terça-feira, 7 de outubro de 2014

Suicídio, sentido, racionalidade e consumismo

A propósito do aumento de suicídios de jovens em Portugal...*

Os casos de suicídio não parecem poder ser reduzidos a um tipo único. Muitas pessoas se suicidarão porque consideram que a vida não merece ser vivida - e este é um problema filosófico. Outras fazem-se matar por aquilo que dá sentido às suas vidas. Há o suicídio de Sócrates, e o de Jesus. Há o suicídio por efeito Werther (por imitação). Há o do código de honra bushido, seppuku. Há o dos empresários que ficam sem nada e se matam, e o dos empresários que têm tudo o que se pode comprar e se matam. Há os suicídios que tendem a aumentar em países desenvolvidos, e há os suicídios que aparecem em tempos de crise económica. Há os suicídios que estão associados a patologias como a melancolia ou a depressão (clinicamente definidas), e há os suicídios de sujeitos que parecem os mais felizes do mundo! Nunca me hei-de esquecer de um colega meu do 3º ciclo. Era um sujeito animado, que jogada futebol de forma fantástica, tinha boas notas e vivia mesmo em frente à escola! Fomos numa visita de estudo já não faço a mínima ideia a onde. Durante o dia inteiro ele foi como sempre foi, divertiu-se, fez-nos rir, riu, atirou-se às raparigas. No dia seguinte ficámos a saber que ele se enforcara!

Hoje, o suicídio já não é visto como pecado. A medicina e a ciência substituiu a religião. O suicídio não é, geralmente, considerado um acto racional, autónomo, livre, tradutor da vontade do sujeito, mas antes um sintoma (de depressão, solidão, etc.), uma desordem electroquímica, etc. De facto, nós impediríamos o suicídio, a polícia e os bombeiros desarmariam ou tentariam preservar a vida do suicida, os médicos usam expedientes para lhes conservar a vida - e na imensa maioria dos casos estes procedimentos estarão correctos pois a liberdade do suicida estava, provavelmente, comprometida. O médico não poderá ser acusado de atentar contra a autonomia do suicida quando o salva.

Mas se, como João Barreto conclui, cerca de 95% dos suicídios ocorrem em sujeitos com "perturbações", não se pode esquecer os 5% que se podem integrar no grupo da freitod ou do suicídio racional. Evidentemente, as decisões - todas elas - nunca estão isentas de motivações subjectivas, de "paixões" e, nesse sentido, nunca deixam de ser "patológicas". Mas isso é assim, justamente, com todas as decisões.

Talvez o aumento dos suicídios esteja associado às mesmas condições que levam tantos jovens europeus a rumarem ao Estado Islâmico... Evidentemente, cada caso será um caso, e haverá muitas razões distintas para cada um, mas o suicídio parece-me andar associado ao problema de haver uma razão para viver - e este problema não parece poder ser reduzido a um suposto "reconhecimento" de que a vida está aí para ser vivida, justamente porque para o potencial suicida é isso mesmo que está em causa. E a Europa parece ter-se tornado perita num modo de vida cada vez mais despido, sem alma e, afinal, sem sentido - e, como é óbvio, pode sempre acontecer que as ilusões que ocultam esta falta, esta ausência e esta agonia se desvaneçam pondo a descoberto o desespero! A nossa sociedade consumista e capitalista parece ser extremamente eloquente neste aspecto. Não tanto que o problema consista no facto de vivermos cada vez mais envoltos em ilusões, mas na circunstância de as nossas ilusões serem cada vez mais frágeis!!!

*Ver notícia: http://www.sol.pt/noticia/116056

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