segunda-feira, 6 de julho de 2015

O Flirt na Política contemporânea

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A propósito de flirt


Claro que ficamos surpreendidos com o auto-despedimento de Varoufakis. Para nós isto é coisa de outro mundo. Nós estamos habituados aos senhores que não se demitem nunca, que assumem as suas responsabilidades dizendo em horário nobre "Assumo a responsabilidade". 

Ora, quando assumir as responsabilidades significa fazer uma declaração ao telejornal das 20h, torna-se completamente incompreensível que Varoufakis se demita mesmo tendo ganho o NÃO. É que a postura de Varoufakis parece querer dizer que ele está mais interessado em servir o ideal que é o seu, do que em servir-se de um qualquer ideal. E isto é coisa que já ninguém, em boa verdade, entende na Europa.


Houve um tempo em que homens como Sócrates ou Jesus acabavam invariavelmente condenados à morte ou simplesmente assassinados. Porque nesses tempos as pessoas não se permitiam ficar indecididamente perante certos ideais que lhes batiam fundo na alma. 

Hoje vivemos num tempo completamente diferente: as pessoas estão tão distantes do ideal que Sócrates e Jesus poderiam muito bem vir à terra que ninguém despenderia um dia de praia, ou um minuto de um jogo de futebol por eles - nem por eles, nem contra eles.

Note-se: nós temos ideais - veja-se que o panteão continua a encher-se. Nós temos ideais, mas temos ideais rastejantes e, consequentemente, temos uma consciência rastejante deles. Ou seja: somos colectivamente na existência um mercado de valores - ou, como dizia Kierkegaard - um entreposto comercial, um pau-andante.



Quanto nos choca uma Grécia - um povo de gregos que, apesar dos bancos fechados, apesar do terror da falta, vai votar NÃO? Quanto nos indigna que eles tenham coragem?


Na verdade - e é aqui que reside toda a absurda hipocrisia, toda a imundície da pseudo-política de hoje, toda a inexistência de uma consciência política - CHOCA-NOS apenas imaginariamente. O horror, o choque que os jornalistas, os comentadores, os cidadãos pretendem sentir é orvalho num verão de praia antes do começo do campeonato de futebol; toda a raiva dos pseudo-políticos é flirt; toda a indignação dos economistas é ausência de consciência.

Sou plenamente a favor de que se acabe de vez com esta parvoíce das eleições e dos referendos. Crie-se um directório de tecnocratas que decida quem deve e quando deve integrar os governos nacionais. Crie-se um directório de tecnocratas que decida os programas a levar a cabo onde, quando e porquê.
Mas acabe-se de vez com este flirt com a democracia e com os mercados. Ou bem que temos uma tecnocracia, ou bem que temos uma democracia. O flirt com as duas é que não.


Perguntemo-nos o que queremos - e que esse seja o nosso ideal - e depois assumamo-lo sem hipocrisias.

Ou bem que se quer uma mulher, ou bem que se quer a outra. Andar no flirt com as duas é que não!

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