terça-feira, 13 de março de 2012

Káiros, kairós

A propósito de tempo e oportunidade...


Καιρός / καῖρος – tempo oportuno, momento favorável; oportunidade, ocasião; momento propício, tempo como na expressão “é tempo de fazer a colheita”. Os antigos tinham vários termos que usavam para se referirem àquilo que os nossos contemporâneos referem pelo termo tempo. Por outras palavras, distinguiam diferentes tempos. Ver, por exemplo: ELIADE, Mircea, Tratado de História das Religiões, Asa Editores, Rio Tinto, 2004, 5ª edição, p. 481 s. O termo καιρός designa aquela noção muitas vezes identificada no termo do sânscrito ksana (vide idem, Imagens e Símbolos, Martins Fontes, São Paulo, 1996, 1ª ed., 2ª tiragem, pp. 76-79, 166-172. Nesta noção estão em jogo as ideias de momento favorável a uma execução, tempo próprio de uma actividade, tempo dedicado, vocacionado, destinado, doador de sentido. O momento oportuno é a hora propícia, tempo de plenitude, de realização, de consumação. O momento favorável não é repetível, acontece e, ou é capturado, cumprido, ou desperdiçado – com consequências tremendas para quem recebeu e para quem deixou escapar a oportunidade. Não se trata, portanto, de um tempo cronológico, de um continuum de momentos vazios preenchidos com o que de cada vez é o caso. Não. Neste sentido, o καιρός não é um tempo histórico, mas as consequências que advêm da forma como é aberto são avassaladoras para aquilo que doravante será o caso. O tempo cairótico não é um tempo banalizado, vulgar, à-mão de semear: pelo contrário, exige ao humano um modo próprio de como se acercar dele. Sendo um tempo de cumprir, é um instante de plenitude, doador de sentido, que enforma tudo o que se foi e o como do que se vai ser. É um momento de revelação, de aclaramento, de esclarecimento do ser consigo mesmo: um momento doado, uma luz dispensada que chega e, como um relâmpago, se espraia pela vida enquanto totalidade. Perder o momento é, neste sentido, perder a vez de ser o que se tinha desde sempre, e para sempre, para ser. Significa que no καιρός o sujeito tem a oportunidade de se cumprir, de ser em conformidade consigo mesmo, tanto quanto possível, sendo que esta conformidade extravasa o próprio tempo cronológico. Desta forma pode dizer-se que o tempo cairótico é atemporal: fonte de sentido, de compreensão, espraia-se e toca o mundo da vida, faz vibrar a vida num vibração querida, sempre desejada. Não interessa se (tentando falar do momento cairótico como se fala do tempo cronológico) essa conformação, essa homogeneidade entre sujeito e mundo, passa. Pois no momento em que é cumprindo-se a si mesmo o sujeito cumpre-se na vida, realiza-se, faz vida: ilumina o caminho percorrido e a percorrer. Neste sentido, καιρός é instante de iluminação, momento pelo qual vez luz ao mundo, tempo de ganho. Mas na noção de καιρός está patente essa amplitude que vai do ganho absoluto à perda total: do resgate, à falência de si; da iluminação, da salvação, à escuridão, à condenação. Porque o tempo cairótico exige um trato adequado, uma apropriação do que está em causa naquilo a que diz respeito. Ora, a utilização comum do termo καιρός respeita, precisamente, ao tempo próprio de uma determinada coisa, o qual exige um manuseamento. Nas colheitas, como na vida, há um tempo propícia destinado a cada tarefa. E este tempo é oportunidade, é abertura, é portanto transporte: que se pode apanhar ou não, que se pode saber abrir ou não. Na noção de καιρός está compreendido este sentido de medida adequada, trato devido, devida proporção, porção bem medida, aptidão. Na verdade, o momento oportuno exige o conhecimento da natureza daquilo a que diz respeito. Cada coisa tem o seu tempo, e cada coisa deve ser cuidada de uma maneira própria. Importante para perceber o termo καιρός é o uso que dele foi feito na medicina. Na lida em vista ao tratamento de uma doença mortal há um momento crítico em que está indeciso o que virá a ser o caso: a morte ou a cura. Esse momento é o momento certo, irrepetível, em que um tratamento específico, por exemplo uma certa solução, deve ser ministrada com vista a obviar a doença. Perder esse momento ou, de qualquer forma, não executar os procedimentos propícios da devida maneira, implicará a morte do paciente. A vida do paciente está em jogo, indecisa, dependente do trato adequado, do manuseamento devido. Esse momento é único, mas também fugaz: urge. A urgência do καιρός era um aspecto sobejamente reconhecido pelos gregos, mas deixamos aqui apenas uma citação (Píndaro, Odes Píticas, IV, 286): “Ὁ γὰρ καιρὸς πρὸς ἀνθρώπων βραχὺ μέτρον ἔχει” (o momento oportuno é, para o humano, uma medida curta). Quem sabe não adia uma decisão, não protela uma acção, mas também não precipita um projecto, não antecipa um agendamento. Adiar e precipitar são modos de deitar a perder a oportunidade.

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