sábado, 26 de maio de 2012

O Filósofo e as Paixões

A propósito de um livro sobre a natureza humana

O Filósofo e as Paixões é um livro de Michel Meyer, editado em Portugal pelas Edições ASA, e traduzido Sandra Fitas.

Trata-se de um livro muito interessante. Traça a evolução da concepção da natureza humana ao longo dos séculos, na sociedade ocidental, tendo como ponto de análise a compreensão das paixões, desde a Antiguidade.

"No fundo, razão e paixão não é mais do que ruína da alma".

As paixões, no entanto, tendem a ser vistas como grilhões capazes de acorrentar o sujeito a uma determinada perspectiva deturpada acerca do que se passa... "mas para quem vive na paixão, isso não constitui uma escravatura".

A análise do problema da natureza humana, nomeadamente da dicotomia entre racionalidade e paixão, tão entranhada na filosofia ocidental, é a colocação duma questão que "me implica directamente", e que "me implica directa ou indirectamente em tudo o que existe."

"Viver a nossa paixão é viver a nossa temporalidade", mas como saber quando estamos a viver o máximo que nos é pedido, e como saber quando não estamos a incorrer em erro, a correr numa ilusão óptica?

Quando olhamos para trás largámos o momento de que temos consciência para nos encontrarmos num outro momento de consciência. Ter consciência de um erro não elimina a hipótese de se estar num outro erro. "A paixão torna-se a verdade da consciência, ela aceita ou não aquilo que «sentia», consoante as circunstâncias."

Mas se amar é amar amar (Santo Agostinho), não haverá uma propensão para tomar aparência como uma clareza das coisas? Se amo amar, há uma propensão para amar aquilo que amo, de tal modo que é difícil ficar livre para identificar a "verdade" do que amo.

Mas não podemos decidir os nossos fins, apenas podemos decidir sobre os meios para alcançar os nossos fins. Não podemos decidir aquilo de que gostamos, podemos apenas decidir como obter o que gostamos.

Não há, então, nada a fazer? Estamos presos nos fins que se impõem?

Podemos, é certo, investigar isso mesmo que "nós queremos". Não podemos decidir aquilo que amamos, mas podemos investigar-nos a nós mesmos à procura daquilo que verdadeiramente amamos...

"Os homens não gostam de colocar a si próprios demasiadas questões" - o que parece ser um entrave à busca de uma boa vida, realmente boa. Pois a "paixão é, e continua a ser, aquilo que trata o problemático como se estivesse resolvido"...

Mas é porque o problema da natureza humana desde sempre parece ter acompanhado o ser humano, e sempre parece impor-se a cada um dos humanos como questão própria, pessoal e intransmissível, que este livro pode ser extremamente útil. Pelo problema que aborda, pelas questões que levanta, pelas inúmeras soluções que explora de entre as que foram colocadas ao longo da história da humanidade... Porque a filosofia é um constante diálogo com aqueles que foram antes de nós.

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