segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A tentação...

A propósito de tentação...

A tentação é um problema bicudo. A tentação é diferente do engano e da ilusão.

Uma pessoa que é enganada adere a algo porque pensa que "X é bom" e o facto de se ter enganado expressa uma alteração posterior NO SUJEITO, uma alteração pela qual o sujeito passou a pensar que "X é mau". Não houve nenhuma tentação (pelo menos, directamente).

Uma pessoa que é iludida adere a algo que pensa que "é X", mas que mais tarde percebe que "é Y", ou vem a pensar que "é Y". O que parecia ser X já era Y, mas as suas características de Y foram, de algum modo, esbatidas e confundidas com as de X. Não houve nenhuma tentação (pelo menos, directamente).

Uma pessoa que é tentada está num estado mental completamente diferente. Não é enganada nem iludida e, embora possa existam modos mistos, a tentação enquanto tal não ilude nem engana e enquanto engana ou ilude não é tentação. Uma pessoa é tentada quando sente afinidade com algo que pensa que "é errado". A tentação enquanto categoria não é um factor cultural. Porque a tentação não está no X, nem no Y, não está nisto ou naquilo. Se um homem pensar que comer o inimigo é uma coisa boa e o come, pode estar enganado, mas não foi tentado. Mas se um homem sabe que não deveria deitar um papel para o chão, e o faz porque é mais fácil, porque não é muito importante ou porque não está ninguém a ver - então ele foi tentado. Se um homem sabe que comer o seu inimigo é errado e o come, não interessa quantas desculpas ele tenha, nem interessa se o seu povo o faz todos os dias há milénios - ele foi tentado.

A tentação, portanto, indica o seguinte: o humano tem uma afinidade com o mal.

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