quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A auto-ilusão da reflexão

A propósito de auto-ilusão...


Habitualmente, pensa-se assim: uma pessoa, com esforço, é capaz de adquirir algumas coisas na vida, mas não pode ter tudo e tem de aprender a viver com isto. Isto é o habitual, o imediato, o vulgar. É um mal-entendido pensar que o homem comum está de tal modo iludido que o seu problema é que acredita que pode ter tudo! É um mal-entendido ainda maior pensar que o homem comum está convencido de que quer tudo. Onde se viu um homem que quer tudo? Bem, viu-se nos livros e ouviu-se na palrar do senso-comum acerca de si mesmo. No dia-a-dia o homem vulgar não se quer atirar aos leões, e quando se quer atirar aos leões não é porque também quer dançar na discoteca! O homem vulgar (nós, no dia-a-dia) tem uma dialéctica binária: quer umas coisas e não quer outras.

O difícil e pouco habitual é pensar que uma pessoa não é capaz de adquirir nada por si, mas que é capaz de abdicar de tudo pelas suas próprias forças. Isto é o mais difícil porque habitualmente habita-se uma dialéctica binária e este pensamento, para ser realmente apropriado, exige um terceiro termo: a consciência de si.

Portanto: o fácil é pensar que uma pessoa é capaz de algumas coisas; o difícil é perceber que não se é capaz de nada. No momento seguinte a termos pensado isto entra imediatamente em funcionamento a dialéctica binária que nos induz a acreditar que ainda agora fomos capazes de escrever isto mesmo - e logo se perde a apropriação do decisivo.

Portanto: o fácil é uma pessoa contentar-se com o que tem; o difícil é perceber que a única coisa que se pode fazer pelas próprias forças é abdicar de tudo. No momento seguinte a pensarmos que somos capazes disso entra imediatamente em funcionamento a dialéctica binária que nos lembra que não queremos realmente deixar abdicar das coisas importantes que temos na vida, das pessoas que nos são tão fundamentais, das coisas que só com esforço fomos capazes de adquirir, etc., etc.

Mas dizer que uma pessoa não sabe isto é um mal-entendido. O homem comum (nós) escolheu há muito deixar ignoradas as verdades mais profundas acerca de si mesmo, e com isso vive e vai vivendo.

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