domingo, 30 de setembro de 2012

Deus, morte, riso - por Ricardo Araújo Pereira

A propósito da questão de Deus...

"penso que somos o único animal capaz de rir porque somos o único que sabe que vai morrer, cada vez que nos rimos, rimo-nos disso, rimo-nos de irmos morrer" 










sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O homem é aborrecimento

A propósito de aborrecimento...



"As pessoas de experiência defendem que é muito importante começar do princípio. Concedo-lhes isso e começo com o princípio de que todos os homens são aborrecidos. [...] O aborrecimento é a raiz de todo o mal."
Kierkegaard, Ou isto/ Ou aquilo, Rotação de Culturas.


"[para a alma é] um sofrimento insuportável estar obrigado a viver consigo mesma, e a pensar em si. [...] Essa é a origem de todas as ocupações tumultuosas dos homens..."
Pascal, Pensées, XXVI



Parte superior do formulário





O aborrecimento é constitutivo do humano. A fuga ao aborrecimento dá forma à sua vida centrífuga e diletante. Mas essa fuga corresponde (isto é, é acompanhada de) à fuga de si mesmo para qualquer distracção que o possa afectar e ajudar a camuflar-se, criando-se à medida que perde contacto consigo. O filósofo não está livre disso. Analisa o conceito de "fuga de si" em Platão, em Pascal, em Kierkegaard, em Heidegger, e sem dar por isso domesticou o próprio conceito de fuga: na verdade foge de si estudando o conceito de fuga de si. Sócrates dizia apenas: deixemos Homero quieto, deixemos Simónides sossegado, examinemos a nós próprios.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Quanto vale um dia de vida?

A propósito do parecer do Conselho Nacional de Ética relativo à distribuição de medicamentos e cuidados de saúde


O parecer pode ser lido aqui.

O documento sugere "a avaliação dos cuidados disponíveis para tratar quem se encontra em fase de final de vida e em fase terminal".

Apesar de o parecer não ser tão claro como se poderia desejar que fosse, em matéria de ética, onde as interpretações são tão díspares, a verdade é que deixa a ideia de que os cuidados de saúde, a utilizar em caso de doentes terminais ou idosos ("em fase de final de vida e em fase terminal" - seria necessário perceber se o "e" na frase implica aqueles que estão, simultaneamente, em fase de final de vida e em fase terminal, ou se, pelo contrário, este "e" foi usado no sentido de um "ou nesta situação, ou naquela, ou em ambas") deverão ser avaliados tendo em conta, por um lado, o custo, por outro, os seus efeitos previsíveis.

Dito de uma forma rápida: o parecer sugere que os cuidados de saúde apenas sejam ministrados quando o seu efeito compensa o seu custo.

Aparentemente, esta ideia parece-nos razoável, sobretudo porque parecemos estar completamente seduzidos pela mentalidade economicista dos nossos dias. Mas, na verdade, esta é uma posição que revela muito pouca ética.

Que a vida humana seja pesada em termos de valor económico, é muito discutível, mas sobretudo não é uma posição claramente ética - e teríamos aqui de discutir o que faz de uma posição que ela seja ética, mas também não o faremos!

O parecer rodeia-se de termos muito relativos e pouco precisos, ou seja, que parecem muito razoáveis, mas não se sabe a que correspondem de facto. Por exemplo: "maior bem possível". Já é muito difícil avaliar o que é o "maior bem", mas este parece quer que saibamos o que é o "maior bem possível".

E quem é que decide o que é o maior bem, e já agora, quem é que decide se ele é possível?

"uma vez que não é possível dar o melhor a todos, tornando, assim, imperativo que a configuração das prioridades deva ser analisada de forma justa, permitindo distribuir os recursos possíveis pelo maior nú-mero de pessoas"

Mas o que é isso de "forma justa"? Distribuir os recursos pelo maior número de pessoas? Mas não é isso que tem sido feito? Se não é, deveria. Ou será que o parecer pretende, na verdade, dizer que quando um doente está a ficar muito caro mais vale é deixar-se morrer?

Não quero esmiuçar aqui o parecer. Resta-me dizer que isto é um indício de que algo muito grave está a suceder na nossa sociedade: corre-se um grande perigo quando se introduz no sistema de valores de uma sociedade um critério como "custo/benefício" quando estão em causa vidas humanas - objectiva e concretamente, vidas humanas frágeis, doentes, a precisar da sociedade e esta responde-lhes com um cego "custo benefício"... Quem é que vai dizer qual é o benefício que justifica o custo?

Um medicamento que poderá dar mais dois meses de vida poderá ser fornecido se custar até quanto? 10€? 100€? 1000€?

EXAMINEMO-NOS A NÓS MESMOS... Quanto estaria disposto a pagar por mais um ano de vida?

Quem é que vai dizer ao doente: "olhe, você poderia viver mais dois anos se estivéssemos dispostos a gastar 40.000€... mas, sejamos honestos, você não vale tanto."

Mas se o cuidado em causa só custar 10.000€? Já é um custo aceitável? QUANTO VALE UM DIA DE VIDA?

Mas o princípio que assim se introduz é mais grave do que isto. Afinal está-se a dizer, pela voz de um Conselho de Ética, que é eticamente legítimo tomar decisões que têm implicações directas sobre a vida e a morte com base em duas coisas: uma conjectura (porque poderia acontecer que os médicos pensassem que o medicamento iria dar dois meses de vida ao doente e, afinal, este viver dez anos); uma equivalência entre vida humana (em tempo e/ou qualidade) e custo.

Este parecer introduz este princípio perigosíssimo que é aquele que diz que a vida humana pode ser traduzida num valor monetário.

"Olhe, este medicamento poderá dar-lhe mais seis meses de vida, por isso tem que encontrar uma farmácia que lhe faça um preço a baixo dos 7500€..."

A questão ética aqui envolvida é importante e deve ser analisada com cuidado. A opinião pública é facilmente influenciável por formas mais ou menos redutoras de colocar as questões. Se perguntarmos a um português médio o que ele faria se tivesse dinheiro apenas para salvar duas pessoas, uma delas com 70 anos e uma esperança de vida, após tratamento, de apenas mais 3 anos, a outra com 15 anos e uma esperança de vida, após tratamento, de mais 30 anos, provavelmente responderia que usaria o dinheiro para salvar o jovem. Mas a facilidade com que esta sensibilidade desponta nas pessoas não torna a resposta mais ética. O facto de eu preferir salvar o meu filho do que o filho do meu vizinho, não torna a minha decisão mais ética. Há um perigo gravíssimo em não apresentar convenientemente os problemas à opinião pública...










quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Eros, um conquistador de mortais e imortais

A propósito do Amor:




Hesíodo, Teogonia, 120-122:
...ἠδ' Ἔρος, ὃς κάλλιστος ἐν ἀθανάτοισι θεοῖσι,
λυσιμελής, πάντων τε θεῶν πάντων τ'ἀνθρώπων
δάμναται ἐν στήθεσσι νόον καὶ ἐπίφρονα βουλήν.



Tradução:

… e o Amor, o mais belo entre os deuses imortais,
Amacia os membros e conquista, nos peitos de todos
Os deuses e homens, a mente e a vontade sagaz.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Isaías 2:22

A propósito de Humano


Em grego, na Septuaginta (edição de Luciano e outras, embora com algumas diferenças - a propósito ver    Vetus testamentum graecumcum variis lectionibus, Tomo IV)


Isaías 2:22

Παυσασθε υμιν απο του ανθρωπου ο αναπνοη εν μυκτηρι αυτου οτι εν τινι ελογισθη αυτος

Deixai o humano, cujo fôlego está no seu nariz, pois em que é que ele conta?

Podemos traduzir de forma menos literal:

Deixai o humano, esse orgulhoso, pois que é que ele vale?


O texto em hebraico חדלו לכם מן־האדם אשר נשמה באפו כי־במה נחשב הוא׃, é traduzido normalmente no mesmo sentido:

Deixai-vos pois do homem cujo fôlego está no seu nariz; porque em que se deve ele estimar? 
(João Ferreira de Almeida)

Mas a Bíblia da Difusora Bíblica (Franciscanos Capuchinhos), de 1993, verte assim:

Deixem, pois, de confiar no homem! Ele não é mais do que um sopro. Que valor tem ele, então?



Parece haver de facto uma comparação entre o humano e o sopro, na fugacidade de cada inspiração e expiração.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mateus 6:25

A propósito de alma e vida...


Mateus, 6:25
Διὰ τοῦτο λέγω ὑμῖν, μὴ μεριμνᾶτε τῇ ψυχῇ ὑμῶν τί φάγητε [ἢ τί πίητε], μηδὲ τῷ σώματι ὑμῶν τί ἐνδύσησθε. οὐχὶ ἡ ψυχὴ πλεῖον ἐστιν τῆς τροφῆς καὶ τὸ σῶμα τοῦ ἐνδύματος;

Por isso vos digo, não vos preocupeis, quanto à vossa vida, pelo que deveis comer [ou beber], nem, quanto ao vosso corpo, pelo que deveis vestir. Não é a vida mais que comida e o corpo mais que vestuário?


O termo grego ψυχή significa vida neste excerto.

Lutero traduz assim:

Darum sage ich euch: Sorget nicht für euer Leben, was ihr essen und trinken werdet, auch nicht für euren Leib, was ihr anziehen werdet. Ist nicht das Leben mehr denn Speise? und der Leib mehr denn die Kleidung?

Louis Segond verte:

C'est pourquoi je vous dis: Ne vous inquiétez pas pour votre vie de ce que vous mangerez, ni pour votre corps, de quoi vous serez vêtus. La vie n'est-elle pas plus que la nourriture, et le corps plus que le vêtement?

A tradução de Young é:

Because of this I say to you, be not anxious for your life, what ye may eat, and what ye may drink, nor for your body, what ye may put on. Is not the life more than the nourishment, and the body than the clothing?



De facto, nem sempre é evidente se ψυχή deve ser traduzida por vida ou por alma:

Mateus 16:26
τί γὰρ ὠφεληθήσεται ἄνθρωπος ἐὰν τὸν κόσμον ὅλον κερδήσῃ τὴν δὲ ψυχὴν αὐτοῦ ζημιωθῇ; ἢ τί δώσει ἄνθρωπος ἀντάλλαγμα τῆς ψυχῆς αὐτοῦ;

De facto, que beneficiará um humano ainda que ganhe o mundo todo mas perder a sua alma? Ou que dará o humano em troca da sua alma?

Lutero traduz assim:

Was hülfe es dem Menschen, so er die ganze Welt gewönne und nähme Schaden an seiner Seele? Oder was kann der Mensch geben, damit er seine Seele wieder löse?

Louis Segond verte:

Et que servirait-il à un homme de gagner tout le monde, s'il perdait son âme? ou, que donnerait un homme en échange de son âme?

Mas a tradução de Young é:

for what is a man profited if he may gain the whole world, but of his life suffer loss? or what shall a man give as an exchange for his life?

domingo, 23 de setembro de 2012

Πάτερ ἡμῶν - Pater Noster - Pai Nosso

A propósito de Pai Nosso, a oração que o Senhor nos ensinou


Líbera nos, quǽsumus, Dómine, ab ómnibus malis...
Livra-nos, vos suplicamos, Senhor, de todo o mal...

Mateus 6:
9 Οὕτως οὖν προσεύχεσθε ὑμεῖς·
Πάτερ ἡμῶν ὁ ἐν τοῖς οὐρανοῖς·
ἁγιασθήτω τὸ ὄνομα σου·
10 ἐλθέτω ὴ βασιλεία σου·
γενηθήτω τὸ θέλημα σου,
ὡς ἐν οὐρανῷ καὶ ἐπὶ γῆς[i]·
11 τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον·
12 καὶ ἄφες ἡμῖν τὰ ὀφειλήματα ἡμῶν,
ὡς καὶ ἡμεῖς ἀφήκαμεν τοῖς ὀφειλέταις ἡμῶν.
13 καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν,
ἀλλὰ ῥῦσαι ἡμᾶς ἀπὸ τοῦ πονηροῦ.[ii]

9 Então, orai desta forma:
“Pai nosso que estais nos céus;
Santificado seja o teu nome;
10 Venha o teu reino;
Seja feita a tua vontade,
Assim no céu e na terra;
11 O pão nosso de amanhã dá-nos hoje;
12 E perdoa as nossas dívidas,
Como nós também perdoámos aos nossos devedores.
13 E não nos leves à tentação,
Mas livrai-nos da perversão.[iii]


Lucas 11:
2 εἶπεν δὲ αὐτοῖς,  Ὅταν προσεύχησθε λέγετε,
Πάτερ, ἁγιασθήτω τὸ ὄνομα σου·
ἐλθέτω ἡ βασιλεία σου·
3 τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δίδου ἡμῖν τὸ
καθ’ ἡμέραν·
                        4 καὶ ἄφες ἡμῖν τὰς ἁμαρτίας ἡμῶν,
καὶ γὰρ αὐτοὶ ἀφίομεν παντὶ ὀφείλοντι
ἡμῖν·
καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν.

2 Mas ele disse-lhes: “Quando orardes dizei:
            Pai, santificado seja o teu nome;
                        Venha o teu reino;
                        3 O pão nosso de amanhã dá-nos
                                   Cada dia;
                        4 E perdoa as nossas faltas,
                                   Como também nós perdoamos todos os que estão em dívida
                                               Connosco;
                        E não nos leves à tentação.”


Vulgata, Mateus 9 :
9 sic ergo vos orabitis Pater noster qui in caelis es sanctificetur nomen tuum
10 veniat regnum tuum fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra
11 panem nostrum supersubstantialem da nobis hodie
12 et dimitte nobis debita nostra sicut et nos dimisimus debitoribus nostris
13 et ne inducas nos in temptationem sed libera nos a malo

9 Então, deveis orar assim: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu nome;
10 Venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim no céu e na terra;
11 O pão nosso de cada dia[iv] dá-nos hoje;
12 e perdoa-nos as nossas dívidas assim como também nós perdoámos aos nossos devedores;
13 e não nos leves em tentação, mas liberta-nos do mal.

Vulgata, Lucas 11:
2 et ait illis cum oratis dicite Pater sanctificetur nomen tuum adveniat regnum tuum
3 panem nostrum cotidianum da nobis cotidie
4 et dimitte nobis peccata nostra siquidem et ipsi dimittimus omni debenti nobis et ne nos inducas in temptationem

2 E disse-lhes: “Quando orardes dizei: Pai, santificado seja o teu nome, venha o teu reino;
3 pão nosso de cada dia dá-nos cada dia;
4 e perdoa-nos os nossos pecados como também perdoamos a todos os que nos devem, e não nos leves em tentação.”


Missale Romanum

Pater noster, qui es in caelis: sanctificetur nomen tuum; adveniat regnum tuum; fiat voluntas tua, sicut in caelo, et in terra. Panem nostrum cotidianum da nobis hodie; et dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris; et ne nos inducas in tentationem, sed libera nos a malo.

Pai nosso, que estás nos céus: santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim no céu e na terra. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores; e não nos leves em tentação, mas livra-nos do mal.



Segundo o Catecismo da Igreja Católica – número 2759.
Em latim:
Pater noster qui es in caelis:
sanctificetur Nomen Tuum;
adveniat Regnum Tuum;
fiat voluntas Tua,
sicut in caelo, et in terra.
Panem nostrum cotidianum da nobis hodie;
et dimitte nobis debita nostra,
sicut et nos dimittimus debitoribus nostris;
et ne nos inducas in tentationem;
sed libera nos a Malo.

Em Português:
Pai Nosso que estais nos céus,
santificado seja o vosso Nome,
venha a nós o vosso Reino,
seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu.
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixeis cair em tentação,
mas livrai-nos do Mal.

Outras versões em latim:

Outras versões em português:




[i] Ou: “Como no céu também na terra.”
[ii] Algumas versões (seis vezes nos Padres da Igreja, atestadas uma vez) acrescenta-se ὅτι σοῦ ἐστιν ἡ βασιλεία καὶ ἡ δύναμις καὶ ἡ δόξα εἰς τοὺς αἰῶνας· _ : pois teu é o reino e o poder e a glória para sempre: ámen.
[iii] Agostinho acrescenta ἀμήν: ámen.
[iv] Literalmente: necessário para suportar a vida.

sábado, 22 de setembro de 2012

Serão os juízos estéticos universais?

A propósito de juízos estéticos...

Não é verdade que os gostos não se discutem. O gosto é, precisamente, o que mais é discutível!



Mas por que é que, perante alguns objectos (estéticos) se forma uma (quase) unanimidade surpreendente?

Serão os juízos estéticos universais?



sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Comentário a Jonas (Septuaginta)

Ver tradução aqui
A propósito de Jonas, do Antigo Testamento



Comentário:

O livro de Jonas não é puramente original. Em 2 Reis 14:25 (na Septuaginta a referência é 4 Reis 14:25) é mencionado um profeta, chamado Jonas, filho de Amitai. O profeta teria anunciado que o Rei Jeroboão iria reunificar o território de Israel. Em Jeremias 51:34, Jerusalém queixa-se que foi devorada por Nabucodonosor e depois cuspida. Portanto, quer o profeta Jonas, quer a ideia de um monstro engolir uma pessoa, já estavam nas escrituras. Por curiosidade, a Septuaginta compara o rei babilónico a um dragão (δράκων, traduzindo תַּנִּין, tannin, monstro marinho, figura mitológica que personificava o caos original).
O verso de 2 Reis deixa-nos perceber que Jonas é um profeta, um servo do Senhor, mas também um nacionalista, um israelita convicto. Por outro lado, o texto de Jeremias é uma espécie de imprecação de Jerusalém contra a Babilónia, que a havia submetido e deportado a sua população. Ambos os textos encontram repercursão no livro de Jonas, quer na estória em si (o monstro marinho), quer na personalidade de Jonas (claramente avesso ao povo de Nínive, capital da Assíria, a qual submetera o reino israelita de Efraim e cercara a própria Jerusalém).
O livro começa com Deus a interpelar Jonas, dando-lhe uma mensagem. Jonas deveria dirigir-se para Nínive e anunciar que Deus tinha conhecimento da sua perversão. A mensagem é mais clara do que parece. Deus estava, através de Jonas, a anunciar um castigo pelos crimes de Nínive. Na mente de um hebreu estariam bem presentes os crimes em causa. O texto não nos diz claramente que perversão estaria a merecer um castigo eminente, mas, para um hebreu, a Assíria era um inimigo tradicional e seria de supor que esperasse que um tipo qualquer de calamidade se abatesse sobre Nínive.
Curiosamente, Jonas não aceita imediatamente a ordem de Deus. Podemos imaginar que um hebreu desejasse estar em qualquer parte, menos em Nínive. Jonas procura, então, fugir da presença de Deus. Contudo, descobre que essa fuga é impossível. Embarcado, a caminho de Thársis, o barco em que segue fica envolvido numa tempestade. Uma tempestade que Deus acordou. É de notar que todos os marinheiros, gentios, ficam tomados de medo e começam a rogar, cada um aos seus deuses, pedindo para serem salvos. Enquanto isso, Jonas dorme profundamente no interior do navio. Este relato provoca uma sensação de estranheza porque seria de esperar que Jonas não estivesse de consciência tranquila. Se fugia de Deus, então deveria encontrar-se em profunda angústia. Todavia, parece perfeitamente em acordo consigo próprio para poder dormir profundamente no porão de um navio que atravessa uma tempestade.
O capitão do navio estranhou o comportamento de Jonas, e provavelmente também os restantes marinheiros que quiseram saber a razão daquela tempestade. É importante notar que os marinheiros mantêm sempre uma atitude de confiança na capacidade de Deus para lhes preservar a vida. Mesmo quando Jonas lhes conta que está a fugir a uma ordem de Deus, não caiem em desespero e confiam plenamente que Deus poderá não os destruir. Aliás, os marinheiros demonstram um profundo respeito por Deus, pelo Deus de Jonas, que apesar de lhes ter enviado uma tempestade só porque transportam o profeta, não deixa de ser considerado capaz de perdão. Os homens do navio preocupam-se, evidentemente, com a própria morte, mas também com a vida de Jonas. Expressam de forma vincada que não desejam ser responsáveis pela sua morte. Este aspecto é muito revelador, porque seria de esperar que quisessem imediatamente executar aquela que pareceria ser a vontade de Deus: castigar Jonas, talvez matá-lo. Mas, ao contrário disso, pedem a Deus que não os torne em danos colaterais (“não deixes que sejamos destruídos por causa da alma deste homem”), nem faça deles os carrascos de Jonas. Antes de o lançarem ao mar, seguindo a sua própria recomendação, procuram levar o barco para perto de terra e é a tempestade que não o permite.
Uma vez Jonas no mar, Deus envia um monstro marinho (κῆτος, de onde derivou cetácio) que engole Jonas, preservando-o no seu interior. Agora sim, Jonas angustia-se e dirige-se a Deus.

“Clamei, na minha angústia, ao Senhor meu Deus, e ele escutou-me: da barriga do Hades ouviste o clamor da minha voz. Atiraste-me para as profundezas do coração do mar e as correntes devolveram-me. Todas as tuas ondas e as tuas vagas me atravessaram… Fui afastado dos teus olhos. Irei ainda olhar para o teu templo sagrado? A água rodeia-me até à alma, o abismo rodeia-me ao limite, a minha cabeça afundou-se nas fendas dos montes. Desci à terra, cujas grades são pedras tumulares eternas, e levantaste a minha vida da destruição, Oh Senhor, meu Deus. Estando a morrer a minha alma em mim lembrei-me do Senhor, e cheguem até ti as minhas preces no teu santo templo. Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão. Mas eu, através da voz de adoração e gratidão, sacrifico a ti: quanto prometi, te darei, Senhor da Salvação.”

Jonas confessa a sua angústia recorrendo a imagens profundamente significativas: o interior do monstro é comparado ao Hades, o mundo dos mortos. Jonas sente a morte sobre si. E confessa que foi preciso encontrar-se naquela situação para se lembrar de Deus: “Estando a morrer a minha alma em mim lembrei-me do Senhor”. Declara que tudo o que promete irá cumprir e clama pelo “Senhor da Salvação”. Jonas não se limita a solicitar um salvamento. A forma como o faz é afirmando que Deus é um deus de salvação. Jonas proclama que Deus escuta as suas preces e pede para voltar à presença do Senhor. E assim o peixe cospe o profeta para terra e este vai para Nínive.

Também muito curioso é o que sucede quando Jonas começa a pregar em Nínive. Tal como acontecera com os marinheiros que se converteram prontamente, também todos os habitantes de Nínive, Rei incluído, se arrependem do seu comportamento. O comportamento de perversão e, aparentemente, de iniquidade (ἀπὸ τῆς ὁδοῦ αὐτοῦ τῆς πονηρᾶς καὶ ἀπὸ τῆς ἀδικίας τῆς ἐν χερσὶν αὐτῶν) é o alvo da ira do Senhor. Seja qual for a iniquidade específica de que os assírios estavam a ser acusados, remediado o mal, foram imediatamente perdoados. O Senhor muda o seu pensamento, muda a sua compreensão, retrocede, arrepende-se – enfim, resolve não aplicar o castigo previamente decidido. O aviso foi suficiente. Não chegou a existir o castigo para o qual o aviso remetia.

Há um aspecto que habitualmente escapa às análises do livro de Jonas. Na realidade, em nenhum lugar do escrito se encontram palavras de Deus afirmando qual seria o castigo. Deus ordena a Jonas que informe os habitantes de Nínive de que as suas perversões tinham chegado ao seu conhecimento. Nesta ordem está implícito um castigo, mas este nunca é dito. É Jonas que, atravessando a cidade, proclama que esta será destruída em três dias. Isto é suficiente para que todos se arrependam e mudem de comportamento. Mas a destruição da cidade nunca chega.

Jonas não fica agradecido pelo perdão concedido. Não lhe agrada que o castigo que anunciou não tenha vindo. Ele desejava ver a destruição de Nínive – e sentou-se à espera que tal sucedesse. Então, Deus faz surgir uma planta para proteger Jonas do sol (apesar dele já ter feito uma tenda). E a verdade é que Jonas se afeiçoou à planta. No entanto, Deus fez com que secasse tão rapidamente como surgira e Jonas ficou triste de morte. É significativo que Jonas tenha tido esta reacção demasiado sensível a um acontecimento tão banal como o secar de uma planta. O texto está a sugerir que Jonas se deixava atingir por acontecimentos que não tinham a importância que ele lhes atribuía. Talvez Jonas tivesse a tendência para exagerar as coisas. Mas há uma pergunta que se impõe e que o texto faz. Como pode ser correcto que Jonas se emocione tão facilmente com a morte de uma planta, mas aceite pacificamente e defenda mesmo tão arreigadamente a morte de milhares de pessoas que levam as suas vidas em Nínive? Pelo menos parte delas sem habilidade para distinguir o bem do mal (“não conhecem a sua mão direita ou a sua mão esquerda” – pode tratar-se de uma referência às crianças, ou a afirmação de que os gentios em geral não distinguem o bem do mal, mas que em qualquer dos casos, quem não possui essa habilidade, não merece ser condenado). Há ainda os animais que, desconsiderados na quase totalidade da Bíblia, neste escrito assumem um lugar. A pergunta é retórica e não se esperaria que Jonas respondesse. Mas a mensagem é clara: a compreensão de Jonas estava claramente enviesada se preferia a vida de uma planta à vida de milhares de humanos (incluindo crianças) e animais.
A leitura desta parte final é discutível, mas parece estar a afirmar que as crianças e os animais de Nínive são razão suficiente para poupar a cidade a uma calamidade.

O livro de Jonas não deve ser lido como se se tratasse de um manual de História. Parece-nos claramente alegórico, metafórico. É muito pouco provável que Jonas tenha sido engolido por um peixe ou por uma baleia, que uma planta tenha crescido numa noite, enfim, que tenha de facto existido o Jonas desta estória. Contudo, podemos tentar colocar a estória numa perspectiva mais realista, ou melhor, mais próxima daquilo que poderemos aceitar como passível de acontecido, tendo em conta o paradigma que hoje partilhamos. Enfim, não seria estranho admitir que os judeus do período de elaboração deste texto (séc. VI a. C. - ver mais abaixo) se sentissem revoltados pela postura da Assíria no passado. O sentimento de que a Assíria fora responsável por um conjunto de iniquidades cometidas contra Israel deveria estar enraizado. Neste contexto, seria normal surgirem interrogações sobre a aparente apatia de Deus. Como vimos, Jeremias descreve a ira do Senhor para com a Babilónia, outra cidade agressora. E o Senhor tinha por hábito castigar outros povos que se metessem no caminho dos judeus. Seria estranho, então, para um judeu com sentimentos de vingança que nada se passasse, que nenhuma vingança divina caísse sobre Nínive, que não tivesse sido destruída (claro que, entretanto, a Babilónia e o Império Persa também haviam submetido a Assíria, mas isso não faria desaparecer o rancor acumulado, sobretudo porque a própria Jerusalém havia sido submetida também). É possível que, a certa altura, este sentimento pudesse ter criado inconvenientes e podemos imaginar que impossibilitassem o desenvolvimento de relações mais amistosas entre os dois povos. Neste contexto, não seria estranho imaginar o desenvolvimento de uma opinião diferente, que procurasse reconciliar os povos. Alguém que defendesse este tipo de abordagem reconciliatória poderia muito bem ter desenvolvido a figura de Jonas como representativo dos judeus que desejavam a vingança. Tal como Jonas, esses judeus haviam desejavam que Nínive fosse castigada, mas não estiveram preocupados em levar até Nínive a mensagem do Senhor, e por isso era expectável que Nínive tivesse permanecido na sua conduta reprovável. Jonas fugiu e talvez alguém quisesse com isso dizer que também Israel, de algum modo, fugiu à sua responsabilidade para com a mensagem de Deus.
O autor talvez pretendesse dizer que Deus nunca dissera que Nínive deveria ser castigada desta ou daquela forma. Foi Jonas que, ao entrar pela cidade adentro foi proferindo o seu anúncio de destruição (por outro lado, não é incomum que, na Bíblia, os profetas anunciem palavras que não vimos serem proferidas por Deus, por isso não podemos simplesmente assumir que nesses casos os profetas dizem palavras exclusivamente da sua própria responsabilidade – mas a verdade é que Deus não declarou nada sobre o castigo a aplicar). Deus dissera apenas que sabia das maldades cometidas por Nínive. Da mesma forma, o autor deste texto pode estar a insinuar que os judeus que desejavam uma calamidade em Nínive estavam a fazer julgamentos pela própria cabeça, e que não era Deus que tinha proferido um castigo. Mas, ainda que assim fosse, talvez Deus tivesse simplesmente perdoado o passado de Nínive quando se tornou evidente que o seu comportamento mudara para melhor. O escriba poderia estar a afirmar a sua opinião sobre o assunto dizendo que Nínive já não era a cidade perversa de outrora e que deveria ser perdoada.

Jonas criticava veementemente aqueles que adoravam outros deuses ou ídolos, e acreditava que não mereciam compaixão (“Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão”). Jonas esquecia-se de que ele próprio já desobedecera flagrantemente a uma ordem directa de Deus. Tentara fugir e acabou no interior de um monstro marinho. Mas Deus perdoara-o. Por sua vez, Jonas escusava-se a perdoar Nínive agora, mesmo depois de toda a cidade se ter convertido. Talvez alguns judeus também se tivessem esquecido de todos os relatos que, nas escrituras, recordam que momentos houve em que o próprio povo escolhido pelo Senhor virou as costas a Deus, adorou bezerros de ouro ou deixou corromper os costumes.
Jonas era um servo do Senhor, prometera cumprir todas as promessas e parecia exigir que Deus cumprisse a suposta promessa de castigar Nínive. O livro lembra que todos os habitantes de Nínive são, também, filhos de Deus. Jonas preocupou-se profundamente quando morreu uma planta que estivera a seu lado um único dia. Essa planta não era filha nem criação de Jonas, contudo ele afeiçoara-se-lhe. Seria de esperar que Deus, pai de toda a criação, se condoesse dos seus filhos, humanos e não humanos, que viviam na grande cidade. Através deste exemplo, o autor estava a alertar para aquilo que hoje podemos chamar “parcialidade”. Na verdade, o ponto de vista de Jonas não era capaz de alcançar um horizonte mais abrangente do que o da sua lida mais imediata com as coisas que estavam junto de si. A perda de uma planta infligira-lhe um sofrimento de morte, mas exigia a morte de milhares de pessoas.
Ora, é possível que estes argumentos não convencessem toda a gente, ou mesmo que não convencessem a maioria. Por isso, o final do texto apresenta ainda outro argumento. Jonas, e provavelmente alguns judeus da altura em que o texto foi escrito, não toma em consideração que na cidade estão milhares de crianças inocentes e vidas animais que nenhuma culpa têm. Sugere-se que a justiça exigida por Jonas não poderia ser considerada divina pela injustiça que acarretaria.

O texto termina com uma questão e não desenvolve mais os argumentos delineados por ela. Na verdade, este seria um tema quente, polémico. As escrituras estão cheias de casos em que a culpa simplesmente se transfere de pais para filhos, sem que estes tenham a possibilidade de se livrar do castigo. Os animais também são desconsiderados, tratados como meros instrumentos económicos ou religiosos/sacrificiais. A ideia de castigo predomina em muitos livros do Antigo Testamento, mas também a ideia de que o humano não sabe que castigo o espera. Algumas cidades foram destruídas por Deus a favor dos judeus, mas a paciência do Senhor era apregoada de profeta a profeta. Esta dicotomia entre castigo e perdão pode sintetizar-se nos versículos 6-7, capítulo 34, do Êxodo:

“Tendo o Senhor passado perante Moisés, proclamou: «Yhvh, Yhvh, Deus compadecido e compassivo, paciente e cheio de compaixão e verdade; que usa de compaixão com milhares; que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado; que de nenhuma maneira deixará sem castigo o culpado; que castiga a iniquidade dos pais nos filhos e nos filhos dos filhos até à terceira e quarta geração.»”

Chamamos a atenção para o facto de os termos sublinhados neste trecho surgirem em Jonas 4:2. Podemos ver que o trecho parece confuso. Deus afirma-se a si mesmo como paciente e compassivo, diz que perdoa os pecados e as iniquidades, mas logo declara que não deixará de castigar os culpados. Diz mesmo que castigará nos filhos, até à quarta geração, a iniquidade dos pais. Portanto, o autor do livro de Jonas teria dificuldade em acrescentar fosse o que fosse à pergunta que formula. Não mais poderia fazer do que dar a entender, como de facto deu, que Deus perdoaria em tanto que houvesse verdadeiro arrependimento, isto é: que se abandonasse os maus caminhos e se seguisse a palavra do Senhor.

Ao dar a entender que os assírios também são filhos de Deus, com direito a serem perdoados no momento em que se tornar evidente (aos olhos de Deus) que arrepiaram no caminho do pecado, o escriba produz um texto cuja mensagem pode, na verdade, aplicar-se a todo e qualquer povo e não só aos habitantes de Nínive. Não sabemos ao certo se quando menciona aqueles que não distinguem o bem do mal se refere às crianças, ou àqueles que ainda não receberam a palavra de Deus. Se entendermos neste último sentido aquelas palavras, então o seu autor devia estar a pensar que os judeus tinham o dever de ir até Nínive (e até todas as cidades do mundo), não com o coração cheio de ira, mas com o coração cheio de compaixão, para lhes comunicar as palavras do Senhor e os fazer arrepender. De qualquer modo, este texto traz-nos uma mensagem profunda, universal, mas ao mesmo tempo sem obliterar as fraquezas humanas que tantas vezes colocam entraves ao convívio entre povos.

Finalmente, devemos notar que os peritos colocam, habitualmente, a elaboração do livro de Jonas na época pós-exílio. Isto é, depois da vitória do Império Persa sobre o Babilónico, quando os judeus foram autorizados a regressar à Palestina. Lembre-se que a Babilónia havia deportado os judeus. Foi Ciro que permitiu o regresso dos hebreus à sua terra. Quando os exilados chegaram à Palestina devem ter encontrado os hebreus que ali haviam ficado a viver conjuntamente com pessoas de outros povos, também dominados pelos persas, e antes pelos babilónios. O Império Persa incluía então povos que tinham sido inimigos durante muito tempo, nomeadamente, os assírios e os hebreus. Nínive e Jerusalém pertenciam agora à mesma unidade política, um Império que se mostrara amigo dos hebreus. Os líderes religiosos hebreus devem ter sido pressionados para amenizar os sentimentos dos judeus face aos assírios. Os persas estariam interessados em ver os seus súbditos a darem-se bem uns com os outros. Talvez houvesse casamentos entre pessoas de diferentes proveniências e talvez nem todos vissem com bons olhos que alguém viesse de Nínive casar-se com um hebreu em Jerusalém. O livro de Jonas seria mais do que bem vindo pelas autoridades.

Seja como for, no século VI a.C., alguns hebreus pensavam que Nínive deveria ser perdoada. E que se Deus havia demorado na ira e afinal evitado o castigo de destruição final da cidade, então deveriam existir muito boas razões para tal. Esses hebreus deverão ter estado na origem deste texto sobre esse servo de Deus que preferia a morte a viver para ver Nínive perdoada: Jonas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tradução de Jonas, segundo a Septuaginta


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Tradução de Jonas, da Septuaginta, para português:


Jonas 1
1 A palavra do Senhor foi até Jonas, filho de Amitai, dizendo: 2 “Levanta-te e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama nela que subiu até mim o grito da sua perversão. 3 Mas Jonas levantou-se para fugir, da presença do Senhor, para Thársis. Foi para Joppa e encontrou um barco que ia para Thársis, pagou a sua passagem e entrou nele para navegar até Thársis, fugindo da presença do Senhor. 4 Mas o Senhor acordou um vento no mar e surgiu uma grande tempestade, e o barco ficou em perigo de se destruir. 5 Os nautas tiveram medo, cada um clamou ao seu deus e atiraram ao mar as mercadorias que havia no barco de modo a aliviarem-no. Mas Jonas descera ao porão e, deitado, dormia e ressonava. 6 O capitão do barco foi até ele e disse-lhe: “Por que ressonas? Levanta-te e chama o teu deus, assim talvez nos salve e não nos destrua.” 7 E cada um dizia ao seu próximo: “Vamos tirar sortes e saber por conta de quem este mal está em nós.” Tiraram sortes, e a sorte calhou a Jonas. 8 Disseram-lhe então: “Conta-nos por que está este mal em nós. Qual é o teu trabalho? E de onde vens: de que região e de que povo és tu?” 9 E ele respondeu-lhes: “Eu sou um servo do Senhor e tenho estado a desafiar o Senhor Deus do céu, que fez o mar e a terra firme.” 10 Os homens tiveram muito medo e disseram-lhe: “Por que fizeste isso?” Sabiam que ele estava a fugir da presença do Senhor, pois ele próprio lhes contara. 11 E perguntaram-lhe: “Que devemos fazer que acalme o mar para nós?” Pois o mar ondulava e erguia-se tempestuosamente. 12 E Jonas respondeu-lhes: “Agarrem-me e atirem-me ao mar, e isso o acalmará para vós, pois eu sei que é por mim que esta grande tempestade vos aflige.” 13 Então os homens esforçaram-se para se aproximarem da terra, mas não estavam a conseguir, pois o mar estava bravo e abatia-se tempestuosamente sobre eles. 14 E rogavam e pediam ao Senhor: “Não permitas, Senhor, não deixes que sejamos destruídos por causa da alma deste homem, e não deites sobre nós sangue inocente, pois, tu, Senhor, fizeste como quiseste.” 15 E agarraram Jonas e atiraram-no ao mar, e a tempestade acalmou. 16 Os homens ficaram com muito temor ao Senhor, ofereceram-lhe um sacrifício e fizeram votos.


Jonas 2
1 Então o Senhor mandou um grande monstro marinho engolir Jonas. Assim, Jonas esteve na barriga do monstro três dias e três noites. 2 Na barriga do monstro rezou ao Senhor seu Deus 3 e disse: “Clamei, na minha angústia, ao Senhor meu Deus, e ele escutou-me: da barriga do Hades ouviste o clamor da minha voz. 4 Atiraste-me para as profundezas do coração do mar e as correntes devolveram-me. Todas as tuas ondas e as tuas vagas me atravessaram. 5 Fui afastado dos teus olhos. Voltarei ainda a olhar para o teu templo sagrado? 6 A água rodeia-me até à alma, o abismo circunda-me no limite, a minha cabeça afundou-se nas fendas dos montes. 7 Desci à terra, cujas grades são pedras tumulares eternas, mas tu levantaste a minha vida da destruição, oh Senhor, meu Deus. 8 Estando a minha alma a morrer em mim lembrei-me do Senhor: que cheguem até ti, no teu santo templo, as minhas preces. 9 Aqueles que guardam o que é vazio e falso abandonaram a própria compaixão. 10 Mas eu, através da voz de adoração e gratidão, sacrifico a ti: quanto prometi, te darei, Senhor da Salvação.” 11 E [o Senhor] ordenou ao monstro que expelisse Jonas para terra firme.




Jonas 3
1 Então a palavra do Senhor chegou até Jonas, pela segunda vez, dizendo: 2 “Levanta-te e vai a Nínive, a grande cidade, e proclama nela de acordo com o que te disse antes.” 3 E Jonas levantou-se e dirigiu-se para Nínive, conforme disse o Senhor. Mas Nínive era uma grande cidade, por Deus, como três dias de caminho. 4 Jonas entrou na cidade durante um dia e ia proclamando: “Passando três dias Nínive será destruída.” 5 Os homens de Nínive, dos grandes aos pequenos, confiaram em Deus, proclamaram jejum e vestiram sacos. 6 E a palavra chegou ao Rei de Nínive: levantou-se do seu trono e despiu a sua vestimenta, pôs um saco e sentou-se nas brasas. 7 Em Nínive foi proclamado, pelo Rei e pelos seus magistrados, o seguinte: “Que os homens e os animais, os bois e o gado não provem nada, nem se alimentem, nem bebam água.” 8 E os homens e os animais vestiram sacos e clamaram bastante a Deus. Cada um retrocedeu do seu caminho de corrupção e de injustiça dizendo: 9 “Quem sabe se Deus muda de pensamento e retrocede do seu impulso de ira e assim não tenhamos de ser destruídos?” 10 E Deus viu as suas obras, pois retrocederam dos seus caminhos de corrupção, e mudou de pensamento sobre o castigo, que dissera que lhes faria, e não fez.


Jonas 4:
1 Jonas ficou muito triste e confuso. 2 E então pediu ao Senhor: “Oh Senhor, não foi isto que eu disse quando ainda estava na minha terra? Por isso fiz por fugir para Thársis, pois que sabia que tu és compassivo e misericordioso, paciente e cheio de compaixão e mudas de pensamento sobre os castigos. 3 Agora, oh Rei Senhor, tira-me a minha alma de mim, pois é melhor para mim morrer do que viver.” 4 O Senhor perguntou a Jonas: “Estás muito entristecido?” 5 Mas Jonas saiu da cidade e sentou-se virado para ela. Ali fez para si próprio uma tenda e ficou sentado debaixo dela, na sombra, até que dali pudesse ver o que seria da cidade. 6 Então o Senhor Deus fez surgir uma abobreira, e esta cresceu por cima da cabeça de Jonas, deixando-lhe a cabeça à sombra para o proteger de males: e Jonas ficou muito contente com a abobreira. 7 Na manhã seguinte, Deus mandou um verme que feriu a abobreira e a secou. 8 E aconteceu que ao mesmo tempo que o sol raiou Deus também mandou um vento quente que queimava e o sol feriu a cabeça de Jonas. Ele desfaleceu, desistiu da sua alma e disse: “Melhor para mim é morrer do que viver.” 9 Então, Deus disse a Jonas: “Estás tu tão entristecido por uma abobreira?” E respondeu Jonas: “Eu estou triste de morte.” 10 E disse o Senhor: “Tu tiveste pena por uma abobreira, pela qual não te esforçaste, nem sequer criaste, a qual veio a ser durante a noite e durante a noite foi destruída. 11 E eu não deverei poupar Nínive, a grande cidade, na qual lidam mais de doze miríades de humanos, os quais não conhecem a sua mão direita ou a sua mão esquerda, e muitos animais?”





Texto em grego, edição Rahlfs-Hanhart, editio altera


Jonas 1
1 Καὶ ἐγένετο λόγος κυρίου πρὸς Ιωναν τὸν τοῦ Αμαθι λέγων 2 Ἀνάστηθι καὶ πορεύθητι εἰς Νινευη τὴν πόλιν τὴν μεγάλην καὶ κήρυξον ἐν αὐτῇ, ὅτι ἀνέβη ἡ κραυγὴ τῆς κακίας αὐτῆς πρός με. 3 καὶ ἀνέστη Ιωνας τοῦ φυγεῖν εἰς Θαρσις ἐκ προσώπου κυρίου καὶ κατέβη εἰς Ιοππην καὶ εὗρεν πλοῖον βαδίζον εἰς Θαρσις καὶ ἔδωκεν τὸ ναῦλον αὐτοῦ καὶ ἐνέβη εἰς αὐτὸ τοῦ πλεῦσαι μετ’ αὐτῶν εἰς Θαρσις ἐκ προσώπου κυρίου. 4 καὶ κύριος ἐξήγειρεν πνεῦμα εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ ἐγένετο κλύδων μέγας ἐν τῇ θαλάσσῃ, καὶ τὸ πλοῖον ἐκινδύνευεν συντριβῆναι. 5 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ναυτικοὶ καὶ ἀνεβόων ἕκαστος πρὸς τὸν θεὸν αὐτῶν καὶ ἐκβολὴν ἐποιήσαντο τῶν σκευῶν τῶν ἐν τῷ πλοίῳ εἰς τὴν θάλασσαν τοῦ κουφισθῆναι ἀπ’ αὐτῶν· Ιωνας δὲ κατέβη εἰς τὴν κοίλην τοῦ πλοίου καὶ ἐκάθευδεν καὶ ἔρρεγχεν. 6 καὶ προσῆλθεν πρὸς αὐτὸν ὁ πρωρεὺς καὶ εἶπεν αὐτῷ Τί σὺ ῥέγχεις; ἀνάστα καὶ ἐπικαλοῦ τὸν θεόν σου, ὅπως διασώσῃ ὁ θεὸς ἡμᾶς καὶ μὴ ἀπολώμεθα. 7 καὶ εἶπεν ἕκαστος πρὸς τὸν πλησίον αὐτοῦ Δεῦτε βάλωμεν κλήρους καὶ ἐπιγνῶμεν τίνος ἕνεκεν ἡ κακία αὕτη ἐστὶν ἐν ἡμῖν. καὶ ἔβαλον κλήρους, καὶ ἔπεσεν ὁ κλῆρος ἐπὶ Ιωναν. 8 καὶ εἶπον πρὸς αὐτόν Ἀπάγγειλον ἡμῖν τίνος ἕνεκεν ἡ κακία αὕτη ἐστὶν ἐν ἡμῖν. τίς σου ἡ ἐργασία ἐστίν; καὶ πόθεν ἔρχῃ, καὶ ἐκ ποίας χώρας καὶ ἐκ ποίου λαοῦ εἶ σύ; 9 καὶ εἶπεν πρὸς αὐτούς Δοῦλος κυρίου ἐγώ εἰμι καὶ τὸν κύριον θεὸν τοῦ οὐρανοῦ ἐγὼ σέβομαι, ὃς ἐποίησεν τὴν θάλασσαν καὶ τὴν ξηράν. 10 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ἄνδρες φόβον μέγαν καὶ εἶπαν πρὸς αὐτόν Τί τοῦτο ἐποίησας; διότι ἔγνωσαν οἱ ἄνδρες ὅτι ἐκ προσώπου κυρίου ἦν φεύγων, ὅτι ἀπήγγειλεν αὐτοῖς. 11 καὶ εἶπαν πρὸς αὐτόν Τί σοι ποιήσωμεν καὶ κοπάσει ἡ θάλασσα ἀφ’ ἡμῶν; ὅτι ἡ θάλασσα ἐπορεύετο καὶ ἐξήγειρεν μᾶλλον κλύδωνα. 12 καὶ εἶπεν Ιωνας πρὸς αὐτούς Ἄρατέ με καὶ ἐμβάλετέ με εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ κοπάσει ἡ θάλασσα ἀφ’ ὑμῶν· διότι ἔγνωκα ἐγὼ ὅτι δι’ ἐμὲ ὁ κλύδων ὁ μέγας οὗτος ἐφ’ ὑμᾶς ἐστιν. 13 καὶ παρεβιάζοντο οἱ ἄνδρες τοῦ ἐπιστρέψαι πρὸς τὴν γῆν καὶ οὐκ ἠδύναντο, ὅτι ἡ θάλασσα ἐπορεύετο καὶ ἐξηγείρετο μᾶλλον ἐπ’ αὐτούς. 14 καὶ ἀνεβόησαν πρὸς κύριον καὶ εἶπαν Μηδαμῶς, κύριε, μὴ ἀπολώμεθα ἕνεκεν τῆς ψυχῆς τοῦ ἀνθρώπου τούτου, καὶ μὴ δῷς ἐφ’ ἡμᾶς αἷμα δίκαιον, ὅτι σύ, κύριε, ὃν τρόπον ἐβούλου πεποίηκας. 15 καὶ ἔλαβον τὸν Ιωναν καὶ ἐξέβαλον αὐτὸν εἰς τὴν θάλασσαν, καὶ ἔστη ἡ θάλασσα ἐκ τοῦ σάλου αὐτῆς. 16 καὶ ἐφοβήθησαν οἱ ἄνδρες φόβῳ μεγάλῳ τὸν κύριον καὶ ἔθυσαν θυσίαν τῷ κυρίῳ καὶ εὔξαντο εὐχάς.


Jonas 2
1 Καὶ προσέταξεν κύριος κήτει μεγάλῳ καταπιεῖν τὸν Ιωναν· καὶ ἦν Ιωνας ἐν τῇ κοιλίᾳ τοῦ κήτους τρεῖς ἡμέρας καὶ τρεῖς νύκτας. 2 καὶ προσηύξατο Ιωνας πρὸς κύριον τὸν θεὸν αὐτοῦ ἐκ τῆς κοιλίας τοῦ κήτους 3 καὶ εἶπεν Ἐβόησα ἐν θλίψει μου πρὸς κύριον τὸν θεόν μου, καὶ εἰσήκουσέν μου· ἐκ κοιλίας ᾅδου κραυγῆς μου ἤκουσας φωνῆς μου. 4 ἀπέρριψάς με εἰς βάθη καρδίας θαλάσσης, καὶ ποταμοί με ἐκύκλωσαν· πάντες οἱ μετεωρισμοί σου καὶ τὰ κύματά σου ἐπ’ ἐμὲ διῆλθον. 5 καὶ ἐγὼ εἶπα Ἀπῶσμαι ἐξ ὀφθαλμῶν σου· ἆρα προσθήσω τοῦ ἐπιβλέψαι πρὸς τὸν ναὸν τὸν ἅγιόν σου; 6 περιεχύθη ὕδωρ μοι ἕως ψυχῆς, ἄβυσσος ἐκύκλωσέν με ἐσχάτη, ἔδυ ἡ κεφαλή μου εἰς σχισμὰς ὀρέων. 7 κατέβην εἰς γῆν, ἧς οἱ μοχλοὶ αὐτῆς κάτοχοι αἰώνιοι, καὶ ἀναβήτω φθορὰ ζωῆς μου, κύριε ὁ θεός μου. 8 ἐν τῷ ἐκλείπειν ἀπ’ ἐμοῦ τὴν ψυχήν μου τοῦ κυρίου ἐμνήσθην, καὶ ἔλθοι πρὸς σὲ ἡ προσευχή μου εἰς ναὸν ἅγιόν σου. 9 φυλασσόμενοι μάταια καὶ ψευδῆ ἔλεος αὐτῶν ἐγκατέλιπον. 10 ἐγὼ δὲ μετὰ φωνῆς αἰνέσεως καὶ ἐξομολογήσεως θύσω σοι· ὅσα ηὐξάμην, ἀποδώσω σοι σωτηρίου τῷ κυρίῳ. 11 καὶ προσετάγη τῷ κήτει, καὶ ἐξέβαλεν τὸν Ιωναν ἐπὶ τὴν ξηράν.


Jonas 3
1 Καὶ ἐγένετο λόγος κυρίου πρὸς Ιωναν ἐκ δευτέρου λέγων 2 Ἀνάστηθι καὶ πορεύθητι εἰς Νινευη τὴν πόλιν τὴν μεγάλην καὶ κήρυξον ἐν αὐτῇ κατὰ τὸ κήρυγμα τὸ ἔμπροσθεν, ὃ ἐγὼ ἐλάλησα πρὸς σέ. 3 καὶ ἀνέστη Ιωνας καὶ ἐπορεύθη εἰς Νινευη, καθὼς ἐλάλησεν κύριος· ἡ δὲ Νινευη ἦν πόλις μεγάλη τῷ θεῷ ὡσεὶ πορείας ὁδοῦ ἡμερῶν τριῶν. 4 καὶ ἤρξατο Ιωνας τοῦ εἰσελθεῖν εἰς τὴν πόλιν ὡσεὶ πορείαν ἡμέρας μιᾶς καὶ ἐκήρυξεν καὶ εἶπεν Ἔτι τρεῖς ἡμέραι καὶ Νινευη καταστραφήσεται. 5 καὶ ἐνεπίστευσαν οἱ ἄνδρες Νινευη τῷ θεῷ καὶ ἐκήρυξαν νηστείαν καὶ ἐνεδύσαντο σάκκους ἀπὸ μεγάλου αὐτῶν ἕως μικροῦ αὐτῶν. 6 καὶ ἤγγισεν ὁ λόγος πρὸς τὸν βασιλέα τῆς Νινευη, καὶ ἐξανέστη ἀπὸ τοῦ θρόνου αὐτοῦ καὶ περιείλατο τὴν στολὴν αὐτοῦ ἀφ’ ἑαυτοῦ καὶ περιεβάλετο σάκκον καὶ ἐκάθισεν ἐπὶ σποδοῦ. 7 καὶ ἐκηρύχθη καὶ ἐρρέθη ἐν τῇ Νινευη παρὰ τοῦ βασιλέως καὶ παρὰ τῶν μεγιστάνων αὐτοῦ λέγων Οἱ ἄνθρωποι καὶ τὰ κτήνη καὶ οἱ βόες καὶ τὰ πρόβατα μὴ γευσάσθωσαν μηδὲν μηδὲ νεμέσθωσαν μηδὲ ὕδωρ πιέτωσαν. 8 καὶ περιεβάλοντο σάκκους οἱ ἄνθρωποι καὶ τὰ κτήνη, καὶ ἀνεβόησαν πρὸς τὸν θεὸν ἐκτενῶς· καὶ ἀπέστρεψαν ἕκαστος ἀπὸ τῆς ὁδοῦ αὐτοῦ τῆς πονηρᾶς καὶ ἀπὸ τῆς ἀδικίας τῆς ἐν χερσὶν αὐτῶν λέγοντες 9 Τίς οἶδεν εἰ μετανοήσει ὁ θεὸς καὶ ἀποστρέψει ἐξ ὀργῆς θυμοῦ αὐτοῦ καὶ οὐ μὴ ἀπολώμεθα; 10 καὶ εἶδεν ὁ θεὸς τὰ ἔργα αὐτῶν, ὅτι ἀπέστρεψαν ἀπὸ τῶν ὁδῶν αὐτῶν τῶν πονηρῶν, καὶ μετενόησεν ὁ θεὸς ἐπὶ τῇ κακίᾳ, ᾗ ἐλάλησεν τοῦ ποιῆσαι αὐτοῖς, καὶ οὐκ ἐποίησεν.


Jonas 4:
1 Καὶ ἐλυπήθη Ιωνας λύπην μεγάλην καὶ συνεχύθη. 2 καὶ προσεύξατο πρὸς κύριον καὶ εἶπεν Ὦ κύριε, οὐχ οὗτοι οἱ λόγοι μου ἔτι ὄντος μου ἐν τῇ γῇ μου; διὰ τοῦτο προέφθασα τοῦ φυγεῖν εἰς Θαρσις, διότι ἔγνων ὅτι σὺ ἐλεήμων καὶ οἰκτίρμων, μακρόθυμος καὶ πολυέλεος καὶ μετανοῶν ἐπὶ ταῖς κακίαις. 3 καὶ νῦν, δέσποτα κύριε, λαβὲ τὴν ψυχήν μου ἀπ’ ἐμοῦ, ὅτι καλὸν τὸ ἀποθανεῖν με ἢ ζῆν με. 4 καὶ εἶπεν κύριος πρὸς Ιωναν Εἰ σφόδρα λελύπησαι σύ; 5 καὶ ἐξῆλθεν Ιωνας ἐκ τῆς πόλεως καὶ ἐκάθισεν ἀπέναντι τῆς πόλεως· καὶ ἐποίησεν ἑαυτῷ ἐκεῖ σκηνὴν καὶ ἐκάθητο ὑποκάτω αὐτῆς ἐν σκιᾷ, ἕως οὗ ἀπίδῃ τί ἔσται τῇ πόλει. 6 καὶ προσέταξεν κύριος ὁ θεὸς κολοκύνθῃ, καὶ ἀνέβη ὑπὲρ κεφαλῆς τοῦ Ιωνα τοῦ εἶναι σκιὰν ὑπεράνω τῆς κεφαλῆς αὐτοῦ τοῦ σκιάζειν αὐτῷ ἀπὸ τῶν κακῶν αὐτοῦ· καὶ ἐχάρη Ιωνας ἐπὶ τῇ κολοκύνθῃ χαρὰν μεγάλην. 7 καὶ προσέταξεν ὁ θεὸς σκώληκι ἑωθινῇ τῇ ἐπαύριον, καὶ ἐπάταξεν τὴν κολόκυνθαν, καὶ ἀπεξηράνθη. 8 καὶ ἐγένετο ἅμα τῷ ἀνατεῖλαι τὸν ἥλιον καὶ προσέταξεν ὁ θεὸς πνεύματι καύσωνος συγκαίοντι καὶ ἐπάταξεν ὁ ἥλιος ἐπὶ τὴν κεφαλὴν Ιωνα· καὶ ὠλιγοψύχησεν καὶ ἀπελέγετο τὴν ψυχὴν αὐτοῦ καὶ εἶπεν Καλόν μοι ἀποθανεῖν με ἢ ζῆν. 9 καὶ εἶπεν ὁ θεὸς πρὸς Ιωναν Εἰ σφόδρα λελύπησαι σὺ ἐπὶ τῇ κολοκύνθῃ; καὶ εἶπεν Σφόδρα λελύπημαι ἐγὼ ἕως θανάτου. 10 καὶ εἶπεν κύριος Σὺ ἐφείσω ὑπὲρ τῆς κολοκύνθης, ὑπὲρ ἧς οὐκ ἐκακοπάθησας ἐπ’ αὐτὴν καὶ οὐκ ἐξέθρεψας αὐτήν, ἣ ἐγενήθη ὑπὸ νύκτα καὶ ὑπὸ νύκτα ἀπώλετο. 11 ἐγὼ δὲ οὐ φείσομαι ὑπὲρ Νινευη τῆς πόλεως τῆς μεγάλης, ἐν ᾗ κατοικοῦσιν πλείους ἢ δώδεκα μυριάδες ἀνθρώπων, οἵτινες οὐκ ἔγνωσαν δεξιὰν αὐτῶν ἢ ἀριστερὰν αὐτῶν, καὶ κτήνη πολλά;


O que é a Filosofia???

A propósito da Filosofia...


Segundo Platão, Fédon, 64a


κινδυνεύουσι γὰρ ὅσοι τυγχάνουσιν ὀρθῶς ἁπτόμενοι φιλοσοφίας λεληθέναι τοὺς ἄλλους ὅτι οὐδὲν ἄλλο αὐτοὶ ἐπιτηδεύουσιν ἢ ἀποθνῄσκειν τε καὶ τεθνάναι. 

Tradução:Pois, porventura, os outros correm o risco de lhes escapar que aqueles que se comprometem com a filosofia nada mais perseguem senão morrer e estarem mortos.


Símias ouve estas palavras e ri-se... é que muita gente, ao ouvir estas palavras, pensaria que estão muito adequadas ao filósofo em geral, o qual parece de facto perseguir a morte, e muitos pensarão que a morte deveria ser-lhe dada.

No entanto, Sócrates afirma que não é esse o sentido das suas palavras e que a maioria não entende o que é, de facto, esse exercício da Filosofia.

Que é que pode querer dizer isto: que o filósofo persegue o morrer e o estar morto?


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Evangelho da Mulher de Jesus

A propósito da descoberta de um novo manuscrito...


The Gospel of Jesus's Wife: A New Coptic Gospel Papyrus



Um manuscrito antigo, datado provavelmente do século IV, coloca na boca de Jesus as palavras 
"a minha mulher",
sugerindo de forma unívoca a existência de um debate e de opiniões díspares e
concorrentes acerca do estado marital de Jesus
nos primeiros séculos de Cristianismo.


Ver o fragmento de papiro aqui.

Imagens, transcrição, tradução - aqui.

Ver artigo de discussão aqui
Inclui a transcrição e a tradução para inglês do manuscrito.


Link para
Home

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Novos testes não encontram evidências de inautenticidade.


Ver aqui.

Notícia aqui, aqui.

Artigo de King, in Harvard Theological Review - aqui.

Artigo de Malcolm Choat, in Harvard Theological Review - aqui.

Characterization of the Chemical Nature of the Black Ink in the Manuscript of The Gospel of
Jesus's Wife through Micro-Raman Spectroscopy,
in Harvard Theological Review - aqui.

Study of Two Papyrus Fragments with Fourier Transform Infrared Microspectroscopy,
in Harvard Theological Review - aqui.




terça-feira, 18 de setembro de 2012

De Trajano para Plínio

A propósito de justiça romana.


Plínio, o Jovem, Cartas, 10, 97 – De Trajano para Plínio

1 Actum quem debuisti, mi Secunde, in excutiendis causis eorum, qui Christiani ad te delati fuerant, secutus es. Neque enim in universum aliquid, quod quasi certam formam habeat, constitui potest. 2 Conquirendi non sunt; si deferantur et arguantur, puniendi sunt, ita tamen ut, qui negaverit se Christianum esse idque re ipsa manifestum fecerit, id est supplicando dis nostris, quamvis suspectus in praeteritum, veniam ex paenitentia impetret. Sine auctore vero propositi libelli nullo crimine locum habere debent. Nam et pessimi exempli nec nostri saeculi est.

Tens seguido o percurso correcto, meu caro Plínio, ao investigares os casos dos Cristãos que foram levados até ti. Pois nem para todas as coisas do universo pode ser estabelecida uma forma fixa. Não sejam procurados; se forem denunciados e se provar serem culpados, sejam punidos; no entanto, se algum negou ser Cristão, e der prova que o fez, isto é, invocando os nossos deuses, mesmo que tenha estado sob suspeita no passado, que obtenha perdão através do arrependimento. Informações anónimas não devem ser tidas em consideração em nenhum tipo de julgamento. Seria um exemplo terrível e em desacordo com os nossos tempos.


Trajano, aliás como também Plínio, demonstra um respeito pela lei que é assinalável. Não se deve condenar ninguém com base em informações anónimas, pelas quais ninguém toma responsabilidade. Aquele que é levado à justiça deve ser investigado e se se provar que é culpado, então que seja condenado.

Trajano oferece ainda a possibilidade de alguém de arrepender, mudar de comportamento e aceitar a lei romana. O Cristianismo violava a lei romana, pois se recusava a prestar culto a qualquer divindade romana ou ao próprio imperador. Perante a lei, essa recusa constituía crime. Contudo, não era porque alguém acusava alguém de ser Cristão que este deveria ser condenado. Se este aceitasse invocar os deuses dos romanos, seria perdoado.

Nero, Fogo de Roma e os Cristãos - a referência de Tácito, nos Anais

A propósito de Nero e dos Cristãos...



Tácito, Anais, XV, 44
ergo abolendo rumori Nero subdidit reos et quaesitissimis poenis adfecit quos per flagitia invisos vulgus Chrestianos appellabat. auctor nominis eius Christus Tiberio imperitante per procuratorem Pontium Pilatum supplicio adfectus erat; repressaque in praesens exitiabilis superstitio rursum erumpebat, non modo per Iudaeam, originem eius mali, sed per urbem etiam quo cuncta undique atrocia aut pudenda confluunt celebranturque.

Então, para abolir o rumor [de que o fogo em Roma fora ateado por ordem sua], Nero colocou a culpa e infligiu as mais elaboradas torturas aos chamados Cristianos pelo vulgo, odiados pelas suas abominações. Aquele que foi a origem do nome foi Cristo, que enquanto Tibério imperava foi condenado à pena máxima. Reprimida por momentos, a superstição fatal irrompeu novamente, não só na Judeia, origem do mal, mas também na cidade [de Roma], para onde todas as coisas atrozes e vergonhosas confluem e tornam populares.

História e estória do Jesus histórico

A propósito de presépios...


O presépio... um conjunto de imagens que os cristãos acarinham por todo o mundo. Mas o que têm essas imagens de verdade? Isto é, o que é que dessas imagens está presente no Novo Testamento?


Algumas imagens estão realmente presentes no Novo Testamento, mas para surgir a ideia da natividade de Jesus como a representamos hoje, com o burro e o boi, alargada aos reis magos, foram precisos muitos séculos e só a partir do século XIII alguém se haveria de lembrar de realizar um presépio.


Em Lc 2:7 faz-se referência a uma manjedoura, φάτνη. Envolvido em panos, o menino Jesus foi deitado in praesepio, numa manjedoura. É, portanto, desta expressão em latim, in praesepio, que provém o termo presépio em português.


Lucas menciona também pastores e anjos (Lc 2:8-20).


Por sua vez, Mateus 2:1-12 regista a vinda de magos, μάγοι. O termo grego μάγος lê-se mágos, e refere um homem sábio persa, da classe sacerdotal. Mas não há qualquer referência ao seu número nem à possibilidade de serem reis. 

A referência a três reis magos, com os nomes que vieram a ser Gaspar e Melchior, aparece na Excerpta Latina Barbari (página 51v e 52) composta entre o século V e VI. Um outro texto do século VI, A Caverna dos Tesouros (página 40b, col. 2), apresenta nomes bastante diferentes (em siríaco). Um outro tratado do século VIII, traduzido do grego para o latim, Flores ex diversis, enumera os três nomes hoje conhecidos, Melchior, Gaspar e Baltasar (ver aqui).

A imagem do boi e do burro a adorarem Jesus encontra-se num escrito talvez do século VII, a que se chama hoje Evangelho de Pseudo-Mateus (cap. XIV).

Finalmente, foi Francisco de Assis, já no século XIII, fez o primeiro presépio.












segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Jesus teve irmãos?

A propósito dos irmãos de Jesus...



Mateus 12:
46 Ἔτι αὐτοῦ λαλοῦντος τοῖς ὄχλοις ἰδοὺ ἡ μήτηρ καὶ οὶ ἀδελφοὶ αὐτοῦ εἱστήκεισαν ἔξω ζητοῦντες αὐτῷ λαλῆσαι. 47 [εἶπεν δέ τις αὐτῷ, Ἰδοὺ ἡ μήτηρ σου καὶ οἱ ἀδελφοί σου ἔξω ἑστήκασιν ζητοῦντές σοι λαλῆσαι.] 48 ὁ δὲ ἀποκριθεὶς εἶπεν τῷ λέγοντι αὐτῷ, Τίς ἐστιν ἡ μήτηρ μου καὶ τίνες εἰσιν οἱ αδελφοί μου; 49 καὶ ἐκτείνας τὴν χεῖρα αὐτοῦ ἐπὶ τοὺς μαθητὰς αὐτοῦ εἶπεν, Ἰδοὺ ἡ μήτηρ μου καὶ οἱ ἀδελφοί μου. 50 ὅστις γὰρ ἂν ποιήσῃ τὸ θέλημα τοῦ πατρός μου τοῦ ἐν οὐρανοῖς αὐτός μου ἀδελφὸς καὶ ἀδελφὴ καὶ μήτηρ ἐστίν.

46 Enquanto falava às multidões, eis que a mãe e os irmãos dele estavam lá fora procurando falar-lhe. 47 [Mas alguém lhe disse: “Olha que a tua mãe, e os teus irmãos estão lá fora querendo falar-te.”] 48 Mas respondendo disse a quem lhe falou: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?” 49 E, tendo estendido a sua mão para os seus discípulos, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.


As referência aos irmãos de Jesus são imensas. Não é necessário enunciá-las todas. Mas antes de tentar-mos responder à questão se Jesus teve irmãos, devemos perguntar qual a razão de ser da pergunta. Perante os indícios textuais, não haveria lugar a dúvidas sobre este ponto. O número de referências que existe seria suficiente para nem fazer sentido perguntar se Jesus teve ou não irmãos. Então, por que é que esta pergunta tem lugar?

Bem, em primeiro lugar porque a ideia da virgindade de Maria se impôs ao longo dos séculos. Apesar de apenas em 1854 a virgindade de Maria ser tornada em Dogma, pela bula Ineffabilis Deus, esta ideia há muito se vinha impondo à reflexão cristã. Esta ideia, com origem na citação de Isaías 7:14, feita pelo Evangelho Segundo São Mateus 1:23, a partir da Septuaginta (ver discussão aqui), criou o problema da leitura das referências aos irmãos de Jesus. A virgindade de Maria, segundo a Igreja Católica, não foi um carácter volúvel. Não só Jesus foi concebido sem a intervenção humana masculina, como também permaneceu virgem após o nascimento. O conceito de virgindade seria qualquer coisa mais do que a mera ausência de acto sexual. A virgindade de Maria poderia ter-se perdido fisicamente após o nascimento de Jesus, tal como certas actividades poderão comprometer o hímen de uma jovem - mas segundo a noção de virgindade aplicada a Maria, também isso não aconteceu. Finalmente, segundo a mesma noção, Maria não deve ter tido qualquer filho ou filha que pudesse, antes ou depois de Jesus, ter comprometido a sua virgindade perpétua. Ou seja, quando a religião cristã afirma que Maria é a Virgem não pretende apenas afirmar que Jesus foi concebido sem cópula, mas também que nem depois de Jesus ter nascido houve outra qualquer mácula. Desta forma seria inaceitável que Maria tivesse tido outro filho, pois se o caso extraordinário de Jesus se justificara pela sua própria natureza, tornar-se-ia indefensável que Maria tivesse depois dado à luz outros filhos, também eles, sem cópula. Por isso a única tese autorizada seria a de que Maria não tivera nenhum outro filho, além de Jesus.

É neste contexto que se deve colocar a pergunta: Jesus teve irmãos? E sem esta contextualização - aqui meramente indicada - não nos seria possível respondermos à mesma.

Tendo em conta o contexto referido na reflexão cristã, colocou-se o problema da leitura dos termos irmãoἀδελφός, e irmãosἀδελφοί.

Uma das formas mais óbvias de eliminar a dificuldade e de integrar os textos na doutrina foi a leitura do termo irmão no sentido de companheiro de missão, ou se preferirmos, seguidor de Jesus Cristo. É o próprio Jesus que afirma esta postura no pequeno trecho citado acima: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 50 Pois quem quer que faça a vontade do meu pai do céu, esse é meu irmão, e irmã e mãe.

Ora, essa leitura é descartada por uma análise descomprometida do texto (Mt 12:46-50). Jesus dirige-se àqueles que o escutam, ou àqueles que o informam de que os seus irmãos, com a sua mãe, estão a perguntar por ele. E diz que esses que estão à sua volta é que são seus irmãos, não os irmãos que o procuram lá fora. Portanto, há uma utilização claramente dupla do termo irmão, ora num sentido, ora noutro. Jesus não pode estar a utilizar, em ambos os casos, o termo no sentido de companheiros de missão, ou discípulos.

Então, tentou-se afirmar que o termo irmão, naquele tempo, tal como hoje, poderia ser usado para designar outros laços familiares. Nesta leitura pretende-se que ἀδελφός possa ser compreendido no sentido de primo. Talvez os primos de Jesus tivessem o costume de acompanhar Maria. Ora, esta leitura não parece fazer sentido porque não é clara a razão pela qual os primos de Jesus acompanhassem habitualmente a mãe de Jesus e não a própria mãe deles. Não temos qualquer indício nos textos que nos permitam fazer esta leitura. Os primos de Jesus deveriam acompanhar os seus pais, não os pais de Jesus. Por outro lado, o grego possuía um termo para designar um primo: ἀνεψιός (ver Colossenses 4:10), por isso não havia razão para utilizar tanta vez o termo irmão para designar um primo.

Uma outra leitura comum e também muito antiga parte de uma conjuntura prévia. Supõe que José, marido de Maria (mas não pai verdadeiro de Jesus), tinha filhos de uma outra mulher, da qual era viúvo. Assim, admite-se que as referências visam irmãos de Jesus, mas irmãos apenas pelo lado de José. Os defensores desta interpretação procuram justificar o uso do termo irmão, contudo, na verdade, afirmam que estes irmãos são chamados de irmãos por serem filhos de um homem ao qual não reconhecem a paternidade de Jesus. Afirmam que Jesus não é filho de José, mas que José teve filhos de outro casamento, e que os textos chamam irmãos de Jesus a estes que, afinal, não são irmãos de Jesus.

As leituras que pretendem que Jesus não teve irmãos procuram, de uma forma ou de outra, mostrar que os textos de que dispomos chamam de irmãos aqueles que não são de facto irmãos. Todavia, chegam a esta conclusão com base em crenças que não estão devidamente fundeadas nos próprios textos de que dispomos. Não temos nada que nos permita afirmar que, de uma forma geral, o termo irmão seja utilizado para designar outra coisa senão um irmão. Podemos identificar situações claras onde o termo é usado noutro sentido, como por exemplo na citação de Mateus feita acima, mas a diferença é que nestes casos há uma utilização de irmão que o próprio autor se esforça por determinar e esclarecer como distinto do conceito habitual de irmão. Todas as referências onde esta clareza não existe não suscitam qualquer dúvida sobre ser mais provável que o autor queira dizer precisamente aquilo que diz. Se para o autor fosse premente clarificar que Jesus não tinha irmãos, provavelmente não teria afirmado tantas vezes que ele os tinha - sem esclarecer que não queria afirmar que se tratavam de irmãos no sentido habitual.

O trecho de Mateus é muito claro neste aspecto. Há um sentido habitual para o termo irmão, e há outro sentido, não habitual, que Jesus lhe atribuía. Jesus pretendia que este sentido prevalecesse sobre o primeiro. Mas o autor do texto afirma sem hesitação que Jesus tem irmãos nesse sentido habitual.

















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