sexta-feira, 24 de julho de 2015

Kant e o desejo

A propósito do interesse ético...



Segundo Kant - e contra todas as wikipédias e manuais que, com certeza, não o leram - a acção envolve sempre um "fim" e um "desejo" por esse fim, e envolve ainda uma representação do "fim" acompanhada do "sentimento de prazer", sendo que se há "desprazer", então não há desejo, mas sim aversão.
O ponto de Kant é que esta apresentação formal da acção pode desformalizar-se de muitas maneiras. Assim, não há apenas desejos "empíricos" ou "inclinações", ou seja, segundo Kant, não há apenas uma origem para os nossos desejos e não compreender isto é não perceber o que ele está a dizer, de modo que tudo o que ele diz passa a parecer abstracto. 
Assumir que todos os desejos são inclinações é negar desde início todo o esforço de Kant para sustentar a ética na razão.


O decisivo é compreender que, segundo Kant, há um interesse meramente racional: os desejos podem resultar exclusivamente da actividade da razão pura, de modo que esta constrange por si mesma o indivíduo, produzindo formas imperativas. Assim, a razão pura torna-se prática.




Distintas confusões daquilo que Kant diz acerca do dever prejudicam a compreensão vulgar da sua teoria ética. Uma das mais divulgadas - apesar de Kant se lhe opor explicitamente por diversas ocasiões - é a ideia ridícula de que, para Kant, uma acção autenticamente ética não pode ser acompanhada nem de sentimento, nem de desejo... Pelo contrário, Kant desunha-se para mostrar que toda a acção envolve a representação de um "fim" e de um "interesse" por esse fim, de modo que aquilo que é característico da acção ética é que há um interesse por um fim específico, que é o próprio Dever. Ou seja, Kant esforça-se ao máximo por mostrar que, em termos éticos, a categoria "Dever" é tudo quanto deve ser desejado.


"Um imperativo é uma regra prática pela qual uma acção em si mesma contingente é tornada necessária. Um imperativo difere de uma lei prática em que uma lei efectivamente representa uma acção como necessária, mas não considera se essa acção já é inerente por força de uma necessidade interna ao sujeito agente (como num ser santo) ou se é contingente (como no ser humano), pois quando ocorre o primeiro desses casos não há imperativo. Por conseguinte, um imperativo é uma regra cuja representação torna necessária uma acção que é subjectivamente contingente e assim representa o sujeito como aquele que tem de ser constrangido (compelido) a conformar-se à regra. Um imperativo é categórico quando representa uma acção como objectivamente necessária [...] através da mera representação dessa própria acção (sua forma)".

Kant, Metafísica dos Costumes

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