terça-feira, 13 de novembro de 2012

O senso comum enquanto forma do ponto de vista

A propósito de senso comum...


O senso comum é uma forma, ou melhor, uma estrutura que enforma o ponto de vista do humano...

Como forma que é pode ser ou não explícita para o ponto de vista. Na maioria das vezes, não é explícita. A sua eficácia (a sua pretensão de eficácia) sustenta-se precisamente da sua transparência. Mostra-se como doação das coisas elas mesmas, como se não houvesse mediação. O senso comum diz: a realidade é "isto". Ora, isto significa que o que aquilo que o senso comum é, não é esta ou aquela crença.

Nas aldeias do Tibete é senso comum que não se mata um animal que pode ser o nosso avô. Numa tribo de África é senso comum que o homem não tem nada que trabalhar. Numa tribo da Indonésia é senso comum que emprestamos a nossa mulher ao nosso vizinho que vem ajudar na horta. Numa tribo da ilha vizinha o desporto "nacional" é caçar seres humanos das outras tribos. Nas ilhas Fidgi é senso comum que devemos matar os nossos pais quando eles ficam debilitados. Em Portugal é senso comum que o homem e a mulher são iguais, que os idosos devem continuar a viver, e que não se devem caçar seres humanos. Numa tribo de filósofos é senso comum que se deve sempre fazer 3 ou 4 perguntas antes de concluir se o céu é azul ou roxo...

Como aquela peça de teatro em que o protagonista logo na primeira página descobre que vai morrer, e depois, ao longo do resto da peça, está sempre a perceber que vai "mesmo" morrer, e percebendo isso, de cada vez percebe que até aquele momento ainda não se tinha compenetrado "verdadeiramente" disso... nós somos assim. Os filósofos também têm o seu senso comum. O caso mais evidente é o apelo à dúvida, que é uma tradição entre os filósofos, mas que nenhum de nós faz realmente. Temos por dado que a dúvida já foi colocada por outros antes de nós e superada. Seguem-se tendências, tal como na moda. Os filósofos seguem modas, como é evidente. E o afã de estar actualizado até faz com que os termos de cada vez se uniformizem com a corrente do tempo, sob a pretensão de que já são familiares. Mas se se tentar dizer o que são realmente, respondem-nos com definições, conceitos vagos. Falamos de causa e efeito: mas o que é realmente a causalidade? Alguma vez alguém a viu? Temos o conceito, mas se forem como eu, ninguém sabe o que lhe corresponde. E assim falamos assim como se estivéssemos muito mais esclarecidos do que o agricultor analfabeto quando utilizamos conceitos como "erro", "causalidade", "verdade", "realidade"... e se nos apertarem muito dizemos o que a verdade é em Leibniz, em Descartes, em Aquino, em Platão e entretanto libertamo-nos da responsabilidade de dizer o que sabemos nós ser a verdade. Porque o mais provável é que não saibamos a que é que correspondem os nossos conceitos de verdade, realidade ou erro. Mas claro que o senso comum filosófico logo dirá: "o quê?, então não vês que o erro é quando percebes que te enganas?"

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