sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A evolução de Deus, de Robert Wright

A propósito de, uma crítica

"A Evolução de Deus" é um livro de Robert Wright* com o título original The Evolution of God. A edição portuguesa tem a chancela da editora Guerra e Paz e a tradução é de David G. Santos.

Um dos livros intelectualmente mais cativantes que li nos últimos tempos. Penso que se trata de uma leitura fundamental para todos nós. Para compreendermos o mundo em que vivemos conhecendo a história, o passado que é o nosso num âmbito tão importante como a ideia de Deus. Este livro é uma lição de história, de cultura, de filosofia.

O livro apresenta um raciocínio claro e lúcido, assaz justificado e fundamentado num trabalho exemplar de citação e referência, fruto de uma erudição evidente. O autor mostra conhecer muito bem o assunto de que fala, o que é muito importante. Mas, apesar disso, não se arroga o direito de não discutir plenamente os problemas técnicos, nem de evitar a parafernália de citações, indicações e comentários bibliográficos para confirmar as suas hipóteses, teses ou teorias - e mesmo para permitir que o leitor decida por si mesmo sobre o assunto em questão, ou para avaliar uma determinada interpretação das palavras de outro autor.

Nesse sentido, Wright é corajoso. Corajoso porque hoje está na moda não discutir, não fundamentar, não referir/citar - em nome da suposta agilidade textual. Com a desculpa de se querer manter os textos acessíveis e leves, não se mostram os fundamentos das teses, nem se calcorreiam os problemas envolvidos em cada tema/motivo. Wright não foi por esse caminho mais fácil, mais óbvio. Este livro é uma obra densa, é verdade, mas é claro o esforço de manter o leitor informado, esclarecido sobre o significado de cada questão, as respostas possíveis e respectivas dificuldades - é esse um dos fins da Filosofia, e na verdade de todas as ciências: esclarecimento.

No livro, Wright aborda o tema da evolução de Deus, ou melhor, da noção ou conceito de Deus, ao longo dos milénios e séculos, desde as ideias e práticas religiosas primitivas até ao monoteísmo claro e distinto do Islamismo. A abordagem é filosófica, mas abundantemente informada e enformada por dados oriundos das ciências, sobretudo da Antropologia, mas também da Arqueologia, da História, da Sociologia e da Psicologia. São utilizados argumentos que procuram a sua estruturação mesmo na própria Mecânica Quântica. No entanto, a utilização dos dados científicos é criteriosa, integrada de forma clara e comentada convenientemente. O autor esclarece sempre a utilização dos dados e apresenta as dificuldades envolvidas, permitindo que o leitor avalie a pertinência dos mesmos, bem como a legitimidade das opções tomadas no livro.

O sentido geral da obra é mostrar que a evolução da noção e do conceito de Deus ao longo da história da civilização é comparável à evolução das espécies. A referência às ideias darwinistas é inevitável. Apresenta-nos assim uma ideia geral sobre os factos: uma evolução plenamente naturalista da cultura. Wright pretende mostrar que a cultura, e mais especificamente, as ideias religiosas, evoluem naturalmente. A Religião participa dessa evolução natural que ocorre no relacionamento entre o ser humano e o meio ambiente. A tese geral da obra é a de que o edifício cultural evolui de modo análogo às espécies animais: uma lógica de incentivos e desincentivos, de estímulos positivos e negativos, de selecção natural opera no mundo cultural, tal como opera no mundo animal.

Por outro lado, o autor traça um esboço conceptual que vai para além da tese anterior. Ao longo do livro são apresentadas interpretações relativas à evolução natural da cultura que indiciam, na perspectiva do autor, uma continuidade com sentido nessa evolução. Estes indícios podem ser considerados, então, como argumentos a favor da existência de um sentido histórico, como se a história cultural se constituísse de patamares evolutivos, sendo que estes patamares revelariam uma subida gradual em direcção à verdade ética ou moral.

Assim, o autor avalia a história da noção e do conceito de Deus, sempre associado a uma estrutura moral, como indiciando uma evolução passível de ser compreendido como "progresso", como um aperfeiçoamento que pressupõe uma "verdade" moral de que esse progresso se aproxima paulatinamente - de forma lenta, com avanços e recuos, mas decididamente.

Neste sentido, Wright assume a possibilidade da existência de um ente, ao qual se poderia chamar Deus, e que incutiu esse destino, essa direcção à história, mas que também estabeleceu essa verdade moral que se impõe como destino ao mundo. O mundo natural é compreendido como tendo um destino, destino esse para o qual a espécie humana, criadora de cultura, se encaminha.

Portanto, Wright defende várias teses neste livro: 1ª) evolucionismo cultural: a evolução cultural procede de modo semelhante à evolução natural; 2ª) que nessa evolução é possível encontrar um caminho, uma evolução com sentido; 3ª que esse sentido revela uma intenção, um fim, um destino; 4ª) que este destino permite assumir a existência de um ente transcendente (ou não), ao qual poderíamos chamar de facto Deus (ou outra coisa qualquer), mas que, de alguma forma criou o mundo com as suas leis, as quais dirigem a evolução com um sentido, um fim, um destino; 5ª) que este destino pode ser associado a uma verdade moral que incorpora as noções éticas mais tolerantes e humanas, no sentido de uma ética universalista, assente no respeito pelo outro, qualquer que ele seja. Segundo o autor, é a própria lógica das coisas, a própria organização do mundo tal como ele é, a própria necessidade que fará evoluir os paradigmas culturais vigentes no mundo, sempre num sentido cada vez mais amplo. As religiões irão, então, crescer para aceitar as diferenças entre elas, talvez fundindo-se ou aprendendo a dialogar. As religiões que não souberem adaptar-se a esta necessidade perecerão; mas esta necessidade permite pensar que existe um Deus universalista, que é o responsável pela criação das leis que regem o mundo e impõem esta necessidade.

Ora, estas ideias não são novas: o evolucionismo cultural não é uma ideia nova; a ideia de que por detrás das leis da natureza está Deus também não é uma ideia nova; a ideia de que podemos ver na evolução natural um sentido progressista muito menos nova é. Na verdade, o nosso ponto de vista está naturalmente predisposto a ver uma progressão onde encontra uma evolução, a ver um destino onde encontra um movimento, a ver uma intenção onde encontra eventos. O nosso ponto de vista também tende a entender-se a si mesmo como um melhoramento dos pontos de vista anteriores, e como estando mais próximo da verdade do que qualquer outro. Nesse sentido, estamos predispostos a assumir que correspondemos a um patamar mais próximo de uma suposta perfeição, do que todos os outros. Wright parece assumir que sabe como determinar qual é a "verdade moral" e, nesse sentido, estipula que esta ou aquela moral se encontra mais próxima de tal verdade, que este ou aquele traço cultural deve extinguir-se.

Apesar de as ideias defendidas não serem novas, apesar de podermos não concordar com a sua perspectiva mais progressista do que evolucionista - a obra A Evolução de Deus não deixa de conseguir uma empresa inovadora. Na forma como utiliza dados científicos, como entrelaça conhecimentos científicos e argumentos filosóficos - é uma obra verdadeiramente inovadora. Mostra que a Filosofia não se divorciou da Ciência, mostra que a Ciência não é filosoficamente inócua. Destarte, patenteia a necessidade de diálogo entre Ciência e Filosofia, entre conhecimentos empíricos e leituras filosóficas. O que está em causa em muitas discussões ciêntificas são posições filosóficas diferentes, mas Wright mostra que a Filosofia também pode e deve desenvolver-se informando-se cientificamente. Se é verdade que a Ciência continua sempre a enfrentar problemas filosóficos, também é verdade que a Filosofia não deve ignorar as questões científicas. Isto não significa que o papel da Filosofia inclui a resolução de problemas científicos, também não significa que a Ciência possa solucionar ou erradicar os problemas filosóficos. Significa que ambas devem manter-se informadas, e que ambas podem fornecer novos pontos de abordagem uma à outra.

O que me parece mais relevante neste livro é o seu contributo para o diálogo da Filosofia com as ciências. Em muitas áreas filosóficas o filósofo não deve continuar a filosofar sem considerar os dados científicos mais recentes.

Numa perspectiva diferente, este livro levanta e aborda problemas bem actuais, como seja o relacionamento entre as três religiões monoteístas principais. Também aponta o caminho que lhe parece essencial: o da compreensão. Mas neste aspecto, apesar de justificar a necessidade desta compreensão entre crentes de diferentes fés, como estando radicada na própria lógica do mundo contemporâneo globalizado - permanece o problema de saber como ir da identificação de um fim, até à sua concretização. Percebemos que a necessidade de diálogo interreligioso exista, mas como convencer disso os que desejam exterminar aqueles que têm uma fé diferente da sua? Claro que Wright pensa que a própria necessidade das coisas conduzirá inexoravelmente a um fim pacífico e universalista - todavia, este pensamento não resolve os problemas, apenas assume que os problemas serão necessariamente resolvidos de uma forma profícua.


Resumindo: podemos não concordar com todas as teses do autor, mas parece-me que o trabalho desenvolvido em torno da fundamentação do evolucionismo cultural é de ter em conta. É uma ideia poderosa e, apesar de não ser nova, surge aqui apoiada em informações históricas, antropológicas, científicas. Na verdade, trata-se de um trabalho importantíssimo, não só pela forma de filosofar (recorrendo às ciências), mas também pelo conteúdo (a tese de que a Religião evolui naturalmente, como qualquer outro elemento biológico). Portanto, a tese não é nova, mas o trabalho de fundamentação aqui elaborado é muito relevante.


LEIA O LIVRO e deixe a sua crítica aqui.


Notas:
* Robert Wright: filósofo, autor de obras como The Moral Animal e Nonzero, foi considerado um dos 100 maiores pensadores mundiais em 2009, pela revista Foreign Policy. Já foi professor de Filosofia na Universidade de Princeton e de Religião na Universidade da Pennsylvania. Actualmente, é investigador da New America Foundation.

1 comentário:

  1. Comecei a ler o livro. Achei interessante a analogia sobre os deuses que precederam o moniteísmo os quais não se apoiavam em conceitos morais. Esse conceito serviu quando as pessoas passaram a viver em comunidade, necessitando de normas de convivência. Ainda assim...Deus era uma extensão da natureza sem apresentar qualquer manifestação de existência. Somente aos judeus ele se fez um ser.

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