segunda-feira, 26 de maio de 2014

Comentário aos Resultados das Europeias de 25-05-2014, em Portugal

A propósito de Eleições Europeias - Portugal, 25-05-2014

1º.
É verdade que, em números absolutos, o PS ganhou, com 31,45%. Mas a coisa começa a ser cómica: o Seguro teve de se desunhar para fazer notar que o PS ganhou. Repetiu-o tantas vezes que até os mais distraídos começaram a desconfiar de que talvez, afinal, o PS tenha sido o verdadeiro derrotado do dia...
O PS começa a configurar um paradoxo interessante. Desde há milénios que se sabe que se pode ir ganhando batalha atrás de batalha até à derrota final... Mas o PS de Seguro tem mostrado que é possível ganhar e ser o derrotado! E isto é qualquer coisa!


É verdade. O grande vencedor da noite - à falta de melhor - foi Marinho e Pinto. Em 2009 o MPT teve 0.66% e agora teve 7,15%. E é absolutamente interessante a forma como os jornalistas - já nem falo de zombies como o Marques Mendes - se deleitaram a vilipendiar e a menosprezar o resultado, a posição e as ideias de Marinho e Pinto. Os jornalistas mostram-se, cada vez mais, como uma força de bloqueio, severamente conservadores, adversos a qualquer ideia com mais espessura do que o dedo de testa que eles não chegam a ter. Eu nem votei, nem votaria, nem me revejo na candidatura de Marinho e Pinto - mas a forma como se tentou, ontem, e se tentará hoje e amanhã, converter a vitória de Marinho e Pinto num resultado fruto de populismo é uma tentativa absolutamente ignorante, ignóbil e estúpida... e, curiosamente, são os jornalistas os seus principais mentores.


O Bloco de Esquerda tem de deixar, de uma vez por todas, de clamar vitória quando perde - tem de deixar de reclamar vitórias que não se obtiveram à sua custa, etc... A direita não perdeu graças aos votos que o BE teve. Por outro lado, os comentadores e fazedores de opinião do bloco central, PS-PSD-CDS, continuam com a ideia de que o BE deve "abrir-se", deve ir ao encontro deles, das suas ideias, das suas posturas, ser como eles, etc... É curioso, o bloco central acha muito bem que os outros partidos existam, desde que eles sejam como ele. Vamos lá a ver se nos entendemos: o facto de haver uma maioria PS-PSD-CDS não mostra que este "centro" esteja certo, esteja bem, etc. Não mostra, sequer, que a maioria da população esteja a seu favor... Porquê: porque a maioria das pessoa não está, de todo, interessada em política, em eleições, em votar, etc...


Alguém sugeriu que se fizesse um sorteio de um carro para ver se as pessoas vão votar... Mas isso não daria em nada, como é evidente. Mas se, por outro lado, se oferecesse a todos quanto fossem votar um bilhete para um jogo de futebol do Benfica, do Porto ou do Sporting, à escolha, tenho a certeza absoluta que a abstenção praticamente desapareceria e, de repente, toda agente acharia muito produtivo ir votar.
É verdade que há algo na abstenção que tem que ver com um distanciamento entre políticos e povo... Mas é uma falácia reduzir a abstenção a isto. Aliás, só quem ainda não foi ver o histórico de eleições nas democracias em geral (desde que não se seja legalmente obrigado a votar, porque há países em que isso acontece), ainda não teve ocasião de perceber que a abstenção é o fenómeno mais assíduo da Democracia. Parece que em Portugal a coisa se agrava, e se agrava sobretudo nas Europeias... Mas isso não invalida esta hipótese: as pessoas não votam porque não há interesse, há abstenção porque as pessoas se estão nas tintas. Falam contra o Governo porque falar é fácil, mas estão noutra - literalmente noutra: estão no futebol, por exemplo. A coisa é por demais evidente: há consciência futebolística em Portugal.
Dito isto, é também evidente que um certo comportamento dos políticos tem afastado ainda mais as pessoas. Mas não é só o facto de os políticos falarem uma linguagem incompreensível, ou de mentirem, etc... Tudo isso poderia, justamente, fazer com que as pessoas fossem votar: para penalizar os mentirosos, para substituir os que não se compreendem por outros compreensíveis...
Há aqui aspectos que não interessa agora focar, mas, no essencial, as pessoas não votam porque, em geral, reina o desinteresse, a falta de uma consciência política. É um aspecto estrutural. A abstenção não é circunstancial.


As pessoas passam ano atrás de ano a dizer mal dos que governam e, depois, ou votam nos mesmos de sempre, ou não vão votar - para continuarem, depois, a queixar-se que os políticos são sempre iguais... Estranho seria que mantendo sempre lá os mesmos, os mesmos não fossem sempre a mesma coisa... Isto é um princípio muito bem conhecido: o princípio do lunático que consiste em fazer o mesmo repetidamente, passo o pleonasmo, esperando resultados diferentes. E, mais uma vez, isto acontece porque até mesmo entre os que votam reina um pano de fundo de indiferença, de desinteresse, de inconsciência.

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