terça-feira, 7 de setembro de 2010

O braço esquerdo de Deus

A propósito de, livros contemporâneos

Comecei a ler e logo notei que o livro me prendia, que as frases se sucediam em catadupla, rápidas. Que as palavras encantavam e não me deixavam alternativa sempre na expectativa da continuação. Uma leitura em catarata, pois parece que estamos a cair, não estando nas nossas mãos podermos parar. Pensei, "ah, isto é no início, mas depois a leitura ficará lenta". É assim, normalmente. Normalmente, um livro dá-nos umas páginas que nos despertam e colam, seguidas de outras páginas menos entusiasmantes nas quais se preparam os próximos momentos de suspensão. Mas isso não acontece neste livro. Em pouco tempo o livro já vai no fim, tenho pena por isso, quase choro. Guardei as últimas páginas para o dia seguinte. Com muita, mas mesmo muita desilusão por o livro me estar deste modo a fugir: "quero mais".

Trata-se de um livro magistral. De ler e ficar a suspirar pelos próximos volumes. O braço esquerdo de Deus, de Paul Hoffman.
Com um estilo que nos agarra a cada página do princípio ao fim, este livro surpreende pela originalidade pigmentada de laivos de toponímia real. As metáforas e as simbologias são espantosas e estimulantes.

Venho a saber que ainda não estão publicados os outros volumes, a segunda e terceira parte. Parece que ninguém me sabe dizer para quando irão estar. Mas, para os próximos, vou ter o cuidado de, pelo menos, manter cada livro, durante três dias.

Afinal, a gula é um pecado mortal.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Filosofia e a Educação

A propósito de, Filosofia e Filósofos

O problema não é novo, nem sequer recente. A discussão há muito foi identificada: Sócrates dialogava, Platão escreveu; Sócrates questionava, Platão ensinou.

O Filósofo tornou-se docente. Tornou-se funcionário (público ou privado). Tornou-se formador.

O problema não é novo, portanto. Ocorreu um desvio. A Filosofia deve ser uma actividade, mas tornou-se ensinamento. O Filósofo ensina.

O problema é, pois, saber se não aconteceu que a Filosofia se tenha tornado cativa. Pois, a Filosofia deveria questionar, antes (e este antes não é meramente cronológico) de ensinar.

Está o filósofo destinado a ser formador?

Não está em causa a importância social e pública do ensinamento. Com toda a certeza é importante formar, ensinar, transmitir valores, dizer às crianças que existe um mundo sério, onde os Direitos Humanos têm um lugar cimeiro, onde a Ética tem a sua regência, onde a cidadania é uma actividade quotidiana, etc.

Não está em causa a importância de ensinar para a Democracia.

A questão é outra: é a Filosofia isso? Só isso? Sobretudo isso?

Se este é o destino do Filósofo talvez se devesse também questionar: não se perdeu, entretanto, de vista uma actividade fundamental, para a própria cidadania, para a própria Democracia, para os próprios Direitos Humanos, para a própria Ética - e que é a actividade de, simplesmente, questionar sem ter previamente em vista "adjudicar" uma resposta?

Não faz falta, também, ensinar a questionar - questionar de raiz, sem assumpções?

Será que, reconhecendo a relevância de Platão, o nosso mundo não tem lugar para Sócrates?
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