sábado, 14 de dezembro de 2013

Psicopatas formais e ética

A propósito de psicopatas...


Tomemos a seguinte definição de psicopata: alguém que sabe o que o faz feliz e que se preocupa apenas com a obtenção disso (isto envolve, conforme os diferentes níveis de consciência disso, o esforço para obter isso, o esforço para a manutenção disso, o esforço para obter isso sem destruir as possibilidades de continuar a obter, etc, etc, etc - os níveis são progressivamente prudentes).
Dentro desta definição podemos pensar e observar no mundo pessoas que são psicopatas - e outras que o não são. Essas que o não são, chamemos-lhe esquizofrénicas existenciais, porque tendem a ter muitos fins, várias ocupações, e a embrenharem-se em existências mais ou menos diletantes, mas sendo sempre variações diletantes. Deixemos os esquizofrénicos existenciais e foquemo-nos nos psicopatas.
Os psicopatas existenciais podem ser muito diferentes, e cada época histórica parece favorecer mais uns ou outros, de tal modo que o psicopata que no século XII era um herói, hoje poderia ser um assassino, e aquele que hoje é um herói, não teria ficado na história no século X - e o inverso também é verdade: um herói do século IV a.C., hoje seria um sem-abrigo. É deliberadamente que não me estou a ocupar de dar exemplo concretos - mas qualquer um com o secundário feito pode muito bem encontrá-los na sua memória ou nos manuais. O decisivo aqui é que os psicopatas são aplaudidos, encarcerados ou ignorados conforme o tempo em que vivem - não conforme à sua psicopatia.
Então, há também psicopatas que têm um desejo totalitário de ajudar os outros. Se este desejo é considerado mórbido ou virtuoso, isso deve ser deixado aos psiquiatras ou aos padres - por agora preocupemo-nos com este facto decisivo: não há nenhuma diferença formal entre o psicopata que mata por prazer e aquele que dá abrigo aos pobres por prazer. Não há nenhuma diferença forma - repita-se porque isto é difícil de apreender.
Depois há um tipo formalmente estranho de psicopatia - aquele que tem o desejo totalitário de ser ignorado, isolado, só. Este psicopata é formalmente o mesmo que os outros: sim, é o mesmo. Mas não deixa de ser estranho - porque, formalmente, só pode ser o que é se, e apenas se, não acontecer com ele que o seu tempo lhe dê fama. Assim, se acontecer que um momento histórico ache por bem aplaudir o eremita, o eremita será transformado num fenómeno, e a essencialidade do ser fenómeno está no aparecer, enquanto a essência do eremita está no não aparecer. Mas, formalmente, o psicopata eremita é um psicopata, e o ser eremita é o que no ser-se psicopata é acidental - embora, para o sujeito, seja o ser eremita que é essencial. Mas o psicopata eremita é tão psicopata como os psicopatas que podem manter a sua essência mesmo quando se tornam fenómenos públicos - não há nenhuma diferença formal, há apenas uma curiosidade formal, mas esta curiosidade está essencialmente ligada à essência do sujeito, e não à forma psicopata: o que essencialmente distingue o psicopata assassino do psicopata eremita é que um é assassino e o outro eremita - mas ambos são psicopatas - e, por isso, o facto de o assassino poder ser aplaudido numa época não muda nada formalmente, embora o eremita, ao ser aplaudido, seja contraditado na sua essência - o que significa apenas que o eremita não vai gostar de ser aplaudido, vai rejeitar o aplauso, vai ser arrogante, vai fugir dos jornalistas, e pode até acontecer que estes movimentos o tornem ainda mais famoso e ainda mais heróico aos olhos dos seus contemporâneos...
O decisivo aqui é apenas uma coisa: temos uma forma apenas, a forma psicopata, o resto não é decisivo quanto à forma. Para apontar uma diferença formal precisamos de, por exemplo, descrever outra forma, por exemplo, a forma diletante. Assim, a diferença entre aquele psicopata que está preso e aquele que está nos tops da publicidade é uma diferença acidentalmente histórica, tal como a diferença entre o psicopata assassino e o psicopata bem-feitor é apenas uma diferença acidentalmente subjectiva. Na medida em que ambos desenvolvem apenas a sua vinculação a si mesmos, devemos dizer que, eticamente, nenhum deles põe nada de valor - enquanto ambos desenvolvem um talento, a única coisa a debater aqui é se estamos perante uma a-moralidade ou uma i-moralidade...
O problema, então, é o seguinte: a que forma corresponde o ético??? (Nota bene: nenhuma das anteriores)

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