sábado, 7 de janeiro de 2017

Qual o critério da existência?

A propósito de critérios...


É fácil de refutar o relativismo cultural. Mas a refutação do relativismo cultural não refuta o relativismo. Apenas exige um relativismo mais lato. No limite, o relativismo diz apenas: a validade de qualquer coisa depende da medida adoptada, seja esta qual ela for, pois não pode haver uma medida para a adopção de uma medida. Assim, se um sujeito tem como medida Deus, evidentemente, a guerra vai ter um valor determinado sempre em referência a Deus. Um sujeito que tenha como critério a felicidade dos homens pesará a guerra relativamente à felicidade dos homens. Evidentemente, se quiser fragilizar o valor da religião indicando que gera guerra só pode ter sucesso se aquele a quem se dirige não tiver como critério de pesagem Deus. Se o sujeito tiver como critério Deus limitar-se-á a dizer que tudo tem de ser pesado na balança de Deus.
Este relativismo mais geral é a tese de que todos os critérios que podemos ter para pesar o valor das coisas são legítimos, e que não há critério para decidir entre critérios. E este relativismo não parece poder ser refutado senão assumindo previamente um critério. Ou seja: tendo já um critério - de modo que, na verdade, não se refuta o relativismo.
A dificuldade está nisto: que critério pode haver para decidir entre critérios? A razão? Bem: mas qual o critério que permite dizer que a razão é um critério melhor? A própria razão? A experiência? A vida? Seja qual for o critério, o problema é sempre o mesmo: nunca se refuta a tese do relativismo de que o valor de uma coisa depende do critério com que ela é medida.
Kierkegaard: a única refutação do relativismo é existencial: se tudo é igualmente válido, então tudo é igualmente irrelevante.

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