terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A vida é curta e a ciência é longa...

A propósito de decisão...


Um indício da humanidade de Jesus é o passo de São Marcos 15:33-34. Podemos com alguma confiança aceitar que Jesus tenha de facto proferido essas palavras: seria de esperar que os seus seguidores preferissem ocultá-las. Jesus parece desesperado, angustiado, sentindo-se abandonado e talvez perdido. Ser humano implica uma lida quotidiana com o próprio destino. O comércio da vida, por sua vez, implica perdas e ganhos, mas por vezes o saldo não é evidente, a dúvida trabalha na mente e a angústia assoma. Jesus rejeita o epiteto de “bom” e afirma que apenas Deus o é. Aceita e reconhece a fragilidade humana. O tempo em que decorre a vida humana é de exposição. O humano está fundamentalmente exposto: é a sua condição. Exposto à acção destruidora das tempestades, ao sol que cuida e amadurece. É fácil ser-se bom quando o tempo corre bem, é inevitável ser-se pervertido quando as coisas correm mal. Só por Deus as coisas passam inócuas. E aqueles que os deuses amam mais são os mais felizes.
“A vida é curta”. Esta afirmação não significa apenas que se vive pouco tempo. Por vezes os que são levados mais cedo foram os que realmente existiram. Pode viver-se uma vida longa sem jamais se ter existido. O fundamental não é o tempo de vida que se tem. Mas “a ciência é longa”. Não é que não se viva o tempo suficiente para nele caber a ciência toda – ainda que isto também seja verdade. Mas o que aqui importa é outra ideia. A ciência que permite que o labrador are a terra adequadamente e faça dela uma colheita é uma sabedoria específica. Também o humano pode tornar-se exímio no cultivo da vida: para isso há mister de ciência. Esta ciência é que importa. Mas a forma da vida é o lance, é o desgaste. O humano desde sempre se encontra a si mesmo jogado a fazer pela vida. Esta urgência é natural nele como o leite do seio materno para o bebé. Mas é precisamente esta urgência que afunila a compreensão da vida naquilo que de cada vez ocupa a sua atenção. E assim, a forma da vida é a correria, enquanto a forma da ciência é a contemplação. Na maioria das vezes vive-se sem tempo para prestar atenção à vida. As oportunidades estão disponíveis por curtos períodos em que são ocasião propícia e depois somem-se – muitas vezes sem que a correria da vida tenha permitido dar por isso. Pode perder-se um destino num minuto e não se dar por isso. A questão é, portanto, ser-se avisado, para se poder ser bom. Aristóteles defende que se pode ser bom sem ser por condição (como os deuses, ou como os predilectos dos deuses), mas por um esforço consciente do humano para fazer de si o seu melhor. Este esforço é árduo, pois exige uma inversão daquela que é a forma natural da vida. A experiência é íngreme e a queda é fácil. Mas, no fim, são as escolhas que cada um faz que esculpem o seu destino. E é na escolha que está a angústia porque nada se consegue sem sacrifício.

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