quarta-feira, 24 de abril de 2013

Corpo e alma - uma religião para ateus...

A propósito de Alain de Botton - Uma Religião para Ateus


Acho muito interessante a ideia de uma religião para ateus. Simplesmente, parece-me que o ponto de partida dele é muito redutor, assume demasiado, tem um pano de fundo conceptual que assume já saber qual é o problema, sem analisar convenientemente aquilo para que as religiões apontam. Digo isto, obviamente, como ateu. Partir do ponto de vista que considera a descrição científica e utilitária como suficiente dificilmente pode levar-nos a compreender o que está de facto em falta. Ele próprio aponta para este problema, mas ignora-o. A própria forma como ele apresenta a questão, o ir à religião buscar o que nos pode ser útil, trai o pressuposto de que estamos em condições de saber o que nos faz falta no sentido mais profundo de "falta".

Um dos preconceitos que assola a maioria das teorizações ateias é o de que a descrição científica é a única. Isso implica, então, que a única forma de descrever o humano é como conjunto de células e de processos electro-químicos... Há, no entanto, vários cientistas que se apercebem que quando falamos de rãs ou de cães falamos de algo que nunca poderia ser encontrado no mundo se o nosso acesso a ele fosse primeiramente por via das células: por mais que se analise um conjunto de células ou de químicos, jamais se encontrará uma rã ou um cão. 

Paradoxalmente, são os filósofos que têm mais dificuldade em assimilar as deficiências descritivas da ciência: talvez porque o filósofo esteja sempre com medo de ser considerado um feiticeiro ou um padre. Assim, tem-se a ideia que quando se diz que o humano não pode ser descrito simplesmente como conjunto de células se está a dizer que tem de haver qualquer "coisa" como uma coisa-alma, uma substância-alma, uma coisa-em-si-alma, em tudo semelhante a qualquer outra coisa salvo nas determinações-coisais. 

Pensa-se que quando se diz que o humano não é só corpo se está a dizer que, além da coisa-corpo, o humano deve ter uma coisa-alma, e que esta coisa-alma é qualquer coisa como uma coisa-pura, uma coisa purificada das suas determinações materiais (coisais)... E com este tipo de pensamento - que é mais dos filósofos do que dos cientistas que se dedicam a pensar sobre o assunto, os quais não têm medo de serem considerados feiticeiros nem padres - pensa-se estar a destruir a metafísica tradicional, quando se está apenas a reafirmá-la: se o humano é uma alma esta é uma substância... Não lhes passa pela cabeça algo que muitos cientistas não têm pejo em admitir: o ponto está na compreensão... 

Compreender o humano como conjunto de células é claramente patológico. E admitir isto sem com isto querer dizer que há uma alma-em-si, um espírito, um céu e um inferno, uma "realidade-outra", etc., isto deve ser um desafio para quem reconhece a "necessidade" de uma religião para ateus... Não é que não se possa decompor o humano em x% de água, y% de carbono, etc... é que esse "facto", essa descrição, essa decomposição, não dá conta do humano como humano.

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