sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mundus vult decipi - e a boa consciência

A propósito de,

Por vezes diz-se que "durmo de boa consciência", e ao ouvir isto uma pessoa pode ficar com a certeza de que alguma coisa está mal com uma tal consciência. É que uma boa consciência só pode ser gozada por uma pessoa realmente má. A coisa, em termos éticos, é mais ou menos assim: se dormes de boa consciência, estás a enganar-te a ti mesmo. Dormir de boa consciência significa que, algures, o sujeito voluntariamente se adormece ou adormece a sua consciência.

Uma consciência tranquila não é - sublinhe-se: não é marca de bondade - sobretudo não é marca de que se fez o que se deve, não é marca de que se cumpre o dever, não é marca senão de que a consciência está tranquilizada; o decisivo é precisamente isto: que a tranquilidade nunca causa a actividade. Uma consciência tranquila não é uma consciência ética - mas o seu esvaecimento - a tranquilidade não é marca de cumprimento do dever, mas a marca da falta do dever. Eticamente, a tranquilidade da consciência é uma tentação; em termos religiosos, sem outra qualificação, a tranquilidade é culpa.


"Mundus vult decipi" significa que, em rigor, o humano é uma estrutura categorial-existencial tal que tende constitutivamente para a auto-ilusão (quer dizer, não acontece que se engane apenas aqui ou ali, ou que o engano lhe venha, por assim dizer, de fora, ou que se iluda algumas vezes mas não noutras), e que esta tendência inevitável para se enganar a si mesmo é voluntária.


Kant, Crítica da Razão Pura, B397 em diante, fala de uns tais sofismas "que se originam da natureza da razão", que não surgem dos factos nem às vezes, que "não são dos homens, mas da própria razão pura" - sim, da própria razão pura - "dos quais nem o mais sábio dos homens se poderia libertar"...

A questão é ainda mais grave se tivermos a noção de que não só o humano é tal que constitutivamente está em ilusão, como também constitutivamente tende para a ilusão.


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