terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A Autenticidade não se resume à Honestidade - apontamentos

A propósito de autenticidade e honestidade

Complicado. Kierkegaard é complicado...

Então: um sujeito é um sujeito real, e é um sujeito ideal. O sujeito é um sujeito existente e também pensa que é um certo sujeito.

O sujeito ideal está comprometido pela hipocrisia natural ao ponto de vista. Tem uma tendência natural para se enganar a si mesmo, sobretudo para se enganar quanto ao que ele é. Ora, isto não é uma característica exclusiva dos políticos ou dos padres, como uma certa leitura de Kierkegaard poderia dar a entender. Isto é assim connosco. Quando Kierkegaard diz que há uma hipocrisia natural no humano não está a dizer isso só das figuras públicas e de sucesso - mas de todos os homens.

Então basta ser honesto para se ser autêntico? Bem, não. Não basta. Não basta porque o que quer que eu pense que eu sou isso é, justamente, o que eu penso que sou. Por mais honesto que eu seja - isso sou eu a pensar que estou a ser honesto! O sujeito não sabe, de facto, o que ele mesmo é. O sujeito diz "eu sou isto" - e aqui está a hipocrisia. Quando ele diz "eu sou isto", o "isto" é o seu "eu ideal". Mas se ele diz "eu sou", está a querer entender que o "isto" é o "eu real". Mas onde está o "isto" que ele diz que é senão nas suas ideias? Em lado nenhum. Quando é que alguém consegue pensar alguma coisa senão por ideias? Nunca. O que é então "isto" que o sujeito diz ser? É um conjunto de ideias do sujeito acerca de si mesmo - e por muito honesto que ele esteja a ser relativamente a estas ideias, o sujeito real é outra coisa... Então como sair daqui? Bem, não se sabe... Mas presume-se que o sujeito real é o sujeito que existe - e, este "existe" não tem nada que ver com ideias, com teorias sobre como é fantástico que o sujeito pense e logo exista. Este "existo" quer dizer que tem uma vida. Portanto, não se sabe o que o sujeito real é - mas o ponto é exactamente esse: a autenticidade, seja o que for, tem de ter que ver com a existência, isto é, tem que ter que ver também com o que se faz.

Agora: se o sujeito pensa que é uma boa pessoa, isso é um pensamento, mas interessa que ele seja uma boa pessoa. Ser uma boa pessoa tem que ver com o ser uma boa pessoa. Pensar que se é uma boa pessoa não ajuda com isto.

O problema é: mesmo a honestidade não garante que já se esteja a ser honesto (justamente porque o sujeito não tem um acesso imediato a si). Ora, isto é um paradoxo. E o ser paradoxo é uma indicação de que deve ser assim. Senão, vejamos: o que é ser-se honesto? Será isso eu estar convencido de que estou a ser honesto?

Eu penso: estou a fazer tudo quanto posso! Mas justamente isto já é hipocrisia: "estou a fazer tudo quanto posso"??? E quando é que eu sei que estou a fazer tudo quanto posso? Saber isto - este saber, justamente este saber, é a hipocrisia!

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