quarta-feira, 10 de abril de 2013

Morte - e suicídio...

A propósito da morte... um pequeno apontamento, de inspiração heideggeriana, sobre a inautenticidade do nosso tempo...

Por que é que não se deve ocultar a morte da vida?

O carácter de possibilidade da vida não é imediatamente evidente: a vida é o que está. E assim o indivíduo vive no modo "Eu Sou Aquele Que É”. 

Tem-se a vida por garantida. O carácter de possibilidade da morte não é evidente. Não é evidente que a possibilidade que é possibilidade de cada vez, que é a possibilidade do já a seguir e do depois e do daqui a nada é a morte - a morte que vem por capricho e pode levar qualquer um. Também não é evidente que a cada momento que se vive houve uma decisão (que não houve de facto porque não se sabia que havia uma decisão a tomar) de ficar cá, de não abandonar o barco. Enfim, não é evidente que a possibilidade mais radical de cada momento era a cada vez o deixar de ser - com um "pormenor": quando for já não mais se é. Cada coisa que se faz, cada ocupação em que se está, cada preocupação que se habita, cada ida ao café, cada vez que se assobia para o lado, cada vez que se tem de ter as forças de um Atlas - a alternativa que atravessa toda a nossa existência, que está sempre lá, é a morte. 

Mas um tempo em que a morte já foi banida, em que a vida foi desumanizada - talvez só tarde de mais se perceba que há sempre uma decisão, que a vida é, o mais literalmente possível, uma decisão: mas, se foi tarde de mais, isso só se perceberá quando já não se tem razão para decidir ficar.

É um sintoma do nosso tempo - e não da crise propriamente dita - que os suicídios aumentem com o desemprego, em Portugal e em Espanha e por todo o lado onde as lantejoulas que escondem o vazio dos corações perdem o brilho.

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