sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Ele está de volta, de Timur Vermes

A propósito de,

  30 de agosto de 2011. Um velho acorda num terreno baldio de Berlim. Deitado no chão, só vê o céu azul por cima da cabeça e fica surpreendido ao ouvir o canto dos pássaros, sinal de que estamos a testemunhar pelo menos uma pausa nos combates.

  O homem tem uma grande dor de cabeça e não sabe onde se encontra nem como ali chegou. Tenta lembrar-se do que fez na véspera: a amnésia não pode ser explicada pelo álcool – porque o Führer não bebe! Em vão, procura em redor o seu fiel Bormann. Hitler levanta-se com dificuldade e dirige-se para as vozes de três rapazes da Juventude Hitleriana, certamente de licença porque não estão fardados e jogam à bola. "Ei, velhote, olha p’ra isto! Quem é este velho?" "Devo estar mesmo com mau aspeto", pensa o Führer, ao registar a falta da saudação regulamentar. "Onde está o Bormann?", preocupa-se novamente. "Quem é esse?" "Bormann! Martin Bormann!" "Não conheço, tem cara de quê?" "De dirigente de topo do Reich!" Hitler olha novamente para os três rapazes. Estão de camisolas coloridas. "Jovem hitleriano Ronaldo! Onde fica a rua mais próxima?" Ninguém reage. Então, vira-se para o mais novo dos três, que aponta para um canto do terreno.

  No quiosque de jornais da terra, Hitler procura o seu velho diário Völkischer Beobachter. Só vê títulos turcos... "Estranho, os turcos permaneceram fora do conflito, apesar das nossas inúmeras tentativas de o associar à nossa causa." Desmaia ao ler a data, 30 de agosto de 2011, num dos jornais que não conhece. O dono do quiosque julga estar na presença de um ator saído de uma série de televisão. Deixa Hitler ficar uns dias com ele no estabelecimento. "Olhe que o senhor imita-o bem, hã?" Hitler fica indignado. "Pareço algum criminoso?" "Parece o Hitler", diz o vendedor de jornais. "Precisamente!", responde o Führer...

  Transformado em vendedor de jornais, o ditador é "descoberto" por uma empresa de conteúdos para televisão. Os produtores veem nele um "enorme potencial". Ele fica danado... O êxito do programa é impressionante. Desamparado, Hitler acordou numa sociedade onde o sucesso é medido em termos de audiências, em "gostos" no Facebook e coisas do género. Torna-se um ator cómico reconhecido... "O senhor vale ouro, meu caro! Isto é apenas o início, acredite em mim!", felicita-o o produtor.


Numa cultura em que se glorifica o sucesso o que aconteceria se Hitler voltasse?

É esta a pergunta que Vermes coloca e que motiva o livro. E esta pergunta é válida. E se um Hitler aparecesse hoje?

A resposta parece ser óbvia. Tendemos a imaginar Hitler como sendo um monstro. Mas esta imagem é virtual, é, na verdade, uma fuga - uma estratégia de defesa: parece que a culpa foi exclusivamente dele. O Mal é, assim, reduzido a Hitler. Contudo, a verdade é que Hitler não precisou de matar com as suas mãos porque teve milhões a seguirem-no, a admirá-lo, a idolatrá-lo.

Um Hitler não é uma figura monstruosa - pelo menos não a é no sentido vulgar.

Vulgarmente, um monstro é uma criatura feia, que causa repulsa. Hitler não foi nada disso. Quando se fala da possibilidade de surgir um novo Hitler não se deve considerar essa possibilidade como se se tratasse de um monstro, alguém que causa repulsa. A figura de um hitler não tem nada que ver com repulsa, muito pelo contrário. Tem que ver com atracção. Um hitler é uma figura que exerce atracção sobre as pessoas, sobre os seus concidadãos, sobre a esmagadora maioria dos homens e das mulheres que o ouvem e escutam.

Isto não quer dizer que eu admiro Hitler. Pelo contrário. Hitler causa-me repulsa. Da mesma maneira, suponho que a maioria de nós não admira Hitler. Suponho que o Hitler histórico, essa figura que existiu no passado da Europa, nos causa repulsa à maioria de nós. E isso é assim porque esse Hitler se tornou, para nós, um monstro - se quisermos, porque se revelou a sua verdadeira natureza: monstruosa. Hitler foi um monstro.

Contudo, Hitler não foi um monstro para os homens do seu tempo. Foi um político com um talento fantástico. Exercia um fascínio a que poucos foram capazes de resistir. É isto que é um hitler. Uma figura fascinante, capaz de cegar todos à sua volta, capaz de tornar homens em máquinas, humanos em marionetas. É por isso que a pergunta é válida: estaríamos, hoje, em condições de resistir ao talento de um hitler?

A verdade é que vivemos numa sociedade dominada pelo sucesso. Ora, hitler é a figura do bem-sucedido por excelência.

Vermes põe uma hipótese - mas haveria tantas outras. Tantas formas de um hitler se impor.

Em geral, penso que há um perigo em banalizar a figura de Hitler. Há mesmo um grande perigo em rir de Hitler. O Hitler dos comediantes parece-me sempre monstruoso - justamente porque faz rir. Ajuda, de facto, a dar descanso às almas. Parece, de facto, que houve apenas um culpado: Hitler. Um culpado de quem agora nos rimos, como por uma espécie de castigo, ou como sinal de indiferença, ou como forma de passar à frente e perdoar - não Hitler, mas todos os outros.

Ora, uma das mais-valias deste livro é mostrar que o busílis não está em hitler - não o está exclusivamente, nem o está primordialmente. O busílis está, precisamente, na consciência de cada um, na facilidade com que ela pode ser adormecida, com que ela pode ser silenciada. O busílis está, precisamente, na indiferença, no descanso da alma, na desculpa. Porque há coisas que não têm desculpa, que não devem ser deixadas para trás e perante as quais jamais se deve permanecer indiferente sob pena de perdermos aquilo que, no sentido mais nobre, faz de nós humanos.


“Temos em excesso um estereótipo de Hitler, sempre o mesmo: o monstro que nos deixa tranquilos. Eu próprio, durante muito tempo, aceitei essa visão de Hitler. Mas ela não basta. Hitler exercia um verdadeiro fascínio. Se tantas pessoas o ajudaram a cometer crimes, foi porque gostaram dele. As pessoas não elegem um louco. Elegem alguém que as atrai ou por quem sentem admiração. Apresentá-lo como um monstro equivale a fazer dos seus eleitores idiotas. E isso tranquiliza-nos. Pensamos que, hoje, somos mais inteligentes. Nunca elegeríamos um monstro nem um palhaço. Mas, na época, as pessoas eram tão inteligentes como nós! Isso é que custa... Muitas vezes, diz-se que, se um novo Hitler surgisse, seria fácil de contrariar. Tentei mostrar, pelo contrário, que ainda hoje, Hitler teria boas hipóteses de ser bem-sucedido. Só que de outra forma."
 Timur Vermes 







2 comentários:

  1. uma maioria não é sinal de ter a razão ! já houve tempos em que achavam que a terra era plana e um afirmou que era redonda , deve conhecer a historia por certo , ah esse um apenas é que estava certo , como bem sabe !

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  2. Justamente! Se ler com atenção o texto verá que é isso mesmo que eu pretendo sublinhar: pode acontecer que a maioria da gente seja atraída por algo que julga ser o seu bem, mas estar enganada. Isso quer dizer, precisamente: o Nazismo é sempre possível, tanto quanto é possível que uma maioria esteja constituída e estar errada. Para ser ainda mais claro: PODEMOS SER NAZIS E NÃO O SABERMOS.

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