domingo, 9 de fevereiro de 2014

Não ser capaz de nada

A propósito das capacidades dos homens...

A visão do senso comum acerca do que um homem é capaz de fazer é falha em apropriação.

O que habitualmente se tem a dizer acerca da capacidade não tem realmente que ver com ser essencialmente capaz, mas com o acessório.

Por exemplo. 

Um homem que vive numa floresta remota onde lhe falta a pedra de qualidade faz a sua casa modestamente com madeira. A ideia de fazer um palácio de mármore parece-lhe imprudente porque, como ele sabe, não tem pedra de qualidade para fazer um palácio de mármore. Por isso ele sabe que não é capaz de fazer um palácio de mármore e fica muito contente com a sua casa de madeira. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais. Porque, essencialmente, ele é capaz de fazer um palácio de mármore - ou pensa que é essencialmente capaz de fazer um palácio de mármore - se, pelo menos, tivesse o mármore.

Outro homem vive onde há pedra em abundância, mas falta-lhe o talento para trabalhar a pedra e, por isso, faz uma casa de madeira - ou, se tem dinheiro para isso, paga a quem a faça por ele. Em qualquer dos casos, ele admite que não é capaz de fazer um palácio de pedra porque lhe falta o talento. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais. Porque, essencialmente, ele é capaz de fazer um palácio de mármore - ou pensa que é essencialmente capaz de fazer um palácio de mármore - se, pelo menos, tivesse o talento.

Outro homem tem dinheiro, mármore e madeira e tem também muito talento, força de vontade e saúde - e tudo aquilo que se lhe quiser atribuir humanamente. Esse homem pode construir um edifício enorme em mármore, com muitas salas e varandas, etc. Constrói o edifício com as suas próprias mãos, aproveitando o seu talento e o mármore de que dispõe. No final ele compreende que é capaz de fazer um palácio e aponta para o facto de que o fez como prova disso. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais. Porque, essencialmente, ele é capaz de fazer um palácio de mármore - ou pensa que é essencialmente capaz de fazer um palácio de mármore - e a circunstância de o ter feito é simplesmente acidental.

Finalmente, um quarto homem, sábio e culto, dirá que as pessoas têm capacidades muito distintas e extremamente variáveis: há umas capazes de tanto e outras de tão pouco, no entanto toda a gente é capaz de alguma coisa e por isso cada um deve aprender, pela experiência e conhecimento, a reconhecer os seus limites e a ficar dentro deles. Mas falta-lhe uma compreensão em profundidade das suas capacidades reais - ou das capacidades reais do humano. Porque, essencialmente, para ele, toda a gente é capaz de tudo, desde que tenha as condições para isso.

De facto, o que é difícil é perceber que o humano não é capaz de nada no mundo. O que é difícil é compreender o que significa isto: que o humano não é capaz de nada. Que nada está no poder do humano - excepto, o ser humano. Os homens não são capazes de nada - senão de ser humanos, e que isto é o essencial, que isto é tudo o que importa. Perceber isto, compreender isto - apropriar o sentido profundo disto: isso é o mais difícil, o mais difícil de tudo. E é tão difícil porque, antes de mais nada, não se deseja compreender: sempre que se começa a pensar sobre isso, sempre que se começa a fechar portas, a querer entender o que significa este "nada", e este "ser capaz", há uma porta ainda ignorada, um caminho ainda não visto, uma desculpa nova que vem em nosso auxílio para nos dar a sedutora e ilusória ideia de que somos capazes, pelo menos, de alguma coisa.

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Cfr. Kierkegaard, Postscriptum
But on Sunday, yesterday, the priest said that a human being is incapable of anything at all and we all understood it. When the priest says it in church, we all understand it, and if anyone wanted to express it, existing, and be seen to do so in the six days of the week, we would all be on the point of thinking: he is mad.
(tradução de Alastair Hannay)

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