segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Apontamentos sobre Filosofia, ciência e religião...

A propósito de Filosofia...




Há uma ideia que tende a passar por evidente no domínio do senso-comum filosófico e que é a de que são filosóficas as questões para que não há respostas empíricas. Mas isto resulta, na minha perspectiva, de uma confusão.

Segundo este princípio que, infelizmente, tende a encontrar-se em qualquer manual de filosofia, a questão "por que existe o mundo?", ou "por que há alguma coisa e não o nada'" seriam questões essencialmente filosóficas, e isso porque, entre outras coisas, não se lhes pode arranjar uma resposta no âmbito empírico.


Imaginemos que há dois séculos alguém pergunta se há vida na Lua. Ninguém poderia ir à Lua, mas isso não tornava a questão filosófica. A resposta teria de ser encontrada empiricamente, ainda que não fosse possível fazê-lo na altura.

Imaginemos que alguém quer saber o que se passa no interior de um buraco negro. É impossível ir dentro do buraco negro para saber o que lá se passa, mas a questão permanece uma questão empírica. A haver uma resposta, ela tem de pertencer ao âmbito empírico, e até esse momento não é verdadeiramente uma resposta, mas apenas especulação.

Saber se o Universo tem cem anos, ou se é eterno, se veio a existir desta ou daquela maneira, por este ou aquele processo, ou se nunca veio a existir e existe desde sempre, - saber a razão por que há Universo e não apenas o nada, tudo isto, são questões que não pertencem à filosofia, são questões que, a haver respostas para elas - e pode não as haver - são do domínio empírico.

Mas esta confusão é comum e levou a outra fantástica consideração dentro de um certo senso-comum filosófico. Alguns filósofos, percebendo que algumas destas questões realmente não têm resposta - ou pelo menos assim supondo - induziram daí que as perguntas filosóficas não têm resposta, e, em alguns casos, foi-se mais longe dizendo que as perguntas fora do âmbito empírico não são questões com sentido. Mas o equívoco está lá atrás, na suposição de que o âmbito da filosofia é o âmbito das perguntas para as quais não há resposta. Assim, o âmbito próprio da filosofia foi tomado ao modo do âmbito empírico-epistemológico, e ao aplicar-se à filosofia os critérios que pertencem propriamente a outra coisa que não à filosofia, a filosofia caiu moribunda! O seu respirar arrastado fez-se enquanto se confundiu a filosofia com a religião... isto porque o âmbito da religião é, justamente, o âmbito das questões cuja verdade dependem de critérios epistemológicos mas que não há critérios empíricos para as suas respostas, o que significa, justamente, que são do âmbito da crença...

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