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sábado, 5 de julho de 2025
Seminário Permanente Praxis/UBI "Repensar o Humano e a Natureza"
A propósito de: O Problema da Origem Natural da Ética
sábado, 10 de julho de 2021
Resistência a ordens, objecção de consciência e violação da lei
A propósito da diferença entre direito de resistência e objecção de consciência
Bem, normalmente as pessoas fazem muita confusão, em primeiro lugar, entre "ética/consciência subjectiva", e "direito", e, em segundo lugar, entre "direito de resistência", "abstenção de consciência" e "direito a abstenção de consciência em matérias consagradas na lei".
O "direito de resistir a uma ordem" não é o mesmo que "direito de violar uma lei". Ou seja, tem-se o direito de resistir a uma ordem, justamente, quando esta ordem não está em conformidade com a lei. E tem-se o "direito" porque a lei diz que temos esse direito. Ou seja, a lei diz que temos o direito de resistir a qualquer ordem ilegal. Se um polícia nos der uma ordem ilegal, e se nos prender por não respeitarmos a ordem que nos deu, quando chegarmos a Tribunal, dado que a ordem seja objectivamente ilegal, não somos condenados por ter desobedecido. Isto é o direito de desobediência.
Ora, se pelo contrário houver uma lei a que desobedecemos, isso não é, isso não cabe no conceito de "direito de resistência". Não cabe porque o que aí fazemos não é "desobedecer", mas sim violar a lei positiva. Outra questão diferente é saber se essa lei é inconstitucional. Mas quem decide se uma lei é inconstitucional não são os cidadãos, não são os partidos políticos, não é sequer o Governo, mas sim os Tribunais e, em última análise, o Tribunal Constitucional.
Dito isto, há uma outra coisa chamada "objecção de consciência". Aqui, sim, trata-se de não cumprir uma lei porque ela viola os mandamentos da nossa consciência. Ou seja, o sujeito tem uma objeccção de consciência à lei e, por isso, não a cumpre. Todos nós podemos fazer isso - mas, depois, como é evidente, sofremos as consequências legais. Assim, quando o Estado faz uma lei que viola a consciência do indivíduo, ele pode sempre não a cumprir. E o Estado, pelos Tribunais, depois julga-o por não a ter cumprido. Na Alemanha Nazi houve muita gente que não cumpriu as leis dos nazis e, depois, foi julgada por isso. Nos EUA, Muhammad Ali ficou conhecido por alegar objecção de consciência para não cumprir o serviço militar. Evidentemente, sofreu as consequências. Ao longo da História houve muita gente que alegou objecção de consciência. Lutero foi um caso desses. Mas o que está em causa na objecção de consciência não é o "direito a violar a lei", mas sim a capacidade do sujeito de se recusar a cumprir uma lei que vai contra a sua consciência. Historicamente, muitos casos de objecção de consciência ocorriam no âmbito da defesa, quando as pessoas se recusavam a ser recrutadas para as forças armadas por, em consciência, serem contra a guerra. Também muitos médicos usaram, ao longo da História, esta justificação. Mas, em todos esses casos, as pessoas que usam a objecção de consciência, depois, sofrem as consequências de terem violado a lei.
Finalmente, algumas matérias que, historicamente, estiveram mais associadas à objecção de consciência, como seja, justamente, o recrutamento para as forças armadas, ou as acções médicas, acabaram por ser consagradas na lei. Neste caso, é a própria lei que diz que as pessoas podem não cumprir a lei, em algumas matérias bem definidas, se essa lei violar a sua consciência. Mas este direito não é abstracto. Ou seja, não existe o direito de violar todas as leis, como é evidente. Caso contrário, um psicopata poderia alegar o direito à objecção de consciência para assim poder matar pessoas impunemente. O direito à objecção de consciência não é, nem pode ser, um direito abstracto. A lei que diz que temos direito à objecção de consciência tem de especificar muito bem em relação a que leis concretas temos esse direito. Por exemplo, em alguns países onde há recrutamento obrigatório, também há o direito de recusar esse recrutamento obrigatório. Ou seja, há uma lei que diz que os cidadãos têm o direito de não cumprir a lei do recrutamento obrigatório, por motivos de consciência (normalmente, essa obrigatoriedade é substituída por outra coisa, como o trabalho comunitário, etc.).
O "direito de resistir a uma ordem" não é o mesmo que "direito de violar uma lei". Ou seja, tem-se o direito de resistir a uma ordem, justamente, quando esta ordem não está em conformidade com a lei. E tem-se o "direito" porque a lei diz que temos esse direito. Ou seja, a lei diz que temos o direito de resistir a qualquer ordem ilegal. Se um polícia nos der uma ordem ilegal, e se nos prender por não respeitarmos a ordem que nos deu, quando chegarmos a Tribunal, dado que a ordem seja objectivamente ilegal, não somos condenados por ter desobedecido. Isto é o direito de desobediência.
Ora, se pelo contrário houver uma lei a que desobedecemos, isso não é, isso não cabe no conceito de "direito de resistência". Não cabe porque o que aí fazemos não é "desobedecer", mas sim violar a lei positiva. Outra questão diferente é saber se essa lei é inconstitucional. Mas quem decide se uma lei é inconstitucional não são os cidadãos, não são os partidos políticos, não é sequer o Governo, mas sim os Tribunais e, em última análise, o Tribunal Constitucional.
Dito isto, há uma outra coisa chamada "objecção de consciência". Aqui, sim, trata-se de não cumprir uma lei porque ela viola os mandamentos da nossa consciência. Ou seja, o sujeito tem uma objeccção de consciência à lei e, por isso, não a cumpre. Todos nós podemos fazer isso - mas, depois, como é evidente, sofremos as consequências legais. Assim, quando o Estado faz uma lei que viola a consciência do indivíduo, ele pode sempre não a cumprir. E o Estado, pelos Tribunais, depois julga-o por não a ter cumprido. Na Alemanha Nazi houve muita gente que não cumpriu as leis dos nazis e, depois, foi julgada por isso. Nos EUA, Muhammad Ali ficou conhecido por alegar objecção de consciência para não cumprir o serviço militar. Evidentemente, sofreu as consequências. Ao longo da História houve muita gente que alegou objecção de consciência. Lutero foi um caso desses. Mas o que está em causa na objecção de consciência não é o "direito a violar a lei", mas sim a capacidade do sujeito de se recusar a cumprir uma lei que vai contra a sua consciência. Historicamente, muitos casos de objecção de consciência ocorriam no âmbito da defesa, quando as pessoas se recusavam a ser recrutadas para as forças armadas por, em consciência, serem contra a guerra. Também muitos médicos usaram, ao longo da História, esta justificação. Mas, em todos esses casos, as pessoas que usam a objecção de consciência, depois, sofrem as consequências de terem violado a lei.
Finalmente, algumas matérias que, historicamente, estiveram mais associadas à objecção de consciência, como seja, justamente, o recrutamento para as forças armadas, ou as acções médicas, acabaram por ser consagradas na lei. Neste caso, é a própria lei que diz que as pessoas podem não cumprir a lei, em algumas matérias bem definidas, se essa lei violar a sua consciência. Mas este direito não é abstracto. Ou seja, não existe o direito de violar todas as leis, como é evidente. Caso contrário, um psicopata poderia alegar o direito à objecção de consciência para assim poder matar pessoas impunemente. O direito à objecção de consciência não é, nem pode ser, um direito abstracto. A lei que diz que temos direito à objecção de consciência tem de especificar muito bem em relação a que leis concretas temos esse direito. Por exemplo, em alguns países onde há recrutamento obrigatório, também há o direito de recusar esse recrutamento obrigatório. Ou seja, há uma lei que diz que os cidadãos têm o direito de não cumprir a lei do recrutamento obrigatório, por motivos de consciência (normalmente, essa obrigatoriedade é substituída por outra coisa, como o trabalho comunitário, etc.).
sexta-feira, 18 de junho de 2021
Da impossibilidade da ética sem emoção
A propósito de ética e emoções
Parece mais ou menos claro para toda a gente que, sem o âmbito sentimental-emocional, não há movimento, por melhores que sejam as intenções e as razões. O sujeito pensa: vou fazer X; mas se não houver nele também o impulso para isso, deixa arrastar, arranja desculpas, e não faz X. A ética não fica imune a este problema, por isso mesmo Kant diz na parte da Doutrina da Virtude da "Metafísica dos Costumes" (não confundir com a "Fundamentação da Metafísica dos Costumes"), que aquele a quem faltasse o sentimento moral estaria moralmente morto.
O problema, o nó górdio, está na ideia de "apelar a que alguém se emocione melhor". Não parece nada claro que seja possível ao sujeito suscitar emoções nele próprio para quais não exista nele, à partida, pelo menos a susceptibilidade para tal. Quer dizer, não parece ser possível ao indiferente fazer com que se emocione com aquilo a que, justamente, é indiferente. Aliás, é essa a origem de grande parte das discussões em torno dos psicopatas: não sendo susceptíveis a uma grande parte dos sentimentos e emoções, não podem ser levados a conduzir-se de maneira aceitável apelando para elas: não vale a pena apelar para que se "emocionem melhor"...
Entretanto, há outro aspecto curioso. Num episódio do House, há um paciente que acaba por ser preso por práticas pedófilas, levando um dos estagiários a comentar que o sujeito em causa, de alguma forma, seria inocente, ou que as suas acções não lhe seriam imputáveis, dada a compulsão de que padecia. A isso o House responde que esse comentário era ele próprio injusto para todos aqueles que, sofrendo da mesma compulsão, resistiam a ceder-lhe. E isso é verdade. Parece que o âmbito sentimental-emocional pode ser, de algum modo, domado. Os sentimentos e as emoções podem ser corrigidos. Há mesmo pessoas que resistem às suas compulsões, que até procuram ajuda profissional para lhes resistirem, em vez de simplesmente as satisfazerem.
É possível pela razão fortalecer certos sentimentos e emoções, e enfraquecer outros. Isso sabe-se há muito, porque é assim que treinamos os animais há muito tempo, por via de incentivos e desincentivos. O mesmo pode o sujeito fazer sobre si próprio. Pode indulgenciar em satisfazer ou suscitar, e assim incentivar, certos sentimentos e emoções; e pode paulatinamente abster-se de incentivos, e assim enfraquecer outros. Mas aqui, em ambos os casos, estamos a falar de pessoas que têm receptividade a certos objectos, são susceptíveis de certos sentimentos e emoções - e só por isso esses sentimentos e emoções podem ser, ou incentivados, ou desincentivados. O problema maior é que não se sabe como fazer alguém sentir um sentimento ou emoção para o qual não tenha susceptibilidade.
Por exemplo: podemos dizer que não é possível uma ética sem compaixão. Ou, como Kant, que sem sentimento moral a moralidade não é possível (ou melhor, não é possível ética, pois só fica o direito). Até aqui tudo bem, a maioria dos filósofos concordaria com isto, até mesmo Kant. Mas se não é possível uma ética sem compaixão, o que fazer com aqueles que não são susceptíveis de sentir compaixão? Kant disse que sem sentimento moral o sujeito estaria moralmente morto, mas ele achava que não existia nenhum ser humano sem sentimento moral. Ele não sabia que havia psicopatas. Mas se sem certos sentimentos e emoções a ética não é possível, o que fazer com aqueles que são fisicamente incapazes de ter esses sentimentos e emoções?
Parece mais ou menos claro para toda a gente que, sem o âmbito sentimental-emocional, não há movimento, por melhores que sejam as intenções e as razões. O sujeito pensa: vou fazer X; mas se não houver nele também o impulso para isso, deixa arrastar, arranja desculpas, e não faz X. A ética não fica imune a este problema, por isso mesmo Kant diz na parte da Doutrina da Virtude da "Metafísica dos Costumes" (não confundir com a "Fundamentação da Metafísica dos Costumes"), que aquele a quem faltasse o sentimento moral estaria moralmente morto.
O problema, o nó górdio, está na ideia de "apelar a que alguém se emocione melhor". Não parece nada claro que seja possível ao sujeito suscitar emoções nele próprio para quais não exista nele, à partida, pelo menos a susceptibilidade para tal. Quer dizer, não parece ser possível ao indiferente fazer com que se emocione com aquilo a que, justamente, é indiferente. Aliás, é essa a origem de grande parte das discussões em torno dos psicopatas: não sendo susceptíveis a uma grande parte dos sentimentos e emoções, não podem ser levados a conduzir-se de maneira aceitável apelando para elas: não vale a pena apelar para que se "emocionem melhor"...
Entretanto, há outro aspecto curioso. Num episódio do House, há um paciente que acaba por ser preso por práticas pedófilas, levando um dos estagiários a comentar que o sujeito em causa, de alguma forma, seria inocente, ou que as suas acções não lhe seriam imputáveis, dada a compulsão de que padecia. A isso o House responde que esse comentário era ele próprio injusto para todos aqueles que, sofrendo da mesma compulsão, resistiam a ceder-lhe. E isso é verdade. Parece que o âmbito sentimental-emocional pode ser, de algum modo, domado. Os sentimentos e as emoções podem ser corrigidos. Há mesmo pessoas que resistem às suas compulsões, que até procuram ajuda profissional para lhes resistirem, em vez de simplesmente as satisfazerem.
É possível pela razão fortalecer certos sentimentos e emoções, e enfraquecer outros. Isso sabe-se há muito, porque é assim que treinamos os animais há muito tempo, por via de incentivos e desincentivos. O mesmo pode o sujeito fazer sobre si próprio. Pode indulgenciar em satisfazer ou suscitar, e assim incentivar, certos sentimentos e emoções; e pode paulatinamente abster-se de incentivos, e assim enfraquecer outros. Mas aqui, em ambos os casos, estamos a falar de pessoas que têm receptividade a certos objectos, são susceptíveis de certos sentimentos e emoções - e só por isso esses sentimentos e emoções podem ser, ou incentivados, ou desincentivados. O problema maior é que não se sabe como fazer alguém sentir um sentimento ou emoção para o qual não tenha susceptibilidade.
Por exemplo: podemos dizer que não é possível uma ética sem compaixão. Ou, como Kant, que sem sentimento moral a moralidade não é possível (ou melhor, não é possível ética, pois só fica o direito). Até aqui tudo bem, a maioria dos filósofos concordaria com isto, até mesmo Kant. Mas se não é possível uma ética sem compaixão, o que fazer com aqueles que não são susceptíveis de sentir compaixão? Kant disse que sem sentimento moral o sujeito estaria moralmente morto, mas ele achava que não existia nenhum ser humano sem sentimento moral. Ele não sabia que havia psicopatas. Mas se sem certos sentimentos e emoções a ética não é possível, o que fazer com aqueles que são fisicamente incapazes de ter esses sentimentos e emoções?
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021
Se a felicidade fosse o princípio da ética, tudo seria permitido.
A propósito do princípio da felicidade
Que se apresente o princípio da felicidade como o princípio determinante da moralidade é algo que deve parecer, ao mais simples senso-comum, como uma parvoíce.
Imaginemos que o Jonas se justifica perante o seu amigo Amélio, pelo facto de o ter roubado, explicando que o fez porque era a coisa correcta a fazer. Com certeza, o Amélio procurará saber por que terá sido a coisa correcta a fazer o Jonas ter-lhe roubado as suas coisas. Suponhamos que Jonas explica que roubou o dinheiro do Amélio para poder pagar a operação do filho. Talvez o Amélio se sinta ofendido por Jonas não lhe ter pedido o dinheiro, em vez de o ter roubado.
Agora imaginemos que o Jonas se justifica afirmando que roubou porque isso o faria mais feliz. Com certeza, o Amélio pensará que arranjou um psicopata como amigo. Suponhamos que Jonas explica que roubou o dinheiro do Amélio para poder pagar a operação do filho, porque devolver a saúde ao seu filho o tornaria mais feliz, e tudo quanto Jonas quer é ser feliz. Talvez o Amélio compreenda que Jonas se sinta mais feliz com o filho saudável. Mas decerto o Amélio não desculpará Jonas em virtude de Jonas ter agido para alcançar a felicidade, embora o possa desculpar por ter agido para devolver a saúde ao filho.
O facto de o roubo ter promovido a felicidade de quem o praticou parece indiferente em relação à justificação ética do acto. Raramente alguém aceita que outros justifiquem o mal que lhe fazem com a desculpa de que agiram para serem felizes. É muito mais comum que o próprio sujeito que age o faça para ser feliz, do que alguém tentar justificar-se apelando para o facto de ter agido para se tornar feliz. A felicidade pode ser o princípio do que fazemos, mas não o princípio do que devemos fazer.
Se a felicidade fosse o princípio da ética, tudo seria permitido. Aliás, é por isso que, à primeira vista, se Deus não existe, tudo é permitido. Porque, se Deus não existe, então, aparentemente, Deus foi substituído pela felicidade, e se a felicidade é o princípio da ética, então tudo é permitido.
Que se apresente o princípio da felicidade como o princípio determinante da moralidade é algo que deve parecer, ao mais simples senso-comum, como uma parvoíce.
Imaginemos que o Jonas se justifica perante o seu amigo Amélio, pelo facto de o ter roubado, explicando que o fez porque era a coisa correcta a fazer. Com certeza, o Amélio procurará saber por que terá sido a coisa correcta a fazer o Jonas ter-lhe roubado as suas coisas. Suponhamos que Jonas explica que roubou o dinheiro do Amélio para poder pagar a operação do filho. Talvez o Amélio se sinta ofendido por Jonas não lhe ter pedido o dinheiro, em vez de o ter roubado.
Agora imaginemos que o Jonas se justifica afirmando que roubou porque isso o faria mais feliz. Com certeza, o Amélio pensará que arranjou um psicopata como amigo. Suponhamos que Jonas explica que roubou o dinheiro do Amélio para poder pagar a operação do filho, porque devolver a saúde ao seu filho o tornaria mais feliz, e tudo quanto Jonas quer é ser feliz. Talvez o Amélio compreenda que Jonas se sinta mais feliz com o filho saudável. Mas decerto o Amélio não desculpará Jonas em virtude de Jonas ter agido para alcançar a felicidade, embora o possa desculpar por ter agido para devolver a saúde ao filho.
O facto de o roubo ter promovido a felicidade de quem o praticou parece indiferente em relação à justificação ética do acto. Raramente alguém aceita que outros justifiquem o mal que lhe fazem com a desculpa de que agiram para serem felizes. É muito mais comum que o próprio sujeito que age o faça para ser feliz, do que alguém tentar justificar-se apelando para o facto de ter agido para se tornar feliz. A felicidade pode ser o princípio do que fazemos, mas não o princípio do que devemos fazer.
Se a felicidade fosse o princípio da ética, tudo seria permitido. Aliás, é por isso que, à primeira vista, se Deus não existe, tudo é permitido. Porque, se Deus não existe, então, aparentemente, Deus foi substituído pela felicidade, e se a felicidade é o princípio da ética, então tudo é permitido.
A comparação com as formigas
A propósito da economia de mercado e da economia de recursos
Imagine-se uma colónia de formigas que ficou presa por a água rodear o pequeno monte onde está situada. Tornado numa pequena ilha, o pequeno monte não dispõe de recursos suficientes para a sobrevivência da colónia. As formigas precisam de construir uma ponte para poderem procurar fora da ilha mais recursos. A colónia pertence a uma espécie de formigas que dispõe da habilidade de construir pontes recorrendo a folhas e a pequenos paus. No monte há uma quantidade de folhas dispersas e paus caídos, suficientes para construir uma ponte que atravesse a água até ao outro lado. As formigas imediatamente se põem a trabalhar e constroem a dita ponte com uma organização espantosa.
Agora suponha-se que não falávamos de formigas, mas se homens. Como a colónia de homens tinha gasto o dinheiro disponível noutras coisas, não acautelando o futuro contra casualidades inesperadas, agora já não dispunha de dinheiro para pagar a construção da ponte. O facto de a colónia de homens dispor de homens aptos para construírem a ponte, e de haver uma quantidade de materiais disponíveis suficiente para construir a ponte, não garantiria, só por si, a edificação da ponte. A colónia de homens acabaria por morrer à fome. Não porque não tivesse homens aptos e suficientes para construir a ponte. Não porque não tivesse à sua disposição os recursos suficientes para construir a ponte. Mas sim porque não tinha dinheiro.
Imagine-se uma colónia de formigas que ficou presa por a água rodear o pequeno monte onde está situada. Tornado numa pequena ilha, o pequeno monte não dispõe de recursos suficientes para a sobrevivência da colónia. As formigas precisam de construir uma ponte para poderem procurar fora da ilha mais recursos. A colónia pertence a uma espécie de formigas que dispõe da habilidade de construir pontes recorrendo a folhas e a pequenos paus. No monte há uma quantidade de folhas dispersas e paus caídos, suficientes para construir uma ponte que atravesse a água até ao outro lado. As formigas imediatamente se põem a trabalhar e constroem a dita ponte com uma organização espantosa.
Agora suponha-se que não falávamos de formigas, mas se homens. Como a colónia de homens tinha gasto o dinheiro disponível noutras coisas, não acautelando o futuro contra casualidades inesperadas, agora já não dispunha de dinheiro para pagar a construção da ponte. O facto de a colónia de homens dispor de homens aptos para construírem a ponte, e de haver uma quantidade de materiais disponíveis suficiente para construir a ponte, não garantiria, só por si, a edificação da ponte. A colónia de homens acabaria por morrer à fome. Não porque não tivesse homens aptos e suficientes para construir a ponte. Não porque não tivesse à sua disposição os recursos suficientes para construir a ponte. Mas sim porque não tinha dinheiro.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021
O rigor, na mensagem de Jesus
A propósito da mensagem de Jesus
«Seguiam com ele numerosas multidões; e Jesus, voltando-se para elas, disse-lhes: "Se alguém vem ter comigo e não odeia o seu pai, a sua mãe, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não consegue ser meu discípulo."» Lucas 14:26 (trad. Frederico Lourenço)
Com estas palavras, que são tão surpreendentes para nós como eram chocantes para os seus contemporâneos, Jesus certamente reduziu o número daqueles que o seguiam. E mais, acrescenta, não suceda alguém, querendo construir uma torre, depois de assentar os alicerces venha a descobrir não ser capaz de a acabar (Lucas 14:29-30). Jesus queria que aqueles que o seguiam calculassem o custo de o seguir. Talvez por isso, quando era maior a multidão que se reunia para o seguir, Jesus usava uma linguagem especialmente severa: «todo aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não consegue ser meu discípulo» (Lucas 14:33). Não é só na questão de alguém "querer" ou "não querer" ser seu discípulo que Jesus se foca, mas também nas condições necessárias para que alguém "consiga" ou "seja capaz" de ser seu discípulo. Porque antes de um homem começar a construir uma torre, deve primeiro assegurar-se de que dispõe dos meios para a acabar.
«Seguiam com ele numerosas multidões; e Jesus, voltando-se para elas, disse-lhes: "Se alguém vem ter comigo e não odeia o seu pai, a sua mãe, os seus filhos, os seus irmãos, as suas irmãs e até a sua própria vida, não consegue ser meu discípulo."» Lucas 14:26 (trad. Frederico Lourenço)
Com estas palavras, que são tão surpreendentes para nós como eram chocantes para os seus contemporâneos, Jesus certamente reduziu o número daqueles que o seguiam. E mais, acrescenta, não suceda alguém, querendo construir uma torre, depois de assentar os alicerces venha a descobrir não ser capaz de a acabar (Lucas 14:29-30). Jesus queria que aqueles que o seguiam calculassem o custo de o seguir. Talvez por isso, quando era maior a multidão que se reunia para o seguir, Jesus usava uma linguagem especialmente severa: «todo aquele de vós que não renunciar a todos os seus bens não consegue ser meu discípulo» (Lucas 14:33). Não é só na questão de alguém "querer" ou "não querer" ser seu discípulo que Jesus se foca, mas também nas condições necessárias para que alguém "consiga" ou "seja capaz" de ser seu discípulo. Porque antes de um homem começar a construir uma torre, deve primeiro assegurar-se de que dispõe dos meios para a acabar.
sábado, 30 de janeiro de 2021
O conflito entre direito e ética, nas sociedades-covid, e o colapso moral anunciado
A propósito do confinamento e dos nossos direitos
As pessoas interiorizaram a noção de que o vírus não é tão letal como nos querem fazer crer. É certo que o vírus mata alguns velhos, mas é um exagero fechar a sociedade por causa de alguns velhos que, de qualquer maneira, também morreriam entretanto. Para os mais novos, o vírus não é problemático, senão para os que sofrem de alguma doença muito grave. O vírus só é fatal para os mais fracos. Para os jovens e os fortes, o vírus é uma gripezinha. E é um absurdo fecharmos tudo por causa de uns tantos velhos e fracos. Afinal, isto é uma democracia, ou não? Nós temos os nossos direitos, as nossas liberdades, e é um absurdo tirarem-nos os nossos direitos e as nossas liberdades, por causa de velhos e fracos. A vida continua, a economia não pode parar, the show must go on. É isto que está na cabeça de muita gente. Talvez, da maioria de nós. Apesar de falso e imoral, é assim que muita gente pensa. Vemos isso todos os dias. As pessoas perguntam se ainda é permitido isto ou aquilo, se ainda podem ir ali ou acolá, quando é que, afinal, podem andar entre concelhos, se podem ir comprar roupa, se a loja de sapatos que a internet ainda diz estar aberta, realmente estará aberta, se o restaurante na esquina não terá um recanto lá dentro onde se possa comer um bife sem a GNR ou a PSP incomodar. E é assim, à espreita da excepção, dos meus direitos, das nossas liberdades, que se manifesta a falência da moralidade. Primeiro, pouco a pouco. Mas se lhe dermos o tempo suficiente: o colapso.
As pessoas interiorizaram a noção de que o vírus não é tão letal como nos querem fazer crer. É certo que o vírus mata alguns velhos, mas é um exagero fechar a sociedade por causa de alguns velhos que, de qualquer maneira, também morreriam entretanto. Para os mais novos, o vírus não é problemático, senão para os que sofrem de alguma doença muito grave. O vírus só é fatal para os mais fracos. Para os jovens e os fortes, o vírus é uma gripezinha. E é um absurdo fecharmos tudo por causa de uns tantos velhos e fracos. Afinal, isto é uma democracia, ou não? Nós temos os nossos direitos, as nossas liberdades, e é um absurdo tirarem-nos os nossos direitos e as nossas liberdades, por causa de velhos e fracos. A vida continua, a economia não pode parar, the show must go on. É isto que está na cabeça de muita gente. Talvez, da maioria de nós. Apesar de falso e imoral, é assim que muita gente pensa. Vemos isso todos os dias. As pessoas perguntam se ainda é permitido isto ou aquilo, se ainda podem ir ali ou acolá, quando é que, afinal, podem andar entre concelhos, se podem ir comprar roupa, se a loja de sapatos que a internet ainda diz estar aberta, realmente estará aberta, se o restaurante na esquina não terá um recanto lá dentro onde se possa comer um bife sem a GNR ou a PSP incomodar. E é assim, à espreita da excepção, dos meus direitos, das nossas liberdades, que se manifesta a falência da moralidade. Primeiro, pouco a pouco. Mas se lhe dermos o tempo suficiente: o colapso.
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
Paulo e a suposta "família cristã"
A propósito da família no cristianismo original - em particular, nas cartas de Paulo
Se o Novo Testamento estivesse ordenado por ordem cronológica da sua escrita, os primeiros textos a figurar nele seriam as cartas autênticas de Paulo (as “autênticas” porque o cânone do Novo Testamento inclui algumas cartas que reclamam a autoria paulina, mas que não podem ter sido escritas por Paulo). As epístolas paulinas (autênticas) são anteriores aos Evangelhos, e são os documentos cristãos mais antigos que possuímos hoje: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, Carta a Filémon e Carta aos Romanos – por esta ordem. Curiosamente, e segundo a crítica actual, estes são os únicos documentos do Novo Testamento que podemos efectivamente associar a uma biografia pessoal real, a saber, Paulo. Não sabemos quem escreveu qualquer dos outros 20 livros que integram o Novo Testamento (por exemplo, não sabemos quem escreveu os Evangelhos, apesar de cada um deles estar associado a um nome). Quando Paulo morreu, por volta do ano 64, mais nenhum texto cristão canónico havia sido escrito, excepto as suas sete cartas. Paulo terá escrito as cartas em questão na década de 50 (do século I). Por isso, as epístolas paulinas constituem um conjunto de documentos fundamentais para conhecermos o cristianismo dos primeiros tempos – o cristianismo tal como ele existia no tempo em que ainda estavam vivas pessoas que já estavam vivas quando Jesus estava vivo.
Há diversas diferenças entre as cartas autênticas de Paulo e as chamadas pseudo-paulinas. Algumas dessas diferenças são relativas à sexualidade e à relação entre homens e mulheres. As cartas autênticas de Paulo revelam-nos que, para ele, o estado ideal do ser humano, em relação à sexualidade, era a virgindade – ou, caso alguém se tornasse cristão já não sendo virgem, a castidade. Paulo é muito claro quanto a isto (cf. 1 Cor. 7:1-8). Portanto, para Paulo, o estado ideal do homem é a castidade, a ausência de relações sexuais – e é só para evitar o recurso à prostituição que recomenda que aqueles que não sejam capazes de cumprir tal requisito, então, se casem. É só porque está ciente da enorme dificuldade que a exigência de castidade implica, que Paulo aceita o recurso ao casamento. Ainda assim, segundo ele, é preferível que o marido se esforce por não tocar na sua mulher, apesar de casado – e a haver relações sexuais, o sexo entre marido e mulher devem ser isentos de prazer (cf. 1 Tess. 4:3-5). Quer dizer, segundo Paulo, mesmo entre marido e mulher, não deve haver sexo, e a haver sexo, deve ser sexo sem prazer. Paulo considera o prazer sexual um elemento pagão (aparentemente, desconhecendo as diversas correntes filosóficas pagãs que, mesmo antes de Sócrates, já eram adversas ao prazer sexual). Como diz Frederico Lourenço, na sua Nota Introdutória à Carta aos Romanos: para Paulo, “é a sexualidade em si que se tornou obsoleta”.
Curiosamente, os conservadores contemporâneos, por vezes, recorrem a Paulo para defenderem a noção de “família cristã”. Para os conservadores, o ponto de vista de Paulo rejeita o “politicamente correcto” e defende peremptoriamente a “família cristã” tradicional. Ora, é certo que, se há coisa que Paulo não era, é “politicamente correcto”, mas os conservadores actuais falham completamente o ponto ao recorrerem a Paulo para defenderem a suposta noção de “família cristã”. Na verdade, Paulo de modo nenhum defende a família dita cristã – nem, de resto, o próprio Jesus a defendia (cf. Mt. 22:30). Para Paulo, a relação sexual entre pessoas de sexo oposto não era muito melhor do que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo: em ambos os casos, a palavra de ordem era para evitar. Idealmente, para Paulo – tal como para Jesus – nem os homens devem ter mulheres, nem as mulheres devem ter homens. O resto, a família, a suposta “família cristã”, era apenas um expediente para evitar males ainda piores. Ou seja, Paulo só admitia o casamento (e, portanto, a constituição da família) para evitar o mal maior da “fornicação” desregrada. Paulo insiste no valor da virgindade e da castidade, e o casamento só é aceite como mal menor – mas, ainda assim, um mal.
É nas cartas pastorais (as duas epístolas a Timóteo e a epístola a Tito), pseudo-paulinas, escritas já depois da morte de Paulo, que se procura conciliar a vida cristã com o casamento e a família. São as cartas pastorais que defendem o οἶκος (oîkos – de onde veio a nossa palavra “economia”), termo este que designava a estrutura familiar, constituída por marido, mulher, filhos, outros descendentes e ascendentes, e escravos. As cartas pastorais, pseudo-paulinas, colidem directamente com o ideal paulino da castidade. Em vez da apologia da abstinência sexual, as pastorais fazem a apologia da estrutura familiar antiga. A família aparece nelas como a estrutura básica, sobre a qual a ἐκκλησία (ekklêsía – de onde provém o termo “eclésia”), a comunidade, se deveria fundar.
O οἶκος era chefiado pelo οἰκοδεσπότης (oikodespótês), o marido. O marido era, literalmente, o déspota da família, o chefe do lar. Assim, nas cartas pastorais, o autor pseudo-paulino oferece-nos uma visão do mundo impregnada de misoginia. Na sua perspectiva, a mulher só se salvará pela τεκνογονία (teknogonía), pelo acto de dar à luz uma criança (1 Tim. 2:14-15). Assim, as cartas pastorais, não só contrariam o ideal paulino da abstinência sexual, como estabelecem a ideia de que as mulheres têm na parturição de filhos a sua condição de possibilidade de salvação. O seu papel na estrutura familiar (οἶκος) e, por extensão, na comunidade (ἐκκλησία) fica restrito à sua condição biológica de procriação, estando submetida ao seu marido, enquanto chefe de família (οἰκοδεσπότης). O homem é concebido como o déspota ao qual a mulher está submetida, numa condição de silenciamento, reduzida à sua função de procriadora: “Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio. E Adão foi o primeiro a ser formado; depois Eva” (1 Tim. 2:11-13). As cartas pseudo-paulinas serviram para legitimar, durante séculos, a subalternização da mulher em relação ao homem.
Assim, a visão expressa pelo autor pseudo-paulino contraria o respeito pela mulher que Paulo manifesta nas suas cartas (autênticas). Ao procurar enquadrar na vida cristã o casamento e a estrutura familiar tradicional, o autor pseudo-paulino coloca a mulher numa posição subalterna em relação ao homem, rejeitando assim a visão de Paulo, na qual a mulher gozava de um estatuto surpreendentemente generoso.
Portanto, quando os conservadores apelam à posição de Paulo para legitimar a suposta noção de “família cristã”, na verdade, incorrem num equívoco. Ao pretenderem invocar um Paulo politicamente incorrecto pelos padrões de hoje, esquecem que Paulo era politicamente incorrecto, também, no seu próprio tempo. No seu tempo, Paulo – como Jesus já fizera – opõe-se directamente às instituições tradicionais do seu tempo. Inclusivamente, opõe-se à instituição da “família tradicional”. Se, no tempo de Paulo, Paulo defendesse a estrutura familiar tradicional, Paulo não teria sido, como foi, politicamente incorrecto no seu próprio tempo. E, ao pretenderem trazer Paulo para o debate contemporâneo, os conservadores esquecem que Paulo continua politicamente incorrecto no nosso tempo. Continua politicamente incorrecto de tal modo que não se coaduna com a posição que os conservadores pretendem derrubar, mas também continua de tal modo politicamente incorrecto que não se coaduna, sequer, com a posição dos conservadores. A posição de Paulo tanto se opunha aos conservadores do seu tempo, como aos conservadores do nosso tempo – e não se opõe menos à posição dos conservadores do nosso tempo, do que se opõe à posição dos progressistas. Parafraseando o próprio Paulo (cf. 1 Cor. 1:23): o cristianismo original era um escândalo para os do seu tempo, e é uma loucura para nós.
Ao invocarem Paulo, os conservadores dão um tiro nos próprios pés.
Se o Novo Testamento estivesse ordenado por ordem cronológica da sua escrita, os primeiros textos a figurar nele seriam as cartas autênticas de Paulo (as “autênticas” porque o cânone do Novo Testamento inclui algumas cartas que reclamam a autoria paulina, mas que não podem ter sido escritas por Paulo). As epístolas paulinas (autênticas) são anteriores aos Evangelhos, e são os documentos cristãos mais antigos que possuímos hoje: 1ª Carta aos Tessalonicenses, 1ª Carta aos Coríntios, 2ª Carta aos Coríntios, Carta aos Gálatas, Carta aos Filipenses, Carta a Filémon e Carta aos Romanos – por esta ordem. Curiosamente, e segundo a crítica actual, estes são os únicos documentos do Novo Testamento que podemos efectivamente associar a uma biografia pessoal real, a saber, Paulo. Não sabemos quem escreveu qualquer dos outros 20 livros que integram o Novo Testamento (por exemplo, não sabemos quem escreveu os Evangelhos, apesar de cada um deles estar associado a um nome). Quando Paulo morreu, por volta do ano 64, mais nenhum texto cristão canónico havia sido escrito, excepto as suas sete cartas. Paulo terá escrito as cartas em questão na década de 50 (do século I). Por isso, as epístolas paulinas constituem um conjunto de documentos fundamentais para conhecermos o cristianismo dos primeiros tempos – o cristianismo tal como ele existia no tempo em que ainda estavam vivas pessoas que já estavam vivas quando Jesus estava vivo.
Há diversas diferenças entre as cartas autênticas de Paulo e as chamadas pseudo-paulinas. Algumas dessas diferenças são relativas à sexualidade e à relação entre homens e mulheres. As cartas autênticas de Paulo revelam-nos que, para ele, o estado ideal do ser humano, em relação à sexualidade, era a virgindade – ou, caso alguém se tornasse cristão já não sendo virgem, a castidade. Paulo é muito claro quanto a isto (cf. 1 Cor. 7:1-8). Portanto, para Paulo, o estado ideal do homem é a castidade, a ausência de relações sexuais – e é só para evitar o recurso à prostituição que recomenda que aqueles que não sejam capazes de cumprir tal requisito, então, se casem. É só porque está ciente da enorme dificuldade que a exigência de castidade implica, que Paulo aceita o recurso ao casamento. Ainda assim, segundo ele, é preferível que o marido se esforce por não tocar na sua mulher, apesar de casado – e a haver relações sexuais, o sexo entre marido e mulher devem ser isentos de prazer (cf. 1 Tess. 4:3-5). Quer dizer, segundo Paulo, mesmo entre marido e mulher, não deve haver sexo, e a haver sexo, deve ser sexo sem prazer. Paulo considera o prazer sexual um elemento pagão (aparentemente, desconhecendo as diversas correntes filosóficas pagãs que, mesmo antes de Sócrates, já eram adversas ao prazer sexual). Como diz Frederico Lourenço, na sua Nota Introdutória à Carta aos Romanos: para Paulo, “é a sexualidade em si que se tornou obsoleta”.
Curiosamente, os conservadores contemporâneos, por vezes, recorrem a Paulo para defenderem a noção de “família cristã”. Para os conservadores, o ponto de vista de Paulo rejeita o “politicamente correcto” e defende peremptoriamente a “família cristã” tradicional. Ora, é certo que, se há coisa que Paulo não era, é “politicamente correcto”, mas os conservadores actuais falham completamente o ponto ao recorrerem a Paulo para defenderem a suposta noção de “família cristã”. Na verdade, Paulo de modo nenhum defende a família dita cristã – nem, de resto, o próprio Jesus a defendia (cf. Mt. 22:30). Para Paulo, a relação sexual entre pessoas de sexo oposto não era muito melhor do que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo: em ambos os casos, a palavra de ordem era para evitar. Idealmente, para Paulo – tal como para Jesus – nem os homens devem ter mulheres, nem as mulheres devem ter homens. O resto, a família, a suposta “família cristã”, era apenas um expediente para evitar males ainda piores. Ou seja, Paulo só admitia o casamento (e, portanto, a constituição da família) para evitar o mal maior da “fornicação” desregrada. Paulo insiste no valor da virgindade e da castidade, e o casamento só é aceite como mal menor – mas, ainda assim, um mal.
É nas cartas pastorais (as duas epístolas a Timóteo e a epístola a Tito), pseudo-paulinas, escritas já depois da morte de Paulo, que se procura conciliar a vida cristã com o casamento e a família. São as cartas pastorais que defendem o οἶκος (oîkos – de onde veio a nossa palavra “economia”), termo este que designava a estrutura familiar, constituída por marido, mulher, filhos, outros descendentes e ascendentes, e escravos. As cartas pastorais, pseudo-paulinas, colidem directamente com o ideal paulino da castidade. Em vez da apologia da abstinência sexual, as pastorais fazem a apologia da estrutura familiar antiga. A família aparece nelas como a estrutura básica, sobre a qual a ἐκκλησία (ekklêsía – de onde provém o termo “eclésia”), a comunidade, se deveria fundar.
O οἶκος era chefiado pelo οἰκοδεσπότης (oikodespótês), o marido. O marido era, literalmente, o déspota da família, o chefe do lar. Assim, nas cartas pastorais, o autor pseudo-paulino oferece-nos uma visão do mundo impregnada de misoginia. Na sua perspectiva, a mulher só se salvará pela τεκνογονία (teknogonía), pelo acto de dar à luz uma criança (1 Tim. 2:14-15). Assim, as cartas pastorais, não só contrariam o ideal paulino da abstinência sexual, como estabelecem a ideia de que as mulheres têm na parturição de filhos a sua condição de possibilidade de salvação. O seu papel na estrutura familiar (οἶκος) e, por extensão, na comunidade (ἐκκλησία) fica restrito à sua condição biológica de procriação, estando submetida ao seu marido, enquanto chefe de família (οἰκοδεσπότης). O homem é concebido como o déspota ao qual a mulher está submetida, numa condição de silenciamento, reduzida à sua função de procriadora: “Que a mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. Não admito à mulher que ensine, nem que exerça domínio sobre o homem; mas sim que se mantenha em silêncio. E Adão foi o primeiro a ser formado; depois Eva” (1 Tim. 2:11-13). As cartas pseudo-paulinas serviram para legitimar, durante séculos, a subalternização da mulher em relação ao homem.
Assim, a visão expressa pelo autor pseudo-paulino contraria o respeito pela mulher que Paulo manifesta nas suas cartas (autênticas). Ao procurar enquadrar na vida cristã o casamento e a estrutura familiar tradicional, o autor pseudo-paulino coloca a mulher numa posição subalterna em relação ao homem, rejeitando assim a visão de Paulo, na qual a mulher gozava de um estatuto surpreendentemente generoso.
Portanto, quando os conservadores apelam à posição de Paulo para legitimar a suposta noção de “família cristã”, na verdade, incorrem num equívoco. Ao pretenderem invocar um Paulo politicamente incorrecto pelos padrões de hoje, esquecem que Paulo era politicamente incorrecto, também, no seu próprio tempo. No seu tempo, Paulo – como Jesus já fizera – opõe-se directamente às instituições tradicionais do seu tempo. Inclusivamente, opõe-se à instituição da “família tradicional”. Se, no tempo de Paulo, Paulo defendesse a estrutura familiar tradicional, Paulo não teria sido, como foi, politicamente incorrecto no seu próprio tempo. E, ao pretenderem trazer Paulo para o debate contemporâneo, os conservadores esquecem que Paulo continua politicamente incorrecto no nosso tempo. Continua politicamente incorrecto de tal modo que não se coaduna com a posição que os conservadores pretendem derrubar, mas também continua de tal modo politicamente incorrecto que não se coaduna, sequer, com a posição dos conservadores. A posição de Paulo tanto se opunha aos conservadores do seu tempo, como aos conservadores do nosso tempo – e não se opõe menos à posição dos conservadores do nosso tempo, do que se opõe à posição dos progressistas. Parafraseando o próprio Paulo (cf. 1 Cor. 1:23): o cristianismo original era um escândalo para os do seu tempo, e é uma loucura para nós.
Ao invocarem Paulo, os conservadores dão um tiro nos próprios pés.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2021
Da Economia e da Ética
A propósito de servir a dois senhores...
Jesus era um homem de amor. Não era de abominar coisas. Nos evangelhos, a palavra "abominação" (βδέλυγμα) raramente surge na boca de Jesus. Na verdade, para ele, só duas coisas merecem ser consideradas "abominação": a destruição do Templo, e o dinheiro. Para Jesus, o dinheiro é "elevado entre os homens", e uma "abominação diante de Deus" (Lucas 16: 13-15).
"Οὐδεὶς οἰκέτης δύναται δυσὶ κυρίοις δουλεύειν"
Nenhum servo pode servir a dois senhores. (Lucas 16: 13)
Os homens querem servir a Deus. Mas, segundo Jesus, os homens elevam o dinheiro à categoria de "Senhor", e, por isso, procuram naturalmente servir ao dinheiro. Mas, nas suas palavras, não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Os homens julgam que podem, que são capazes de conciliar as exigências destes dois senhores; mas Jesus insiste que não: os homens não são capazes de servir dois senhores, porque acabam sempre ou por odiar um e amar o outro, ou por dedicar-se a um e desprezar o outro. Não é que os homens não queiram, de facto, servir aos dois. Jesus não diz que os homens não querem servir os dois senhores. O que Jesus diz é que não são capazes de o fazer: não é uma possibilidade que lhes assista. Os homens bem querem amar a Deus ao mesmo tempo que servem ao dinheiro, mas Jesus insiste que isso é pura ilusão. Para amar um dos senhores, o servo despreza o outro; e para se dedicar a um, odeia o outro. Servir aos dois é que não pode. É por isso mesmo que o dinheiro, sendo elevado entre os homens à categoria de Senhor, aos olhos de Deus é uma abominação.
Em grego, a palavra usada para dinheiro neste contexto é "μαμωνᾶς" (mamónas). Trata-se, provavelmente, de um termo de origem aramaica, derivado do verbo "confiar" (̓aman). Portanto, "mamónas" é aquilo em que se confia, aquilo em que se deposita confiança. Em inglês: "what is trusted in". De facto, o dinheiro é dinheiro porque os homens confiam nele. O seu valor depende de um sistema fiduciário, em que as pessoas confiam que o dinheiro tem o seu valor garantido. Por isso mesmo, falamos de "moedas fiduciárias".
Portanto, os homens tornam-se servos do dinheiro porque confiam nele. Mas, é aquilo mesmo em que os homens confiam, que Jesus afirma tratar-se de uma abominação: não de uma abominação aos olhos dos homens, como é evidente, porque se esse fosse o caso, os homens não confiariam nele. Os homens não desconfiam que o dinheiro seja uma abominação e elevam-no à categoria de Senhor. É justamente isso que Jesus diz: o dinheiro é elevado à categoria de Senhor entre os homens, mas é uma abominação diante de Deus.
Jesus era um homem de amor. Não era de abominar coisas. Nos evangelhos, a palavra "abominação" (βδέλυγμα) raramente surge na boca de Jesus. Na verdade, para ele, só duas coisas merecem ser consideradas "abominação": a destruição do Templo, e o dinheiro. Para Jesus, o dinheiro é "elevado entre os homens", e uma "abominação diante de Deus" (Lucas 16: 13-15).
"Οὐδεὶς οἰκέτης δύναται δυσὶ κυρίοις δουλεύειν"
Nenhum servo pode servir a dois senhores. (Lucas 16: 13)
Os homens querem servir a Deus. Mas, segundo Jesus, os homens elevam o dinheiro à categoria de "Senhor", e, por isso, procuram naturalmente servir ao dinheiro. Mas, nas suas palavras, não se pode servir a Deus e ao dinheiro. Os homens julgam que podem, que são capazes de conciliar as exigências destes dois senhores; mas Jesus insiste que não: os homens não são capazes de servir dois senhores, porque acabam sempre ou por odiar um e amar o outro, ou por dedicar-se a um e desprezar o outro. Não é que os homens não queiram, de facto, servir aos dois. Jesus não diz que os homens não querem servir os dois senhores. O que Jesus diz é que não são capazes de o fazer: não é uma possibilidade que lhes assista. Os homens bem querem amar a Deus ao mesmo tempo que servem ao dinheiro, mas Jesus insiste que isso é pura ilusão. Para amar um dos senhores, o servo despreza o outro; e para se dedicar a um, odeia o outro. Servir aos dois é que não pode. É por isso mesmo que o dinheiro, sendo elevado entre os homens à categoria de Senhor, aos olhos de Deus é uma abominação.
Em grego, a palavra usada para dinheiro neste contexto é "μαμωνᾶς" (mamónas). Trata-se, provavelmente, de um termo de origem aramaica, derivado do verbo "confiar" (̓aman). Portanto, "mamónas" é aquilo em que se confia, aquilo em que se deposita confiança. Em inglês: "what is trusted in". De facto, o dinheiro é dinheiro porque os homens confiam nele. O seu valor depende de um sistema fiduciário, em que as pessoas confiam que o dinheiro tem o seu valor garantido. Por isso mesmo, falamos de "moedas fiduciárias".
Portanto, os homens tornam-se servos do dinheiro porque confiam nele. Mas, é aquilo mesmo em que os homens confiam, que Jesus afirma tratar-se de uma abominação: não de uma abominação aos olhos dos homens, como é evidente, porque se esse fosse o caso, os homens não confiariam nele. Os homens não desconfiam que o dinheiro seja uma abominação e elevam-no à categoria de Senhor. É justamente isso que Jesus diz: o dinheiro é elevado à categoria de Senhor entre os homens, mas é uma abominação diante de Deus.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2020
Os psicopatas e o dever
A propósito do dever de não matar
Por vezes parece que já não nos lembramos da razão por que não se deve matar.
Há muito que dizer quanto a isto.
Lembramo-nos daqueles livros, daqueles filmes ou daquelas séries em que um psicopata, a dado momento, pergunta "Porquê?". Por que razão não se deve matar? O que se torna, então, imediatamente evidente, é que a resposta a esta questão não é tão fácil quanto pareceria antes de ela ser colocada. Sobretudo, porque as supostas respostas que lhe são dadas parecem sempre ser menos evidentes, menos certas e muito menos convincentes para nós mesmos do que o simples "não se deve matar". O "não se deve matar" parece-se muito mais com um ponto de partida do que com um ponto de chegada. O dever de não matar tem mais um aspecto de um fundamento do que de uma conclusão. E, contudo, como justificá-lo se for ele próprio a estar em questão? Por isso, quando levados a sério, os psicopatas são sempre arrepiantes.
E se "ele afirmar que mata para aliviar a pressão demográfica"? Este é um outro ponto. A saber: e se o psicopata não se limita a perguntar "então, porquê?", mas vai ainda mais longe e nos oferece uma justificação para matar? Porque nós, apesar de sabermos que "não se deve matar", também sabemos que admitimos excepções a esta regra: podemos matar em legítima defesa; e permitimos que o Estado mate, ou que as pessoas às ordens do Estado e em seu nome matem outras pessoas, como os soldados na guerra, ou os polícias para salvar reféns; aceitamos que o Estado possa utilizar algumas maneiras de matar, como acontece com a pena de morte; e até aceitamos que o Estado possa legalizar algumas maneiras de matar, seja na forma de eutanásia, ou de aborto, por exemplo. Então, se o "não se deve matar" pode ser suspenso pela justificação, surge o problema de saber como pesar estas justificações, e de como responder às justificações de cada vez apresentadas para matar. Será permitido matar para aliviar a pressão demográfica? Se for apenas para saber onde está uma bomba, não se pode matar? Mas se for para impedir um homicídio, já se pode? E se for para salvar a Humanidade? Como podemos saber se matar para aliviar a pressão demográfica é diferente de matar para salvar a Humanidade? E quem tem a faculdade de julgar sobre tudo isto? A consciência de cada um? O Estado? Os partidos políticos reunidos num hemiciclo?
O problema de saber como pesar estas justificações levanta um outro problema: ao submeter essas justificações a uma medida abrimos a porta à validação de algumas justificações que, segundo essa medida, têm mais peso. É assim que, desprevenidamente, muitas vezes, quando tentamos mostrar a razão pela qual não se deve matar numa certa circunstância, deixamos entrar um cavalo de Troia monstruoso pelas traseiras. Porque um psicopata inteligente imediatamente capta a fragilidade: ok, se a razão para não matar é x, então, segundo essa mesma razão x, posso matar em todas aquelas outras circunstâncias. E se, então, queremos aventar outras razões para que nessas outras circunstâncias também não se possa matar, a nossa argumentação começa a parecer-se mais com uma manta de retalhos, cosida mais ou menos avulso, com a clara intenção de apenas chegar à conclusão de onde, na verdade, já partíramos. Mas nenhum psicopata se deixa convencer por mantas de retalhos.
Há muito que dizer quanto a isto.
Lembramo-nos daqueles livros, daqueles filmes ou daquelas séries em que um psicopata, a dado momento, pergunta "Porquê?". Por que razão não se deve matar? O que se torna, então, imediatamente evidente, é que a resposta a esta questão não é tão fácil quanto pareceria antes de ela ser colocada. Sobretudo, porque as supostas respostas que lhe são dadas parecem sempre ser menos evidentes, menos certas e muito menos convincentes para nós mesmos do que o simples "não se deve matar". O "não se deve matar" parece-se muito mais com um ponto de partida do que com um ponto de chegada. O dever de não matar tem mais um aspecto de um fundamento do que de uma conclusão. E, contudo, como justificá-lo se for ele próprio a estar em questão? Por isso, quando levados a sério, os psicopatas são sempre arrepiantes.
E se "ele afirmar que mata para aliviar a pressão demográfica"? Este é um outro ponto. A saber: e se o psicopata não se limita a perguntar "então, porquê?", mas vai ainda mais longe e nos oferece uma justificação para matar? Porque nós, apesar de sabermos que "não se deve matar", também sabemos que admitimos excepções a esta regra: podemos matar em legítima defesa; e permitimos que o Estado mate, ou que as pessoas às ordens do Estado e em seu nome matem outras pessoas, como os soldados na guerra, ou os polícias para salvar reféns; aceitamos que o Estado possa utilizar algumas maneiras de matar, como acontece com a pena de morte; e até aceitamos que o Estado possa legalizar algumas maneiras de matar, seja na forma de eutanásia, ou de aborto, por exemplo. Então, se o "não se deve matar" pode ser suspenso pela justificação, surge o problema de saber como pesar estas justificações, e de como responder às justificações de cada vez apresentadas para matar. Será permitido matar para aliviar a pressão demográfica? Se for apenas para saber onde está uma bomba, não se pode matar? Mas se for para impedir um homicídio, já se pode? E se for para salvar a Humanidade? Como podemos saber se matar para aliviar a pressão demográfica é diferente de matar para salvar a Humanidade? E quem tem a faculdade de julgar sobre tudo isto? A consciência de cada um? O Estado? Os partidos políticos reunidos num hemiciclo?
O problema de saber como pesar estas justificações levanta um outro problema: ao submeter essas justificações a uma medida abrimos a porta à validação de algumas justificações que, segundo essa medida, têm mais peso. É assim que, desprevenidamente, muitas vezes, quando tentamos mostrar a razão pela qual não se deve matar numa certa circunstância, deixamos entrar um cavalo de Troia monstruoso pelas traseiras. Porque um psicopata inteligente imediatamente capta a fragilidade: ok, se a razão para não matar é x, então, segundo essa mesma razão x, posso matar em todas aquelas outras circunstâncias. E se, então, queremos aventar outras razões para que nessas outras circunstâncias também não se possa matar, a nossa argumentação começa a parecer-se mais com uma manta de retalhos, cosida mais ou menos avulso, com a clara intenção de apenas chegar à conclusão de onde, na verdade, já partíramos. Mas nenhum psicopata se deixa convencer por mantas de retalhos.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Pensar de forma crítica
A propósito de pensamento crítico
Um conjunto considerável de pessoas julga que pensar de forma crítica significa negar qualquer coisa que pareça científico.
Por exemplo, se a ciência diz que a Terra é redonda, então, pensar de forma crítica é acreditar que ela é plana. Se a ciência diz que as vacinas são benéficas, então, pensar de forma crítica é acreditar que elas são prejudiciais. Se a ciência diz que há alterações climáticas provocadas pelos homens, então, pensar de forma crítica é negar as alterações climáticas, ou negar que sejam provocadas pelos homens.
Este tipo de pensamento reproduz-se como os coelhos e atinge todas as áreas. Aqueles que o praticam consideram que o facto de estarem a negar uma posição cientificamente consolidada já significa que estão a pensar criticamente.
Como este tipo de pensamento, por força do seu próprio funcionamento, tem de negar a validade das evidências científicas, estipula como dogma que a investigação científica está sempre comprada e enviesada. Não interessa quais e quantas sejam as evidências científicas disponíveis, pois se são evidências científicas, então, não merecem crédito algum.
Em contrapartida, qualquer fonte que não seja científica tem a sua validade assegurada: ler a sina, astrologia, o sacerdote da igreja das caixas de sapatos ao luar, as nuvens, os ditados populares, o "instinto" (sic), o sentimento, a sabedoria dos avós, a sabedoria das revistas, a sabedoria do twitter, o doutor que aparece no anúncio das televendas, a senhora que usa uma varinha mágica nas manhãs da tv, o Herói líder político que vem salvar a pátria, e muitas outras fontes muito mais sérias, rigorosas e confiáveis do que a ciência!!!
quarta-feira, 17 de julho de 2019
Há culturas que são superiores a outras
A propósito da superioridade de uma cultura em relação a outra
Sim, homens de diversas culturas usam lentes diferentes... Esse argumento é antigo e comum, sobretudo, nas ciências humanas, como a Antropologia e a Sociologia, ou até mesmo na Filosofia... mas não se segue da existências das diferentes culturas que estas configurem diferentes perspectivas igualmente válidas. Porque isso só será o caso se não houver um critério independente das mesmas pelas quais estas possam ser medidas, e o facto de haver várias culturas não impede que tal critério possa ser estabelecido. Ou seja, o facto de haver várias culturas, e a possibilidade de haver um padrão de medida independente, não são termos mutuamente exclusivos.
Sim, homens de diversas culturas usam lentes diferentes... Esse argumento é antigo e comum, sobretudo, nas ciências humanas, como a Antropologia e a Sociologia, ou até mesmo na Filosofia... mas não se segue da existências das diferentes culturas que estas configurem diferentes perspectivas igualmente válidas. Porque isso só será o caso se não houver um critério independente das mesmas pelas quais estas possam ser medidas, e o facto de haver várias culturas não impede que tal critério possa ser estabelecido. Ou seja, o facto de haver várias culturas, e a possibilidade de haver um padrão de medida independente, não são termos mutuamente exclusivos.
Neste particular, a Psicologia moral, a Antropologia e a Antropologia Moral, têm apresentado argumentos interessantes. Argumentos que sugerem a possibilidade de haver algo como um substracto moral comum.
Para evitar equívocos, admitir que há culturas superiores a outras não implica rejeitar que uma cultura X superior a uma cultura Y também tenha aspectos condenáveis. A cultura X pode ser, em geral, superior à Y, mas também ter aspectos condenáveis. E pode até acontecer que Y seja superior a X em certos aspectos. A cultura X pode ser globalmente superior a Y sem ser superior em todos os aspectos.
Pode-se admitir que uma cultura é inferior a outra e, simultaneamente, reconhecer nela aspectos interessantes e valorizáveis: mas, justamente, reconhecemos estes aspectos interessantes (como as tribos que respeitam os homossexuais, ou aquelas que tratam com reverência os animais e a natureza), e os aspectos condenáveis (como o canibalismo, ou a exploração de homens por homens), em virtude de algum critério.
Pode-se admitir que uma cultura é inferior a outra e, simultaneamente, reconhecer nela aspectos interessantes e valorizáveis: mas, justamente, reconhecemos estes aspectos interessantes (como as tribos que respeitam os homossexuais, ou aquelas que tratam com reverência os animais e a natureza), e os aspectos condenáveis (como o canibalismo, ou a exploração de homens por homens), em virtude de algum critério.
Não digo que esteja absolutamente convencido que existam culturas superiores a outras. Mas sou sensível ao reconhecimento de que o aspecto cultural do canibalismo, ou da escravatura, ou da inferiorização da mulher são aspectos que inferiorizam uma cultura, seja esta qual for, seja a nossa, seja qualquer outra - e este reconhecimento de que há aspectos culturais inferiores a outros aspectos culturais que são superiores leva, logicamente, à admissão da existência de culturas superiores e culturas inferiores, pois seria altamente improvável que as culturas tivessem todas aspectos superiores, e aspectos inferiores exactamente na mesma proporção.
Portanto, pode dizer-se que devem existir culturas que são globalmente superiores a outras em virtude da qualidade dos seus aspectos culturais. Evidentemente, esta determinação pode ser difícil, em razão das dificuldades que este tipo de avaliações sempre têm, como seja o problema da quantidade versus qualidade. Mas, a sugestão mantém-se: há culturas superiores a outras.
Portanto, pode dizer-se que devem existir culturas que são globalmente superiores a outras em virtude da qualidade dos seus aspectos culturais. Evidentemente, esta determinação pode ser difícil, em razão das dificuldades que este tipo de avaliações sempre têm, como seja o problema da quantidade versus qualidade. Mas, a sugestão mantém-se: há culturas superiores a outras.
domingo, 9 de junho de 2019
Amor de mãe e outras estórias
A propósito da Roda dos Enjeitados
A Roda dos Expostos era um mecanismo de adopção popular na Europa a partir do século XIII. Tratava-se de um mecanismo cilíndrico que permitia que as mães deixassem os bebés lá dentro sem serem vistas por quem os recebia ao fazer rodar o cilindro. Quer dizer, o mecanismo permitia que as mães abandonassem os filhos sem que fossem vistas por quem recebia os bebés.
Aparentemente, a Roda foi introduzida devido às taxas altíssimas de bebés que eram deliberadamente mortos pelas próprias mães. Ao aperceber-se do enorme número de bebés encontrados afogados no Rio Tibre, o Papa Inocêncio III ordenou a instalação do dispositivo na tentativa de que as mães nele depositassem os bebés em vez de os matarem.
Por consequência, as autoridades estavam proibidas de investigarem quem abandonara os bebés, para evitar que as mães, com receio de serem descobertas, continuassem a prática de os matar.
Em complemento ao dispositivo, havia depois uma pequena ajuda a quem recolhesse bebés para cuidar deles ou para os adoptar. Uma ajuda mais substancial, ou um processo mais agilizado, poderia ser concedida às amas de leite.
Desta forma, algumas mães começaram a fazer batotice. De facto, algumas descobriram que podiam depositar o seu recém-nascido na Roda e, depois, recolher outro para, deste modo, receberem a ajuda concedida. Ou seja, a mãe abandonava o seu filho e depois recolhia um bebé que não era seu filho biológico e para receber um rendimento em troca de lhe dar leite do seu peito.
Apesar do dispositivo ter reduzido as mortes por parte das mães, a verdade é que, ao longo dos muitos séculos, nunca foi capaz de reduzir de modo realmente significativo a mortalidade infantil. Os bebés não eram mortos pelas mães, mas passaram a ser mortos por aquelas que os iam buscar. Uma prática comum era ir buscar um bebé para receber a ajuda em causa e, depois, matá-lo para poder ir recolher outro.
De resto, a verdade é que os infanticídios cometidos por mães continuaram a ser muitos. Numa época em que as mulheres só eram maiores de idade depois dos 25 anos, e que os neo-natos não eram considerados humanos, o crime de infanticídio foi sempre levemente penalizado. Mais tarde, já no Iluminismo, até passou a ter atenuantes.
A Roda conseguia que as mães não matassem tanto, mas ainda matavam muitos; e, normalmente, metade daqueles que eram entregues à Roda morriam na própria instituição. A grande maioria dos que chegavam a ser recolhidos também não duravam muito. E isto pode ser confirmado ao longo de séculos, pelo menos, do século XIII ao XIX.
A Roda dos Expostos era um mecanismo de adopção popular na Europa a partir do século XIII. Tratava-se de um mecanismo cilíndrico que permitia que as mães deixassem os bebés lá dentro sem serem vistas por quem os recebia ao fazer rodar o cilindro. Quer dizer, o mecanismo permitia que as mães abandonassem os filhos sem que fossem vistas por quem recebia os bebés.
Aparentemente, a Roda foi introduzida devido às taxas altíssimas de bebés que eram deliberadamente mortos pelas próprias mães. Ao aperceber-se do enorme número de bebés encontrados afogados no Rio Tibre, o Papa Inocêncio III ordenou a instalação do dispositivo na tentativa de que as mães nele depositassem os bebés em vez de os matarem.
Por consequência, as autoridades estavam proibidas de investigarem quem abandonara os bebés, para evitar que as mães, com receio de serem descobertas, continuassem a prática de os matar.
Em complemento ao dispositivo, havia depois uma pequena ajuda a quem recolhesse bebés para cuidar deles ou para os adoptar. Uma ajuda mais substancial, ou um processo mais agilizado, poderia ser concedida às amas de leite.
Desta forma, algumas mães começaram a fazer batotice. De facto, algumas descobriram que podiam depositar o seu recém-nascido na Roda e, depois, recolher outro para, deste modo, receberem a ajuda concedida. Ou seja, a mãe abandonava o seu filho e depois recolhia um bebé que não era seu filho biológico e para receber um rendimento em troca de lhe dar leite do seu peito.
Apesar do dispositivo ter reduzido as mortes por parte das mães, a verdade é que, ao longo dos muitos séculos, nunca foi capaz de reduzir de modo realmente significativo a mortalidade infantil. Os bebés não eram mortos pelas mães, mas passaram a ser mortos por aquelas que os iam buscar. Uma prática comum era ir buscar um bebé para receber a ajuda em causa e, depois, matá-lo para poder ir recolher outro.
De resto, a verdade é que os infanticídios cometidos por mães continuaram a ser muitos. Numa época em que as mulheres só eram maiores de idade depois dos 25 anos, e que os neo-natos não eram considerados humanos, o crime de infanticídio foi sempre levemente penalizado. Mais tarde, já no Iluminismo, até passou a ter atenuantes.
A Roda conseguia que as mães não matassem tanto, mas ainda matavam muitos; e, normalmente, metade daqueles que eram entregues à Roda morriam na própria instituição. A grande maioria dos que chegavam a ser recolhidos também não duravam muito. E isto pode ser confirmado ao longo de séculos, pelo menos, do século XIII ao XIX.
domingo, 28 de abril de 2019
Para que serve filosofia?
A propósito da utilidade da Filosofia
Para que serve filosofia? A resposta de Aristóteles, há mais de 2000 anos, já era que não serve para nada.
Por vezes há aqueles que procuram mostrar a utilidade da filosofia. Mas isso é um erro, e o maior atentado contra a própria filosofia. A característica mais importante da filosofia consiste, precisamente, na sua capacidade de se manter inútil.
Para que serve filosofia? A resposta de Aristóteles, há mais de 2000 anos, já era que não serve para nada.
Por vezes há aqueles que procuram mostrar a utilidade da filosofia. Mas isso é um erro, e o maior atentado contra a própria filosofia. A característica mais importante da filosofia consiste, precisamente, na sua capacidade de se manter inútil.
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
Hoje temos sociedades mais libertadoras?
A propósito de costumes libertadores...
Os homens gostam de amarras. Vivem mal sem elas. Antes preferem o stress das amarras do que a angústia da liberdade.
Diz-se que hoje a sexualidade na adolescência é mais libertadora, porque antigamente era preciso casar para ter relações sexuais e hoje não é assim. No entanto, a verdade é que, antigamente, havia uma pressão para a preservação da virgindade, enquanto hoje um adolescente que ainda é virgem sofre de bullying por parte dos seus pares. Não houve libertação. Nunca há libertação na sociedade, na multidão, na massa.
Nunca há libertação nos costumes. Os costumes nunca se tornam libertadores. Quando um costume parece libertador isso apenas significa que já está incorporado e ainda não produziu um efeito de reacção, por isso, não o sentimos como diferente de nós. Um costume libertador é apenas um costume com o qual ainda estamos conciliados: mas possa o sujeito querer opôr-se-lhe e aí dar-se-á imediatamente conta de que a amarra está lá.
O que há não é libertação, mas apenas mudança de amarras. Por vezes até inversão, como neste caso: antes havia pressão para a preservação da virgindade, hoje há pressão para perder a virgindade.
O costume é sempre uma força de pressão. É apenas ilusão a ideia de que hoje temos costumes libertadores. Temos apenas outras amarras. E algumas amarras que se disfarçam melhor. Que são melhores a produzir stress sem denunciarem o ponto em que a força é aplicada.
Os homens gostam de amarras. Vivem mal sem elas. Antes preferem o stress das amarras do que a angústia da liberdade.
Diz-se que hoje a sexualidade na adolescência é mais libertadora, porque antigamente era preciso casar para ter relações sexuais e hoje não é assim. No entanto, a verdade é que, antigamente, havia uma pressão para a preservação da virgindade, enquanto hoje um adolescente que ainda é virgem sofre de bullying por parte dos seus pares. Não houve libertação. Nunca há libertação na sociedade, na multidão, na massa.
Nunca há libertação nos costumes. Os costumes nunca se tornam libertadores. Quando um costume parece libertador isso apenas significa que já está incorporado e ainda não produziu um efeito de reacção, por isso, não o sentimos como diferente de nós. Um costume libertador é apenas um costume com o qual ainda estamos conciliados: mas possa o sujeito querer opôr-se-lhe e aí dar-se-á imediatamente conta de que a amarra está lá.
O que há não é libertação, mas apenas mudança de amarras. Por vezes até inversão, como neste caso: antes havia pressão para a preservação da virgindade, hoje há pressão para perder a virgindade.
O costume é sempre uma força de pressão. É apenas ilusão a ideia de que hoje temos costumes libertadores. Temos apenas outras amarras. E algumas amarras que se disfarçam melhor. Que são melhores a produzir stress sem denunciarem o ponto em que a força é aplicada.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2019
Democracia e verdade
A propósito de opiniões...
Há a ideia de que a democracia é cada um ter a sua opinião e que a opinião que vence é a que é partilhada por mais pessoas.
Daqui segue-se, por um lado, a ideia de que todas as ideias valem, essencialmente o mesmo e, por isso, a verdade é o que cada um quiser.
Por outro lado, daquilo também se segue a ideia de que a melhor opinião é aquela que se vender melhor e, por isso, a verdade é aquilo em que mais gente acredita.
Que triste destino aguardará a humanidade se estes engodos continuarem a fazer carreira?
Há a ideia de que a democracia é cada um ter a sua opinião e que a opinião que vence é a que é partilhada por mais pessoas.
Daqui segue-se, por um lado, a ideia de que todas as ideias valem, essencialmente o mesmo e, por isso, a verdade é o que cada um quiser.
Por outro lado, daquilo também se segue a ideia de que a melhor opinião é aquela que se vender melhor e, por isso, a verdade é aquilo em que mais gente acredita.
Que triste destino aguardará a humanidade se estes engodos continuarem a fazer carreira?
quarta-feira, 19 de dezembro de 2018
Exaustão e depressão entre os alunos
A propósito de uma entrevista...
Quem quiser comparar os vários estudos/inquéritos aos alunos que têm sido feitos ao longo do tempo poderá confirmar o seguinte - ao longo dos anos:
- quanto mais se facilitam os conteúdos e o sistema de avaliação, mais os alunos se queixam de que a matéria é difícil, se queixam das notas e se consideram maus alunos;
- quanto mais se flexibilizam os conteúdos e se torna estes mais acessíveis e quanto mais se recorre a novas estratégias para fazer os conteúdos mais interessantes, mais os alunos a consideram aborrecida;
- quanto menos exames existem mais os alunos se dizem pressionados para os exames;
- quanto mais as escolas se enchem de actividades, de visitas de estudo, de mil e uma empreitadas destinadas a ocupar aulas sem ser a ter aula, mais os alunos se queixam de a matéria ser demasiada;
- em geral, quanto mais a escola se flexibiliza, mais os alunos se declaram pressionados; e quanto mais a escola facilita e se dinamiza, mais os alunos dizem não gostar da escola; e quanto menos exigente a escola é, mais tristes os alunos se declaram.
Antes de ter começado esta vaga que procura facilitar, flexibilizar, etc., os alunos diziam gostar mais da escola. Ou seja, ao longo dos últimos anos a escola tem procurado tornar-se mais agradável, e ao mesmo tempo os alunos dizem-se cada vez mais desagradados.
Quando a matéria era mais difícil, mais rigorosa, mais extensa e não havia tantos malabarismos estratégicos, os alunos diziam - basta comparar as estatísticas - gostar mais da escola, gostar mais das matérias, e diziam que os conteúdos eram menos difíceis, menos chatos, etc. Quando a escola era mais rigorosa e menos flexível, os alunos diziam-se menos cansados, menos pressionados e menos depressivos. Nos anos em que houve mais exames e provas globais, os alunos diziam-se muito mais contentes com a escola do que hoje. E esta simultaneidade de dados (escola mais difícil, alunos mais satisfeitos) é consistente ao longo do tempo e nos vários países.
Curiosamente, no entanto...
Com tudo isto, alguns "entendidos" acham que aquilo que falta é flexibilizar mais, tornar a escola ainda menos exigente, tornar a escola numa brincadeira.
Seria interessante que os investigadores lessem alguma coisa sobre a sugestão de que, quanto mais se rebaixa um ideal, menos efeito dinamizador este tem.
Kierkegaard fala muito disto: os homens vão pondo a si mesmos ideais elevados e difíceis; depois vão esvaziando esses ideais, tornando-os mais fáceis, retirando-lhe o rigorismo, flexibilizando, etc., até que, por fim, o ideal se tornou uma bagatela acessível a qualquer bocejo; o resultado não é, contudo, que agora o sujeito se sente muito satisfeito com alcançar o ideal (que foi esvaziado do seu significado), mas sim que o sujeito se entedia com ele e cai na melancolia.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2018
Neurociência e existencialismo
A propósito de,
Foi Libet que detectou o hiato entre decisão (tomada pelo cérebro) e consciência da decisão, lá para meados da década de 80... Tal hiato reduz a o livre-arbítrio a uma ilusão.
Depois resta a perspectiva do existencialismo: mesmo que tudo isso seja verdade, nada disso muda o facto de, aqui e agora, ter de ser eu a tomar esta decisão. Do ponto de vista existencial, este estar condenado a ter de ser eu a arcar com a responsabilidade de decidir não é uma ilusão, mas precisamente a realidade da vida.
Foi Libet que detectou o hiato entre decisão (tomada pelo cérebro) e consciência da decisão, lá para meados da década de 80... Tal hiato reduz a o livre-arbítrio a uma ilusão.
Desde então já houve estudos no mesmo sentido, e outros que o refutam ou que re-interpretam esse tipo de dados.
A posição mais radical contra o livre-arbítrio nessa área é a de Blackmore, que vai ainda mais longe para negar também a existência de um "sujeito", de um "eu", de "alguém" - ficou conhecida a sua expressão "there’s nobody in there" (não existimos, por isso, também nem sequer faz sentido perguntar se somos livres). Mas não é verdade que todos os neurocientistas concordem que não temos livre-arbítrio.
Depois resta a perspectiva do existencialismo: mesmo que tudo isso seja verdade, nada disso muda o facto de, aqui e agora, ter de ser eu a tomar esta decisão. Do ponto de vista existencial, este estar condenado a ter de ser eu a arcar com a responsabilidade de decidir não é uma ilusão, mas precisamente a realidade da vida.
sexta-feira, 26 de outubro de 2018
O carácter dogmático do ponto de vista da lógica
A propósito de Lógica e Filosofia
Fichte distingue o ponto de vista da filosofia do ponto de vista da lógica.
Fichte distingue o ponto de vista da filosofia do ponto de vista da lógica.
Mais, procura mostrar que estes são dois pontos de vista opostos.
Ainda mais, que a influência extraordinária da lógica na cultura prejudica a filosofia, dado que os pressupostos dogmáticos da lógica levam a que as questões propriamente fundamentais da filosofia não sejam compreendidas: não é que tais questões estejam para além da compreensão humana, mas sim que a lógica, pelo seu carácter dogmático, identifica-se a si mesma com o ponto de vista humano, reduzindo este a um ponto de vista lógico, como se houvesse uma identidade perfeita entre ponto de vista lógico e ponto de vista humano; assim, a lógica declara como incompreensível tudo aquilo que ela mesma não compreende; por isso mesmo - dizemos nós - constitui um ponto de vista dogmático.
A questão central aqui é a de saber qual é o carácter fundamental do nosso ponto de vista humano.
terça-feira, 16 de outubro de 2018
O ser-se filósofo
A propósito do filosofar...
Há sempre em nós já um modo de compreender em funcionamento, um conjunto ideal que permite reconhecer o mundo de uma determinada forma. Esses pressupostos estão já em vigor quando formulamos uma questão e a importância de cada questão, o modo como lhe respondemos e o critério para decidir o que é uma resposta própria à questão depende desses pressupostos. Este é o B-A-Bá antropológico, o facto de precisarmos sempre de ter, e de termos sempre já, um regime de sentido em vigor, seja qual ele for. Nascemos nus, mas quando damos connosco estamos já sempre vestidos de alguma maneira, e é muito difícil distinguir esta roupa de nós mesmos, pois ela torna-se como que uma espécie de "segunda natureza", como diziam os medievais.
Não estou certo, contudo, de que isso signifique, em algum sentido, que todos somos um pouco filósofos. Suponho que dependa daquilo que se entenda por ser filósofo, mesmo que seja só um pouco. Parece-me que começamos a ser um pouco filósofos quando reconhecemos as vestes que trazemos e colocamos a hipótese de que poderíamos trazer outras, de modo que é preciso encontrar alguma justificação para envergar aquelas que envergamos.
Neste sentido, somos todos um pouco filósofos na medida em que todos nós, num ou noutro momento, por um ou outro motivo, nos sentimos inquietos e suspeitamos que "tudo poderia ser de outra forma". E, "neste sentido", a suspeita, a dúvida, a melancolia, a ironia e até mesmo o desespero são muito mais filosóficos do que a atitude plácida e serena perante o mundo que se limita a apontar para o rosto que as coisas insistem em "mostrar-nos". E, também "nesse sentido", somos todos um pouco filósofos, porque provavelmente nunca existiu um sujeito que nunca tenha sido afectado por esse tipo de inquietação, de mal-estar e de desassossego...
Quer dizer, o ser filósofo, mesmo que só um pouco, parece-me não ter tanto que ver com todos nós possuirmos alguma metafísica, alguma epistemologia e alguma ética, mas sim sobretudo com a atitude de colocar isso em questão. O ser-se filósofo não parece ter tanto que ver com já ter algumas respostas, mas sim com o de colocar questões onde pareceria já termos respostas.
Depois, é claro, há formas mais ou menos espontâneas, mais ou menos sistemáticas de ser "um pouco filósofo"...
Há sempre em nós já um modo de compreender em funcionamento, um conjunto ideal que permite reconhecer o mundo de uma determinada forma. Esses pressupostos estão já em vigor quando formulamos uma questão e a importância de cada questão, o modo como lhe respondemos e o critério para decidir o que é uma resposta própria à questão depende desses pressupostos. Este é o B-A-Bá antropológico, o facto de precisarmos sempre de ter, e de termos sempre já, um regime de sentido em vigor, seja qual ele for. Nascemos nus, mas quando damos connosco estamos já sempre vestidos de alguma maneira, e é muito difícil distinguir esta roupa de nós mesmos, pois ela torna-se como que uma espécie de "segunda natureza", como diziam os medievais.
Não estou certo, contudo, de que isso signifique, em algum sentido, que todos somos um pouco filósofos. Suponho que dependa daquilo que se entenda por ser filósofo, mesmo que seja só um pouco. Parece-me que começamos a ser um pouco filósofos quando reconhecemos as vestes que trazemos e colocamos a hipótese de que poderíamos trazer outras, de modo que é preciso encontrar alguma justificação para envergar aquelas que envergamos.
Neste sentido, somos todos um pouco filósofos na medida em que todos nós, num ou noutro momento, por um ou outro motivo, nos sentimos inquietos e suspeitamos que "tudo poderia ser de outra forma". E, "neste sentido", a suspeita, a dúvida, a melancolia, a ironia e até mesmo o desespero são muito mais filosóficos do que a atitude plácida e serena perante o mundo que se limita a apontar para o rosto que as coisas insistem em "mostrar-nos". E, também "nesse sentido", somos todos um pouco filósofos, porque provavelmente nunca existiu um sujeito que nunca tenha sido afectado por esse tipo de inquietação, de mal-estar e de desassossego...
Quer dizer, o ser filósofo, mesmo que só um pouco, parece-me não ter tanto que ver com todos nós possuirmos alguma metafísica, alguma epistemologia e alguma ética, mas sim sobretudo com a atitude de colocar isso em questão. O ser-se filósofo não parece ter tanto que ver com já ter algumas respostas, mas sim com o de colocar questões onde pareceria já termos respostas.
Depois, é claro, há formas mais ou menos espontâneas, mais ou menos sistemáticas de ser "um pouco filósofo"...
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