sexta-feira, 4 de maio de 2012

Determinismo, libertismo e o caso do burro que morreu à fome...

A propósito de "a pensar morreu um burro"...


Desde sempre ouvi esta expressão: “a pensar morreu um burro”.

Quando era gaiato a minha mãe dizia-mo muitas vezes, normalmente para reforçar a ideia de que eu deveria fazer menos perguntas! A visão prática e vivida da minha mãe sempre me meteu inveja. Mas, então, longe de me aquietar, a sua revelação suscitava-me nova questão: “mas sobre o quê pensava o burro?”

Na sua ingenuidade, o gaiato que eu era nesses dias pensava que, se o burro morreu a pensar, o caso deveria ser de monta! Mas o que poderia ser assim tão importante na vida de um burro? A situação parecia-me esdrúxula: “mãe, de onde vem essa história?”

A minha mãe não sabia – mas sabia que pensar demasiado sobre um assunto tem a desvantagem de deixar passar a maré!

Ora, a expressão a pensar morreu um burro parece vir do famoso caso do burro de Buridano. Tanto quanto se sabe, o paradoxo não foi inventado por Buridano (1300 - 1358), nem se sabe ao certo por que lhe é atribuído, mas o facto é que há séculos que os filósofos se lhe dirigem como de Buridano.

O paradoxo, se lhe quisermos chamar assim, é o seguinte:
Um burro está com fome e sede na mesma proporção, e tem à disposição um recipiente com água e outro com palha, sendo que cada um destes recipientes está à mesma distância do burro.
Apesar do burro se encontrar extremamente esfomeado e sequioso, não tem nenhuma razão para preferir a água ou a palha, visto ter a mesma intensidade de fome e sede em simultâneo e a palha estar tão afastada quanto a água.
Desta forma, o burro acaba por não se mover nem para a água, nem para a palha, e acaba por morrer de fome e sede.

Outras versões substituem a água por mais palha: estando o burro equidistante de dois fardos de palha igualmente apetitosa, apesar de esfomeado, acaba por não escolher nenhum e morre de fome.

O paradoxo consiste no facto de o burro ter a disposição aquilo que o poderia salvar, bastando-lhe fazer uma escolha. No entanto, é precisamente essa escolha que ele não faz.

Não é certo se esta história foi atribuída a Buridano para exemplificar alguma espécie de crítica que ele fizesse a outros filósofos, ou se foi a sua posterioridade que, satirizando-o, lhe atribuiu o caso.

Seja como for, Buridano parece ter defendido que, perante um dilema moral, a vontade escolhe sempre o melhor – sendo que, se não o faz é porque decidiu por desconhecimento (daquilo que estava propriamente em causa) ou por impedimento (externo à vontade). De algum modo, Buridano pensa com Platão que só se decide mal por ignorância (ou imposição externa).
Segundo Buridano, a vontade humana pode e deve adiar a decisão até estar na posse dos aspectos relevantes para a decisão. Perante um dilema moral, a vontade deve decidir-se apenas se e quando estiver na posse de todos os elementos necessários para garantir uma boa decisão.

Claro que isso implica diversas dificuldades, dos quais nomeamos apenas os mais óbvios: 1) como saber quando se está na posse daquilo que verdadeiramente é importante para tomar a decisão?; 2) como fazer nos casos em que o agir está sob condicionamento, de tal forma que um tempo útil para a acção pode transitar antes de se ter reunido todos os elementos essenciais?

O problema 1) é obviamente importante, mas pode também ser levar-nos ao 2). Ou seja, se ficarmos indefinidamente à espera de estarmos certos de que estamos na posse de todos os elementos importantes, podemos deixar passar o prazo. Por outro lado, mesmo quando finalmente supomos ter reunido tudo quanto é importante, podemos ainda estar em erro e, precisamente, podemos estar a decidir sob ignorância daquele aspecto fulcral que nos faria tomar uma decisão completamente diferente.

Assim, sempre que, para uma decisão, existe um contínuo de informações a chegar ao decisor, este fica suspenso sem decidir, necessitando de pesar todos os novos dados. Desta forma, quando há um fluxo contínuo de informações sobre um determinado dilema moral, o agente não consegue decidir-se em tempo útil – daí que acabe por morrer sem decidir-se.

Este problema recorda-nos o conhecido aforismo de Pitágoras: Ὁ βίος βραχὺς, ἡ δὲ τέχνη μακρὴ, ὁ δὲ καιρὸς ὀξὺς – “A vida é curta, mas a ciência é longa, e o momento oportuno estreito” (Afor., I, 1). O conhecimento necessário para que a decisão seja a mais adequada a uma situação da vida pode ser demasiado longo – e este longo pode ter mais do que um sentido – do que a curteza da vida permite. Por outro lado, mesmo que a vida fosse suficientemente longa, pode acontecer que o tempo útil de decisão não dê tempo de tomar uma decisão cabalmente abalizada. O burro não só corre o risco de morrer de fome antes de escolher o fardo de palha a que se dirigir, como corre o risco da palha apodrecer antes de ter chegado a uma decisão esclarecida.

O problema imediatamente evidente é, então, saber se a necessidade de esclarecimento não deverá ser limitada pela necessidade de agir em tempo útil.

O caso do burro parece, então, ser uma sátira a Buridano como se lhe fosse objectado que, se um humano ficar eternamente à espera de estar na posse dos elementos fundamentais para tomar uma decisão, esta não será tomada em tempo útil (no limite, não será tomada em tempo de vida).

Por outro lado, o paradoxo ilustra a posição dos deterministas que supõem que a vontade se determina sempre em função dos condicionantes, internos (como a fome, o desejo, as preferências, etc.) e externos (a disponibilidade das coisas, as suas características, as limitações envolvidas, etc.). Ou seja, segundo o determinismo a vontade funciona como uma espécie de balança na qual vão sendo colocados vários pesos, de um lado e do outro, até que um dos lados vence.

No caso do burro acontece que nada faz a balança pesar para um lado ou para o outro, de tal modo que ele não decide nunca. O mesmo acontece se houver uma chegada contínua de novos dados que, à vez inseridos, ora num dos lados da balança, ora no outro, fazem com que a balança permaneça estável sem se inclinar decisivamente para um dos lados.

O caso do burro mostra que, numa situação como essa, a vontade teria que, de algum modo, decidir por si mesma, ou nunca se decidir.
Os defensores do determinismo consideram, de facto, que se fosse possível uma situação exactamente como a do burro, a vontade jamais se decidiria. Apenas há decisão quando os elementos a favor de um dos lados pesam mais que os favoráveis ao outro.
Os defensores do livre-arbítrio dizem, por seu lado, que a capacidade de decisão reside na própria vontade enquanto tal, podendo esta decidir até mesmo contra o que os estímulos ou condicionantes sugeririam.

Segundo os defensores do livre-arbítrio, o caso do burro mostra que a decisão não reside nos elementos considerados, mas na vontade e/ou na razão (dependendo do filósofo que considerarmos).

Enfim, o caso do burro pode levar-nos a muitos outros problemas (por exemplo, a relação entre a vontade e a razão, o papel de cada uma na decisão, etc.) e a resolução dos poucos aqui apresentados é já de si, também, muito complexa, discutível, polémica.

Porém, o problema em si não vem de Buridano, mas é muito anterior ao século XIV. Na verdade, mais de 1600 anos anterior. Podemos encontrar a indicação do mesmo em Aristóteles (384 a.C – 322 a.C):

Aristóteles, De Caelo, 295 b 32-34:
καὶ τοῦ πεινῶντος καὶ διψῶντος σφόδρα μέν, ὁμοίως δέ, καὶ τῶν ἐδωδίμων καὶ ποτῶν ἴσον ἀπέχοντος· καὶ γὰρ τοῦτον ἠρεμεῖν ἀναγκαῖον

“or of the man who, though exceedingly hungry and thirsty, and both equally, yet being equidistant from food and drink, is therefore bound to stay where he is”, De Caelo, In De Caelo; De Generatione et Corruptione. By J. L. Stocks and H. H. Joachim. New York: Oxford University Press.

“também aquele que tem fome e sede em excesso, mas homogeneamente, e da comida e da bebida está igualmente afastado: certamente também será forçado a ficar parado”

Porquê, então, falar-se de um burro e do burro de Buridano?
Bem, em português o nome de Buridano parece lembrar burro, o que não acontece nas restantes línguas.

Não deixa, no entanto, de ser uma pergunta interessante.

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