domingo, 9 de dezembro de 2012

Nietzsche - filosofia contra-intuitiva, o problema das categorias vulgares que não se deixam ver

A propósito da dificuldade que há em entrar na filosofia de Nietzsche


Quando estamos a tentar entender autores como Nietzsche (talvez com todos), temos que ter muito cuidado com os comentadores. É que Nietzsche está a tentar fazer um discurso para além das categorias habituais (chamemos-lhe o que quisermos: metafísica tradicional, ontologia canónica, senso comum, Bem e Mal, cristianismo, etc.). Qualquer coisa como a metáfora retirada da Bíblia: colocar o vinho em odres novos. Mas as categorias habituais são, precisamente, habituais. Quando alguém procura apontar para o ar corre o risco de que nós sigamos o seu dedo até à parede e pensemos que estava a apontar para ela. Então nós pensamos que ele simplesmente mudou o nome da "parede" e lhe passou a chamar "ar". Mas não, ele estava mesmo a falar de algo pelo qual nós, de facto, não demos. E a parede que nós pensamos que agora deve receber o nome "ar" era aquilo que para Nietzsche era vazio. Contudo, a nossa tendência é olhar para a parede e não perceber que ela é o vazio. Tal como não vemos o ar e julgamos que ele é simplesmente um vazio, quando Nietzsche tentava mostrar que não é assim.

Por isso, os comentadores normalmente falam de Nietzsche como se ele tivesse desperdiçado o vinho, ou como se ele simplesmente tivesse feito vinho novo: mas ele estava a falar de partir os odres velhos e de pôr vinho novo em odres novos.

O que é normalmente um nietzscheano?

Alguém que simplesmente trocou o vinho, mas manteve a forma.
Eles pensam que Nietzsche simplesmente mudou o nome da parede: antes chamava-se cristianismo, depois passou a chamar-se vontade de poder. Mas Nietzsche não mudou o nome a nada. O que ele mostrou é que, precisamente, havia nomes com grande fama que ocultavam um grande vazio. Não se tratava de colocar outro nome no vazio.

Enfim, por vezes, aqueles que mais defendem Nietzsche são os que parecem menos ter compreendido o fôlego do seu trabalho.

Por exemplo:
Quando Nietzsche fala dos espíritos malignos e da falta que eles fazem para renovar terrenos gastos, ele não está a pedir que nos tornemos todos gangsters, nem está a dizer que defende que nos dediquemos a assaltar bancos, ou que os assassinos em série devem ser galardoados. Nietzsche está a usar uma estratégia de contraste, porque essa é a única forma de apontar para o ar. Se alguém quer ver a dificuldade que aqui está envolvida apenas tem de inventar uma palavra para o ar, e depois ente mostrar a alguém a que é que está a chamar de ar apenas apontando. Vai ver que, quando apontar, ninguém vai pensar que está a apontar para o ar. O mesmo acontece se tentar apontar para uma janela: as pessoas vão pensar que está a apontar para a árvore que está no caminho.
Apontar a falsidade, ou o esquecimento que está subjacente à velha moral não é defender a simples negação dela. Nietzsche não está a dizer para fazermos simplesmente o contrário que a moral manda fazer: porque isso é manter o modelo anterior, o modelo moralista.

Se há coisa de que Nietzsche nos avisa é que os filósofos podem estar tão embrenhados em preconceitos como qualquer outra pessoa (coisa que é óbvia, mas que os filósofos, como todas as outras pessoas, tendem a ignorar). E de facto, nem os filósofos excepcionais são bons comentadores uns dos outros. Por isso, não nos podemos fiar no que um grande filósofo diz de outro.

Quem quiser compreender Nietzsche tem de ler Nietzsche. E em Nietzsche é importante a ordem pela qual as suas obras foram escritas. Portanto, Nietzsche (e, talvez, todos os filósofos) deveria ser lido pela ordem de execução das suas obras: começando pela primeira que ele escreveu e acabando na última. Mas isso nem sempre é possível, e nem todas as obras estão disponíveis em português.

"Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir. Hoje ainda estão nisso." A Gaia Ciência, §11

"és feliz se só tens uma virtude". Assim falava Zaratustra, Das Paixões de Alegria e de Dor

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