quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ciência e Filosofia: ἐπιστήμη

A propósito de episteme...

O termo grego ἐπιστήμη, por vezes traduzido por "saber", outras por "conhecimento", outras ainda por "ciência". Do grego (ἐπιστήμη - epistéme) temos, hoje, "epistemologia". Por sua vez, o termo ἐπιστήμη parece derivar de ἐπί- (perto, próximo) com ἵστημι (estabelecer, restar, reter, ficar, colocar, apontar). Assim, temos que ἐπιστήμη é qualquer coisa como estar perto, estar colocado em posição de proximidade em relação a). Este aspecto é muito importante, indicando que se trata de um conhecimento cuja particularidade reside numa posição de proximidade relativamente a algo.


Ora, a epistéme não é uma mera opinião, também não é uma mera crença, nem o mesmo que verdade, nem tão pouco uma opinião verdadeira.


Não é uma mera opinião porque opiniões têm-se muitas sobre muitas coisas sem que de nenhuma se detenha uma posição privilegiada, seja ela qual for, relativamente ao tema em debate. Vemos isso todos os dias nas conversas de café, das quais emanam miríades de opiniões sem que ninguém saiba verdadeiramente do que fala. Muitas vezes ninguém estaria, sequer, disposto a tomar responsabilidade pelas opiniões formuladas, se a isso fosse chamado, apenas as proferindo enquanto delas não haverá consequências.


Não é crença, porque esta não resulta de nenhuma fundamentação, mas de uma confiança radical. Um crença radical é de tal forma que não há nenhuma razão para que a tenhamos, de facto não há mais razões para se ter uma ou outra - ou, havendo-as, não são as razões que justificam a confiança que se tem. Um crença não se disputa de facto. Ora, isto não significa que o crente não passe por momentos de descrença, de desconfiança, de dúvida, mas estes momentos são propriamente humanos, não propriamente do crente. Enquanto duvida, o humano não é crente. Enquanto crente não há dúvida. A essência da fé está na confiança cega. Mas há muitos géneros de crenças, não apenas crenças científicas. Na verdade, a nossa vida diária corre como habitualmente graças a um conjunto de crenças raramente ou nunca formuladas conscientemente, das quais o sujeito não seria capaz de dar conta se isso lhe fosse solicitado. Pode mesmo dizer-se que as crenças mais fundamentais não são sequer notadas, e quando notadas não são percebidas enquanto crenças, mas habitualmente como "factos". Por exemplo: não há qualquer forma de provar a existência real, objectiva e externa do mundo que os nossos sentidos nos trazem, no entanto a maioria das pessoas, a maioria das vezes, toma-a (à existência desse mundo) como facto, portanto, como indiscutível, como qualquer coisa de que é supérfluo e parvo duvidar.


Mas então o que é a ἐπιστήμη? Podemos dizer que é uma opinião, mas uma opinião fundamentada. Podemos dizer que o sujeito mantém nela confiança, mas que esta confiança se apoia na fundamentação e apenas enquanto esta fundamentação se mantiver válida.


Portanto, a ἐπιστήμη também não é o mesmo que verdade. Porque uma opinião que se defenda, por mais que a fundamentemos, pode sempre vir a revelar-se falsa no futuro. A confiança, na ἐπιστήμη, é condicional. De resto, muitas das opiniões fundamentadas que mantemos encontram-se fundamentadas, precisamente, sobre crenças que não são passíveis de fundamentação, dada a sua radicalidade. Sempre que o sujeito toma consciência de uma crença que tem, pode fazer resvalar um conjunto imenso de opiniões que supunha bem fundamentadas. A ἐπιστήμη é, assim, uma opinião bem fundamentada e correcta, de tal modo que, vindo a verificar-se a sua falsidade, não pode continuar a ser considerada ἐπιστήμη. Por outro lado, uma pessoa pode falar verdade desconhecendo por completo as razões pelas quais tal coisa é verdadeira. 


Neste caso, não podemos falar de ἐπιστήμη, mas apenas de opinião correcta. Falta-lhe a fundamentação, falta-lhe a explicação. Deste modo, não podemos dizer que a ἐπιστήμη seja opinião verdadeira, mas sim opinião verdadeira com conhecimento de causa.


Neste termo, ἐπιστήμη, a ciência e a filosofia tocam-se e revela-se ao mais incauto a sua familiaridade que justificou durante milénios que a ciência brotasse como vergôntea da filosofia. Ambas procuram dar explicação dos fenómenos que são o caso.


Entretanto, a filosofia diversificou a sua actuação, de tal modo que um campo delimitado do seu inquérito ficou reservado naquilo a que hoje chamamos ciência. Além disso, a filosofia teve a tendência para se recusar a ter que admitir que certos elementos base do nosso conhecimentos ficassem por questionar. A radicalidade da filosofia levou-a a pesquisar os próprios fundamentos - coisa que a ciência não pode fazer quando se confronta com aquilo que estabeleceu como plano a partir do qual pode erigir um conjunto de conhecimentos, cuja legitimidade se encontra, precisamente, alicerçada nesse fundo. 


Duas coisas (pelo menos) distinguem a filosofia da ciência: a primeira é mais abrangente e mais radical que a segunda. Mas a diferença essencial é a radicalidade.




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