sábado, 8 de dezembro de 2012

Nietzsche

A propósito de interpretação...

Para Nietzsche cada interpretação é uma possibilidade. 

Todo o sujeito é uma perspectiva. Cada perspectiva uma interpretação - isto é, uma possibilidade. Neste sentido, há interpretações católicas, interpretações budistas, etc. Mas o fenómeno é diferente da interpretação - poderia ser interpretado de outra forma: o que é um sinal de Deus para o católico, é um acontecimento natural para o físico. 

De forma nenhuma se deve com isso pensar que há uma "verdade" a que se poderia chegar se nos livrássemos da interpretação. Porque não é disso que se trata, Nietzsche fala de "fenómenos" (aquilo que aparece), e não de "verdades", nem de "realidade" nem "númeno". 

Para Nietzsche há fenómenos e há interpretações. O que temos são fenómenos, mas nem sequer sabemos o que seria o fenómeno sem a interpretação. Ou seja, aquilo que temos de facto é uma interpretação. Falar de fenómenos não interpretados é falar de qualquer coisa que nós não sabemos o que é. O que nos aparece, aparece-nos com um sentido. Isto não é uma possibilidade, é uma condição. O que é apenas uma possibilidade é aquele sentido concreto com que as coisas nos aparecem. Os fenómenos poderiam ter outro sentido. Por exemplo, a maioria de nós teme a morte. Isso é um sentido. Para algumas pessoas a morte não é o mais temível. Para algumas não é nada temível. Alguns desejam a morte. Alguns são-lhe indiferentes. Cada um julga que o seu sentido não é apenas uma possibilidade. Aqueles que têm a morte por temível apontam para o que nela lhes mete medo. Mas isso não prova que a morte é, em si mesma, temível: mostra apenas que quem assim aponta teme isso para que aponta.

Nietzsche não apenas nega que possamos sair da nossa perspectiva para aferir o que é de facto o certo ou o errado - mas afirma também que a própria ideia de que há coisas certas e coisas erradas já é uma interpretação. Nietzsche não só nega que possamos saber o que é a Verdade - mas afirma também que a própria ideia de que há uma Verdade já é uma interpretação.

Ele tenta mostrar que não só podemos aplicar mal o nosso modelo da realidade (e enganarmo-nos), como também que pode acontecer que o nosso modelo da realidade esteja errado (e então já "certo" e "errado" serão conceitos desvitalizados, vazios, sem referente, pois que eles sempre se determinam em função do modelo ou sistema que os integra e lhes dá significado). 

Com isto o que ele quer, antes de mais, trazer à luz (e isto quer dizer "tornar fenómeno", fazer aparecer), é que o regime de sentido que habitualmente se encontra a funcionar em nós é uma possibilidade. Perceber isto é fundamental. E não é nada que o próprio Jesus não tenha tentado mostrar também. O Cristianismo é, aliás, veemente - atrevo-me a dizer mesmo que - mais veemente que Nietzsche ao chamar a atenção para isso de estarmos lançados num modo previamente dado de abertura ao mundo: mas sublinhando o carácter de possibilidade desse modo.

O que Nietzsche, tal como o Cristianismo, pretende fazer ver é que SE PODE SUSPENDER essa possibilidade.

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