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terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Os génios, os normais... e os outros!



Há três tipos de pessoas.

Há a maioria, os muitos, a grande maioria dos muitos normais. São a estrutura do mundo.
Há os génios. Os incompreendidos pela maioria, enquanto vivem. Que são admirados depois, mais tarde, frequentemente, depois de terem morrido. São os que são extraordinários e fazem coisas extraordinários. A maioria não os compreende. Mas admira os génios do passado. Admira os génios, desde que não viva com eles.

Depois há um terceiro tipo de pessoas que compreende os génios, mas não são génios. Não são suficientemente geniais para serem extraordinários, mas são suficientemente inteligentes para compreenderem o que os génios dizem e fazem. Não são suficientemente extraordinários para serem geniais, mas são suficientemente anormais para não se enquadrarem nos muitos.

Este tipo de pessoas não fica na história, mas também não tem uma vida normal. Sabem que não são normais, mas não têm a originalidade necessária para fazer algo verdadeiramente importante.

Conseguem ler e compreender um livro escrito por um génio, e estão conscientes do que é a genialidade. Por isso mesmo sentem na pele a dor de não terem aquele tipo de ideias, aquela imaginação, aquele instinto que rege os génios.

Estas pessoas são o tipo mais infeliz. Porque, ao contrário dos normais, não são precisos para manter a estrutura do mundo no seu lugar. E, ao contrário dos génios, também não são precisos para fazer o mundo dar saltos. São suficientemente inteligentes para saber o quanto são desperdiçáveis e inúteis ao mundo, mas não são tão inteligentes que consigam encontrar a solução do problema.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Kierkegaard e Nietzsche

A propósito de multidão e indivíduo...

Segundo Nietzsche, as massas devem conformar-se à moralidade enquanto conjunto de normas instituídas - apenas alguns indivíduos conseguem guiar-se pelas leis da própria subjectividade. Kierkegaard concorda. Mas o ponto de Kierkegaard é que todos os indivíduos são capazes de se tornar indivíduos - enquanto Nietzsche parece convencido que só alguns são realmente capazes de não ser multidão. 


Ou seja, quer Kierkegaard quer Nietzsche concordam que a maioria da gente é multidão e que só raramente surgem indivíduos realmente singulares. Mas Nietzsche pensa que isto é assim porque tem e deve ser assim. Já Kierkegaard esforça-se por mostrar que qualquer um pode vir a ser um indivíduo. 

sábado, 14 de dezembro de 2013

Mandela é uma possibilidade humana - para cada humano

A propósito de admiração

O espectáculo a que se tem votado a morte de Mandela é uma aparência. É uma ilusão.
Tem-se realçado severamente a excepcionalidade de Mandela, e isso é admiração e a admiração é imaginação. As pessoas imaginam que entenderam Mandela que existiu e fez isto ou aquilo, cumpriu este ou aquele feito espectacular, se comportou desta ou daquela maneira excepcional, e é aqui que reside a ilusão: no imaginar que tudo isso são factos históricos que caracterizaram um grande homem que nos suscita admiração - e esta admiração é que é ilusão. A pessoa de Mandela é transformada numa excepção que se admira por ter sido um grande homem, e que aquilo que ele fez o fez porque era excepcional, um homem como os outros não são: um homem como Eu não posso ser - e é aqui que reside a ilusão. A admiração é a ilusão pela qual Eu me isento de ser como ele foi, porque o "como" dele já foi petrificado na realidade dele como marca da distância dele a mim: eu não faria o mesmo, mas está tudo bem porque, afinal, ele era um grande homem e eu sou insignificante. Que Mandela é um homem excepcional, que portanto ser um homem excepcional não está ao alcance de todos, que seguir a própria consciência está reservado apenas a uns seres humanos que volta e meia surgem no Planeta, eis a ilusão, eis a aparência, eis a auto-ilusão, a desculpa que dou a mim mesmo para não ser nada como ele.
Na admiração de Mandela cada um isenta-se, cada um aplaude - mas não concebe realmente a realidade ética de Mandela como uma possibilidade sua. A consciência de Mandela deveria ser excepcional, ele deveria ser um ente diferente dos demais, qualquer coisa que não era deste mundo - e ouvimos de facto as pessoas dizerem coisas como estas... Tal como o procurador que acusou Mandela lhe disse que se sentia mal com o seu trabalho por ter de o acusar: mas Mandela, para fazer o que fez, teve que arriscar tudo - o procurador admirava aquele ser que estava à sua frente, à sua mercê, esse ser excepcional que arriscara a vida, que estava em risco de perder a vida por ser capaz de seguir a sua consciência, e o procurador sentia admiração por esse ser tão excepcional com o qual, evidentemente, não se poderia comparar... arriscar como Mandela arriscara não era, para o procurador, evidentemente, uma possibilidade...
A admiração que podemos ter por Mandela, por Sócrates, por Jesus - esta admiração é justamente a ilusão, porque enquanto admiramos pessoas que viveram e existiram nas suas possibilidades, mas as admiramos justamente enquanto pessoas reais, não concebemos que a realidade dessas pessoas seja uma possibilidade nossa, precisamente porque as consideramos excepcionais. As vidas reais das pessoas reais que admiramos enquanto tendo sido sujeitos históricos dignos de admiração não são concebidas como possibilidades nossas, porque não temos a seriedade necessária para levar a sério as suas vidas na medida em que são pessoas históricas e reais. Mas só quando as suas vidas são concebidas como possibilidades nossas, isto é, só quando não deixamos adormecer a nossa consciência na ilusão de que a realidade dessas pessoas se deveu a qualquer coisa de excepcional nelas, a algum talento, a alguma diferença, talvez uma alma mais robusta, um espírito mais musculado - só quando se desfaz a ilusão de que connosco não se trata de seguir a nossa consciência tal como eles seguiram - só então entendemos que essas vivas não são factos, mas sim possibilidades existenciais, possibilidades autênticas que também nós - essencialmente nós temos disponíveis. Cada um está apto a ser ético - o ponto decisivo não está nas diferenças. Transformar o sujeito ético num facto histórico e seguir explicando as suas acções psicológica, biológica, biograficamente - é uma ilusão...

Outra ilusão - embora de tipo diferente - é a de tomar o sucesso de Mandela como prova de sua grandiosidade moral. O seu sucesso não prova nada - e não tivesse ele alcançado sucesso, tivesse ele morrido antes de ser reconhecido, tivesse ele sido esquecido, isto seria indiferente, isto seria acaso. É uma imoralidade julgar que a história julga eticamente ou que a moralidade será sancionada historicamente.

Outra ilusão é julgar que o talento de Mandela para conquistar as pessoas é prova de alguma coisa... já deveríamos saber que as pessoas com talento para conquistar outras são da mais diversa espécie. Mesmo que toda uma geração, toda uma época se renda a uma personalidade, ainda assim nada é posto eticamente - e o inverso mantém-se válido, a saber, que mesmo que uma pessoa não convença ninguém pode estar certa, pode ser justamente a única que age eticamente. Ignorar este facto é imoral e com certeza não é ético.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Pascal, as extremidades da ciência...

A propósito de ignorância...



"O mundo julga bem as coisas, pois ele está na ignorância natural, a qual é a verdadeira sabedoria do homem. As ciências têm duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas, as quais, tendo percorrido tudo o que os homens podem saber, descobrem que eles próprios não sabem nada, e reencontram-se naquela mesma ignorância de onde partiram. Mas esta é uma ignorância sábia que se conhece. Aqueles que estão entre os dois, que saíram da ignorância natural, e não consiguiram chegar à outra, têm um tom daquela ciência que se basta e fazem-se entendidos.
Esses [que estão entre os dois] perturbam o mundo, e julgam mal tudo. O povo e os hábeis compõem o comboio do mundo; esses [que estão entre os dois] desprezam-no e são desprezados. Julgam mal todas as coisas, e o mundo julga bem."


Pascal, Pensées, ed. Ernest Havet, Art. II, 18 - tradução nossa.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Nietzsche - filosofia contra-intuitiva, o problema das categorias vulgares que não se deixam ver

A propósito da dificuldade que há em entrar na filosofia de Nietzsche


Quando estamos a tentar entender autores como Nietzsche (talvez com todos), temos que ter muito cuidado com os comentadores. É que Nietzsche está a tentar fazer um discurso para além das categorias habituais (chamemos-lhe o que quisermos: metafísica tradicional, ontologia canónica, senso comum, Bem e Mal, cristianismo, etc.). Qualquer coisa como a metáfora retirada da Bíblia: colocar o vinho em odres novos. Mas as categorias habituais são, precisamente, habituais. Quando alguém procura apontar para o ar corre o risco de que nós sigamos o seu dedo até à parede e pensemos que estava a apontar para ela. Então nós pensamos que ele simplesmente mudou o nome da "parede" e lhe passou a chamar "ar". Mas não, ele estava mesmo a falar de algo pelo qual nós, de facto, não demos. E a parede que nós pensamos que agora deve receber o nome "ar" era aquilo que para Nietzsche era vazio. Contudo, a nossa tendência é olhar para a parede e não perceber que ela é o vazio. Tal como não vemos o ar e julgamos que ele é simplesmente um vazio, quando Nietzsche tentava mostrar que não é assim.

Por isso, os comentadores normalmente falam de Nietzsche como se ele tivesse desperdiçado o vinho, ou como se ele simplesmente tivesse feito vinho novo: mas ele estava a falar de partir os odres velhos e de pôr vinho novo em odres novos.

O que é normalmente um nietzscheano?

Alguém que simplesmente trocou o vinho, mas manteve a forma.
Eles pensam que Nietzsche simplesmente mudou o nome da parede: antes chamava-se cristianismo, depois passou a chamar-se vontade de poder. Mas Nietzsche não mudou o nome a nada. O que ele mostrou é que, precisamente, havia nomes com grande fama que ocultavam um grande vazio. Não se tratava de colocar outro nome no vazio.

Enfim, por vezes, aqueles que mais defendem Nietzsche são os que parecem menos ter compreendido o fôlego do seu trabalho.

Por exemplo:
Quando Nietzsche fala dos espíritos malignos e da falta que eles fazem para renovar terrenos gastos, ele não está a pedir que nos tornemos todos gangsters, nem está a dizer que defende que nos dediquemos a assaltar bancos, ou que os assassinos em série devem ser galardoados. Nietzsche está a usar uma estratégia de contraste, porque essa é a única forma de apontar para o ar. Se alguém quer ver a dificuldade que aqui está envolvida apenas tem de inventar uma palavra para o ar, e depois ente mostrar a alguém a que é que está a chamar de ar apenas apontando. Vai ver que, quando apontar, ninguém vai pensar que está a apontar para o ar. O mesmo acontece se tentar apontar para uma janela: as pessoas vão pensar que está a apontar para a árvore que está no caminho.
Apontar a falsidade, ou o esquecimento que está subjacente à velha moral não é defender a simples negação dela. Nietzsche não está a dizer para fazermos simplesmente o contrário que a moral manda fazer: porque isso é manter o modelo anterior, o modelo moralista.

Se há coisa de que Nietzsche nos avisa é que os filósofos podem estar tão embrenhados em preconceitos como qualquer outra pessoa (coisa que é óbvia, mas que os filósofos, como todas as outras pessoas, tendem a ignorar). E de facto, nem os filósofos excepcionais são bons comentadores uns dos outros. Por isso, não nos podemos fiar no que um grande filósofo diz de outro.

Quem quiser compreender Nietzsche tem de ler Nietzsche. E em Nietzsche é importante a ordem pela qual as suas obras foram escritas. Portanto, Nietzsche (e, talvez, todos os filósofos) deveria ser lido pela ordem de execução das suas obras: começando pela primeira que ele escreveu e acabando na última. Mas isso nem sempre é possível, e nem todas as obras estão disponíveis em português.

"Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir. Hoje ainda estão nisso." A Gaia Ciência, §11

"és feliz se só tens uma virtude". Assim falava Zaratustra, Das Paixões de Alegria e de Dor

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O génio, a natureza e a teimosia

A propósito de grandes homens...

Parece que os grandes homens da história normalmente encontraram o fim da sua grandiosidade num ou noutro momento em que se mostraram teimosos. Mas será que alguma vez teriam sido grandes homens se não tivessem sido teimosos por natureza?


Será que os grandes homens podem ser grandes homens sem a teimosia que lhes permite lutar persistentemente contra as ideias pré-estabelecidas?

Será que os grandes homens podem ser grandes homens sem essa "natureza" tendencialmente belicosa? (belicosa no sentido de intransigente nas suas ideias, no sentido de defender a sua visão das coisas e de lutar por ela)

Será que o que faz do grande homem um grande homem terá sempre de contemplar uma grande dose de teimosia que já lhe vem no sangue, no ADN?