quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A morte e o melhor do humano

A propósito do bem do humano...

«ouve primeiro o que a sabedoria popular grega diz [...]: "Estirpe miserável e efémera, filhos do acaso e da fadiga, porque me obrigas a dizer-te o que para ti é mais proveitoso não ouvir? O melhor é para ti totalmente inatingível: não haver nascido, não ser, 'nada' ser. Mas a segunda coisa melhor para ti é morrer em breve"»
in Nietzsche, O Nascimento da Tragédia
Segundo esta "sabedoria antiga":
-1) o melhor de tudo é "não haver nascido";
-2) visto que nasceste, o melhor é, para ti, "morrer em breve";
-3) mas o melhor seria não saberes isto.
Portanto, há ironia aqui, pois a verdadeira ordem dos bens é:
1º: o melhor para um humano é não saber qual é verdadeiramente o melhor para o humano;
2º: uma vez que me obrigas a revelar qual é o melhor para o humano, o melhor seria não haveres nascido;
3º: uma vez que já estás aqui, o melhor para ti é morreres em breve.
Portanto, o melhor é sempre inatingível.
É inatingível antes de saberes o que é verdadeiramente o melhor porque, como não sabes o que é o melhor, afadigas-te para adquirir aquilo que é irrelevante.
É inatingível quando já sabes o que é o melhor, porque o melhor seria não o saberes.
O melhor é inatingível a partir do momento em que colocas a questão, visto que isso significa que já nasceste, e o melhor seria não teres nascido.
Portanto, de qualquer modo, tens de te contentar com sucedâneos.

Confrontar com...

«vê o rumor que desde há muito percorre a boca dos homens. ‘Qual?’, perguntou. E ele respondeu: ‘Que não ter nascido é o melhor de tudo e que estar morto é melhor do que viver.’»
Aristóteles, Fragmentos dos Diálogos e Obras Exortativas, p. 88

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