domingo, 7 de abril de 2013

O que é a Ética?

A propósito de ética e moral...


A Ética é, em sentido "enciclopédico", uma disciplina da Filosofia que estudo o comportamento humano - e, neste sentido, tem algumas semelhanças com a Psicologia (que é a ciência que estuda o comportamento). Mas a Ética estuda o comportamento na medida em que é susceptível de uma valorização - e neste sentido relaciona-se com a Axiologia (que é a disciplina que estuda os valores)... A partir daqui você pode encontrar imensas opiniões diferentes. Há muitas opiniões diferentes sobre o que é exactamente a Ética...

Como disciplina, pode-se dizer que a Ética estuda o comportamento moral do homem/humano. Percebe-se imediatamente que há uma relação com a Moral ou com a Moralidade e com o comportamento Moral. O termo moral vem de "mores", isto é, "costumes" - tem que ver com os costumes de certo povo, de certa comunidade. A Moral é, portanto, algo concreto. Na verdade, não se deveria falar de uma Moral, mas de morais: há diferentes morais, conforme a cultura, a sociedade, a comunidade, o grupo que se considera, mas as morais estão sempre ligadas a uma tradição e (quase sempre) a uma religião ou a uma concepção religiosa (mesmo quando uma sociedade se torna laica ela preserva o pensamento axiológico (os valores) e a mentalidade de fundo da religião.
A palavra "Ética" tem uma origem diferente. Vem do grego, de ἔθος, que significa "hábito" - e tal como o português retém o duplo sentido do "hábito" que se tem de fazer isto ou aquilo e do "hábito" que, por exemplo, o monge veste. "Hábito" é aquilo que se tem - mas no sentido de "haver". Portanto, ἔθος, "éthos", relaciona-se com o verbo latino "haver" - e este verbo retém o sentido de "ser/existir"... Neste sentido nós somos o hábito, o hábito é como uma segunda pele que nós vestimos, uma roupa que está tão fundida connosco que nós não nos apercebemos que ela lá está para ser despida. Podemos, de facto, pensar que estamos nus e estarmos muito longe de o estarmos...
Mas o grego tinha uma outra palavra que se lia quase da mesma maneira: ἦθος, "êthos" - e este termo significa qualquer coisa como "o lugar próprio". Por exemplo, o gado tem o seu lugar próprio, e nem todo o gado se guarda no mesmo curral. Cada um tem o seu lugar próprio...
Como se pode ver, a moral remete-nos para um regime de sentido que é prévio ao sujeito: quando alguém começa a pensar já só pode pensar dentro desse regime, com os instrumentos que adquiriu na cultura, na família, na comunidade em que viveu. Quer dizer, a ideia de que cada homem nasce nu faz-nos esquecer que, na realidade, quando o homem começa a pensar já está vestido com os costumes. Seja o que for que ele pense só o pode pensar com as ferramentas que adquiriu. Ninguém pode pensar fora daquilo que esse regime permite pensar - simplesmente porque não se tem como fazê-lo.
A ética, como procurei dizer acima, remete para qualquer coisa que se constrói, um hábito, portanto, algo adquirido. Neste sentido, a ética de uma pessoa pode não se distinguir da moral em que nasceu. Mas cada um possui a capacidade (quer a use quer não a use), de procurar o seu lugar próprio, em vez de aceitar simplesmente o lugar que lhe foi reservado e disponibilizado pelas instituições da comunidade, sociedade ou Estado. Desta forma, a Ética refere-se a uma investigação pessoal acerca de como cada um deve agir. Tem uma vertente concreta, específica, não só porque tem que ver com cada indivíduo, mas também porque cada pessoa tem de responder a problemas concretos com que se depara na sua vida. Mas ainda não se pode dizer que uma pessoa é ética se ela se limita apenas a resolver cada problema que lhe aparece da maneira que naquele momento lhe dá jeito. Não é a isso que se chama ética. Uma pessoa ética procura o seu lugar próprio, e faça isso de uma maneira ou de outra, por um caminho ou por outro, isso significa que procura dar uma unidade, uma consistência à diversidade das situações da vida. Por isso, a Ética normalmente está associada à investigação, à procura de princípios unificadores da conduta de cada um. E nesse sentido podemos falar de "carácter". Na medida em que cada um pode determinar o seu carácter, fazer o seu hábito, determinar-se a seguir determinados princípios, máximas ou leis de acção, podemos dizer que a pessoa assume o seu "destino", quer dizer, faz a sua sorte - sem que isso significa, de forma alguma, que se esteja menos exposto às calamidades, às tempestades ou aos acidentes. Pelo contrário, são esses acontecimentos puramente exteriores que assumem um sentido diferente, isto é, precisamente como exteriores... (mas este aspecto é complicado e não o vou desenvolver aqui)
A Ética, então, é essa procura de uma segunda natureza que, paradoxalmente, esteja mais adequada ao homem nu, ao próprio humano… e isto levanta muitos problemas, porque, então, em que sentidos é que se está aqui a utilizar a palavra natureza? Que natureza é a do humano? Quer dizer, o limoeiro não precisa de ganhar o hábito de dar limões… Ele simplesmente nasce para os dar e, se nada o violentar e não estiver, de algum modo, “degenerado”, o limoeiro simplesmente se desenvolverá cumprindo a sua natureza, que é dar limões… Mas com o humano tudo se complica. Tudo se passa como se o humano, se pudesse ser comparado a uma árvore de fruto, tanto pudesse dar limões como maçãs ou até mesmo pepinos… ninguém fica admirado quando um limoeiro dá limões, mas pode-se ficar admirado com aquilo que um humano faz… (tudo isto é complexo…)
Mas, seja como for, há um problema que não pode também ser esquecido: quando alguém procura ser ético já só pode conduzir essa investigação dentro de uma determinada maneira de pensar, com determinados instrumentos, etc… quando alguém procura tornar-se uma pessoa ética já só o pode fazer partindo de uma determinada moral concreta. Não parece haver como fugir a esta necessidade…
Finalmente, em Filosofia a Ética tornou-se essa disciplina que estuda estes problema e que, de algum modo, procura saber que hábitos deve o humano ter… claro que os filósofos não dizem as coisas nestes termos. O filósofo procura saber quais são as máximas que todos deveriam seguir, o que é certo e o que é errado, etc… Mas o problema da Ética não é principalmente este ou aquele problema, mas sim regras unificadoras do comportamento humano. E isto volta a relacionar-se com o que se entende por “humano”. Porque o que parece estar em causa na ética é “cumprir” o humano, é ser-se humano, ou tornar-se plenamente humano, ou como quer que se diga. Assim, há com certeza éticas racionalistas, éticas comunitárias, éticas (mais ou menos) “individualistas”, … Etc…

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