substituir os que não se compreendem por outros compreensíveis...
Há aqui aspectos que não interessa agora focar, mas, no essencial, as pessoas não votam porque, em geral, reina o desinteresse, a falta de uma consciência política. É um aspecto estrutural. A abstenção não é circunstancial.
5º
As pessoas passam ano atrás de ano a dizer mal dos que governam e, depois, ou votam nos mesmos de sempre, ou não vão votar - para continuarem, depois, a queixar-se que os políticos são sempre iguais... Estranho seria que mantendo sempre lá os mesmos, os mesmos não fossem sempre a mesma coisa... Isto é um princípio muito bem conhecido: o princípio do lunático que consiste em fazer o mesmo repetidamente, passo o pleonasmo, esperando resultados diferentes. E, mais uma vez, isto acontece porque até mesmo entre os que votam reina um pano de fundo de indiferença, de desinteresse, de inconsciência.
1º.
É verdade que, em números absolutos, o PS ganhou, com 31,45%. Mas a coisa começa a ser cómica: o Seguro teve de se desunhar para fazer notar que o PS ganhou. Repetiu-o tantas vezes que até os mais distraídos começaram a desconfiar de que talvez, afinal, o PS tenha sido o verdadeiro derrotado do dia...
O PS começa a configurar um paradoxo interessante. Desde há milénios que se sabe que se pode ir ganhando batalha atrás de batalha até à derrota final... Mas o PS de Seguro tem mostrado que é possível ganhar e ser o derrotado! E isto é qualquer coisa!
2º
É verdade. O grande vencedor da noite - à falta de melhor - foi Marinho e Pinto. Em 2009 o MPT teve 0.66% e agora teve 7,15%. E é absolutamente interessante a forma como os jornalistas - já nem falo de zombies como o Marques Mendes - se deleitaram a vilipendiar e a menosprezar o resultado, a posição e as ideias de Marinho e Pinto. Os jornalistas mostram-se, cada vez mais, como uma força de bloqueio, severamente conservadores, adversos a qualquer ideia com mais espessura do que o dedo de testa que eles não chegam a ter. Eu nem votei, nem votaria, nem me revejo na candidatura de Marinho e Pinto - mas a forma como se tentou, ontem, e se tentará hoje e amanhã, converter a vitória de Marinho e Pinto num resultado fruto de populismo é uma tentativa absolutamente ignorante, ignóbil e estúpida... e, curiosamente, são os jornalistas os seus principais mentores.
3º
O Bloco de Esquerda tem de deixar, de uma vez por todas, de clamar vitória quando perde - tem de deixar de reclamar vitórias que não se obtiveram à sua custa, etc... A direita não perdeu graças aos votos que o BE teve. Por outro lado, os comentadores e fazedores de opinião do bloco central, PS-PSD-CDS, continuam com a ideia de que o BE deve "abrir-se", deve ir ao encontro deles, das suas ideias, das suas posturas, ser como eles, etc... É curioso, o bloco central acha muito bem que os outros partidos existam, desde que eles sejam como ele. Vamos lá a ver se nos entendemos: o facto de haver uma maioria PS-PSD-CDS não mostra que este "centro" esteja certo, esteja bem, etc. Não mostra, sequer, que a maioria da população esteja a seu favor... Porquê: porque a maioria das pessoa não está, de todo, interessada em política, em eleições, em votar, etc...
4º
Alguém sugeriu que se fizesse um sorteio de um carro para ver se as pessoas vão votar... Mas isso não daria em nada, como é evidente. Mas se, por outro lado, se oferecesse a todos quanto fossem votar um bilhete para um jogo de futebol do Benfica, do Porto ou do Sporting, à escolha, tenho a certeza absoluta que a abstenção praticamente desapareceria e, de repente, toda agente acharia muito produtivo ir votar.
É verdade que há algo na abstenção que tem que ver com um distanciamento entre políticos e povo... Mas é uma falácia reduzir a abstenção a isto. Aliás, só quem ainda não foi ver o histórico de eleições nas democracias em geral (desde que não se seja legalmente obrigado a votar, porque há países em que isso acontece), ainda não teve ocasião de perceber que a abstenção é o fenómeno mais assíduo da Democracia. Parece que em Portugal a coisa se agrava, e se agrava sobretudo nas Europeias... Mas isso não invalida esta hipótese: as pessoas não votam porque não há interesse, há abstenção porque as pessoas se estão nas tintas. Falam contra o Governo porque falar é fácil, mas estão noutra - literalmente noutra: estão no futebol, por exemplo. A coisa é por demais evidente: há consciência futebolística em Portugal.
Dito isto, é também evidente que um certo comportamento dos políticos tem afastado ainda mais as pessoas. Mas não é só o facto de os políticos falarem uma linguagem incompreensível, ou de mentirem, etc... Tudo isso poderia, justamente, fazer com que as pessoas fossem votar: para penalizar os mentirosos, para substituir os que não se compreendem por outros compreensíveis...
Há aqui aspectos que não interessa agora focar, mas, no essencial, as pessoas não votam porque, em geral, reina o desinteresse, a falta de uma consciência política. É um aspecto estrutural. A abstenção não é circunstancial.
5º
As pessoas passam ano atrás de ano a dizer mal dos que governam e, depois, ou votam nos mesmos de sempre, ou não vão votar - para continuarem, depois, a queixar-se que os políticos são sempre iguais... Estranho seria que mantendo sempre lá os mesmos, os mesmos não fossem sempre a mesma coisa... Isto é um princípio muito bem conhecido: o princípio do lunático que consiste em fazer o mesmo repetidamente, passo o pleonasmo, esperando resultados diferentes. E, mais uma vez, isto acontece porque até mesmo entre os que votam reina um pano de fundo de indiferença, de desinteresse, de inconsciência.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Mandela v/s Cavaco, dignidade e indignidade humana
A propósito das condolências de Cavaco em relação à morte de Mandela... ou quando um homem deveria saber ficar calado por ser tão estúpido que qualquer coisa que diga só pode soar a asneira...
Já é uma completa falta de respeito para com Mandela que os nossos governantes se pronunciem sobre ele e sobre a sua actuação ao longo da vida. E é uma falta de respeito porque os nossos governantes representam o oposto de Mandela, isto é, representam não a ditadura de direito e de facto, mas sim representam aquela postura muito mais ignominiosa de quem sempre está do lado dos interesses do momento e que, portanto, tanto é indiferente à dignidade humana como colabora com as piores atrocidades: são assim os nossos governantes.
Já é uma completa falta de respeito para com Mandela que os nossos governantes se pronunciem sobre ele e sobre a sua actuação ao longo da vida. E é uma falta de respeito porque os nossos governantes representam o oposto de Mandela, isto é, representam não a ditadura de direito e de facto, mas sim representam aquela postura muito mais ignominiosa de quem sempre está do lado dos interesses do momento e que, portanto, tanto é indiferente à dignidade humana como colabora com as piores atrocidades: são assim os nossos governantes.
Mas pior é Cavaco Silva. Este senhor que hoje, para prova de que a factualidade histórica dá visibilidade e sucesso segundo o acaso de forma absolutamente indiferente, este senhor que hoje é o Presidente de Portugal para prova de que os portugueses sabem esquecer mesmo as coisas que são mais importantes, este senhor que hoje envia mensagem de condolências pela morte de Mandela, para prova de que não tem esqueleto moral, foi justamente aquele que, no momento em que a maioria da diplomacia mundial se alinhava do lado de Mandela quando ele precisava e era altura de lhe dar apoio, esteve do outro lado, do lado dos fracos, sem coragem, sempre com um olho nos interesses do momento e nos interesses de amanhã, e que não têm escrúpulos em mostrar com as suas acções que não têm uma consciência, ou que, se a têm, a mantêm domada. Este senhor, Cavaco Silva, que por um acaso obtuso ocupa a presidência, este senhor é muito pior e da sua boca sair um murmúrio bajulador da memória de Mandela é um muito maior insulto àquilo que Mandela representa. Porque quando Cavaco permaneceu do outro lado quando Mandela mais precisava, já o mundo estava a perceber que Mandela representava o lado de onde mandava a consciência que se estivesse - e ainda assim Cavaco foi casmurro, apegado aos interesses, os seus ou os de Portugal, os desse momento, ou os do futuro desse momento - não interessa: em nome de interesses, Cavaco preferiu estar do outro lado, objectivamente contra Mandela e contra as crianças vítimas daquele regime indigno do apartheid. Resistiu na sua persistente teimosia a favor dos interesses, dos benefícios, das vantagens - tal como hoje continua desse lado, e esse lado é decididamente o outro lado, o lado que ao longo da História sempre esteve presente para esmagar, aprisionar, torturar e matar homens como Mandela...
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Necessidade: o que é preciso?
A propósito de necessidades e políticas...
A ideia de que a salvação está em fazer o "necessário" é parva, pelo menos, por dois motivos.
1º. Saber o que é, de facto, preciso, "necessário", requerido - numa palavra, saber o que se há-de fazer é, justamente, o problema - não basta pôr-se uma pessoa a gritar que é preciso fazer o que é preciso, é também "preciso" saber o que é preciso, e neste âmbito parece que não se tem sido capaz de perceber o que era preciso, pois tem-se feito o que se tem dito ser preciso e isso tem-se revelado inútil (e o facto de haver algumas pessoas que acham que tem sido útil isso mostra apenas o que essas pessoas acham ser útil e que, invariavelmente, tem que ver com apresentar certos indicadores numéricos e gráficos às pessoas que passam fome ou estão em circunstâncias aflitivas para lhes dizer que as suas aflições são, afinal, pura ilusão);
2º. O problema parece residir precisamente no facto de se andar a fazer o "necessário" e ninguém mais pensar no que deve ser feito. Ou melhor, toma-se o necessário pelo que se tem de fazer: como se o que se deve fazer fosse uma necessidade, mas isso apenas mostra uma imensa ignorância acerca da natureza humana, pois nada na história nos mostra que aquilo que é necessário em cada circunstância se tenha revelado aquilo que se deveria ter feito: embora, não raras vezes, a história nos tenha mostrado que o necessário era precisamente o que não se deveria fazer. Claro que logo se pensa que contra o necessário nem os deuses podem nada, como já o diziam os Antigos. Mas, mais uma vez, é "útil" recorrermos à história, a qual nos mostra que, tão frequentemente como a chuva no Inverno, aquilo que se tinha por necessário se veio a revelar a maior estupidez. E, assim, caímos, novamente, no problema número um.
Ora, pode-se ser muito criativo e crítico relativamente a soluções para um determinado problema. Pode-se ser capaz de identificar as falhas, as fragilidades, os perigos desta ou daquela hipótese - sem ter de a percorrer para cair no abismo. Assim, há pessoas particularmente despertas para este tipo de vícios formais nas teorias - são pessoas raras, que me surpreendem sempre pela sua argúcia, e que eu gosto de ouvir e tomar nota. Essas pessoas são muito importantes na vida política, económica, etc.
Há, depois, outro tipo de pessoas. Essas pessoas, ainda mais estranhas do que as anteriores, são capazes de ver contra tudo o que está dado a ver. Nós, pessoas comuns, olhamos para os calhaus e vemos calhaus. Mas essas pessoas não. Essas pessoas são capazes de perceber que aquele problema -com o qual nos ocupamos, e relativamente ao qual os criativos e críticos (descritos no tópico anterior) são argutos e exímios em análise - afinal não existe senão em razão de um vício do olhar. Estas estranhas pessoas dizem-nos na cara que aquilo que está mesmo à nossa frente - por exemplo, o tal calhau - pode muito bem não ser o que parece e até pode nem existir: e dizem-nos isto mesmo que lhes demos com o calhau na carola. Este tipo de pessoas é ainda mais raro do que o anterior. A sua crítica é ainda mais "especiosa" e não se lhes consegue perceber o raciocínio enquanto se come tremoços e bebe uma bejeca. Têm a curiosa particularidade de serem pessoas sem qualquer relevância política e social, raramente ocupam cargos importantes. Passam absolutamente despercebidos e são estranhamente incapazes de escrever um artigo para um jornal - porque não são capazes de dizer nada sem terem de explicar uma carrada de dificuldades que nunca nos haviam passado pela cabeça. Quantas pessoas destas encontramos nós? Para mim é sempre uma surpresa ouvir alguém, ou ler alguém que faça este género de crítica. Não curiosamente, têm por "hábito" - hábito muito estranho - serem lidos e comentados apenas depois de mortos (aqueles que chegam a escrever alguma coisa, porque aparentemente estes estranhos seres não são atraídos pela escrita - nem pelo facebook, imagine-se). Pra este hábito de passar despercebido talvez contribua a noção de que, seja o que for que digam, isso será deturpado, transformado e defecado noutra coisa qualquer, de tal modo que talvez não se sintam atraídos por contribuir para o ruído de fundo. Uma pessoa encontra três ou quatro destas estranhas criaturas na sua vida (provavelmente porque também nos falta a capacidade para reconhecer um génio se ele não tiver trinta microfones à frente, um contrato milionário ou o nome antecedido por meia dúzia de títulos).
Eu devo dizer que não tenho nenhuma das habilidades ditas anteriormente -mas sinto-me fascinado por essas mesmas habilidades. E tomo-as em consideração. Na verdade, penso que essas pessoas devem ser levadas a sério - mesmo que isso tenha tendência para não acontecer.
Isto tudo para dizer o quê? Bem, para dizer uma coisa muito "simples": estamos na estranha circunstância em que nos tornámos escravos e deitamo-nos a apontar toda uma catrefada de algozes, quando afinal a nossa situação aflitiva talvez tenha como origem apenas a nossa própria fronha bovina. O problema parece ser que não sabemos identificar o que seja esta condição de escravatura, pois também não sabemos quando foi que nos tornámos escravos, ou se afinal sempre fomos escravos - de tal modo que talvez a nossa experiência, essa mesma experiência em que temos de confiar todos os dias e que é vital, seja justamente o problema: pode acontecer que estejamos de tal modo encarneirados numa experiência de carneiros, num hábito bobino, que todas as referências que procuramos para nos libertarmos sejam referências adquiridas à medida do carneiro e do bezerro.
Ora, então, que é que se passa connosco, que regime é o que temos, qual é o nosso papel, para que serve um regime, para que servem os mercados, o que são as pessoas, o que é uma pessoa? Por que temos de fazer o que os mercados dizem, o que a Alemanha diz? Se nos mandam enforcar, temos de nos enforcar? Se não nos deixam viver senão enforcando-nos por que raio devemos enforcar-nos?
Todas estas perguntas são, evidentemente, parvas, porque já se sabe que há um problema e há que arranjar uma solução, e há um regime, e os partidos são o que são, se não queremos o passos temos de querer o seguro, e se um e outro são reles, a ditadura não seria melhor, e precisamos de dinheiro, porque sem dinheiro passamos fome, e para o Estado ter dinheiro, temos de passar fome, e acabamos por ir para o matadouro como as ovelhas com as nossas boas razões, porque temos por certo que ir para o matadouro é necessário para o problema em que estamos.
Resumindo: também não é sair para a rua que nos salvará por si só. E ficar parado também não. Esses comportamentos, por si só, são neutros. Pode-se sair à rua, como se fez no Egipto, e metermo-nos numa situação igual ou pior. Há qualquer coisa que se deve aprender com todos esses povos - estranhos para o português - que marcham contra exércitos e polícias e fazem cair regimes à custa do sangue, ou que, como os brasileiros, forçam o governo a fazer o que deveria ter feito sem que o obrigassem. Há uma lição que é esta: vale a pena sair do sofá. Mas também há uma lição a aprender com o Egipto: é preciso mais, é preciso muito mais do que fazer cair um Governo ou um Regime, é preciso muito mais do que votar. É preciso consciência. E a consciência aqui não é a simples notificação das coisas: pensar numa frase, por exemplo, "é preciso que o governo se vá embora", não garante que saibamos o que isso significa - sobretudo, o que isso significa em relação AO NOSSO PAPEL. Porque toda a gente parece convencida que basta mandar embora o Passos e esperar que a situação se resolva sem a gente ter de fazer nada em particular. Mas, justamente por isso, muito provavelmente, as coisas vão continuar simplesmente na mesma.
A ideia de que a salvação está em fazer o "necessário" é parva, pelo menos, por dois motivos.
1º. Saber o que é, de facto, preciso, "necessário", requerido - numa palavra, saber o que se há-de fazer é, justamente, o problema - não basta pôr-se uma pessoa a gritar que é preciso fazer o que é preciso, é também "preciso" saber o que é preciso, e neste âmbito parece que não se tem sido capaz de perceber o que era preciso, pois tem-se feito o que se tem dito ser preciso e isso tem-se revelado inútil (e o facto de haver algumas pessoas que acham que tem sido útil isso mostra apenas o que essas pessoas acham ser útil e que, invariavelmente, tem que ver com apresentar certos indicadores numéricos e gráficos às pessoas que passam fome ou estão em circunstâncias aflitivas para lhes dizer que as suas aflições são, afinal, pura ilusão);
2º. O problema parece residir precisamente no facto de se andar a fazer o "necessário" e ninguém mais pensar no que deve ser feito. Ou melhor, toma-se o necessário pelo que se tem de fazer: como se o que se deve fazer fosse uma necessidade, mas isso apenas mostra uma imensa ignorância acerca da natureza humana, pois nada na história nos mostra que aquilo que é necessário em cada circunstância se tenha revelado aquilo que se deveria ter feito: embora, não raras vezes, a história nos tenha mostrado que o necessário era precisamente o que não se deveria fazer. Claro que logo se pensa que contra o necessário nem os deuses podem nada, como já o diziam os Antigos. Mas, mais uma vez, é "útil" recorrermos à história, a qual nos mostra que, tão frequentemente como a chuva no Inverno, aquilo que se tinha por necessário se veio a revelar a maior estupidez. E, assim, caímos, novamente, no problema número um.
Ora, pode-se ser muito criativo e crítico relativamente a soluções para um determinado problema. Pode-se ser capaz de identificar as falhas, as fragilidades, os perigos desta ou daquela hipótese - sem ter de a percorrer para cair no abismo. Assim, há pessoas particularmente despertas para este tipo de vícios formais nas teorias - são pessoas raras, que me surpreendem sempre pela sua argúcia, e que eu gosto de ouvir e tomar nota. Essas pessoas são muito importantes na vida política, económica, etc.
Há, depois, outro tipo de pessoas. Essas pessoas, ainda mais estranhas do que as anteriores, são capazes de ver contra tudo o que está dado a ver. Nós, pessoas comuns, olhamos para os calhaus e vemos calhaus. Mas essas pessoas não. Essas pessoas são capazes de perceber que aquele problema -com o qual nos ocupamos, e relativamente ao qual os criativos e críticos (descritos no tópico anterior) são argutos e exímios em análise - afinal não existe senão em razão de um vício do olhar. Estas estranhas pessoas dizem-nos na cara que aquilo que está mesmo à nossa frente - por exemplo, o tal calhau - pode muito bem não ser o que parece e até pode nem existir: e dizem-nos isto mesmo que lhes demos com o calhau na carola. Este tipo de pessoas é ainda mais raro do que o anterior. A sua crítica é ainda mais "especiosa" e não se lhes consegue perceber o raciocínio enquanto se come tremoços e bebe uma bejeca. Têm a curiosa particularidade de serem pessoas sem qualquer relevância política e social, raramente ocupam cargos importantes. Passam absolutamente despercebidos e são estranhamente incapazes de escrever um artigo para um jornal - porque não são capazes de dizer nada sem terem de explicar uma carrada de dificuldades que nunca nos haviam passado pela cabeça. Quantas pessoas destas encontramos nós? Para mim é sempre uma surpresa ouvir alguém, ou ler alguém que faça este género de crítica. Não curiosamente, têm por "hábito" - hábito muito estranho - serem lidos e comentados apenas depois de mortos (aqueles que chegam a escrever alguma coisa, porque aparentemente estes estranhos seres não são atraídos pela escrita - nem pelo facebook, imagine-se). Pra este hábito de passar despercebido talvez contribua a noção de que, seja o que for que digam, isso será deturpado, transformado e defecado noutra coisa qualquer, de tal modo que talvez não se sintam atraídos por contribuir para o ruído de fundo. Uma pessoa encontra três ou quatro destas estranhas criaturas na sua vida (provavelmente porque também nos falta a capacidade para reconhecer um génio se ele não tiver trinta microfones à frente, um contrato milionário ou o nome antecedido por meia dúzia de títulos).
Eu devo dizer que não tenho nenhuma das habilidades ditas anteriormente -mas sinto-me fascinado por essas mesmas habilidades. E tomo-as em consideração. Na verdade, penso que essas pessoas devem ser levadas a sério - mesmo que isso tenha tendência para não acontecer.
Isto tudo para dizer o quê? Bem, para dizer uma coisa muito "simples": estamos na estranha circunstância em que nos tornámos escravos e deitamo-nos a apontar toda uma catrefada de algozes, quando afinal a nossa situação aflitiva talvez tenha como origem apenas a nossa própria fronha bovina. O problema parece ser que não sabemos identificar o que seja esta condição de escravatura, pois também não sabemos quando foi que nos tornámos escravos, ou se afinal sempre fomos escravos - de tal modo que talvez a nossa experiência, essa mesma experiência em que temos de confiar todos os dias e que é vital, seja justamente o problema: pode acontecer que estejamos de tal modo encarneirados numa experiência de carneiros, num hábito bobino, que todas as referências que procuramos para nos libertarmos sejam referências adquiridas à medida do carneiro e do bezerro.
Ora, então, que é que se passa connosco, que regime é o que temos, qual é o nosso papel, para que serve um regime, para que servem os mercados, o que são as pessoas, o que é uma pessoa? Por que temos de fazer o que os mercados dizem, o que a Alemanha diz? Se nos mandam enforcar, temos de nos enforcar? Se não nos deixam viver senão enforcando-nos por que raio devemos enforcar-nos?
Todas estas perguntas são, evidentemente, parvas, porque já se sabe que há um problema e há que arranjar uma solução, e há um regime, e os partidos são o que são, se não queremos o passos temos de querer o seguro, e se um e outro são reles, a ditadura não seria melhor, e precisamos de dinheiro, porque sem dinheiro passamos fome, e para o Estado ter dinheiro, temos de passar fome, e acabamos por ir para o matadouro como as ovelhas com as nossas boas razões, porque temos por certo que ir para o matadouro é necessário para o problema em que estamos.
Resumindo: também não é sair para a rua que nos salvará por si só. E ficar parado também não. Esses comportamentos, por si só, são neutros. Pode-se sair à rua, como se fez no Egipto, e metermo-nos numa situação igual ou pior. Há qualquer coisa que se deve aprender com todos esses povos - estranhos para o português - que marcham contra exércitos e polícias e fazem cair regimes à custa do sangue, ou que, como os brasileiros, forçam o governo a fazer o que deveria ter feito sem que o obrigassem. Há uma lição que é esta: vale a pena sair do sofá. Mas também há uma lição a aprender com o Egipto: é preciso mais, é preciso muito mais do que fazer cair um Governo ou um Regime, é preciso muito mais do que votar. É preciso consciência. E a consciência aqui não é a simples notificação das coisas: pensar numa frase, por exemplo, "é preciso que o governo se vá embora", não garante que saibamos o que isso significa - sobretudo, o que isso significa em relação AO NOSSO PAPEL. Porque toda a gente parece convencida que basta mandar embora o Passos e esperar que a situação se resolva sem a gente ter de fazer nada em particular. Mas, justamente por isso, muito provavelmente, as coisas vão continuar simplesmente na mesma.
domingo, 23 de agosto de 2009
O espírito do portuga
A propósito de Albufeira, o portuga...
O portuga é naturalmente crente no destino.
Fatum: o fado.
O portuga está certo da incerteza do seu destino. Mas, como com tantos outros conceitos, o portuga relaciona-se com o destino de uma forma peculiar.

Para o portuga o facto de não sabermos que uma arriba nos vai cair em cima significa que ela não vai cair. Mesmo depois da tragédia que ocorreu, é possível encontrar muitos portugas a dormir à sombra das arribas que ostentam avisos como o que ficou enterrado na dita tragédia.
"A verdade é que podemos estar em casa e cair-nos um avião em cima", afirma alguém à sombra de uma arriba.
Na verdade este é o espírito do portuga presto em abandalhar os velhos do Restelo. Poderemos dizer que este é o mesmo espírito que nos lançou da Europa aos confins do mundo abrir novos mundos ao mundo. Ou não?
Bem, talvez seja necessário que uma pessoa tenha uma boa dose de aventurismo. Neste mundo, os velhos do Restelo, não morrem de velhice: mas ficam velhos mais cedo.
Por outro lado, a capacidade de prever o futuro (e seria interessante discutir esta noção), embora não nos revele o fatum de cada um, permite-nos visar um objectivo, um destino para a nossa viagem), permite-nos preparar as armas e as bagagens necessárias à viagem, permite-nos então precavermo-nos para aqueles perigos que podemos prever.
Ou seja, não estou a contradizer aquele que afirma que, mesmo em casa, nos pode cair um avião em cima. Isso é uma possibilidade. Estou apenas a dizer: já que há tantos perigos que nos apanham de surpresa, pelo menos tenhamos a conveniência de nos precavermos daqueles de que estamos prevenidos.
O portuga é naturalmente crente no destino.
Fatum: o fado.
O portuga está certo da incerteza do seu destino. Mas, como com tantos outros conceitos, o portuga relaciona-se com o destino de uma forma peculiar.
Para o portuga o facto de não sabermos que uma arriba nos vai cair em cima significa que ela não vai cair. Mesmo depois da tragédia que ocorreu, é possível encontrar muitos portugas a dormir à sombra das arribas que ostentam avisos como o que ficou enterrado na dita tragédia.
"A verdade é que podemos estar em casa e cair-nos um avião em cima", afirma alguém à sombra de uma arriba.
Na verdade este é o espírito do portuga presto em abandalhar os velhos do Restelo. Poderemos dizer que este é o mesmo espírito que nos lançou da Europa aos confins do mundo abrir novos mundos ao mundo. Ou não?
Bem, talvez seja necessário que uma pessoa tenha uma boa dose de aventurismo. Neste mundo, os velhos do Restelo, não morrem de velhice: mas ficam velhos mais cedo.
Por outro lado, a capacidade de prever o futuro (e seria interessante discutir esta noção), embora não nos revele o fatum de cada um, permite-nos visar um objectivo, um destino para a nossa viagem), permite-nos preparar as armas e as bagagens necessárias à viagem, permite-nos então precavermo-nos para aqueles perigos que podemos prever.
Ou seja, não estou a contradizer aquele que afirma que, mesmo em casa, nos pode cair um avião em cima. Isso é uma possibilidade. Estou apenas a dizer: já que há tantos perigos que nos apanham de surpresa, pelo menos tenhamos a conveniência de nos precavermos daqueles de que estamos prevenidos.
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