terça-feira, 9 de abril de 2013

Ciência, senso-comum e crítica...

A propósito de ciência...


Há a ideia de que a ciência moderna representa o puro pensamento. De facto, esta ideia encontra algum repouso na “ética científica” do “posso, logo devo”. Contudo, um cuidado olhar depressa mostrará que a ciência moderna é, não o pensamento puro, muito menos a razão pura, mas sim o senso-comum (e, também, o “sensus-comunis” – o qual não se confunde com o senso-comum) que se aventura no reino da especulação… Por essa razão, a ciência não partilha da capacidade de pensamento crítico própria do pensamento ou da razão pura. É precisamente deste aspecto que a ciência moderna resgata a sua importância e o seu sucesso, na medida em que a razão pura seria a sua destruição. 

Ou seja, a razão do sucesso da ciência reside na sua ausência de capacidade crítica. Isto não quer dizer que ela não seja capaz de se rever, de se corrigir. Pelo contrário, a sua flexibilidade, o seu progresso está sustentado na sua incapacidade crítica – precisamente na medida em que a capacidade de pensamento crítico carrega consigo uma tendência suicida. 

Não importa quanto as teorias, as hipóteses, os exercícios especulativos científicos se tenham afastado da verdade e da certeza sensível de cada dia – não interessa quanto o cientista se afastou – no rebuliço do seu laboratório ou na calma dos seus computadores – da experiência do senso-comum e do sentido de realidade do “sensus-comunis” – no fim do dia, como dizem os americanos, ele regressa a uma forma de senso-comum, a uma forma de evidência e assim assegura, para a sua investigação, o sentido de realidade e a forma de objectividade.


A respeito do texto acima cfr. Hannah Arendt, The Life of Mind / Thinking, Secker & Warburg, London, 1978, p. 55ss.


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